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No Gabinete de Guerra da tarde em direto de hoje contamos com a ajuda do major-general Isidro Morais Pereira. Muito boa tarde.
Muito boa tarde.
Boa tarde. Major-general, para lá da retórica política dos dois lados do conflito, que vamos ter a oportunidade de detalhar na edição de hoje, em que fase estamos do conflito? O Kremlin adianta que a contraofensiva ucraniana não está a surtir efeito. Não está?
Não é bem verdade. A Rússia, como nós sabemos, continua numa postura ofensiva a leste, mas vem perdendo terreno em Bakhmut. Aliás, a observação geoespacial é isso que nos diz. Para além das retóricas de ambos os lados, o que é facto é que os avanços que a Rússia tem conseguido, designadamente no Oblast de Luhansk, em terrenos agrícolas sem grande importância, têm sido largamente recompensados pelos avanços, quer na região de Bakhmut, quer no sul, na região de Zaporizhzhia, fundamentalmente na direção estratégica que leva ao porto de Berdyansk e também a Melitopol. Mas fundamentalmente, é onde as forças ucranianas estão a ter mais sucesso é na ofensiva que estão a levar a cabo na direção exatamente de Velyka Novosilka, ainda em território controlado pela Ucraniana, em direção ao porto de Berdyansk, no sentido de cortar a continuidade da ponte terrestre que liga, neste momento e já há alguns meses a esta parte, o Oblast de Donetsk, através desta faixa de terreno de Zaporizhzhia ao Oblast de Kherson e, por sua vez, também à Crimeia. À Crimeia que cada vez está a ser mais difícil esta ligação, porque há hoje notícias claras de mais bombardeamentos, mais ataques através de mísseis de longo alcance, designadamente mísseis Storm Shadow e SCALP-EG, contra a linha de caminho de ferro da ponte de Chongar, que é das poucas pontes que ainda permite fazer chegar o apoio logístico vindo através da Crimeia às forças que combatem no sul da Ucrânia. Portanto, é isso que estamos a assistir. Aquilo que a Rússia diz é que, de facto, se nós estivermos na expectativa de que a Ucrânia iria pôr em marcha uma operação blitzkrieg, que em menos de três ou quatro dias conseguia atingir objetivos na profundidade do inimigo e cortar a ponte terrestre. Se essa for a expectativa, é evidente que não estamos a assistir a ela. No entanto, esta é uma guerra de atrição, uma guerra que nós sabemos que de parte a parte tem provocado imensas baixas, quer em termos de pessoal, quer em termos de material, e que todo este inverno a grande contraofensiva russa foi um fracasso no leste e permitiu que as forças russas a sul pudessem estabelecer linhas defensivas suficientemente bem preparadas, muitas delas construídas à custa dos civis que habitam nessas populações, que foram obrigados a colaborar na construção das respectivas trincheiras e outro tipo de organização de terreno. E fundamentalmente à frente da primeira linha defensiva, a Rússia teve tempo e oportunidade para semear de forma intensiva, chamemos-lhe assim, semear, para lançar, em termos militares é a linguagem mais adequada, campos de minas em grande quantidade. As forças ucranianas têm-se deparado com fortes resistências, porque os campos de minas têm que ser abertos, têm que ser abertas brechas nesses campos de minas, é preciso o uso intensivo da artilharia, o uso intensivo de cortinas de fumos, para depois se conseguir abrir umas faixas seguras para poder introduzir as forças mecanizadas e blindadas para poderem vencer essa linha. Além do mais, foram construídos imensos fossos anticarro, foram construídas linhas de dentes de dragão, às quais as forças ucranianas também já chegaram e que estão neste momento a tentar reduzir. Outra notícia importante é que o local na Crimeia onde são construídos fundamentalmente estes dentes de dragão, que são uma estrutura em betão armado, com uma fixação que dá para ligar estas pirâmides, que são pirâmides ou um género de pirâmides em cimento de grande dimensão e que devem ser ligadas umas às outras para que seja mais difícil a remoção e a abertura. Esta unidade fabril, onde eram produzidas fundamentalmente estas estruturas em betão, também foi alvo de ataque por mísseis da Ucrânia. Portanto, é isso que estamos a assistir.
Está a dizer é que estamos perante uma guerra lenta.
Estamos perante uma guerra lenta e estamos perante algo que eu sinceramente gostava de citar, porque é uma notícia de hoje do Sunday Express, que diz claramente que as Forças Armadas da Ucrânia vão devolver a Crimeia até ao Natal. E refere mais, diz que as próprias forças britânicas, as forças inglesas, estão neste momento empenhadas em treinar forças de operações especiais, aqueles que chamam comandos ucranianos de elite, para levarem a cabo operações na península e que essas operações serão apoiadas por ataques aéreos intensivos, ataques terrestres e marítimos, portanto, com os drones de superfície que a própria Ucrânia conseguiu construir e altamente eficazes E serão apoiadas por um stock apreciável de mísseis de longo alcance fornecidos pela Grã-Bretanha e aqui é uma novidade, incluídos pelos Estados Unidos, isto é o Sunday Express que está a dizer. Talvez estejam a avançar uma notícia que todos estamos à espera, que é o fornecimento, de uma vez por todas, dos mísseis ATACMS, não sei se é isto que quer dizer. E também refere a Alemanha. Deixe-me só dizer isto: muitos parlamentares alemães e muitos políticos alemães, inclusivamente dos Verdes, que têm constituído coligações governamentais há imenso tempo na Alemanha, estão a exigir que, de uma vez por todas, o governo cumpra a promessa que fez de fornecer os mísseis Taurus, que são mísseis de cruzeiro de longo alcance, com 560 km de alcance e que podem navegar a altitudes baixíssimas, cerca de 15 metros do solo, eludirem praticamente tudo que é defesas antiaéreas que a Rússia tem neste momento e atingir objetivos vitais na retaguarda. Já é a segunda missiva de parlamentares e políticos alemães a exigirem ao ministro da Defesa e ao próprio chanceler alemão que cumpra a promessa que fez à Ucrânia de fornecer os mísseis Taurus de uma vez por todas. Parece-me que esta notícia hoje do Sunday Express, devem saber mais do que nós, possivelmente, terão acesso a informação privilegiada que eu neste momento não tenho, mas de facto, treinando forças de operações especiais na Inglaterra, nós sabemos que têm uma escola muitíssimo boa nesta área, e apoiando estas operações, juntando-as ao conjunto de forças guerrilheiras que já existe na própria Ucrânia. Nós sabemos que há o movimento guerrilha organizado, os tártaros da Crimeia e outras forças também de partisans, como a gente costuma ouvir falar, juntando a estas as operações especiais, elementos de operações especiais, especialmente treinados em Inglaterra para o efeito, e juntando a tudo isto, este tipo de ataques de longo alcance por mísseis fornecidos pela Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha, eu acho que começamos a acreditar que algo está em marcha e que poderá desequilibrar profundamente aquilo que é o dispositivo russo hoje na Ucrânia, porque cortando as linhas de comunicação da ponte de Kerch, cortando, e neste momento é preciso dizê-lo com toda a clareza, a autoestrada que liga Rostov, mais ao sul, que se dirige a Mariupol e entra no Oblast de Donetsk, depois passa por Berdyansk, dirige-se a Melitopol e depois daí para Kherson ou para a ponte de Chongar, que é uma autoestrada e também acompanhada por uma via férrea, cortando esta própria autoestrada já começa a ficar sob o alcance dos HIMARS, da artilharia lançada, dos foguetes lançados pelos HIMARS e pelos M270.
E haverá alguma possibilidade da guerra chegar à Rússia? A Ucrânia lançou vários ataques com drones na última semana, três ataques nas últimas horas, e Zelensky avisou que com estes ataques a guerra irá chegar à Rússia. Isso é possível? E quais são os perigos disso acontecer?
Não, eu julgo que aquilo que tem acontecido, aliás, são os próprios órgãos de notícias americanos, que eu destacaria o New York Times ou o Washington Post, que eu já tive acesso a artigos por ali, quer numa quer noutra publicação, que dão conta da existência de um acordo firmado entre os Estados Unidos e a Rússia, através dos seus, da CIA e do FSB, em que os Estados Unidos se comprometia que o material ocidental fornecido à Ucrânia não seria usado para atingir alvos na Rússia continental, entenda-se as fronteiras da Rússia internacionalmente reconhecidas, quer dizer, a Crimeia está fora disto e todos os outros oblasts que a Rússia diz que são seus por decreto, portanto, esses estão fora deste acordo, como é óbvio. E a Rússia, por seu turno, comprometeu-se a não utilizar armas de destruição em massa. Parece-me que existe aqui um acordo que foi feito à margem dos outros aliados, é um acordo celebrado muito possivelmente. Isto eu estou a citar o New York Times e o Washington Post. Não tenho informação privilegiada, mas creio que são dois órgãos de notícias com alguma confiabilidade. E é por isso que Joe Biden tem reagido de uma forma muitas vezes que eu qualificaria algo estranha, quando a própria Ucrânia ataca com meios seus, não com meios fornecidos pelo Ocidente, mas com meios produzidos pela tecnologia ucraniana, pelos engenheiros ucranianos e com a sua capacidade sobre ele, porque todos os engenhhos explosivos que têm sido utilizados para atacar território russo, têm sido fabricados na Ucrânia. A Ucrânia tem atacado, inclusivamente Moscovo, com drones de fabrico ucraniano. Nada têm a ver com o material fornecido pelo Ocidente. Vamos lá ver, isto quer dizer, que dimensão ou que escalada que isto pode trazer ao conflito? Eu, sinceramente, acho que Acho que para além de narrativas cada vez mais persistentes ou mais insistentes pela Rússia, pouco mais do que isso poderão fazer, porque a Rússia não vai utilizar armas de destruição em massa e vai ser cada vez mais atacada com mais frequência por drones. Drones a tener, porque também há projetos. Há informação que necessita de ser confirmada, obviamente, mas que a própria indústria ucraniana estará a transformar mísseis ainda do tempo da União Soviética, que estará a transformá-los por forma a dar-lhe um alcance maior e maior precisão para que possa atingir território russo, não apenas com os seus drones, mas também com mísseis. É o que vai acontecer. Damos um exemplo da Ponte da Crimeia. A Ponte da Crimeia, neste momento, a informação que temos, que é uma informação veiculada até por fontes russas, é que só estará em condições de ser utilizada de forma regular ou normal em dezembro, porque esses dois drones de superfície que afetaram um tabuleiro e de alguma forma até a própria via férrea. Aquilo que eu estou a querer é que não vamos ficar por aqui, quer dizer, a Ponte da Crimeia vai voltar a ser atacada. Aquilo que podemos esperar é que a Ucrânia vai ter que, para poder libertar o seu território, tem obrigatoriamente que atacar alvos na profundidade, porque é onde estão concentradas as tropas, é onde estão concentrados os materiais, é onde estão concentradas as munições, é onde estão concentrados os combustíveis, é onde está concentrada a comida, a água, o material médico, tudo aquilo que permite que um exército de 300 a 400 mil homens, que é o que a Rússia tem neste momento na Ucrânia, possa combater. E todas essas regiões, todas essas áreas onde estão concentrados este tipo de abastecimentos, têm que ser atacadas, porque senão a Ucrânia não consegue ganhar a guerra. Portanto, isto faz parte da manobra operacional.
Sr. Professor Canelo, falemos agora de paz. A Arábia Saudita disponibilizou-se para organizar um encontro.
É outra iniciativa que devemos falar nela, de facto.
Como é que interpreta? A Arábia Saudita disponibilizou-se para organizar um encontro de 30 países com vista ao início de um processo de paz. Como é que interpreta esta iniciativa da Arábia Saudita e o que é que pode resultar deste encontro, partindo também deste pressuposto da Rússia e China não vão participar nesse mesmo encontro?
Aquilo que eu posso, desde logo, me referir acerca dessa iniciativa é que é muito bem-vinda. É mais uma iniciativa a somar a tantas outras. À iniciativa da Turquia, que foi uma das primeiras, à iniciativa da própria China, de uma forma um pouco indefinida, mas estabeleceu um roteiro para a paz, à iniciativa das Nações Unidas, à própria iniciativa dos países da União Africana e da própria África do Sul e dos BRICS, e do próprio Brasil. E agora temos a própria Arábia Saudita. A Arábia Saudita, como nós sabemos, é um país que tem ambições de potência regional e que neste momento pretende, de alguma forma, negociar a paz. O que é curioso de salientar é que a Arábia Saudita está, tanto quanto li, tanto quanto me informei, quer levar a cabo uma cimeira a ter lugar ainda durante o próximo mês de agosto, em data ainda a marcar, e refere claramente que é com a presença das potências ocidentais, com a presença de muitos países e, de facto, ficando de fora a própria Rússia e a China.
É uma iniciativa condenada à partida por esse facto?
Eu acho que a iniciativa em si é de saldar, porque o facto da Rússia não estar e outros países que estão alinhados com a Rússia não estarem, funciona sempre como pressão. Agora, que tenha efeitos práticos, tenho muitas dúvidas, porque a paz só se celebra se as forças que participam, os principais contendores, as partes tiverem vontade e estiverem sentadas à mesa, porque sem as partes mais interessadas nisso, Joe Biden tem dito repetidamente. Aquela retórica, que é uma retórica que o Kremlin já nos habituou: "Nós estamos em guerra é com a NATO, nós estamos em guerra é com o Ocidente, a guerra acaba quando o Ocidente quiser". Ou seja, a Rússia até estava na disposição de se sentar à mesa das negociações com o Ocidente. Não, vamos lá ver. Não há negociações sem a Ucrânia presente. Isto faz-nos lembrar aquelas negociações de 1948, em novembro, em Berlim, na antecâmara da Segunda Guerra Mundial, onde se juntou a Alemanha, a Inglaterra, a França e a Itália e celebraram um acordo em que deram Adolf Hitler o direito que ele reclamava sobre os sudetas e a própria Checoslováquia, que era o país onde estão integrados os sudetas e que Hitler dizia que tinha 3 milhões de falantes germânicos, nem sequer foi consultada. É evidente que deu asneira. Passado seis meses, estava a começar-se a Segunda Guerra Mundial e a Checoslováquia estava a ser envolvida, estava a ser conquistada pelas forças do Terceiro Reich. Portanto, é mais uma iniciativa, é louvável, vai funcionar como mais um mecanismo de pressão sobre a Rússia, nesse aspecto é de louvar. Agora, que possa acrescentar ou que possa trazer algo novo, ou que possa conduzir ou aproximar-nos mais naquilo que é ou ver uma luz ao fundo do túnel pra dizer que estamos mais próximos de uma negociação concreta de paz, não me parece, muito sinceramente.
É aquilo que se diz de letra morta.
É letra morta.
Como é que analisa a intenção da Arábia Saudita? Qual é que é a intenção deste país? É filantropia?
Não, a Arábia Saudita foi como eu lhe disse. A Arábia Saudita é um país que temos que olhar pra geografia e naquela região nós temos a Arábia Saudita, temos o Irã, temos a Turquia, temos esses três grandes players. E a própria Arábia Saudita é um dos players interessados na paz e é um país com recursos abundantes, com umas Forças Armadas bem equipadas e julgo que no fundo é a Arábia Saudita a dizer: "Eu também conto, eu também estou aqui".
Uma posição de afirmação no cenário internacional.
É uma posição de afirmação no cenário internacional e no contexto regional, fundamentalmente, porque a proximidade naquela região da Arábia Saudita, no contexto desses três países que eu referi, Turquia, Irã e Arábia Saudita, são três players ao que também devemos juntar Israel, como é óbvio, mas numa dimensão mais pequena e alinhado noutro polo. Mas a Arábia Saudita ao tomar esta iniciativa, está a querer afirmar-se como um player importante na região e que também está pronto a alavancar as negociações para que a paz se consiga. Parece-me que é uma questão mais de prestígio do que propriamente de interesse, porque qual é o interesse da Arábia Saudita que termine ali a guerra? A Arábia Saudita é fundamentalmente um país que vive das exportações de petróleo e assim, numa análise a priori, quanto mais altos estiverem os preços da rama, melhor para a Arábia Saudita, como é óbvio. Não me parece que haja aqui um interesse económico por trás disto, mas fundamentalmente um interesse de afirmação em termos regionais.
Major-general Isidro Morais Pereira, agradeço-lhe uma vez mais ter estado em direto no Gabinete de Guerra. Muito obrigado.
Nada, ora essa. Muito obrigado eu.
Rádio Observador. Avaipo.