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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360 esta segunda-feira. A análise é do Francisco Pereira Coutinho, professor universitário e especialista em Direito Internacional. Olá, Francisco, bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Bom dia. Começamos por Zelensky, que diz que esta semana vai fazer novos contactos com mediadores para obter reforços urgentes de defesa aérea. Além disso, volta a acusar Moscovo de falta de vontade para acabar com a guerra. Francisco, com a pressão balística russa a aumentar todos os dias, Kiev ainda tem margem de manobra diplomática junto dos aliados ocidentais ou a capacidade de entrega de intercetores atingiu um limite crítico?
Tudo indica que atingiu um limite crítico, porque os dados que chegam, especialmente dos Estados Unidos, onde esta é uma questão que tem sido bastante debatida a propósito na guerra do Irão, mostram isso mesmo. Aliás, Donald Trump chegou a acusar de traição os jornalistas que estavam a dar essas notícias com base em fontes do próprio Pentágono, porque as notícias que chegam dos Estados Unidos é que os Estados Unidos terão gasto entre 60 e 80% dos mísseis intercetores. Estamos a falar de Patriots e THAAD. O que diz Zelensky é que os aliados, principalmente na Europa, têm alguns stocks ainda, mas precisam desses stocks para o caso de serem atacados, o que não é muito provável, mas Zelensky, acima de tudo, está a preparar o inverno. Eu creio que isso é que é o aspecto essencial, porque ataques no inverno, por exemplo, sobre a rede elétrica ucraniana, podem ter consequências catastróficas. O sistema elétrico ucraniano esteve perto de colapsar nos últimos invernos e a Rússia está, neste momento, a produzir muitos mísseis balísticos, estima-se cerca de 100, e não há aqui uma grande solução. A medida é matemática, porque mesmo que a Lockheed Martin, que produz estes mísseis, os entregasse todos à Ucrânia neste momento, estima-se que esteja a produzir cerca de 50. Portanto, não seria nunca possível. E os stocks, de facto, estão muito em baixo, em resultado do desastre épico que foi esta intervenção militar dos Estados Unidos no Médio Oriente, que levou a que tivessem sido gastos um número enorme de mísseis. Isto está a ter consequências na Ucrânia, porque os Estados Unidos comprometeram-se a vender estes mísseis à Ucrânia, mas já não os têm em número suficiente, nem para eles próprios, no contexto da guerra que, entretanto, ainda não terminaram no Médio Oriente.
Ainda sobre a Ucrânia, já vamos ao Irão. Pristina retirou uma faixa de apoio à Ucrânia depois de Zelensky ter voltado a dizer que não vai reconhecer a independência do Kosovo. Em pleno cenário de guerra, como é que o Francisco interpreta esta posição intransigente de Kiev? Não arriscam entrar as ligações com os Balcãs?
Isto é uma questão jurídica. A questão do Kosovo cria um problema à própria Ucrânia. A Ucrânia nunca reconheceu o Kosovo, porque o precedente do Kosovo foi utilizado pela Rússia para reconhecer a Crimeia e as repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk. A Rússia, que nunca reconheceu o Kosovo, acabou por cinicamente utilizar o mesmo tipo de argumentário para reconhecer um processo de secessão na própria Ucrânia. Aquilo que leva a Ucrânia a não reconhecer o Kosovo são as mesmas razões que levam a Espanha a não reconhecer o Kosovo, por causa da Catalunha, designadamente. Essas são as razões. E Zelensky esteve na Sérvia, em Belgrado, e defende a integridade territorial e a soberania da Sérvia, mesmo sobre uma província secessionista, como é o caso do Kosovo. Isto tem a ver com questões jurídicas e para não prejudicar a própria posição ucraniana à luz do próprio direito internacional. Portanto, isso não me surpreende.
Sobre o conflito entre Washington e Teerão, Trump diz que está a semi-negociar com o Irão, diz que está a levar isto com calma, sem novas ameaças militares. Francisco, Trump parece crer que a pressão económica aumente no Irão, referindo que o país está numa má situação económica. Diz que vai funcionar, que funciona sempre, é como jogar xadrez. Esta postura de pressão gradual é uma estratégia calculada de desgaste. O Francisco também acredita que vá funcionar ou não resta outra alternativa?
Isto foi o que ele disse ontem. É perfeitamente possível que até o fim do dia de hoje esteja a ameaçar com o maior ataque desde a Segunda Guerra Mundial, que era aquilo que ele estava a dizer na semana passada.
Exatamente.
E ele acordou com uma vontade de mudar uma estratégia, ir um pouquinho diferente. Esta estratégia da pressão negocial, da pressão económica, era a estratégia que ele desenvolve desde 2019. E é possível que tenha algum efeito, mas é um efeito a médio e longo prazo, não sei se para o mandato do próprio Trump. E já sabemos que o presidente americano não tem muita paciência e não é o tipo de estratégia que eu associe a Donald Trump. Agora, os Estados Unidos vão ter que tomar decisões muito rapidamente, porque houve uma negociação entre Omã e o Irão para a gestão do Estreito. Agora, o Irão diz que só abrirá o Estreito ao abrigo desse acordo se regressarmos ao memorando, e para isso necessita que os Estados Unidos cumpram aquilo que está no memorando, nos termos que o Irão entendeu que aceitou esse mesmo memorando, estou a falar do memorando de junho. Agora, claro, estas notícias dos intercetores e da diminuição de estoques também prejudicam os próprios Estados Unidos e, portanto, as ameaças de Trump de regressar ao conflito armado estão neste momento muito limitadas pela circunstância de os Estados Unidos já não terem a capacidade bélica que tinham no início do ano e precisarem de, estima-se, dois, três anos para voltarem a tê-la. Isto leva a que Trump, neste momento, esteja numa situação em que tem que sair deste conflito e usa as armas que tem neste momento, e uma arma que tem é o bloqueio, mas é muito provável que tenha que levantar o bloqueio para abrir o Estreito, porque o Estreito é uma espécie de espada de Dâmocles sobre o próprio Trump.
Exatamente.
Porque vai ter eleições em novembro. E nós temos assistido aqui em Portugal às oscilações do preço do combustível, dependendo das negociações.
Ainda hoje, lá está. Sim, estão mais baixos.
Estão mais baixos. Sabe por quê? Porque entretanto surgiram notícias que pode haver um acordo entre Omã e o Irão para abrir o Estreito. Há aqui uma ligação direta em tudo isto E o preço dos combustíveis também é muito acompanhado nos Estados Unidos e vamos ter eleições em novembro. Até novembro vamos ver Trump muito na defensiva, creio eu.
Entretanto, o Irão divulgou este domingo um vídeo raro do líder supremo do Irão sentado a conversar com um grupo de pessoas, mas não é especificado quando, nem onde este vídeo foi gravado. Também no domingo, a Agência Mehr falou no encontro entre Khamenei e o presidente do Irão. Francisco, podemos confiar em tudo isto? Não será apenas uma forma de projectar estabilidade e controle no momento em que a liderança iraniana está sob forte pressão militar e econômica?
Isso de certeza. Eu vi o vídeo e todas as indicações que existem é que aquele vídeo é um vídeo gravado há muito tempo.
Há muito tempo, sim. Ficamos todos com alguma sensação.
Há a expectativa de que Ali Khamenei está vivo, mas ficou ferido no ataque do início de março, que aliás vitimou o pai, a mulher e filhos. E desde aí não foi visto nem ouvido. Esta é que é a parte interessante. Há notícias de que se terá encontrado com o presidente do Irão, Pezeshkian, num carro.
Mas que estaria todo tapado.
Todo tapado por razões de segurança. Isto no imaginário religioso xiita faz lembrar um pouquinho a figura do imã oculto. Será uma espécie de imã oculto que fala através, neste caso, da Guarda Revolucionária e, aparentemente está-se a criar aqui uma cortina à volta de Khamenei. Agora, ele tem falado através de alguns comunicados, inclusivamente sobre o próprio memorando, em que ele disse que aceita com muitas reservas, etc. Isto mostra bem a dificuldade que existe neste momento em negociar com o próprio Irão, porque não há uma cadeia de comando muito clara. Ele é o líder supremo, mas de facto ninguém o vê nem o ouve, pelo menos publicamente.
Falemos também de Gaza. O enviado do Conselho de Paz confirma que Israel só irá sair do enclave depois do desarmamento do Hamas. E o Hamas pede a intervenção dos Estados Unidos contra o bloqueio de Netanyahu a este plano de paz. O acordo promovido por Washington está em risco de colapsar antes mesmo de sair do papel, Francisco?
É que não há acordo, pelos vistos, porque esse é que é o ponto. Donald Trump anunciou um acordo. Como referimos há bocado, está mortinho para mudar a página no Irão. A certa altura, há uma semana, veio dizer que havia um acordo em Gaza. O que é que percebemos ontem? Que não havia acordo nenhum, porque o Hamas aceitou a proposta americana, mas não Israel, que ainda por cima está num processo eleitoral. O que se passa aqui muito rapidamente? Nós temos um memorando assinado em outubro que prevê o desarmamento do Hamas. Só que o Hamas veio dizer que só desarmava se Israel retirasse de Gaza. Ora, Israel disse que só retirava se o Hamas desarmasse. O que os Estados Unidos vieram propor? Vieram propor que isto fosse feito, e esta é a parte importante, faseadamente. O Hamas entregava algumas armas, Israel começava a recuar. O Hamas, entretanto, aceita isto, mas Israel não aceita. E não aceita porque este plano de 15 pontos que foi apresentado pelos americanos, o primeiro ponto diz que o objetivo é criar as condições para um Estado palestiniano com uma força internacional em Gaza. Eu creio que isto é a solução para o problema de Gaza. Só que Netanyahu, neste momento, não pode aceitar isto, porque ir para eleições com o exército de Israel a sair de Gaza com o Hamas ainda governando Gaza, isto é a prova de que esta intervenção militar não acabou, como ele sempre prometeu que acabaria, e sobre a qual falamos bastante neste programa, que seria com a eliminação do Hamas. Portanto, Netanyahu não quer isso.
Vamos ver então no que isto dá. Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Uma boa semana para si, Francisco.
Obrigado.