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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço para análise das principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do investigador de História Militar, Pedro Nascimento. Pedro Nascimento, muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar da Cimeira da NATO. Arrancou na Turquia, é o tema principal deste Gabinete de Guerra. Há muito por analisar e vamos começar com palavras de Ursula von der Leyen, que avisa que a União Europeia espera obter retorno do investimento em defesa. Pedro Nascimento, de que forma é que isso é possível?
Boa tarde, José Rafael. Boa tarde a todos os ouvintes. Eu diria que esse retorno pode existir em duas dimensões. A primeira é econômica, naturalmente. Se a Europa investir mais na indústria da defesa, isso significa mais emprego qualificado, mais investigação, mais inovação. Aliás, basta percebermos que muitas tecnologias que utilizamos diariamente, como por exemplo o GPS ou o radar, nasceram precisamente de projetos militares. Portanto, temos aqui essa componente. Mas há um retorno que talvez seja ainda mais importante, que é o estratégico, porque reparemos, por exemplo, a guerra da Ucrânia mostrou que a Europa já não tinha uma capacidade industrial para sustentar um conflito prolongado. Durante muitos anos, nós sabemos que a Europa se preparou para missões de paz, mas não para guerras com esta intensidade. Por isso é que tive a oportunidade de ver, por exemplo, e de ouvir declarações de Mark Rutte quando falava numa revolução industrial da defesa, mencionou hoje, isto não é apenas comprar mais armamento, é reconstruir uma capacidade de produção na Europa, porque isto remete-nos para outros períodos. Quer dizer, esta revolução industrial, normalmente nós quando ouvimos falar de revolução industrial, isto remete-nos para a Inglaterra, não propriamente para questões bélicas, mas se nós fizermos aqui uma análise do passado, estas revoluções industriais aconteceram também nos períodos que antecederam a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. E naturalmente que os países tiveram que se adaptar e perceber que vantagens poderiam tirar daí. Mas reportando-me aqui a este ponto, no fundo, uma Europa com uma indústria de defesa mais forte vai depender menos, naturalmente, dos Estados Unidos, vai ganhar uma autonomia diferente para defender os seus interesses e isto acaba por reforçar a sua soberania. E esse poderá ser, no fim de contas, o maior retorno deste investimento, porque afinal, nós sabemos que as guerras ganham-se primeiro nas fábricas e só depois é que se ganham nos campos de batalha.
Vamos avançar, Pedro Nascimento, falar de Volodymyr Zelensky, está na Turquia. Voltou a defender a possível adesão da Ucrânia à NATO. Há motivos para Zelensky esperar agora um cenário diferente daquele que lhe tem sido apresentado ao longo dos tempos?
Com toda a sinceridade, não. Nem me parece que Zelensky esteja à espera disso. Porque a posição da NATO dificilmente mudará enquanto esta guerra da Ucrânia estiver em aberto. Admitir um país em conflito significaria colocar automaticamente toda a aliança perante o risco de um confronto direto com a Rússia através do Artigo Quinto. Zelensky sabe disso, a NATO sabe disso. O objetivo destas declarações parece-me que é sobretudo político, no sentido de manter viva a perspectiva de adesão, de impedir que o assunto desapareça da agenda. E isto também manda enviar mensagem a Moscou, dizendo que a Ucrânia continua a olhar para Ocidente como seu destino estratégico. É uma mensagem para os aliados, mas é uma mensagem também para Putin. É o que me parece, sinceramente.
Na Turquia, Volodymyr Zelensky pediu também ao secretário-geral da NATO, Mark Rutte, um reforço do apoio à defesa antiaérea. Quer Zelensky que funcione em pleno. Em cima da mesa estão mais mísseis Patriot cedidos à Ucrânia. Este é um pedido que faz sentido?
Este é um pedido que faz todo sentido, porque se há uma lição que esta guerra nos deixou é que a defesa antiaérea passou a ser um dos fatores decisivos dos conflitos, porque de proteger as cidades e as infraestruturas críticas acaba por ser tão importante ou mais do que conquistar território. A Rússia intensificou os ataques com mísseis e drones e a Ucrânia precisa de sistemas capazes de os interceptar e acabou por adaptar-se a essa estratégia. Pode faltar um tanque durante algum tempo, pode faltar aviões de combate, mas faltar antiaéreas pode significar perder cidades ou pode significar milhares ou centenas de milhares de pessoas sem eletricidade. Porque a guerra moderna mede-se cada vez mais pela capacidade de proteger a retaguarda, mais do que ter uma capacidade ou um ímpeto ofensivo que deixe o outro lado completamente desamparado. Por isso, naturalmente que faz todo sentido e creio que vai ser um dos objetivos principais da Ucrânia.
Vamos também falar, Pedro Nascimento, de palavras de Donald Trump, também nesta cimeira da NATO. O presidente norte-americano diz que vai levantar as sanções impostas à Turquia e admite mesmo vender caças F-35 à Turquia. Benjamin Netanyahu já veio discordar abertamente dessa possibilidade. Diz que os Estados Unidos não deviam vender caças F-35 à Turquia. O que é que pode mudar no cenário internacional caso Donald Trump admita e venda mesmo caças F-35 à Turquia?
Rafael, nós temos que perceber que os Estados Unidos têm vários aliados estratégicos na região do Médio Oriente. Mas esses aliados têm interesses que são muitas vezes incompatíveis. E aqui temos um caso desses. Israel vê a Turquia como uma potência regional cada vez mais assertiva na crítica que é feita ao país e não quer naturalmente que a Turquia disponha de uma tecnologia militar muito avançada. E Trump, pelo contrário, nesta sua ambiguidade acaba por, neste momento pelo menos, procurar recuperar uma relação com a Turquia e mantê-la firmemente integrada na NATO. E às vezes é difícil perceber como é possível conciliar estes interesses. Os F-35 não são só aviões de combate. Pela dimensão e por tudo aquilo que representam, é um acesso a uma tecnologia de ponta e de integração militar, e quem recebe os F-35 ganha uma influência completamente diferente dentro da arquitetura de segurança. E por isso Netanyahu reage com preocupação, mas acho que Trump vai continuar a fazer este jogo.
E vamos continuar a falar do presidente norte-americano que teve um incidente diplomático com Giorgia Meloni, a líder italiana. Agora nesta cimeira da NATO, depois de ter acusado Meloni de ter suplicado por uma foto com ele, Donald Trump tentou aliviar, de certa forma, a tensão. Diz que gosta de Meloni e que é uma boa pessoa. Depois do que foi dito, estas declarações de Donald Trump são suficientes para amenizar a questão entre Trump e Meloni?
Eu acho que ser presidente dos Estados Unidos é que é suficiente para amenizar a questão. Se bem que Giorgia Meloni, aqui de um ponto de vista mais pessoal e não de avaliação tão formal, claro que sendo uma mulher vulgo, vox populi, de gancho, naturalmente respondeu a Trump e deixou-o desconfortável. Mas isto naturalmente ajuda a baixar a temperatura, mas não altera o essencial. É que Donald Trump faz uma política de uma forma muito personalizada e vai alternando entre críticas e elogios consoante o momento. Mas a verdade é que o relacionamento entre os países, entre os Estados, assenta em interesses permanentes e não propriamente nestas afinidades pessoais. Por isso estas declarações têm sobretudo um efeito mediático, mas apesar de tudo, as relações entre os Estados Unidos e a Itália não vão ser alteradas por causa destes incidentes.
Pedro Nascimento, temos ainda dois minutos para abordar a situação no Médio Oriente, numa altura em que uma agência britânica diz que pelo menos três navios foram atingidos no Estreito de Ormuz em 24 horas. Em que ponto é que está a situação?
Nós sabemos que o Estreito de Ormuz continua a ser um dos pontos mais sensíveis do planeta. É por demais sabido que mais de um quinto do petróleo transportado por via marítima passa por ali, isto numa perspetiva de análise aos valores totais mundiais. Isso só por si já diz muito, mas o mais importante é perceber que nem sequer é preciso fechar aquele estreito para se provocar uma crise. Basta criar esta perceção de insegurança, porque quando os navios são atingidos, aumentam os prêmios dos seguros, sobem os custos de transporte e tudo isto faz com que os mercados reajam imediatamente. Historicamente, e eu também já tive a oportunidade de dizer aqui no Gabinete de Guerra, quem controla os estreitos controla uma parte significativa do comércio mundial. Isto foi assim com Gibraltar, com o Bósforo, com o Canal de Suez, e hoje o Estreito de Ormuz continua a ser um dos principais instrumentos de pressão estratégica do Irão. E é por isso que qualquer incidente naquela zona tem repercussões que vão muito para lá do Médio Oriente. E talvez este tenha sido um ponto que esta administração americana não tenha ponderado devidamente antes de ter iniciado este conflito com o Irão. Porque na verdade, fica refém disto e independentemente daquilo que se possa dizer, a verdade é que uma análise objetiva obriga-nos a concluir que o Irão tem esta arma e é muito difícil de controlar por parte dos seus inimigos.
Chegamos ao final do nosso tempo, Pedro Nascimento, muito obrigado pela análise que fez a estas questões geopolíticas mundiais. O Pedro Nascimento é investigador de história militar, esteve hoje no Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.