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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Esta segunda-feira, a análise é de Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Bom dia, Miguel. Começamos pela Ucrânia, que lançou um dos maiores ataques contra Moscovo com centenas de drones. Pelo menos quatro pessoas morreram e cerca de 20 ficaram feridas em várias zonas da capital russa. Zelensky diz que são ataques justificados depois da Rússia ter voltado a atacar Kiev. Miguel, Zelensky quer provar que a Rússia está vulnerável e impedir que a Ucrânia seja sacrificada nas negociações entre Washington e Moscovo?
Zelensky, acima de tudo, quer mostrar duas coisas: quer mostrar que tem capacidade militar e que conseguiu construir essa capacidade militar e que hoje a Ucrânia apresenta-se com um exército ao mesmo nível do exército de Moscovo. Isso também é uma forma de dizer à Europa que está ali a sua própria defesa. E depois, Zelensky sabe que neste momento conseguiu inverter um pouco o jogo, ou seja, militarmente, neste momento, não é possível dizer que Moscovo vá conseguir ganhar a guerra. E portanto, inverteu esse papel, inverteu o papel no campo de batalha, o que é extremamente interessante, porque até há muito pouco tempo nós víamos sempre e tínhamos sempre esta conversa de que de alguma forma nós tínhamos que ajudar a Ucrânia, porque a guerra estaria, não vou dizer perdida, mas que a guerra estaria a pender pro lado de Moscovo. E hoje trocou-se esta narrativa e Zelensky conseguiu, através da tecnologia dos drones, arranjar maneira de ferir a Rússia dentro de portas. Lembra-te sempre que aquilo que nós andamos sempre a falar e que Zelensky batalhava muito, quer com os líderes europeus, quer com Donald Trump, era a questão de conseguir os mísseis balísticos que conseguissem fazer a guerra dentro da Rússia. Não conseguiu, porque a Europa também teve, nomeadamente a Alemanha, certo receio de escavar a guerra e porque Trump também não deu esses mísseis balísticos. Portanto, é através dos drones que Zelensky consegue desenvolver essa guerra. E, portanto, a resposta tem sido esta, que é tentar provocar o maior caos e ferir a Rússia dentro de portas, na tentativa de fazer com que a Rússia aceite vir à mesa das negociações. Tem sido esse o ponto. Agora, repara que nem os Estados Unidos, nem a Europa têm aproveitado esta posição de Zelensky para, de alguma forma, vir apresentar um novo caderno de encargos. Onde é que está a voz que Zelensky pediu, que fosse a voz unida da Europa para falar com Moscovo? É algo que nós continuamos à espera, depois daquela reunião que tivemos com aqueles quase 40 líderes europeus e outros não europeus, onde Zelensky pediu que houvesse uma voz unida da Europa e uma única voz e que apresentasse este canal de comunicação com Moscovo. Portanto, esses ataques, acima de tudo, mostram que a Rússia também militarmente está vulnerável e que a Ucrânia conseguiu trocar um pouco a mesa e, neste momento, militarmente, tem capacidade de ferir a Rússia dentro de portas, o que é importante.
Entretanto, temos novas ameaças de Donald Trump. Diz que não vai restar nada do Irão se o país não assinar um acordo nos próximos dias. O Irão já disse que está pronto para responder a qualquer ataque e que este conflito expôs as fragilidades norte-americanas. Miguel, o que temos a esperar dos próximos dias? Não é a primeira vez que Trump faz uma ameaça destas ao Irão, tendo em conta o impasse no Estreito de Ormuz e a suspensão do Projeto Liberdade. Teerão conseguiu provar os limites do poder militar dos Estados Unidos? Muitas perguntas, eu sei, numa só.
Não, essa é uma boa pergunta. Eu acho que não. Eu acho que o Irão não consegue provar isso. Eu acho que nós não vimos a capacidade militar dos Estados Unidos total. O que nós vimos é uns Estados Unidos que tentou fazer uma guerra, uma guerra que seria só através de bombardeamento, tentando provocar o colapso ou tentando levar à mesa das negociações um regime que aceitasse depois as posições maximalistas dos Estados Unidos, nomeadamente no que respeita à questão nuclear, na questão dos mísseis balísticos e efetivamente na questão do desenvolvimento daquilo que é considerado também por Israel, o perigo da questão nuclear. Tirando isto, os Estados Unidos optaram, obviamente, por fazer este tipo de guerra através do bombardeamento. E nós sabíamos, aliás, foi logo falado no início que sem uma invasão terrestre, não haveria hipótese absolutamente nenhuma de fazer a derrota deste regime. Mas agora nós já vimos esta novela e andamos a ver esta novela. Parece que é uma novela que entretanto vai andando pra frente e depois parece que volta todos os capítulos pra trás. Donald Trump já nos disse que estaria quase a fechar o acordo, que o regime iraniano estaria a pedir, por favor, pra negociar com ele. Depois, afinal, essa negociação não acontece. Depois já nem é uma questão, e tu repara que nós deixamos de falar em acordo de paz e começamos a falar num memorando de entendimento, os tais pontos que foram apresentados. O que o Irão percebeu é que é o seguinte: o Irão pode ser bombardeado durante algum tempo. Sabe que os Estados Unidos também não têm mais como justificar esta guerra, e isto está a provocar também um cansaço que é na própria população americanaMas acima de tudo, estrangulou o Estreito de Ormuz e com ele conseguiu criar esta questão económica mundial, ou seja, globalizou a guerra através da economia. E depois sabe que Donald Trump tem duas opções: ou Donald Trump, de alguma forma, faz um ataque maciço, juntamente com Israel, que é uma coisa que poderá estar para acontecer.
Sim, já falaram sobre isso.
Se calhar é um ataque até mais cirúrgico. E até para provar ou para tentar, de alguma forma, provocar uma nova ronda de negociações, ou então os Estados Unidos vão ter que aguardar que os esforços do Paquistão e possivelmente também da China, consigam, de alguma forma, levar o Irão a aceitar esse memorando de entendimento e depois o grande problema será sempre é que não será aceita a posição maximalista dos Estados Unidos. Mas foram os Estados Unidos que se puseram nesta posição.
Exactamente. Mas Miguel, a ameaça de varrer o Irão da face da Terra serve também para esconder o facto do conflito estar a custar quase 30 mil milhões de dólares aos Estados Unidos, sem resultados práticos na asfixia do regime iraniano.
Essa é que é a questão, entretanto, como sabes, o Congresso não aprovou mais dinheiro para esta guerra. Ele não tem como justificar. Depois está naquele problema daquela questão da lei, se já atingiu 60 dias, se não atingiu 60 dias. Houve até a possibilidade e houve até quem dissesse que ele lançaria uma nova operação com um nome diferente e identificaria esta operação com alvos diferentes para justificar que pudesse ter então outros 60 dias sem ter que pedir ao Congresso a autorização para fazer a guerra. Mas o grande problema é a questão financeira mesmo. E tu repara que o maior porta-aviões do mundo, o Gerald Ford, deu meia-volta e está a voltar para os Estados Unidos, o que também nos dá a ideia de que a questão financeira, mesmo para os Estados Unidos, tem pesado bastante. Agora, o que nós temos é uma certeza, que é, neste momento, o regime iraniano, que se esperava que a este momento, pelo menos era esse o entendimento dos Estados Unidos e de Israel, que se não colapsado, estivesse para colapsar, parece-nos a nós que está mais forte, está mais determinado e ganhou outro élan político mesmo na própria região. E é por isso, através do Estreito de Ormuz, e é por isso é que neste momento Donald Trump está desesperado e este desespero é notório, é porque ele não consegue, efetivamente, aquilo que se esperava do exército mais bem equipado do mundo, do país que militarmente tem a maior capacidade, é que uma vitória militar fosse transformada numa vitória política. E como ele não consegue fazer esta transição, ele está neste desespero de achar que como é que o Irão não aceita aquilo que é o entendimento e o memorando de entendimento que lhe foi apresentado, porque nós já ganhamos esta guerra. E este é aquele problema, é que afinal os Estados Unidos não conseguiram ganhar a guerra, nem conseguiram, efetivamente, que o Irão aceitasse a sua posição. O que à luz, por exemplo, de quando foi a conversa com o Xi Jinping e mesmo à luz de toda a gente que vê este conflito de uma forma internacional, vê que os Estados Unidos, afinal, apesar de ter essa capacidade toda militar, não conseguiram vergar o Irão, o que não deixa de ser embaraçoso para o presidente dos Estados Unidos.
Miguel Baumgart, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Boa semana, Miguel.
Beleza, obrigado.
Obrigada.