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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre a situação no Médio Oriente. O Irão diz que o Estreito de Ormuz apenas será aberto quando os Estados Unidos aceitarem os termos de Teerão. João Albuquerque, não é a primeira vez que vemos o Irão ter este tipo de discurso e também não é a primeira vez que os Estados Unidos escolhem ignorar estas palavras de Teerão e seguir com o bloqueio que está neste momento em vigor. Que solução existe quando nenhuma das partes aparenta estar pronta para dar o braço a torcer?
Boa noite, Rafael, e boa noite aos ouvintes da Rádio Observador. Eu acho que a pergunta que se coloca neste momento e que eu acho que deve estar na cabeça de toda a gente é: então pra que serviu esta guerra? Pra que serviu esta invasão americana e este início deste conflito? Nós estamos aqui, parece-me, perante um dilema de difícil resolução, em que nenhuma das partes parece querer ceder e nenhuma delas está em condição de ceder, na verdade. O Irão tem tido o tempo como aliado e tem jogado com o tempo como seu grande fator de favorecimento, porque obviamente, qualquer prolongamento no tempo do bloqueio do Estreito de Ormuz nós vimos que tem como consequência repercussões muito significativas na economia mundial e toda a pressão que isso coloca sobre os Estados Unidos, que é um país menos afetado de todos os eleitores americanos, inclusivamente a própria base eleitoral de Donald Trump começa hoje a manifestar-se contra esta guerra e contra as suas consequências. E do lado da administração americana há uma impossibilidade, obviamente, de aceitar as condições impostas pelo Irão, porque elas não oferecem garantias de que aquele que é o único objetivo que se vislumbraria nesta guerra e na intenção inicial dos Estados Unidos, que seria o congelamento ou a eliminação da capacidade nuclear de Teerão, não fica assegurado e não fica garantido. E, portanto, há aqui, de facto, a questão que paira no ar é: pra que serviu todo este dilema, quando a situação que nós temos hoje é pior do que aquela que tínhamos anteriormente?
Vamos manter-nos no Médio Oriente, mas abordar também a questão em Gaza. O Reino Unido pede a retirada de Israel da Faixa de Gaza e o desarmamento do Hamas. Israel já disse que não pretende fazê-lo, pelo menos não para já. Há algum país ou alguma força que possa pressionar Tel Aviv a tomar uma decisão diferente?
O primeiro indicador é positivo. Eu acho que ele assinala uma mudança da política externa britânica com a alteração do primeiro-ministro. Nós sabíamos que Keir Starmer, apesar de ter tido aqui e acolá algum apontamento mais crítico em relação a Israel, mantinha aquilo que era a linha tradicional de política externa britânica de apoio considerável a Tel Aviv e a Israel. E, portanto, esta nova liderança de Andy Burnham, de facto, mostra aqui uma inversão, pelo menos no sentido de criticar de uma forma mais assertiva aquilo que tem sido a ação do governo de Netanyahu. Agora, em termos daquilo que é pressão real ou capacidade de que isso se traduza em ações concretas, aí já tenho mais dúvidas, porque o Reino Unido não é de maneira nenhuma, neste momento, como já foi no passado, como já teve capacidade de ser no passado, um ator com a relevância que tinha do ponto de vista político e do ponto de vista de apoio militar. E, portanto, a sua capacidade de pressionar o regime de Tel Aviv a inverter a sua política externa, em particular na ocupação da Faixa de Gaza, que tem sido aquilo que tem pautado a ação de Netanyahu, que tem afirmado várias vezes que enquanto for o primeiro-ministro não haverá um Estado da Palestina independente, não vejo de que forma isso poderá efetivamente surtir efeito na forma como Israel age. Eu julgo que essa pressão só poderá acontecer e só poderá surtir efeito por via do outro lado do Atlântico e por via de Washington. E mesmo assim, neste momento, com Tel Aviv muito vocal, levantando sem grandes problemas reservas às propostas que os Estados Unidos têm colocado em cima da mesa para Israel e para a sua ação, por exemplo, no Líbano, mas também em toda a Cisjordânia e em Gaza.
Vamos avançar, João Albuquerque, falar também sobre o conflito na Ucrânia, guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Volodymyr Zelensky acusa a Federação Russa de ter utilizado mísseis balísticos norte-coreanos para atacar Zaporíjia. Há diferenças entre o tipo de míssil que a Rússia utiliza para atacar as regiões ucranianas?
Se isso se confirmar, mais do que a diferença nos mísseis, demonstra que de facto a Rússia está numa situação também de grande fragilidade. Não é só a Ucrânia que está com dificuldades do ponto de vista defensivo, têm sido noticiadas nos últimos dias as dificuldades de acesso aos mísseis balísticos Patriot, mas isto demonstra, de facto, que a Rússia também está com dificuldade do ponto de vista ofensivo. Tem sido cada vez mais evidente do ponto de vista humano. A Rússia está com dificuldade de recrutamento e de manutenção do mesmo número de contingentes empenhado na frente de batalha, mas demonstra também que está com dificuldade por via também do enfraquecimento e da fragilização que a Ucrânia tem conseguido levar a cabo nos últimos tempos, que tem afetado muito fortemente a economia russa e não o tem feito de uma forma inocente, tem-no feito de uma forma muito estratégica e direcionada, demonstrando que de facto a Rússia está a necessitar de reforçar O recurso foi a outros aliados e, em particular, neste momento, àqueles poucos que lhe restam. E a Coreia do Norte tem sido um daqueles que se mantém, de certa maneira, acessível à Rússia. Não há muitos que ainda assim o mantenham. Resta saber de que maneira é que isto poderá ter também, por outra via, algum tipo de apoio indireto de outros países. Em particular, pelo menos demonstra que a Rússia está a ter necessidade de recorrer aos seus aliados para ter acesso a outro tipo de armamentos e conseguir desferir ou continuar a desferir ataques diretos à Ucrânia.
Vamos falar ainda de uma outra notícia que envolve a Rússia. Libertou um ex-fuzileiro norte-americano que estava preso desde 2022. Donald Trump já agradeceu a Vladimir Putin. Há aqui, João Albuquerque, alguma dimensão além da libertação deste homem norte-americano?
Vladimir Putin tem sido sempre, ao contrário talvez do seu congener americano, um hábil negociador ao estilo dos grandes príncipes do Renascimento. Tem sido sempre capaz de encontrar as ações e os momentos para exercer uma diplomacia suave que permita amaciar as relações com Washington. Acho que isto é, mais uma vez, numa altura em que os Estados Unidos aprovaram novas sanções à Rússia, o Senado americano aprovou um novo pacote de sanções em honra de Lindsey Graham, o senador falecido recentemente, e que aprovou com uma grande maioria. Acho que isto é um sinal de Vladimir Putin dizendo diretamente a Donald Trump que não pode ser só utilizar, como se costuma dizer, o pau, tem que se também utilizar a cenoura. Portanto, há aqui uma tentativa de aproximação, de apaziguamento de Vladimir Putin, que infelizmente, como sabemos, tem tido sempre a capacidade de surtir efeito junto de Donald Trump, por via da capacidade de resistência a este tipo de ações que o presidente norte-americano tem sempre demonstrado.
Temos ainda dois minutos, João Albuquerque, para falar sobre Bashar al-Assad. O antigo presidente sírio foi condenado à pena de morte. Era um fim esperado?
Eu, por princípio, sou sempre contra a pena de morte, e não há aqui imagem no sentido de achar que se deve abrir exceções. Faz parte da lei do país, mas não nos podemos esquecer aquilo que Bashar al-Assad fez sobre a sua própria população, os ataques com armas químicas que levou a cabo, a limpeza de grande parte da população que levou a cabo, os ataques também à grande parte da população curda. É um fim no qual me revejo por princípio, mas que acabaria por ser inevitável, sobretudo depois da mudança de regime, depois da queda do regime do ditador sírio, e que tem como consequência ter uma medida punitiva exemplar, de certa maneira, apaziguar aquilo que é o passado recente do país, tentando que se possa dar um passo em frente. Agora, se isso será suficiente para que o país possa continuar um caminho, eventualmente, de alguma democratização, de algum apaziguamento, só os próximos tempos poderão dizer. Eu tenho ainda algumas reservas nesse sentido.
E é com essas reservas do João Albuquerque que chegamos ao final do nosso tempo no Gabinete de Guerra. Fica por aqui. Contou hoje com a análise do especialista em Relações Internacionais, João Albuquerque, a quem renovo o agradecimento por ter aceitado este nosso convite. O Gabinete de Guerra regressa amanhã à antena da Rádio Observador.