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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Esta noite junta-se a nós Liliana Reis, especialista em relações internacionais, para analisar comigo os principais focos de conflito um pouco por todo o mundo. Liliana, muito boa noite, seja muito bem-vinda.
Boa noite.
O Irão apresentou uma proposta aos Estados Unidos que consideram insuficiente. Estados Unidos que voltaram a ameaçar Teerão, depois a retirar a ameaça. Liliana, na verdade, vê algum progresso nestas negociações?
Não, mas o Irão também sabe que não consegue vencer os Estados Unidos militarmente, pelo menos da forma convencional. E a sua estratégia, neste momento, está a passar por aumentar os custos políticos, energéticos e regionais do conflito a nível global. E também que estes custos sejam efetivamente imputados aos Estados Unidos. E esta apresentação da nova proposta com 14 pontos, aliás, destacam-se três, quatro: a questão do levantamento parcial de sanções, que também já constava dos anteriores, o descongelamento de activos, o cessar-fogo duradouro e a normalização do Estreito de Ormuz. Mas há aqui uma questão que continua muito mal resolvida, pelo menos do meu ponto de vista, que é em relação ao programa nuclear iraniano. E como nós sabemos, quer a intervenção do verão do ano passado, quer esta, inicia mesmo, pelo menos, é denunciada pela questão do programa nuclear iraniano. Ora, enquanto esta questão não estiver resolvida, não me parece que haja condições para que possamos falar efetivamente de propostas que sejam aceites pelas duas partes. E como eu disse, eu acho que neste momento, por parte do Irão, a estratégia principal é desgastar os Estados Unidos e a opinião pública também interna norte-americana.
A China, Liliana, também tem estado no centro das atenções, primeiro com uma viagem de Donald Trump. Vladimir Putin também se dirige a Pequim para estar amanhã com Xi Jinping. Começamos só por Donald Trump. Foi um encontro em que os dois líderes tinham focos e objetivos diferentes. Xi Jinping, se calhar, mais preocupado com Taiwan, eventualmente.
Sim, aliás, aquilo que nós conseguimos ver é que a visita de Donald Trump a Pequim não parece, pelo menos do meu ponto de vista, ter produzido grandes avanços concretos. Aliás, o Washington Post revelou até que, apesar de a questão Taiwan ter estado no centro das conversações entre Xi e Donald Trump, o que é certo é que Pequim interpretou, de certa forma, a posição de Donald Trump como demasiado ambígua. E isso pode dar algum potencial de manobra a Xi Jinping. Agora, eu por acaso tinha partilhado também no Gabinete de Guerra da semana passada, que se antecipava uma visita de Vladimir Putin à China. Nós não sabíamos era quando efetivamente iria ocorrer. Ora, este hiato de tempo tão curto, aquilo que parece é que efetivamente há aqui uma tentativa de reafirmar publicamente que o eixo sino-russo continua muito sólido, apesar desta aparente abertura diplomática com Donald Trump, e podem estar em cima da mesa outras questões que podem efetivamente denunciar outro tipo de aproximação, nomeadamente a questão energética e a discussão do gasoduto Power of Siberia 2. Por quê? Porque esta questão para a Rússia, por um lado, significa reduzir a dependência do mercado europeu de forma estrutural e depois do 20º já pacote de sanções. Mas para a China, significa garantir abastecimento terrestre de energia em caso de uma crise marítima mais profunda, por exemplo, que possa afectar um bloqueio relacionado com Taiwan. Nós não nos podemos esquecer que a questão do gás natural e do petróleo russo, por via terrestre, em relação à China, as rotas que seguem são sobretudo pelo Índico, pelo Estreito de Malaca e pelo Mar do Sul da China. Ora, como nós também sabemos, os Estados Unidos continuam a dominar o poder naval global e o que a China e a Rússia poderão estar a ensaiar é efetivamente uma menor dependência dos dois lados em relação às rotas marítimas.
Inda assim, Liliana, falamos aqui de dois líderes que vão a Pequim em posição de fraqueza, primeiro Trump e agora Putin, que precisa que a China continue a comprar, como disse, petróleo à Rússia.
Sim, naturalmente. Mas atenção, a Rússia vai numa situação muito mais fragilizada por uma questão: a sua posição no sistema internacional. A relação hoje da China com a Rússia é claramente assimétrica, contrariamente à dos Estados Unidos. E a Rússia tem um peso muito menor no sistema internacional do que tem a China ou têm os Estados Unidos. A questão é que, na verdade, aquilo que se começa a perceber é que a China também pode estar a entrar numa fase de pré-resiliência estratégica, nomeadamente através do objetivo de querer reduzir as dependências vulneráveis e garantir as cadeias críticas de abastecimentoE a Rússia é um parceiro fundamental. Por quê? Porque é o parceiro continental que lhe pode garantir essa resistência e essa resiliência. Agora, nós não podemos dizer que numa relação entre estes três atores, eles têm igual peso no sistema internacional. A Rússia está claramente numa posição mais fragilizada em relação à China e aos Estados Unidos, até porque não tem o mesmo tipo de capacidades, nem militares como os Estados Unidos, nem econômicas como a China.
Ainda relativamente à visita de Trump, tem circulado, não só nas redes sociais, como nas televisões, uma imagem que gostaria também aqui da ajuda da Liliana para interpretar. O fato de Xi Jinping ter se sentado numa cadeira mais alta do que Donald Trump, tem algum significado especial, como uma imagem de superioridade ou há outra forma de interpretar essa imagem que tem sido tão replicada aos nossos olhos nos últimos dias?
Sim, já há várias leituras a dizer que Xi Jinping pretendeu sinalizar que está numa posição de vantagem face a Donald Trump ao nível do sistema internacional. E, aliás, também vi leituras a remeterem para a visita de Nixon em 1972, e que dizia que a grande diferença histórica é que efetivamente nos anos 70 a aproximação sino-americana era estratégica para ambos, e os Estados Unidos tinham uma posição de vantagem. Hoje, esta interdependência econômica convive com uma rivalidade sistêmica que pode ser favorável à China. E Xi Jinping tentou mostrar essa leitura, provavelmente, através desse ato na posição das cadeiras. Mas, como lhe disse, aquilo que neste momento parece é que há aqui, efetivamente, duas potências em nível global que lutam pela hegemonia do sistema internacional e uma delas quer alterar a ordem naturalmente vigente até agora e por isso quer revelar que em várias dimensões poderá estar acima dos Estados Unidos, o que parece-me ainda muito pouco prudente essa leitura.
Falamos ainda do conflito na Ucrânia, antes de fecharmos este gabinete. O Kremlin admite retomar as negociações de paz, depois de ter também dito que de fato estavam em pausa. Isto depois de os Estados Unidos terem indicado que os mais recentes ataques russos a Kiev podem ter atrasado o processo negocial. Ora, tendo em conta que a Ucrânia até está a conseguir retaliar com ataques de longo alcance e a cumprir alguns dos seus objetivos, tem atacado em profundidade a Rússia, Putin vê-se aqui numa situação agora mais fragilizada também neste conflito, uma vez que o próprio povo russo começa a criticar, dentro do que é possível, as ações da própria administração.
Claro. Aliás, nós observamos isso até pelo Dia da Vitória, pela projeção de poder no Dia da Vitória este ano, que foi manifestamente inferior aos anos anteriores, mas sobretudo pelas capacidades militares que a Ucrânia tem vindo a desenvolver. Aliás, se nós vimos, por exemplo, no início, que a Ucrânia só se conseguia defender efetivamente pela ajuda quer dos Estados Unidos, quer de alguns Estados europeus, aquilo que nós neste momento começamos a observar é que a capacidade de desenvolvimento tecnológico ligado à defesa está a levar a que a Ucrânia tenha novas capacidades, nomeadamente projeção de poder em profundidade e, nomeadamente, a capacidade de fazer ataque em território russo. Ainda assim, aquilo que nós temos também observado do ponto de vista russo no teatro de operações na Ucrânia, é que os ganhos, e os recuos, têm sido muito pontuais. Há aqui quase que, não diria um congelamento, porque não é disso que se trata, mas uma incapacidade das duas partes obterem uma vantagem que lhes permita, a uma ou à outra, do ponto de vista da mesa das negociações, o fim da guerra. E por isso é que aquilo que nós continuamos a observar, e vamos ver também se poderão estar em cima da mesa essas discussões relativamente à Ucrânia, também agora nesta visita de Vladimir Putin à China. Mas aquilo que se vislumbra neste momento é que, e aliás, Putin tem tentado colocar a questão das negociações muito mais em cima da mesa do que a Ucrânia, porque também começa a sofrer um desgaste enorme a nível interno.
Liliana Reis, muito obrigada por ter estado neste Gabinete de Guerra. Desejo uma boa semana.
E uma boa noite.
Obrigada.
Obrigada, Carolina.