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Abrimos o Gabinete de Guerra para tentarmos perceber de que forma a saúde mental pode estar a ser afetada pelas notícias que nos chegam da Ucrânia. Temos conosco o bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues. Senhor bastonário, boa tarde. Obrigado por se juntar a nós.
Claro.
De que forma é que este conflito está a afetar as pessoas?
É natural que situações de limite, como é o caso de uma guerra, é uma crise que nos transmita um conjunto de sensações associadas não só à incerteza da situação, como àquilo que é a agressão que estamos a assistir. Para algumas pessoas, isso pode ser sentido de uma forma mais próxima do que outras. Há pessoas, para muitos de nós conhecidas, que estão diretamente a sofrer de perto o que está a acontecer também, para além daquilo que nos entra pela televisão, pela rádio e pelos jornais.
Isso é importante. O facto desta guerra ser mais próxima e de facto termos, em particular em Portugal, uma comunidade de ucranianos muito grande, quase todos, como dizia, conhecemos pessoas da Ucrânia.
Sim, isso é relevante, a identificação que nós temos, a partilha de identidade, a forma como percepcionamos essa proximidade, claro que é relevante. Nós estamos, de uma forma geral, a sentir-nos preocupados. Também estranho seria que não estivéssemos. E depois reagimos de formas muito diferentes, entre a irritação e a zanga, à tristeza, à angústia, às vezes algum entorpecimento, parece uma certa apatia, até de reação. Isso é natural que aconteça. E para pessoas que estejam mais próximas dos acontecimentos de alguma forma, isso pode originar ou o agravamento de perturbações que já existirem ou mesmo perturbações. Isso depende sempre também das vulnerabilidades que cada um tem. Mais uma vez, sei que nós somos conhecidos profissionalmente por dizermos muitas vezes que depende, mas depende mesmo. E é importante que todos tenhamos a noção que embora nos possa a todos afetar, afetar-nos-á de forma diferente dependendo das nossas características pessoais e da situação que nós estejamos a viver num determinado momento. A todos, sim, mas dependendo depois de algumas coisas.
E da sua experiência profissional, este afetar está mais relacionado com o facto de as pessoas temerem que o conflito possa chegar até nós de alguma forma, porque está muito próximo e porque se fala muito nessa possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial ou do envolvimento dos países da NATO, e Portugal também é um desses países, ou está mais relacionada até com aquilo que vemos todos os dias, por exemplo, na televisão e nos jornais, que é o sofrimento daquelas pessoas a tentarem fugir, muitas crianças também afetadas. Consegue perceber se há aqui algum destes fatores que pese mais do que o outro?
Se pesa mais um que o outro, mais uma vez, ambos os fatores têm impacto diferenciado, dependendo da leitura que cada uma das pessoas está a fazer do que está a acontecer, dos factos e a percepção que tem sobre eles. Por isso, qualquer uma dessas situações, ou seja, pode haver uma angústia mais existencial de quem olha pra possibilidade de uma guerra mundial e equaciona, por exemplo, qual é o seu papel no mundo e de que forma a sua própria existência está posta em causa perante isso. Este é um dos imensos tipos de significado e de reação que depois pode surgir daqui, perante um dos exemplos que deu, mas também poderá ser uma coisa mais de medo, relacionado com o mesmo aspecto, ou depois pode ter que ver com o impacto dessas imagens de sofrimento, que muitas vezes nos causará a nós também sofrimento. É bom que, por um lado, saibamos distinguir que o sofrimento que os outros estão a sentir não tem que imediatamente nos causar a nós o mesmo tipo de sofrimento. Mas é verdade que quando estamos expostos e quando pensamos que aquelas pessoas somos nós também, de certa forma, e isso nos afete. E mais uma vez, isto é mesmo uma situação limite, particularmente, e mais ainda pra quem está mesmo a sofrer o impacto direto dos bombardeamentos e das consequências que isso tudo traz. Imaginar e ver, mas imaginar depois o que é que estas pessoas podem estar a sentir, ao abandonar as suas casas, deixarem tudo para trás, trazerem pouquíssimas coisas de toda a sua vida e deixar de ter, nalguns casos, tudo isso, para ir pra um país que nalguns casos pode ser um país completamente estranho, não terem relações, não terem qualquer tipo de vivência. É algo que nos perturba Particularmente depois de fazermos o exercício de nos colocarmos nessa situação, que não deixa de ser importante até certo ponto, relativamente à empatia, à compaixão, que é importante demonstrarmos. Mas uma das coisas que diria ser importante é nós tentarmos transformar esse impacto em ação solidária, em ação de integração.
O envolvimento das pessoas em ações de solidariedade pode ajudar também a enfrentar este-
Pode ajudar, sim. É uma das coisas que pode ajudar. E a propósito desse envolvimento de solidariedade e na integração daqueles que certamente vamos ter que acolher, é muito importante também, e eu gostava de deixar esse apelo, que o façamos o mais possível, de forma também integrada nas respostas que estão já montadas. Procurarmos primeiro aquilo que já está a acontecer, aquilo que já está a ser feito e onde podemos também encaixar e ser parte desse esforço que já está organizado, porque muitas vezes a nossa boa intenção, o nosso voluntarismo, pode não ser a melhor resposta para aquelas pessoas. Pode ser uma resposta mais para aquilo que nós necessitamos, que é de sentir que estamos a fazer alguma coisa, mas não ser a resposta que as pessoas que estão no maior dos sofrimentos ainda, não estando a desvalorizar o sofrimento que nós aqui à distância, ao ver o que se está a passar, também podemos sentir. Mas aquele sofrimento das pessoas que estamos a querer ajudar, pode não beneficiar de todas as respostas que nós, e muito bem-intencionadamente, achamos que são muito boas. Por exemplo, se nós nos colocarmos a querer puxar por uma conversa de alguém sobre o que se passou num determinado sítio, quando essa pessoa, ao falar sobre isso, até pode, no limite, isso causar uma retraumatização face ao que possa ter se passado com ela.
Isso já no contato das pessoas que estão a chegar.
Já no contato, sim. Eu só estou a dar um exemplo limite por uma questão que é ilustrar a diferença entre aquilo que é a nossa intenção, a nossa ótima intenção, e a importância de nos envolvermos em ações de solidariedade e de integração, mas tentando ao mesmo tempo que isso seja integrado. Há coisas a acontecerem, ao contrário do que às vezes pode haver, há pessoas que por vezes, até pela ansiedade que tudo isso causa, pela angústia que tudo isso causa, começam a ter a percepção de que não está a ser feito nada, há muito pouco a acontecer. E neste momento está a acontecer muita coisa, estão a ser preparadas muitas respostas, há muitas coisas já no terreno. E é importante tentarmos integrar o nosso esforço nesse esforço coletivo do que já está a acontecer, de modo a que a nossa ação seja mais consequente e seja mais benéfica para quem mais dela necessita.
Até porque já percebemos, e temos falado com várias pessoas no terreno, que nos contam que muitas vezes esse excesso de apoio depois é difícil de gerir e, portanto, é preciso que as pessoas se coordenem também para conseguirem.
Exatamente. E é por isso muito importante que estas respostas sejam feitas dessa forma, coordenada. Isso não é dizer: "Não apoiem, não ajudem". Não. É: sim, apoiem, ajudem, mas procurem aquelas respostas que já estão ali. Em vez de estarmos a criar novas respostas. Os Deolinda têm uma canção, que é o Movimento Perpétuo Associativo, e que no fundo ilustra às vezes um pouquinho este mecanismo, e que tem mais a ver com a nossa vontade de termos uma criação nossa que dá significado ao que nós estamos a tentar fazer, do que propriamente aquilo que seja o objetivo que deveria ser atingido.
Algum egoísmo também.
Cada pessoa cria a sua associação, que é um contrassenso. Portanto, neste caso, pensemos que se é essa ajuda para darmos significado a esse ato, devemos tentar integrar em muitas das respostas que já existem. E com isso vamos estar a dar um importante passo para apoiar tantos que vão necessitar de apoio. Isso é muito importante que seja feito dessa forma. E estão a ser montadas muitas respostas. Nós mesmo, a partir de domingo, estaremos, por exemplo, a dar formação em intervenção em crise e catástrofe a psicólogos na Ucrânia, para poderem depois intervir em cascata, formando outros psicólogos na Ucrânia nessa dimensão, de modo a poderem dar apoio às populações ainda lá. E, portanto, há muita coisa a acontecer a vários níveis. É preciso é que as respostas sejam o mais possível integradas.
E também é preciso criar condições para que as pessoas que chegam recebam esse apoio psicológico. Acha que isso está, neste momento, a ser tido em conta?
Bom, há dois tipos de coisas a dizer sobre isso. Desde o primeiro momento que nos colocamos à disposição do governo nesta matéria, seja diretamente junto do gabinete do primeiro-ministro, seja depois ao nível de vários ministérios. Sentimos que há, por parte de alguns destes ministérios, já um nível de consciência e prontidão relativamente ao aproveitamento destes contributos nesta área em particular. Estou-me a referir agora a esta área da intervenção psicológica, já bastante voltados para a ação e para a implementação de ações, e estamos a trabalhar em conjunto com alguns destes ministérios para podermos vir a implementar ainda Ainda não estão propriamente prontas essas respostas, mas esperemos que venham a estar na sequência dos trabalhos que estão já iniciados. Preocupa-nos muito uma coisa que já vem de trás e que, particularmente pra população portuguesa, mas também para as respostas específicas àqueles que venham a chegar. E as respostas específicas, estou me referindo, particularmente às situações de trauma, que são situações bastante especializadas em termos de resposta necessária. Preocupa-nos mais essa disponibilidade e a ligação que possa existir em termos de contexto de saúde com outros contextos, como por exemplo, o contexto escolar, porque é muito importante que, por exemplo, não sejam os psicólogos e psicólogas que estão nas escolas a serem chamados a fazer intervenção dentro dessa área. Isso não é o adequado, não é o recomendável. E os psicólogos e psicólogas terão um papel bastante importante para trabalhar a integração e para trabalhar em termos de prevenção junto da comunidade escolar. E nós, inclusivamente, já disponibilizamos um programa específico para os psicólogos poderem, desde já, começar a implementar, se assim entenderem necessário, por todo o país. Mas a verdade também é que se for necessário sinalizar isso, seja por parte da população portuguesa ou população escolar que já é integrada atualmente, para depois serem então acompanhados no Serviço Nacional de Saúde, aí dependendo das situações, já pode vir a ser complicado, porque como nós sabemos, e enfim, isso é mais do que público, já é um assunto mais do que colocado em cima da mesa, mas ainda sem resposta, é que os centros de saúde não têm, nem pouco mais ou menos, e ainda não tiveram qualquer tipo de reforço, o número de psicólogos e psicólogas para darem as respostas de primeira linha que seriam necessárias. E, portanto, repare, o PRR não foi criado para esse tipo de respostas, foi criado para pessoas que já têm alguma situação de doença mental, não propriamente para sofrimento psicológico causado em situações deste tipo e para aquilo que é o dia a dia das situações que, sejam crianças e jovens, sejam adultos, tenham e que necessitassem de um apoio breve de proximidade. E aí isso ainda continua sem estar disponível e é uma preocupação. Portanto, não há um quadro geral igual. Há capacidades de resposta diferentes, dependendo dos contextos. Na escola haverá uma maior capacidade de resposta, certamente, mas é importante alertar que essa capacidade de resposta não suprime a capacidade de resposta, que não existe neste momento, nos centros de saúde, para onde deveriam ser sinalizadas muitas situações já hoje, e com o agravar, seja da exposição e dos níveis de ansiedade que já falamos e de outras situações originadas por aquilo que nós percepcionamos à distância, seja futuramente, relativamente à integração e recepção destas pessoas. Aí preocupa-me um pouco mais e ainda não tenho sinais, não quer dizer que isso não esteja a acontecer. Eu, enquanto bastonário, não tenho ainda sinais que isso esteja a ser acautelado. Espero que esteja.
Fica também essa alerta.
E da nossa parte, cá estamos para contribuir, se necessitarem, para esse tipo de organização.
Fica o alerta e a disponibilidade. Obrigado, Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos, aqui a tentar ajudar-nos a perceber de que forma é que este conflito está a afetar as pessoas.