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Começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia.

Bom dia, Bruno. Começamos pela Ucrânia e pela Rússia, que deverão encontrar-se esta quarta-feira na Turquia. Bruno, depois de duas sessões anteriores com poucos resultados para pôr fim à guerra, quais são as expectativas? O que é que devemos esperar que saia desta nova reunião?

As expectativas, do meu ponto de vista, devem ser muito modestas.

Muito cauteladas.

Exato. Não há nenhum sinal, infelizmente, de que haja nenhuma mudança, nomeadamente na atitude da parte da Rússia. Todos os sinais são de que a Rússia continua a apostar na via militar e sobretudo continua a apostar nesta escalada nos ataques contra alvos civis, contra centros populacionais, utilizando a sua capacidade crescente de produção de drones. Aliás, houve aqui uma espécie de ameaça pública nesse sentido, uma reportagem de uma televisão ligada ao Ministério da Defesa a mostrar a produção massiva de drones, que tem sido o principal instrumento desta escalada dos ataques russos. Essa tática os russos utilizaram desde o início, ataques indiscriminados contra alvos civis, mas isso realmente parece estar a escalar dentro desta intenção aparente de tentar coagir os ucranianos numa espécie de rendição, porque recentemente tivemos o reafirmar de todos os principais objetivos de guerra russa. Tivemos o próprio Putin a dizer, há uns dias, que basicamente a Rússia tinha direito a toda a Ucrânia. Voltando a deixar claro que isto não é apenas uma questão de um reajuste de fronteiras, ainda assim sem nenhuma base legal, mas que na verdade, o grande problema da parte do Kremlin é que a Ucrânia seja um país independente, livre, que queira aproximar-se do Ocidente e afastar-se da influência russa.

Entretanto, o Kremlin revelou que Putin poderá reunir-se com Trump em setembro, durante uma visita à China. Bruno, acontecendo, isto surge numa altura particularmente sensível, coincide com o prazo limite de 50 dias imposto por Donald Trump para a Rússia dar sinais concretos de paz na guerra da Ucrânia, caso contrário, promete sanções econômicas mais duras.

Sim, esse ultimato de Donald Trump também tem sido visto, por um lado, apesar de tudo, como um sinal positivo e que ele reconhece que sem pressão não há nenhuma razão para acreditar que a Rússia venha a mudar de atitude e portanto, procura aqui um cessar-fogo com o mínimo de boa-fé. Apesar tudo, é um prazo ainda longo, portanto, dá oportunidade à Rússia de aumentar a sua pressão, aparentemente sem grandes consequências. Também sabemos que realmente Donald Trump tem muito esta visão da diplomacia que passa pelos contactos pessoais, pelas cimeiras, pela diplomacia presencial. Isso é sempre muito importante com qualquer presidente americano, que é realmente quem dirige a ação externa com grandes poderes discricionários, mas com Trump ainda parece ser mais importante. O problema é que muitas vezes sem grande preparação, sem uma ideia muito clara do que se quer e também sem grandes resultados. Vimos, por exemplo, aquelas cimeiras muito alardeadas com a Coreia do Norte, que depois realmente não deram em nada e mesmo com o próprio Putin, também no mandato anterior. Desse ponto de vista, mais uma vez, acho que coincide com um prazo importante, mas também não temos nenhuma indicação, nenhuma razão, do meu ponto de vista, para achar que daí pode sair realmente alguma viragem decisiva no conflito. Mas a própria Rússia parece, aliás, ter algumas reservas em relação a esse tipo de cimeira, precisamente com receio de que, desta vez, haja a intenção de ter resultados mais concretos. E realmente, Putin parece não querer cortar completamente as pontes com Donald Trump, aproveitar qualquer ocasião para o elogiar, para tentar puxar um pouco pelo seu ego, mas sem fazer qualquer cedência substantiva em relação ao conflito.

Sobre o Médio Oriente, Israel rejeitou o apelo de 25 países, incluindo Portugal, para pôr fim à guerra e permitir a entrada de alimentos em Gaza. Diz que todas as declarações e afirmações devem ser dirigidas à única parte responsável pela ausência de um acordo para a libertação dos reféns e de um cessar-fogo, que é o Hamas. Bruno Cardoso Reis, não vamos sair deste passa-culpas?

Israel tem razão neste sentido, que este conflito concreto, tudo o que se passou em Gaza, tem a sua origem no ataque do 7 de outubro da parte do Hamas. Não há nenhuma dúvida de que o Hamas sabia que haveria uma forte retaliação militar por parte de Israel, sobretudo com o atual governo, e parece ter apostado na indignação internacional, na pressão internacional causada por essa ação militar de Israel. Também não tomou nunca nenhumas medidas para reduzir o sofrimento dos civis. O contraste com a Ucrânia é bastante evidente. Nós sabemos que há centenas e centenas de quilômetros de túneis, de abrigos subterrâneos do Hamas em Gaza. Nunca houve qualquer notícia de que os civis tivessem acesso a esses abrigos, ficando sempre expostos aos ataques, ao fogo cruzado entre o Hamas e Israel. Essa estratégia da parte do Hamas é bastante evidente, como também é a recusa de chegar a um acordo de entrega dos reféns que permitisse um novo cessar-fogo. Agora, é evidente que num conflito há sempre duas partes e que mesmo que se reconheça a Israel um direito de legítima defesa, esse direito não é absoluto, ou seja, tem de ser exercido dentro dos limites do direito da guerra, das Convenções de Genebra. E há muitas indicações preocupantes que realmente Israel não está a respeitar esses limites, que tem regras operacionais demasiado permissivas, que não se preocupa o suficiente ou mesmo muito pouco com a população civil e portanto, isso justifica que haja aqui críticas e pressões da parte de países, inclusive países aliados, amigos tradicionais de Israel, que têm sido até muito criticados também internacionalmente por não tomarem uma posição mais assertiva face a Israel. Parece-me também perfeitamente compreensível que esses países deixem claro que não estão satisfeitos com a forma como Israel está a conduzir a guerra e que realmente há aqui uma crise humanitária com proporções crescentes e cada vez mais preocupantes em Gaza. E isso também é uma preocupação perfeitamente legítima e portanto, é possível, no fundo, que as duas coisas sejam verdade, que haja aqui motivos para crítica e pressão sobre Israel e que também seja verdade que a nível da opinião pública internacional, etc., se calhar não se dê o devido enfoque também às ações do Hamas e ao fato de haver aqui uma estratégia deliberada de maximizar o sofrimento dos civis para tentar extrair daí resultados políticos para o Hamas.

Entretanto, as sirenes voltaram a soar em Tel Aviv, mas as IDF conseguiram deter mais um míssil lançado a partir do Iémen. E temos também o Hezbollah, que reivindicou o ataque desta segunda-feira contra uma base militar israelita. Bruno, perante tudo isto, estamos mais próximos de outra guerra regional?

Essas milícias, esses grupos armados, quer o Hezbollah no sul do Líbano, quer os houthis no Iémen, estão mais enfraquecidos, sobretudo o Hezbollah, mas evidentemente não desapareceram. São ainda mais difíceis de eliminar, de desenraizar do que o Hamas e evidentemente mantêm alguma capacidade militar e portanto, há sempre este risco, que é o que tem sido a história da região há muitas décadas, que é que Israel vai de vitória militar em vitória militar, revela muitas vezes grandes capacidades em termos operacionais, em termos táticos militares, mas depois nunca consegue transformar isso em termos estratégicos, em termos políticos, em termos diplomáticos, ou seja, não consegue usar isso para depois passar para uma fase negocial. E isso parece especialmente difícil com o atual governo israelita e com o atual líder israelita, Benjamin Netanyahu, que tem dominado a política em Israel nas últimas décadas e que realmente parece apostar sempre, sobretudo na via militar e dar muito pouco espaço à via negocial. E portanto, do meu ponto de vista, há aqui uma oportunidade para Israel de facto melhorar a sua situação de segurança e criar um contexto regional um pouco mais estável e pacífico para toda a gente. Mas não é de todo evidente que isso esteja a acontecer e portanto, aí sim, há o risco de que, se calhar não no imediato e não na escala que já vimos no passado, mas que de facto haja um retomar de ações violentas, mesmo que mais limitadas por parte destes actores e que a prazo, se volte a ter conflitos em grande escala na região, porque de facto não há nenhum sinal de que haja aqui um processo negocial, um processo de paz, um processo diplomático mais amplo. Não estou a dizer que isso seja fácil também, mas realmente não me parece que esteja muito a ser tentado.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Boa semana, Bruno.

Boa semana. Obrigado.

Obrigada. Um bom dia.

Bom dia.