Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Abrimos a porta ao último gabinete de guerra do dia na Rádio Observador. Vamos, nos próximos minutos, contar com a análise do especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque, sobre a atualidade dos conflitos que assolam o mundo. Boa noite, João. Obrigada mais uma vez pela presença neste gabinete de guerra. Hoje vamos variar. Vamos começar pela Ucrânia. Soubemos esta tarde que Vladimir Putin, o presidente russo, está disposto a negociar com a Europa. Até o primeiro-ministro português diz que sim, que faz sentido negociar com a Rússia. A questão é, nesta altura e tendo em conta estas várias condicionantes, a relação que entretanto não existe entre a Europa e a Rússia, em que modos é que isto pode acontecer?

São, de certa maneira, notícias que não deixam de ser um pouco surpreendentes, mas que ao mesmo tempo acontecem num contexto em que, apesar dos ataques recentes, a Rússia desfio ataques fortíssimos nas últimas noites em Kiev, teve ataques dos mais violentos desde o início do conflito na capital ucraniana e, de certa maneira, no meu entender, uma tentativa de mostrar alguma força numa altura em que se falava que a Rússia estava numa fase mais enfraquecida, quer do ponto de vista militar, quer até do ponto de vista da pressão interna que se fazia sentir na Rússia, de contestação à guerra pela necessidade contínua de recrutamento de homens e de pessoas para a frente de guerra, e que isso estava, ao fim destes quatro anos e meio, a causar já finalmente um desgaste interno por parte da população russa. Neste momento, há este contexto, de certa maneira, em que Vladimir Putin tenta dar uma prova de força numa situação em que se pensa que possa estar mais enfraquecido ou pressionado internamente. Este movimento de agora abrir a porta que haja qualquer tipo de negociação com a Europa, ou pelo menos com a Europa como intermediário, acaba por confirmar, de certa maneira, alguns dos movimentos e algumas das declarações dos líderes europeus nos tempos mais recentes. António Costa tinha aberto a porta a essa possibilidade. Vladimir Putin lançou inicialmente um nome um pouco escandaloso de Scholz, peço desculpa. Schroeder, peço desculpa. Sim, foi de Schroeder. Agora fiz confusão, peço desculpa, de Schroeder para ser negociador, uma hipótese que obviamente não poderia ser aceita por parte da Europa. Depois começou-se a falar de um conjunto de nomes, entre os quais Angela Merkel ou até Mário Draghi, que tinham sido avançados como possibilidade. Há aqui uma janela, pelo menos de oportunidade, ou parece haver, para que a Europa possa retomar este caminho de diálogo, pelo menos de intermediar qualquer tipo de negociação entre as duas partes e tentar perceber de que forma é que se pode finalmente avançar para uma negociação de paz mais duradoura e que possa caminhar no sentido de terminar com este conflito horrendo que dura há tanto tempo.

Angela Merkel, não sei se já tínhamos falado aqui os dois sobre isso, ela é uma pessoa que conhece bem Vladimir Putin. Ela aqui há pouco tempo até tinha dito que poderia ter feito mais para evitar este conflito. Estas duas partes, Europa e Rússia, precisariam de uma figura que neste momento é externa, porque com os atuais líderes europeus é difícil manter esse contacto?

Há outras hipóteses. O presidente finlandês tem sido bastante vocal também na disponibilidade para poder ter esse papel ou poder assumir esse papel no futuro, mas Angela Merkel tem a vantagem, pelo menos em relação àquilo que são os líderes em exercício, de não estar num cargo em funções, e portanto pode ter a vantagem de não estar comprometida com aquilo que é a política nacional do país que poderia estar a representar e aparecer como uma entidade independente, fora do exercício de funções e que poderia dar alguma credibilidade. Obviamente que Merkel teve alguns momentos de controvérsia naquilo que era a sua relação com a Rússia, a questão do Nord Stream, de que se falou, o facto de não ter preparado a Alemanha para uma maior autonomização da dependência energética que tinha em relação à Rússia, mas não tem, de maneira nenhuma, os telhados de vidro que tem Gerhard Schröder e o envolvimento que Schröder tem com várias empresas estatais russas e a forma como foi, de certa maneira, mediador de vários negócios entre parceiros europeus e a Rússia. Angela Merkel poderia aparecer aqui como uma personalidade de grande destaque, com uma credibilidade tremenda junto dos líderes europeus, por todo o papel que desempenhou historicamente, e com quem Vladimir Putin se poderia entender e respeitar e poderia ter aqui uma palavra a dizer muito significativa na aproximação entre as duas partes, em particular entre a Rússia e a Ucrânia, e mediar a aproximação entre os dois.

O presidente ucraniano diz que a guerra vai durar mais seis meses. A Ucrânia está a preparar-se para isso. Pede a Donald Trump mísseis para travar os ataques russos. Ainda há pouco falávamos desses ataques. Os Estados Unidos, João, ainda estão nessa de se preocuparem com a Ucrânia a esse ponto, ao ponto que Zelensky quer?

Sim, parece difícil vislumbrar essa preocupação e essa disponibilidade americana de continuar a ajudar a Ucrânia do ponto de vista militar. Obviamente, as atenções americanas estão completamente viradas para o Golfo Pérsico, para o Estreito de Ormuz, para a grande embrulhada, digamos assim, em que os Estados UnidosEstão metidos em toda aquela região e obviamente é difícil, até do ponto de vista estratégico, daquilo que tem vindo a ser a abordagem de Donald Trump e de toda a sua administração em relação às relações com a Europa, em relação àquilo que são os interesses estratégicos dos Estados Unidos, é difícil encaixar a Ucrânia como sendo um fator de prioridade para a política externo-americana neste momento, o que é obviamente lamentável e que dificulta, de certa maneira, esse entendimento e essa possibilidade dos Estados Unidos ajudarem. Portanto, aqui pode mais uma vez a Europa, que não está tão envolvida ou que não está envolvida de uma forma direta no conflito com o Irão e que continua a ter a Rússia como a principal ameaça à sua segurança e estabilidade interna, pode ou deve, de certa maneira, aumentar os seus esforços e o apoio militar à Ucrânia de uma forma mais direta.

E seguimos nesse sentido com o conflito iraniano, que permanece no habitual impasse. Já falamos nisso aqui há várias semanas, há sempre contradições. Hoje o Irão diz que recebeu um esboço de um acordo em que havia duas propostas fundamentais, portanto, o Irão restauraria o tráfico marítimo comercial no Estreito de Ormuz, enquanto os Estados Unidos retirariam as forças militares das proximidades do Irão e suspenderiam o bloqueio naval. A Casa Branca diz que este documento é pura ficção, mas diz que está tudo bem encaminhado. Estas condições, pergunto eu, não seriam até aceitáveis?

Essas condições, no fundo, seria o regresso àquilo que...

Que havia antes

menos anteriormente, antes deste ataque, exactamente. E portanto, isso seria aquilo que seria mais ou menos normal ou aceitável, porque eram essas as condições. No fundo, o direito internacional não permite o controle do Estreito de Ormuz, aquilo são águas internacionais, tem que haver uma liberdade de circulação e de navegação e ninguém pode ter controle sobre as rotas comerciais marítimas. Isso está bastante claro e bastante definido. Agora, os Estados Unidos é que não podem, parece-me a mim, aceitar sair deste conflito com uma condição semelhante àquela com que entraram, porque obviamente isso, primeiro, não permite Donald Trump vender todo este envolvimento como sendo uma vitória, porque isso era apenas o regresso ao status quo e eu acho que o presidente americano precisa de conseguir retirar dali uma vantagem de qualquer tipo, seja ela econômica, política ou militar, pelo envolvimento que os Estados Unidos colocaram neste conflito. E em segundo, porque do ponto de vista da segurança e da estabilidade, sobretudo aquilo que é o seu principal parceiro na região, que é Israel, isso não resolveria o problema que os Estados Unidos e que Israel identificam, que é a ameaça ou a possibilidade de ameaça nuclear por parte do Irão. E portanto, aí continuar-se-ão a concentrar os esforços militares dos Estados Unidos, de enfraquecer ou eliminar a capacidade ou a eventual capacidade nuclear do Irão no futuro e essas condições, e por isso é que eu acho que a administração americana se apressou a desmentir totalmente essa informação veiculada pela televisão estatal iraniana, porque isso não serve, de certa maneira, àquilo que são os interesses no imediato americano e sobretudo do ponto de vista daquilo que é vendável politicamente por parte de Donald Trump.

Certo é que os Estados Unidos voltaram a atacar o Irão, mesmo apesar das negociações de paz entre os dois países estarem a acontecer com a mediação do Paquistão, como sabemos. O Irão já disse que não vai deixar nenhum ataque sem resposta. João, que efeito é que isto pode ter nas negociações, umas negociações que eu acho que até para um especialista em relações internacionais como é o João, é difícil de ler esta situação.

Eu acho que até para a própria administração

Até para a própria administração norte-americana, provavelmente.

Sim, exatamente. Não digo tanto ao nível da liderança política, dos secretários de defesa ou de Estado, mas para o nível técnico das pessoas que estarão a tomar decisões ou a mediar as decisões da administração americana, deve ser muito difícil acompanhar estes sucessivos avanços e recuos com prazos que não são respeitados. Eu acho que isto é evidente e fácil de perceber por qualquer pessoa, que é a partir do momento em que se ameaça. Podemos até fazer uma analogia com uma criança. Se nós dizemos a uma criança para fazer uma determinada coisa e ela não faz e pomos como consequência um castigo, e o castigo depois não é respeitado, a criança percebe rapidamente que tem margem para continuar a fazer asneira porque o castigo não é implementado. E eu acho que isto é uma analogia muito simples, mas que é facilmente perceptível a partir do momento em que os Estados Unidos sucessivamente adiam as consequências que autoimpõem de não respeito por parte do Irão, perdem totalmente a sua credibilidade e portanto acabam por permitir muito maior amplitude de ação ao Irão. Isto obviamente dificulta muito o entendimento entre as partes, a que acresce obviamente este ataque. Mas há aqui um outro fator que eu acho que é importante nós não esquecermos, que é também aquilo que está a acontecer em paralelo e que eu acho que tem uma influência muito significativa por toda a rede de alianças que existe na região, e aquilo que está a acontecer no Líbano, os ataques que Israel continua a desferir no sul do país e a forma como isso também influencia o próprio envolvimento do Irão, porque como sabemos, o Hezbollah conta muito com o apoio iraniano, faz parte da grande rede de apoio xiita e a forma como são entendidas estas alianças, e isso dificulta muito qualquer estratégia de entendimento e de resolução pacífica.

Mesmo tendo os Estados Unidos já avisado Israel para pararem com esses ataques no Líbano, mas Israel não obedece, digamos assim.

Aquilo a que temos assistido é a continuidade desses ataques e intensificação desses ataques e acima de tudo, estamos neste momento perante duas situações que são explosivas. O primeiro é a ocupação de facto que Israel está a fazer do território do sul do Líbano e isso tem ou poderá ter consequências no arrastar do tempo, num futuro próximo, devastadoras. Nós temos um historial muito longo da forma como estas coisas têm repercussões no futuro, porque têm efeitos traumáticos em gerações e gerações que vivem naquele território e que depois levam à continuidade do ciclo de violência entre as partes. E o segundo é, de certa maneira, a instabilidade política que existe neste momento em Israel, a possibilidade de estarmos perante eleições a curto prazo e a possibilidade do governo, que neste momento já é apoiado por partidos mais fundamentalistas, mais extremistas, consolidar o seu poder neste contexto, em que obviamente a guerra é o tema central de toda a política israelita, e dificultar ainda mais que um governo israelita no futuro avance para soluções diplomáticas ou pacíficas de resolução do conflito com os seus vizinhos.

João Albuquerque, muito obrigada por mais uma análise neste Gabinete de Guerra. Até à próxima e resto boa semana.