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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Ana Cavalieri, especialista em assuntos internacionais. Boa noite. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E começávamos por falar da situação no Médio Oriente. O Irão confirmou hoje que está em negociações diplomáticas com os Estados Unidos através de mediadores. É um passo atrás depois da posição de corte de relações. Acha que pode voltar a haver um entendimento em breve?
Boa noite. Eu penso que sim. Não sei até que ponto é que irá resgatar a confiança de que será necessário aquele acordo ao fim de 60 dias de assinar o memorando de entendimento, em que todas as questões, nomeadamente a que são mais importantes para a administração Trump, relativamente ao programa nuclear. Eu penso que já ninguém tem muita confiança que esse acordo, que seria o fundamental, vai ser conseguido ser celebrado, e eu penso que isto, no fundo, se chegarem a um acordo relativamente ao Estreito de Ormuz, vai ser porque nem os Estados Unidos nem o Irão estão neste momento com a capacidade de enfrentar os custos necessários para continuar nesta ação cinética activa intensa de guerra. Nós estamos agora no nono dia consecutivo dos Estados Unidos estarem a fazer operações muito intensas relativamente àquela costa que ladeia o Estreito de Ormuz no Irão, a degradar não só as capacidades de lançamento de mísseis, tanto mísseis balísticos, como cruzeiro, como também drones, mas também tudo aquilo que sejam sistemas de vigilância e defesa antiaérea, que o Irão conseguiu, de alguma maneira, recuperar parte dessa capacidade. Atenção, é preciso dizer que as Forças Armadas da Guarda Revolucionária estão bastante degradadas relativamente àquilo que seria em janeiro deste ano, por exemplo. Ou seja, aqueles 30 e poucos dias, desde 28 de fevereiro até o início de abril, em que os Estados Unidos e Israel tiveram a bombardear tudo aquilo que é o centro industrial que sustenta a capacidade militar iraniana fez um dano colossal para o Irão, mas desde que isso foi interrompido pelo Sarfo, logo no início de abril, isso deu espaço, naturalmente, à China e a outros aliados iranianos conseguirem, de alguma maneira, fazer com que algumas dessas capacidades pudessem ser recuperadas. Sendo certo que é preciso referir aquilo que os iranianos têm conseguido fazer em retaliação, que é atacar os países do Golfo, nomeadamente aquilo que são as infraestruturas americanas, nomeadamente bases que existem no Kuwait, em Bahrain, nos Emirados Árabes Unidos, no Qatar e até na Jordânia. Isso foi um desenvolvimento muito importante, porque três soldados morreram, americanos, nesses ataques. Isso, mais os ataques a centrais de dessalinação e algumas estruturas energéticas, mas principalmente centrais de dessalinação, por exemplo, no Kuwait, é isso que vai preocupar muito os estados do Golfo e é isso também que vai preocupar os americanos, porque os americanos, neste momento, o stock de projéteis de mísseis que eles têm para continuar mais do que, já são nove dias, ainda continuar mais dias nesses ataques intensos e depois não terem intercepções suficientes nos sistemas de defesa antiaérea para proteger estes pontos fundamentais na vida da sociedade nestes países do Golfo, nomeadamente as centrais de dessalinação que permitem ter acesso à água, numa zona em que o acesso à água é absolutamente vital e difícil. É isso que provavelmente vai fazer com que os Estados Unidos não consigam permanecer nesta rotina, que já dura há nove dias, de ataques, sem então tentar fazer uma espécie de pausa novamente, porque os factores que levaram Trump, em meados de junho, a explicar porque é que chegou a este memorando de entendimento, continuam. Ou seja, a falta de petróleo a determinada altura nos mercados, que leva os preços a subir, que pode afectar as eleições, isso continua. A falta de interceptores e de uma indústria militar americana que consiga produzir à escala os projéteis necessários, isso continua. Eu penso que é expectável haver agora indícios de alguma aproximação, na esperança que os Estados Unidos tenham comunicado a mensagem que naturalmente não vão poder aceitar que o Irão continue a tentar atingir petroleiros e navios mercantes. Mas do lado iraniano também não sei até que ponto estão dispostos a deixar que esses navios passem pela rota por Omã. E então é mais uma vez tentar saber quem é que tem a gestão de conseguir aguentar mais tempo este momento aceso do conflito, ou se então ambas as partes têm de recuar.
Os Estados Unidos anunciaram hoje também as primeiras operações militares nas zonas-piloto do sul do Líbano. O que é que isto significa no conflito?
Isto vai ser um teste importante e o presidente do Líbano esteve agora em Washington precisamente para tentar discutir essa transição. Isto implica a concretização daquele acordo que há algumas semanas, sob a gestão de Marco Rubio, foi celebrado entre os israelitas e os libaneses, e o governo do Líbano. Primeiro, isso é importante na medida em que é tentar reiterar ou pelo menos dar maior protecção à ideia de que no Líbano é o governo libanês que tem a soberania, e não é o Hezbollah e não é o Irão, porque no memorando de entendimento parecia que os Estados Unidos estavam a validar alguma espécie de controlo ou legitimação que o Irão tem a imiscuir-se nos assuntos do Líbano, nomeadamente através do seu proxy, o Hezbollah, fazendo com que uma das condições fosse a retirada de Israel do sul do Líbano, sendo certo que Israel não era membro nem parte desse memorando de entendimento O que tem sido importante foi o governo do Líbano estar a referir com este acordo, tanto com Israel, mas naturalmente mediado pelos Estados Unidos, que não, é o governo do Líbano que tem a capacidade de decidir os momentos importantes da diplomacia entre o Líbano e Israel. São as Forças Armadas do Líbano que vão tentar conseguir garantir aquilo que é a segurança necessária e tentar desmantelar o Hezbollah e a capacidade que o Hezbollah tem de ameaçar o norte de Israel, e isso vai ser feito com duas zonas-piloto. Isso já foi tentado em anos passados e o problema foi que aquilo que se determinou é que as Forças Armadas libanesas não têm a capacidade, não só logística de organização, também não têm provavelmente o ímpeto político, ou seja, aquilo que será talvez a motivação que as unidades de soldados devem ter para conseguir fazer essa tarefa muito dura, que é tentar degradar essas zonas que o Hezbollah tem conseguido, que são vilas pequenas, onde tem conseguido fazer todas estas estruturas subterrâneas onde conseguem controlar e guardar todo o seu arsenal. Isso põe em risco várias vidas de soldados que têm de fazer essas operações terrestres. É preciso também ter uma capacidade brutal de penetração e infiltração dos serviços de inteligência, e é preciso saber se o Líbano tem essa capacidade, as Forças Armadas do Líbano. Isso tem de ser feito com uma cooperação muito estreita com as forças de defesa israelitas, que neste momento estão a ocupar grande parte do território, nomeadamente a sul do rio Litani. Então essas duas áreas-piloto é para testar se, efetivamente, com a retirada progressiva das forças israelitas dessas áreas e com a entrada das Forças Armadas do Líbano, se os padrões de segurança se conseguem manter e se o Hezbollah não consegue então retomar aquilo que seria o controle dessas zonas. Então isso vai ser um teste muito importante e é por isso que se começa por duas áreas-piloto, em áreas que será mais fácil fazer esta gestão de cooperação com as forças armadas israelitas.
Entretanto, os Estados Unidos disseram hoje também que vão enviar caças estacionados na Europa para o Médio Oriente. Podemos antever com isto uma escalada de tensões ainda maior?
Sim, há também uma perspectiva que eu penso que neste momento não há indícios que o Trump esteja preparado para fazer essas incursões, mas a perspectiva será de que todo este trabalho durante estes últimos nove dias de degradação das capacidades da Guarda Revolucionária em Bandar Abbas, na Great Cash, na Great Karg, tudo posições estratégicas que poderiam ser fundamentais para conseguir controlar, através de uma incursão anfíbia ou terrestre, as zonas que o Irão utiliza do seu próprio território para controlar o Estreito de Ormuz. A ideia seria que então o Trump irá dar esse passo. O problema é que mesmo com esta capacidade enorme, única, que os americanos têm de fazer a degradação das capacidades de mísseis e também dos sistemas de defesa iranianos nessas áreas, ainda, penso eu, o cálculo mais adequado é de que qualquer incursão anfíbia ou terrestre com forças americanas poderia pôr em risco várias vidas das Forças Armadas americanas. E isso é um custo político que Trump não preparou o seu país para enfrentar nesta guerra. Esta é uma guerra impopular para os Estados Unidos da América, mas um dos custos, ou uma das linhas vermelhas que eu penso que a administração implicitamente já definiu, é que isto não seria uma guerra que fosse custosa em termos daquilo que era o sangue a ser sacrificado dos seus homens e das suas mulheres. E eu penso que esses fatores ainda estão em vigor. Mas a canalização desses meios nos últimos dias, com tudo aquilo que se tem observado na mobilização e de tudo aquilo que também tem sido a preparação e o movimento de alguns destroyers e também daquilo que têm sido os porta-aviões americanos, pode sugerir, efetivamente, que a CENTCOM, que é a parte do Pentágono que está a desenvolver as operações, está pelo menos a dizer ao presidente: "Se quiser seguir esse caminho, está preparado". Naturalmente, essas mobilizações servem também para transmitir aquilo que é a pressão do lado iraniano, que nós entendemos que esteja neste momento fragmentado. Uma liderança política mais ligada ao Parlamento, liderada por Ghalibaf, mas também com o apoio de Arachi, provavelmente estará disposta a não querer continuar o sacrifício que as Forças Armadas iranianas, os Estados Unidos nesses últimos dias também conseguiram atingir algumas centrais de controle e comando, não só da Guarda Revolucionária, mas também do próprio exército iraniano, o que significa que vários soldados iranianos morreram nos últimos dias. E também há o impacto económico a ser cada vez maior sentido, porque a suspensão que tinha sido no âmbito do Memorando de Entendimento, a suspensão das sanções e da impossibilidade do Irão exportar o seu petróleo, isso tinha sido aliviado, o que naturalmente fez com que dinheiro entrasse num país que está extremamente degradado economicamente. Ou seja, temos essa liderança política a querer algum alívio daquilo que tem sido uma situação bastante deteriorada no Irão. E depois temos também a liderança mais radical, mais escatológica, mais fanática da Guarda Revolucionária, liderada por Rezaei, Vahidi, Jalili, que provavelmente querem continuar neste martírio para conseguir sustentar aquela grande arma que eles entendem ter conquistado neste conflito, que é o controle do Estreito de Ormuz. E então, talvez aumentar esta pressão do lado americano, sugerindo que estamos prontos para escalar, pode tentar fazer com que a facção política que queira mais um acordo fique mais preponderante e então seja, mais uma vez, uma etapa de entendimento diplomático. Vamos ver.
Vamos também olhar para a Ucrânia. A demissão do popular ministro da Defesa, Mikhail Fedorov, está a desangadear uma onda de protestos e uma crise no país. Começava por lhe perguntar o porquê de os ucranianos estarem tão indignados com esta demissão e também como é que vai reagir Volodymyr Zelensky, se acredita que pode mesmo acabar por voltar atrás.
Eu penso que Zelensky está num grande dilema, porque o que aconteceu é que o ministro da Defesa, Fedorov, muito novo, muito atraente na sua capacidade de comunicar, muito dinâmico, muito inovador. O seu mandato, que foram cerca de seis meses, coincidiu com uma espécie de ressurgimento e de mudança de dinâmica a favor da Ucrânia naquilo que tem sido a guerra, o conflito nos últimos meses. Ou seja, há aqui uma coincidência que não pode ser uma coincidência apenas episódica e circunstancial, mas quer dizer que o homem, naquele cargo de ministro da Defesa, tem liderado, nomeadamente naquilo que tem sido o desenvolvimento tecnológico e a capacidade de inovação da indústria militar ucraniana a nível dos drones e também de uma espécie de estratégia de lançamento de mísseis a médio e longo alcance que têm afectado não só a área de Moscovo, mas até São Petersburgo, que é uma distância incrível daquilo que é a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia. E isso tem sido algo acompanhado com uma falta de progresso na linha da frente por parte das forças russas, não só uma falta de progresso, mas em algumas áreas os ucranianos têm conseguido rebater. Isso significa que há na população ucraniana uma ideia de que o mandato de Fedorov coincide com um ciclo neste conflito muito favorável aos ucranianos. E também existe algum descontentamento com aquilo que tem sido a liderança de Syrskyi das Forças Armadas. Syrskyi é um homem que ficou muito reconhecido em termos de sucesso por aquilo que foi a defesa em Kiev em 2022. Ele ainda não era o líder das Forças Armadas na altura, mas foi ele que foi responsável pela defesa da cidade de Kiev e então ele sai como um herói dessa defesa e depois também como quem foi o mastermind da contraofensiva ucraniana em Kharkiv, que foi aquilo que fez com que este conflito, esta invasão russa não tivesse o sucesso relâmpago que era muito expectável e que de repente se tornou numa grande frustração, numa guerra de atrito que tem sido uma grande frustração e um grande ponto de vulnerabilidade de Putin. E esse homem saiu como símbolo. Todavia, ele tem sido alvo de algumas críticas duras na maneira como tem conduzido não só a capacidade de recrutamento e mobilização. Ele é conhecido por este fenómeno de "buscification", que é na Ucrânia aquelas imagens que nós muitas vezes vemos de jovens ucranianos que não querem se juntar ao conflito, naturalmente estão aterrorizados de morrerem na linha da frente, e então há estes miniautocarros que os sequestram, sendo certo que não é sequestrar, porque eles estão a fugir provavelmente à mobilização que foi ordenada legalmente pelo governo ucraniano, mas é algo muito violento ver estes homens em pânico serem raptados, quase, ou sequestrados, eu sei que não é a palavra adequada, para irem ser postos à linha da frente. E isso é algo que são táticas muito duras, que têm chocado alguma opinião pública ucraniana, mas este homem também tem sido ligado, talvez, a uma espécie de tradição soviética dentro das forças ucranianas, onde mérito muitas vezes não é premiado, mas sim as lealdades e alguns passados históricos entre os generais, entre os comandantes, e talvez tenha havido alguma tensão do facto de este ministro estar a querer premiar determinadas unidades que têm sido muito competentes com a tecnologia de drones, que é escassa, e deixando algumas unidades que eram mais leais ou fieis a Syrskyi e também tem havido algumas alegações de corrupção naquilo que tem sido a contratação e o procurement de opções que o ministro estava, na aquisição de armas e de capacidades e tecnologia, opções que o ministro estava a tomar, que eram contra aquilo que seriam os parceiros de preferência de Syrskyi. Isso provoca, mais uma vez, a aparência de corrupção e Zelensky, supostamente perante o ultimato que Syrskyi deu a Zelensky, ou ele fica e eu saio, ou eu fico e ele sai, Zelensky tomou partido de Syrskyi. Nós não estamos na posição de Zelensky e não sabemos até que ponto existe alguém com a capacidade e a experiência de Syrskyi a comandar umas Forças Armadas que estão esticadas ao máximo. É uma capacidade de gestão. Eu não sou, naturalmente, líder militar e nunca estive com a responsabilidade de gerir uma guerra e um campo de batalha tão extenso como esta linha da frente, que está espalhada por quilómetros e quilómetros, então a gestão deve ser do mais difícil que se possa imaginar. Nós não sabemos até que ponto Zelensky tem alternativa dentro daquilo que são os seus generais, dentro daquilo que são os seus comandantes, para arranjar alguém que tenha essa capacidade que Syrskyi demonstra em conseguir sustentar uma linha da frente perante um exército com muito mais soldados, com algumas capacidades de munições muito maiores do que o lado ucraniano. E então é uma decisão que eu penso que provavelmente é bastante difícil de gerir por parte de Zelensky, mas com a contestação da sociedade civil e também de alguns lados políticos que Zelensky está a sofrer e dos próprios aliados europeus, que têm criticado esta decisão, não sabemos até que ponto é que existe uma capacidade de mediação. Nós sabemos que Fedorov já referiu que a voltar à equipa de guerra, só volta como ministro, ou seja, todas as posições que Zelensky está a oferecer, de ele ser o líder ou um special advisor, um conselho especial relativamente ao lado da tecnologia, ao lado de drones ou da parte tecnológica, ele não vai aceitar. Ele para voltar ao governo é mantendo a posição de ministro da Defesa. E então, portanto, iremos tentar ver como é que Zelensky vai conseguir negociar isto.
Vamos então aguardar pelos próximos dias. Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigada pela sua análise, Ana Cavalheiri, especialista em assuntos internacionais. Fica por aqui o Gabinete de Guerra. Está de regresso amanhã.