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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Fazemos o ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente e hoje recebemos o Major-General João Vieira Borges. Muito bem-vindo, senhor General. Começamos pelo fato do presidente finlandês ter sugerido hoje um possível encontro entre os líderes da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Rússia na próxima cimeira do G20. Esse encontro está agendado para o final do mês na África do Sul. Seria um encontro importante? Poderia haver resultados concretos a partir deste encontro tripartido aqui sob a alçada da Cimeira do G20?

Muito boa tarde. Seria efetivamente mais uma oportunidade, e será com certeza uma oportunidade, pelo menos de estreitar relações, no sentido de encontrar uma solução, mas uma solução que não seja só ditada pelos Estados Unidos ou só ditada pela Rússia. É evidente que nós estamos a falar do G20. Nem um, nem outro dos dirigentes são muito apologistas do multilateralismo, muito embora esta situação favoreça todos, uma situação de cessar-fogo, mas julgo que até lá temos algum tempo. As questões de Trump estão mais ou menos cedidas, mas o problema de Putin, como eu ia dizer, é sempre a questão do tempo. E portanto, o tempo para encontrar uma solução, temos agora com esta cimeira e daí a Finlândia ter tomado essa posição, porque há algum tempo. Não é marcar uma reunião para o dia seguinte ou para dois dias depois. E eu acho que isso tem condições e até porque haverá certamente pressão de todos os membros do G20 no sentido de encontrar uma solução de cessar-fogo, independentemente da posição da Rússia. Nós sabemos que é negociar em guerra e não fazer o cessar-fogo e negociar depois.

Porque ainda este fim de semana o Kremlin disse que não via grande utilidade no novo encontro entre Trump e Putin. E pegando no que o senhor General está a dizer e que nos está a explicar, no fundo, Putin precisa de algum tempo para conseguir não só alinhar ideias e exigências, até que internamente esse tempo é importante para os russos, é isso?

Sim, também há aqui uma grande questão desde o início relativamente ao cessar-fogo. Já percebemos, até pelas pressões que Putin vai fazendo e Lavrov, que tem a ver claramente com isto. Portanto, o Donbass tinha que ser todo ocupado, faz parte dos objetivos político-militares. E, portanto, enquanto não estiver e não está, a questão coloca-se sempre na imposição de cedência de território não ocupado, o que está implícito que aquilo é um objetivo fundamental para a Rússia. E portanto, se olharmos para os grandes objetivos delineados no início da guerra, a desmilitarização, a desnazificação e a conquista de Donbass, como o Donbass ainda não está conquistado ao fim de três anos, há um entendimento de que nunca será uma vitória enquanto não conquistar a totalidade do Donbass. E, portanto, o tempo que ele quer, nós sabemos, que é exatamente para a conquista daquela região na sua totalidade. E portanto, aquilo que tem estado a fazer é a própria reorientação do esforço militar nesse sentido. É fácil para nós militares acompanharmos onde está o esforço neste momento, ao longo de toda aquela fronteira. É exatamente no sentido de libertar o Donbass na sua totalidade.

Entretanto, a Bloomberg avançava que estaria a ser elaborada uma proposta europeia com 12 etapas para tentar colocar um fim à guerra na Ucrânia. Volodymyr Zelensky diz que não tem conhecimento desse plano, ainda não viu esse plano. Alegadamente, este plano poderia incluir, por exemplo, o retorno de crianças ucranianas, trocas de prisioneiros, também, obviamente, garantias de segurança para a Ucrânia. Este esforço que a Europa poderá estar a fazer, seria um esforço melhor para o final da guerra, ou seja, neste sentido, ou é inevitável que o final da guerra terá de ser decidido por Estados Unidos e por Donald Trump? A Europa pode ter aqui um papel mais decisivo?

Não, a Europa tem um papel de pressão política. Todas as soluções que apresentar são positivas. No entanto, voltamos sempre à grande questão. Acabou de referir vários aspectos que podem vir no acordo, mas o mais importante é sempre o aspecto territorial, a questão do Donetsk estar ocupado, como eu dizia há pouco. E portanto, para Putin, já percebemos que isso é que é fundamental. Por muitas propostas que se façam, elas têm importância no sentido de pressionar. Pressionar tanto Trump, como pressionar, sobretudo, Putin. No entanto, a Europa não tem um peso específico, no sentido de pressionar só essas duas partes. Tem também peso para pressionar, e isso é que é importante, também Zelensky a ceder em algumas partes, designadamente em algumas componentes territoriais. E portanto, o parar a guerra onde está neste momento a fronteira militar, entre aspas, não é aceitável para Putin. Ele quer sempre a conquista do Donbass no seu conjunto, em particular do Donetsk, porque Lugansk já está conquistado na prática. Portanto, anda mais por aqui do que propriamente depois noutras questões, porque isso é que é o grande trunfo. Eu ouvia hoje inclusivamente o presidente do comitê militar, um almirante italiano, a referir que obviamente Putin não ganhará estrategicamente a guerra. Ele é o presidente do comitê militar da NATO, o general Filippo Marini. Haverá sempre uma derrota estratégica pro líder do Kremlin, apesar dos pequenos avanços das forças russas no campo de batalha. Tem muito a ver com isto e, portanto, para Putin, essa é uma questão fundamental. Ou seja, o Donbass, que foi o início de toda a operação, tem que ser conquistado. Ao fim de três anos e meio, ainda não conquistaram o Donbass, independentemente de terem conquistado mais dois oblasts na sua quase totalidade. E, portanto, este é um ponto de honra, já percebi desde o início de todos os discursos de Putin, é um ponto de honra de todas as condições de negociação. Agora, aquilo que referiu há pouco, eu não considero que seja importante a Europa, embora a decisão será sempre entre Trump e Putin, na minha perspectiva, até porque esse processo foi iniciado com a sua tomada de posse. É um dos objetivos de Trump resolver a guerra e, portanto, obviamente que Putin também só quer conversar com Trump, não quer conversar com o Zelensky, não quer conversar com os europeus e a questão da China também não se coloca aqui, já percebemos, independentemente da pressão de Trump sobre Xi Jinping no encontro que tiveram.

Senhor General Vieira Borges, também temos de falar do Médio Oriente neste gabinete de guerra da Rádio Observador e a Turquia hoje recebeu vários líderes da diplomacia de países árabes para discutir o cessar-fogo na Faixa de Gaza. O encontro, entretanto, já terminou. O ministro turco dos Negócios Estrangeiros deu uma conferência de imprensa onde, no fundo, veio pedir a Israel que cumpra o cessar-fogo com o Hamas. É Israel que está a falhar no que foi acordado?

Israel está a falhar, claramente, no que foi acordado, mas também tem sempre uma justificação. Portanto, o ataque a qualquer dos seus elementos e a morte já de alguns militares israelitas, independentemente de, por vezes, serem ataques que não são reivindicados pelo Hamas, de combatentes, eventualmente até de outros movimentos terroristas, Israel não perdoa e responde sempre a qualquer ação e justifica. Portanto, depois volta novamente a situação de cessar-fogo. O que nós precisamos aqui, e por isso é que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia pressionou, o que precisamos é da tal força de interposição e que ainda por cima Israel não quer a Turquia na força e a Turquia era também, na minha perspectiva, digamos, a força com maior capacidade, não só capacidade militar para fazer como força de interposição, mas sobretudo relativamente ao Hamas, a ligação que tem para o desarmar do Hamas.

Podia ser uma força mais equidistante, uma força militar turca ou essencialmente turca?

É muito complicado para Israel aceitar a Turquia naquele espaço a partir do momento em que a Turquia, desde o início do conflito, tomou uma posição relativamente a Israel, cortou relações e com um discurso sempre muito crítico relativamente a Israel, ou pelo menos a este governo de Israel. E eu tinha-o dito quando chamaram a atenção de que a Turquia iria pro terreno. Eles nem aceitaram sequer a Turquia no terreno naquilo que foi pedido para a recuperação dos corpos, tendo em conta a experiência que a Turquia tem de terramotos e tem umas forças de intervenção muito importantes nesta área. E nem isso aceitaram, quanto mais aceitar a Turquia no terreno. Agora, a Turquia tem um peso muito específico, não só neste conflito, mas também, já agora, no conflito da Ucrânia.

Exatamente. No fundo, Erdogan tenta marcar pontos em todo lado, não é?

Exatamente.

Tenta ser um fiel da balança no meio disso tudo.

A Turquia esteve ao lado do Qatar e no Egito nas negociações. A Turquia não foi esquecida por Trump quando fez aquele pré-acordo nas Nações Unidas com os vários países, estava a Turquia. E a Turquia foi importante pra pressionar o Hamas pra paz. Eu acho que devia haver uma contrapartida. Mas a Turquia, cá está, é um país da NATO, independentemente dos seus interesses regionais e da sua relação com estes movimentos terroristas, o que era importante para uma rendição ou desmilitarização, como queiramos. Não sendo a Turquia, não vai ser fácil encontrar outro país. Nós sabemos que países da Ásia estão a ser contactados, mas é muito difícil ter um país com peso específico no relacionamento, sobretudo com o Hamas, pra depois cumprir a missão. Vamos ver. Agora, o ministro dos Negócios Estrangeiros, se me permite, que é importante, também dizia que estava mais próxima também a paz na Ucrânia, que se disponibilizava exatamente para esse acordo de paz, com um discurso também muito interessante, no sentido em que eles conseguem aí ter mais pontos com a Rússia e simultaneamente com a própria Ucrânia, o que é muito interessante. Aqui não têm tantos pontos com uma das partes, que é o caso de Israel. Lá mais adiante, certamente que voltaremos à Turquia quando falarmos do cessar-fogo na Ucrânia.

No caso de Israel, que países árabes poderia Israel aceitar, se é que aceita de todo, ter tropas de países árabes na Faixa de Gaza?

Falamos em países árabes e falamos em países muçulmanos. A Turquia não é propriamente um país árabe.

Exatamente.

Isto é importante.

É muito importante.

Portanto, países muçulmanos na Ásia será muito mais fácil para Israel aceitar. Uma Indonésia, uma Malásia, países desse tipo que até estão normalmente empenhados em operações de paz, é muito mais fácil aceitar, porque não estão diretamente envolvidos no conflito. É importante é que sejam aceitos não só por Israel, mas simultaneamente pelo Egito, pela Jordânia, também não vão pôr lá forças, por razões que nós também compreendemos, estão ali na fronteira, e pelo menos o rei da Jordânia já disse que não ia ter ali forças. E eu também acho bem que não tenham. Aqueles países que estão na fronteira não deviam ter ali as forças por razões compreensíveis. Já basta terem as suas tropas nas fronteiras com Israel. Agora, eu julgo que é mais neste sentido. Países asiáticos, acho que Israel irá aceitar, certamente.

Senhor Major-General Vieira Borges, muito obrigado por ter estado mais uma vez aqui no Gabinete de Guerra da Rádio Observador, em que olhamos diariamente para os dois conflitos que vão marcando os nossos dias, o conflito na guerra da Ucrânia e também no Médio Oriente. Muito obrigado.

Muito boa tarde.