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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs, 360. Esta segunda-feira a análise é do Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Olá Francisco, bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Bom dia. O Irão faltou às negociações deste domingo na Suíça, justificou a ausência com os recentes ataques norte-americanos no Estreito de Hormuz e também com condições do acordo que diz estarem por cumprir. Francisco, esta facilidade em interromper e retomar hostilidades prova que este memorando é gerido com um enorme cinismo de parte a parte, ou o Irão está simplesmente a manter Donald Trump assim numa espécie de lumbrante até obter o que quer?
É bem possível que sejam as duas coisas. Realmente já se percebeu que o Irão é um osso muito duro de roer para Donald Trump, que escreveu um livro chamado "A Arte do Negócio" e portanto considera-se o melhor negociador à face da Terra. Só que realmente encontrou aqui um adversário que não está muito interessado apenas em dinheiro, mas em manter uma relevância estratégica na região e agora encontrou no Estreito de Hormuz mais um ponto de pressão que quer utilizar e tem utilizado. O memorando diz que o Estreito de Hormuz será controlado pelo Irão nos termos do direito internacional e o Irão disse: "Muito bem, então agora as passagens pelo Estreito terão que ser feitas nas condições que nós determinarmos". Isso levou a que atacasse alguns navios que estavam a passar por uma via que estava a ser aberta pela Agência Internacional Marítima com o patrocínio dos Estados Unidos. A partir daí tivemos uma troca de ataques entre o Irão e os Estados Unidos nos últimos dias e as negociações aparentemente só vão retomar agora, mas isto mostra a debilidade deste cessar-fogo. António Guterres chamava-lhe um lesser fire a propósito de outros cessar-fogos que entretanto foram sendo alcançados entre as partes ali na região. E é isso que vamos ver nos próximos tempos. Está muito difícil chegar a um acordo sobre a questão nuclear. Eu ficaria muitíssimo satisfeito se conseguirem um acordo estável sobre a questão do Estreito. E eu creio que é isso que vão falar agora nos próximos tempos. Portanto, obviamente, aquele prazo de 60 dias é muito otimista.
Era isso que eu lhe ia perguntar, Francisco, se é realista acreditar que o tema do nuclear se vai resolver nos 60 dias de negociações.
Veja, eu acho que é realista acreditar que o tema dos 60 dias poderá resolver a questão do Estreito. Porque Donald Trump disse: "Está aberto, está resolvido, os barcos podem ligar os motores, o petróleo pode baixar", portanto isto já está ultrapassado. Mas atenção, se nós conseguirmos um arranjo qualquer diplomático para o Estreito daqui a 75 dias, que já passaram quase 15, já não será mau. E mesmo isso é duvidoso neste momento. Em relação à questão nuclear, claro que não.
Quanto à guerra na Ucrânia, as tropas de Zelensky atingiram mais duas refinarias de petróleo na Rússia. Putin admitiu que estes ataques sistemáticos criaram uma certa escassez de combustível. Francisco, esta admissão de fragilidade por parte do Kremlin prova que a estratégia da Ucrânia contra o coração da economia russa está finalmente a dar frutos ou será Putin a empolar apenas para justificar uma nova vaga de mobilização militar forçada?
Aqui parece-me que se aproxima muito de Trump, Putin. Que foi forçado a admitir a realidade e a fazê-lo nesses termos que referiu agora. Isto causa aquele pequeno impacto. Por quê? Porque a própria população está a sentir isto. Consegue perceber que o preço dos combustíveis está a subir. No caso da Rússia, nem é só isso, não há, não existe, porque está a ser racionado em vários sítios, especialmente na Crimeia, que é a grande estância balnear da Rússia, a joia da coroa dos russos, sempre foi, do Império Czarista, da própria União Soviética, e neste momento os ucranianos estão a estrangular a Crimeia e a atacar as refinarias russas, o que tem este impacto. Parece-me que seria exagerado dizer que a Rússia está à beira do colapso económico, não é isso. Mas ainda assim, essa estratégia parece estar a ter algum resultado e essa admissão de Putin, que no fundo é reconhecer aquilo que toda a gente vê, acaba por ser reflexo disso mesmo. Agora a Ucrânia tem que continuar, já passaram quatro anos, tem que continuar com esta estratégia. Zelensky diz que isto são as sanções ucranianas. É aquilo que realmente causa algum impacto sobre a Rússia e portanto isto parece-me ser um caminho virtuoso para a Ucrânia para conseguir chegar àquilo que pretende, que é uma paz justa.
Entretanto, Putin e Lavrov dizem que a Rússia aceitou propostas de compromisso feitas pelos Estados Unidos no encontro do ano passado no Alasca, mas Marco Rubio desmentiu categoricamente qualquer acordo formal. Disse que se tivesse havido um acordo, a guerra teria terminado. Francisco, quem é que está a mentir? Moscovo está a tentar construir uma narrativa de paz fictícia para culpar os Estados Unidos pelo impasse ou a administração Trump está a recuar nos seus próprios compromissos por não conseguir convencer Kiev e também os europeus?
Isso é a grande dúvida que nós temos todos há quase um ano. A Cimeira do Alasca-
Exatamente.
Foi nessa altura. O que é que nós sabemos? Sabemos que nessa altura não houve sequer uma conferência de imprensa final, uma declaração final. Sabemos que Donald Trump recebeu uma lição de história de várias horas de Vladimir Putin, em que não sabemos se terá adormecido ou não, mas não deve ter ficado muito satisfeito. E desde essa reunião, os russos vêm dizer que foram alcançados acordos, acordos secretos. Portanto, isto é propaganda russa. Os russos têm dito desde essa altura que chegaram a uma série de compromissos com os Estados Unidos e que a guerra será resolvida com base nesses compromissos, que nem é só a questão do Donbass, da Ucrânia recuar, porque isso já se sabia há muito tempo, mesmo antes dessa reunião, será algo mais do que isso. Agora, como os americanos nunca confirmaram nada e isto resulta de efabulações, parece-me a mim, russas, é muito difícil dizer seja o que for, mas faz parte mesmo da propaganda russa dizer que houve aqui um acordo qualquer. Agora, não parece que tenha havido nada de substantivo e Rubio esteve lá e negou. Portanto, isto será algo que só os historiadores saberão daqui a muitos anos, quando se abrirem os arquivos.
Exatamente. Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Boa semana para si.
Obrigado.
Obrigada.