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Começa agora o novo Gabinete de Guerra das Manhãs 360, esta segunda-feira com a análise e opinião do professor Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE da Academia Militar. Olá, Bruno, bom dia. Bem-vindo.

Bom dia. Obrigado.

Bom dia, Bruno. Começamos pelas eleições na Turquia, que estão muito provavelmente a caminho de uma segunda volta, mas as sondagens não se confirmaram. Erdogan tem o pior resultado de sempre, mas o líder da oposição fica também numa situação difícil. Do ponto de vista da Europa e do conflito na Ucrânia, Bruno, o que é que pode mudar mesmo que Erdogan confirme uma vitória na segunda volta?

A expectativa de mudança era mais com uma possível vitória do candidato da oposição. Ora, realmente, é verdade que o Erdogan tem o pior resultado basicamente desde que passou a dominar a política turca há 20 anos, mas apesar de tudo, a sua coligação parece ter tido um bom resultado nas eleições parlamentares, portanto será dominante no novo Parlamento e apesar de tudo, a verdade é que Erdogan não perde, tem de ir a uma segunda volta, mas parte para essa segunda volta em vantagem, tanto mais que o terceiro classificado é um candidato da ultradireita radical nacionalista e portanto, apesar de tudo, parece mais próximo das posições de Erdogan do que propriamente da oposição, até porque a oposição acabou por fazer uma espécie de acordo tácito com os curdos. Mas realmente em termos de implicações para a política externa da Turquia, havia a ideia e havia declarações do próprio líder da oposição, deste candidato da oposição, a dizer que tencionava fazer uma viragem de 180 graus, que queria realmente voltar-se novamente muito mais para o Ocidente, que considerava como prioritário as relações no seio da NATO e portanto havia a expectativa, por exemplo, de que houvesse rapidamente uma ratificação da adesão da Suécia. Apesar de tudo, a verdade é que mesmo o candidato da oposição tinha também deixado claro que não queria ter más relações com a Rússia. A Rússia é na prática, um país vizinho muito próximo da Turquia. Há relações económicas muito importantes. A Turquia está no meio de uma crise económica muito séria e portanto também não haveria aí uma mudança completa, mas as expectativas de mudança eram sobretudo aí. No caso de Erdogan vencer a segunda volta, que é o cenário neste momento mais provável, poderemos esperar provavelmente mais do mesmo. Apesar de tudo, teremos de ver. É possível que, por exemplo, houve especulação de que ele poderia, em relação à Suécia, estar a usar isto sobretudo como arma eleitoral, para mobilizar os votos mais nacionalistas e que depois poderia ter uma postura mais pragmática em troca de algumas cedências, por exemplo, garantias de armamento sofisticado norte-americano que a Turquia tem procurado, como mais F-16. Teremos de ver, mas a expectativa é que o mais provável será realmente Erdogan continuar no poder e sendo assim terá o mesmo tipo de política externa basicamente que tem tido nas últimas décadas, ou seja, procurar tirar o máximo partido da posição geoestratégica da Turquia, que ganhou importância acrescida com a invasão da Ucrânia por causa de ser a Turquia que controla o acesso ao Mar Negro, que é também um dos palcos da guerra, embora nós geralmente lhe prestemos menos atenção, é um palco importante também da guerra, inclusive também da guerra comercial, na questão dos cereais, e ao mesmo tempo manter-se no seio da NATO, mas procurar tirar vantagens também de relações com a Rússia e até com a China e com potências mais hostis ao Ocidente.

Entretanto, Bruno, Prigozhin propôs à Ucrânia em janeiro informar Kiev sobre a posição dos soldados russos se o governo Zelensky retirasse os soldados ucranianos dos arredores de Bakhmut. A informação é divulgada pelo Washington Post, que teve acesso àqueles documentos confidenciais do governo americano tornados públicos em abril. Isto pode mesmo ter sido uma possibilidade? Para o cidadão comum faria pouco sentido, mas em teatro de guerra vale mesmo tudo e os interesses alteram-se a cada momento?

Isto é realmente uma informação extraordinária e sendo verdadeira, temos aqui esta questão de que é, à partida, informação secreta, que não era suposto vir a público. Obviamente não quer dizer, apesar de tudo, que seja necessariamente verdadeira, como eu tenho sempre chamado a atenção, não é pelo facto de estar lá secreto que as fontes são fiáveis, mas a ser assim, realmente isto seria um exemplo, ou seria o comprovar do grau extremo de guerra entre o grupo Wagner e o líder do grupo Wagner e o Ministério da Defesa e as forças regulares, as forças convencionais, as Forças Armadas da Rússia propriamente ditas, porque realmente seria algo extraordinário e não é normal. No contexto de uma guerra, vale tudo ou quase tudo, mas entre um lado e o outro. Agora aqui estamos a falar praticamente de uma guerra civil, ou seja, nós já tínhamos muitos sinais, até públicos, das enormes tensões, da enorme rivalidade entre o grupo Wagner, estes grupos de mercenários e as forças regulares e o Ministério da Defesa e as Forças Armadas da própria Rússia. Agora realmente isto é levar isso a um ponto extraordinário. No fundo, seria Prigozhin, em troca de conseguir uma vitória em Bakhmut, garantir maus A par disso, maus resultados, derrotas das forças regulares russas noutros sítios, o que só fazia sentido obviamente do ponto de vista da promoção da própria carreira política de Prigozhin, agora mais uma vez a um nível que realmente poria em causa os próprios objetivos de guerra russos. Portanto, é realmente uma informação absolutamente extraordinária e não pode ser simplesmente descartada, porque realmente, como eu digo, temos tido muitos sinais destas tensões, destas guerras, declarações críticas de Prigozhin praticamente dia sim, dia não, todas estas queixas sobre o facto do grupo Wagner estar a ser estrangulado em termos da sua logística, porque depende, obviamente, do abastecimento, nomeadamente de munições das Forças Armadas russas. Tudo isso, no fundo, dá alguma credibilidade a esta informação, mas ela não deixa realmente de ser extraordinária.

Bruno, agora as visitas de Zelensky este fim de semana, depois de Itália seguiu para a Alemanha, esteve em Paris, agora em Londres, mas começamos pelas duas primeiras, onde reuniu na Alemanha, sobretudo com Olaf Scholz. O encontro saiu uma nova ajuda, essencialmente em material de combate e o reforço que a Alemanha vai apoiar à Ucrânia. O tempo for preciso, nas outras igualmente. Estas viagens são, para além do apoio, claro, sobretudo mensagens para Vladimir Putin.

São mensagens para Vladimir Putin, portanto, tem aqui uma dimensão diplomática importante. E a diplomacia, a política externa é muito importante num contexto de guerra. Também por isso, também para sinalizar a inimigos, adversários, aliados, qual é o sentido da evolução das relações. Para a Ucrânia, o apoio de uma coligação muito ampla é absolutamente indispensável, porque a Ucrânia tem aqui uma assimetria de base enorme com a Rússia. É um país mais pequeno, com menos população, com menos riqueza, com menos recursos. Tinha uma desproporção de 10 para um em termos das principais capacidades militares quando esta guerra começou e, portanto, este apoio é crucial. Agora, isto não é apenas mais uma visita ou uma visita de rotina. Os anúncios que têm estado a ser feitos, nomeadamente anúncios concretos, são extremamente significativos, sobretudo no caso da Alemanha. Basicamente, o que este anúncio alemão significa é que a Alemanha vai dar agora, e portanto a um ritmo mais intenso, basicamente o mesmo valor de ajuda que deu durante todo este período de mais de um ano à Ucrânia. Isto tendo em conta que há um ano atrás, ou enfim, há pouco mais de um ano atrás, em fevereiro de 2022, quando a invasão russa começou, a Alemanha estava a fornecer capacetes à Ucrânia e demorou muitos meses, como sabemos, alguns meses a passar para a fase em que admitia fornecer equipamento militar que pudesse ter minimamente alguma função ofensiva. Portanto, é realmente um anúncio muito significativo. Mesmo no caso da França e da Grã-Bretanha, os anúncios não têm a mesma escala, mas são muito importantes. A França anunciou que vai fornecer mais destes blindados ligeiros que já tem estado a fornecer e reforçar também o treino, portanto, para criar novos batalhões blindados com esse equipamento francês. Os britânicos anunciaram também que a par destes novos mísseis de mais longo alcance, vão também fornecer drones de ataque com o mesmo alcance, também com alcance até 200 km. Tudo isto são anúncios muito importantes para moralizar também os ucranianos neste momento bastante decisivo da guerra, mas também para garantir que nos próximos meses continuará a chegar, e que já está a chegar, mais equipamento, equipamento de maior alcance, que será fundamental para sustentar este esforço de guerra ucraniano. Podemos especular que isto pode ter alguma coisa a ver com o facto de dos Estados Unidos, as notícias não serem assim tão boas, não por haver qualquer mudança da política do presidente Biden, mas porque temos sinais crescentes de que é bem possível que realmente Donald Trump seja o candidato com mais hipóteses de vir a ganhar as primárias republicanas e, portanto, isso significa, no contexto de bipolarização da política americana, que Donald Trump tem hipóteses de voltar a ser presidente em 2024. E aí os sinais que ele tem dado e continua a dar realmente em relação ao apoio à Ucrânia são tudo menos conducentes a que a Ucrânia fique descansada em relação a essa possibilidade. E já agora também os principais países europeus, que no fundo veem nesta guerra não só uma forma de defender e ajudar a Ucrânia, mas também uma forma de conter uma postura da Rússia cada vez mais agressiva e ameaçadora também para outros países europeus e não apenas para a Ucrânia.

Zelensky garantiu ainda que a Ucrânia não está a atacar o território russo, é mesmo a frase dele: "Não temos tempo nem força para isso". E vem mais uma vez na sequência de documentos secretos norte-americanos que descrevem reuniões privadas em que o presidente ucraniano terá mesmo sugerido a escalada de conflito com a ocupação de aldeias russas e até um ataque ao oleoduto na Hungria. Estas notícias podem ser de alguma maneira vistas como mensagens estratégicas, condão informação, como acontece muitas vezes em cenário de guerra, ou são mesmo as intenções de Zelensky, sabendo que cada aldeia conquistada é um duro golpe para o Kremlin?

Eu acho que é assim, temos que ter aqui a noção de que isso são discussões em privado, não era suposto virem a público, e que é normal que no contexto de guerra se discutam vários cenários. E também é normal, até humano, que num contexto de guerra, nós estamos desde o início com este paradoxo, mas que é um paradoxo que corresponde a uma realidade estratégica, que é o facto de a Rússia ser nomeadamente uma potência nuclear. Mas temos este paradoxo desde o início, que é a Rússia exige o direito a poder invadir sem ser incomodada um país vizinho, ou seja, exige o direito de poder invadir a Ucrânia sem que o seu próprio território depois seja atacado. E realmente isso é uma coisa extraordinária num contexto de guerra. Até porque esses ataques estão basicamente a ser organizados, abastecidos, municiados, enfim, a partir obviamente do próprio território também da Rússia. Mas a verdade é que a pressão dos países ocidentais tem sido sempre nesse sentido E Zelensky sabe isso. Também sabe, certamente, que essas notícias vieram a público e, portanto, eu leio esta notícia e estas declarações como uma forma, no fundo, de descansar os líderes ocidentais de que essas ideias não serão para levar adiante. Apesar de tudo, temos tido alguns ataques que podemos suspeitar que pelo menos alguns deles terão origem na Ucrânia ou em grupos pró-ucranianos, ou este tipo de ataques com drones no interior do próprio território russo. Ainda agora, a uma base aérea muito importante no norte da Rússia. Mas isso são ataques com drones que são distintos, no fundo, desta ideia de ataques militares terrestres contra o próprio território da Rússia. Isso eu acho que realmente seria uma escalada. Lá está, objetivamente, em termos do que seriam as práticas normais numa guerra, ignorando tudo o resto, não seria nada de excepcional, seria uma resposta à agressão russa, seria eventualmente uma forma de procurar ter aqui depois instrumentos negociais, mas realmente seria uma escalada e aí realmente temos este dado base que é: a Rússia é uma potência nuclear, tem armas químicas, tem armas biológicas e, portanto, tudo que seja correr o risco de uma escalada tem de ser muito bem ponderado e portanto, até agora a posição dos países ocidentais, e eu creio que bem, tem sido opor-se a essa ideia. Certamente não a ataques terrestres e à ocupação por tropas ucranianas, território também da própria Rússia.

Bruno, foi também em Berlim que Zelensky voltou a pressionar o Ocidente ao dizer que a União Europeia não estará completa sem a Ucrânia. O contrário também se pode dizer, ou seja, a Ucrânia dificilmente existirá sem o Ocidente?

Essa é uma questão que claramente está em cima da mesa, até porque a própria Ucrânia recebeu o estatuto de país candidato. E portanto, é normal também que Zelensky continue a insistir nesse ponto, até porque ele também é importante internamente, em termos da moralização da população, dar aqui um certo horizonte de esperança. Eu acredito que realmente, hoje em dia está aceito, e daí o estatuto de país candidato, que a Ucrânia deverá pertencer no futuro à União Europeia. Agora, há problemas práticos, os normais num processo de adesão, que é sempre demorado, que implica grandes mudanças na legislação, alterações na economia. Portanto, nós próprios passamos por esse processo, também numa fase muito importante da história portuguesa, de consolidação da democracia. Isso não impediu que nós tivéssemos que esperar quase 10 anos, entre 1977, o pedido de adesão, e depois a concretização em 1986. Mas além disso, no caso da Ucrânia, temos a questão de que a Ucrânia é um país muito grande e tem mais de 40 milhões de habitantes, agora não se sabe exatamente quantos, por causa de todos os refugiados, mas seria dos países com mais votos no Conselho Europeu. É um país bastante pobre, é o país mais pobre da Europa, ainda mais pobre que a Moldávia, portanto, isso teria também grandes implicações no orçamento comunitário e nos interesses de outros países, inclusive Portugal, por exemplo, na questão de distribuição de subsídios, etc. E ainda há outros elementos que têm a ver com o facto de ser difícil, havendo a adesão da Ucrânia, não haver adesão de outros Estados que já são candidatos há mais tempo, por exemplo, nos Balcãs Ocidentais, mesmo no Cáucaso. Nós podemos estar a falar de uma adesão de sete ou até 10 novos Estados-membros à União Europeia, portanto, isso tem grandes implicações no orçamento, na governação, na governabilidade da União Europeia. E portanto, eu acho que não é sério, em termos de análise, deixar de sublinhar este aspecto. Há aqui uma mudança importante, com implicações muito grandes e esse processo será necessariamente complicado e demorado, mas é normal que Zelensky continue a pressionar no sentido de o mais possível acelerar isso e garantir ou continuar a garantir o princípio de que sim, a Ucrânia será um membro da União Europeia.

Zelensky esteve também em Paris com Emmanuel Macron. Além de ficarmos a saber que a França está a preparar o envio de dezenas de blindados, os dois líderes concordaram em aumentar as sanções à Rússia. Que mais sanções podem ser infligidas à Rússia? E já agora, Bruno, as que existem estão a ter alguma real eficácia?

Esse é um grande tema na agenda da Cimeira do G7, no Japão, daqui a uns dias. O G7 é o clube das principais economias ocidentais, junta a União Europeia, os Estados Unidos e depois também várias das principais economias europeias, a Alemanha, a França, a Grã-Bretanha, depois também o próprio Japão. E põe-se também realmente essa questão, que é o que mais se pode fazer. A ideia parece ser basicamente inverter um pouco a regra, que é basicamente excluir todas as exportações russas, exceto algumas coisas que estão explicitamente enumeradas. Parece também ser, e isso seria até, do meu ponto de vista, o mais importante, criar mecanismos de monitorização, por exemplo, de aumentos muito significativos de importações de países vizinhos próximos da Rússia, países como, por exemplo, a Arménia, que aumentaram mais de 200%, por exemplo, também as suas exportações para a Rússia e aumentaram muito as importações de produtos ocidentais. Portanto, perceber o que poderá ser o país que servem aqui de forma de contornar as sanções. Agora, a verdade é que algum impacto está a ter. Não é por acaso que a Rússia insiste muito na questão das sanções, ameaça, por exemplo, a questão do acordo de cereais por causa das sanções. E temos dados, por exemplo, que em termos da energia, de venda de petróleo e de gás, os lucros russos caíram quase 50% no primeiro trimestre deste ano, o que obviamente tem um enorme impacto depois no próprio orçamento de Estado e, portanto, também na quantidade de dinheiro que está disponível para apoiar o esforço de guerra. Portanto, aqui a questão é: as sanções estão a ter impacto? Estão. Estão a ter até um impacto significativo. Agora, as sanções económicas demoram sempre tempo, nunca têm um impacto instantâneo e, por si só, nunca levam ao fim de um conflito. Portanto, podem dificultar a vida a um ou vários dos beligerantes, mas se realmente para esse país a questão é suficientemente importante para justificar o uso da força, não é apenas pelo custo económico, por um maior custo económico, que esse país subitamente vai abandonar uma guerra que já iniciou. E portanto, há sempre essa limitação de base das sanções. E depois também esse aspecto que é para terem real impacto, também precisam de tempo e, portanto, não é realista esperar que tivessem um efeito ao fim de poucos meses e mesmo ao fim de alguns anos, é um efeito cumulativo e que tem de ser pesado em função também da importância que têm os objetivos que estão a ser prosseguidos pela via militar, pelo país que está envolvido no conflito.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada por ter estado conosco em mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia, Bruno.

Bom dia, obrigado.

Obrigada. Rádio Observador