Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador. A análise dos conflitos no Médio Oriente e no Leste da Europa está hoje a cargo do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Comecemos pelo Médio Oriente. Há um encontro amanhã que vai juntar Benjamin Netanyahu e Jair Pence e que tem no horizonte a segunda fase do plano de cessar-fogo da autoria de Donald Trump. À luz dos recentes confrontos em Gaza e das acusações mútuas de violação do acordo de cessar-fogo, há condições para se avançar para esta segunda fase?

Essa é a grande questão. À partida, de facto, confirma-se que o cessar-fogo é um cessar-fogo relativamente frágil. Isso também não quer dizer que não se possa continuar com as negociações, desde que não haja violações sistemáticas que acabem por pôr em questão a própria ideia de um cessar-fogo, é sempre possível que as negociações avancem. Mas sobretudo é preciso não só negociar, mas mais uma vez chegar a acordo, garantir que todos os lados estão de acordo realmente no mesmo texto e depois começar a implementação. Portanto, eu mantenho aqui o meu ceticismo. Acho que há razões para pensar que há um risco elevado, não é uma certeza, mas há um risco elevado de que, de facto, estes objetivos que são cada vez mais ambiciosos, inclusive agora temos que começar a falar de coisas como o desarmamento do Hamas, que esses objetivos muito mais ambiciosos levantem problemas ainda maiores do que aqueles que já existiram para um cessar-fogo, que em si mesmo não colocava grandes questões técnicas, grandes problemas, era sobretudo uma questão de vontade política das partes e mesmo assim demorou imensos meses a acabar por se concretizar.

Dava aqui conta que tem havido nos últimos dias acusações mútuas de violações do acordo de cessar-fogo. É possível verificar com exatidão qual das partes está a violar este acordo?

Os próprios norte-americanos dizem que não conseguem saber isso exatamente. Apesar de aparentemente já terem algum tipo de observadores no terreno. Depois há este problema, por exemplo, o próprio Donald Trump deu a entender que para já a sua interpretação é que isto não é uma violação pelo Hamas, mas que há aqui grupos, mesmo várias vozes na administração, de que há outros grupos armados. É verdade, desde logo a Jihad Islâmica, inclusive o próprio Hamas, no fundo funciona num sistema de células de rede. Portanto, é muito típico destes movimentos armados resistirem ao desarmamento. No fundo, a violência armada torna-se um elemento crucial da sua identidade. Eles também criam muitos inimigos internos. Sabemos que o Hamas massacrou basicamente a oposição em 2007. Agora, nestas últimas semanas, tem cometido abertamente um dos crimes de guerra mais evidentes que há, que é fazer execuções sumárias em público de supostos adversários. Tudo isso significa que o desarmamento também é um risco para os combatentes. Mas para já, a interpretação parece ser que há aqui grupos dentro do Hamas ou outros grupos que não o Hamas que estão a violar e Israel está a responder. Lá está, tudo isto mais uma vez mostra como a questão é realmente muito complicada e em última análise implicaria, além de tudo, a presença de tropas, ou seja, de uma força de paz que também não se vê minimamente desenhada, não se veem compromissos sólidos e muito menos avanços no sentido dessas tropas poderem começar a avançar para o terreno para ocupar uma espécie de vazio de poder, que também pode acontecer. É uma situação um pouco de caos violento, que mais uma vez pode ser usado também para dizer que o cessar-fogo não está a funcionar.

Hoje há uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia com o tema de Gaza precisamente em cima da mesa. Esse é um papel que pode ser reservado aos países da União Europeia, precisamente integrarem essa força multinacional que garante a segurança das populações? Tendo em conta que já houve alguns países europeus que manifestaram essa disponibilidade.

De facto, aqui a questão do papel da Europa é não completamente irrelevante, mas não fundamental. O papel mais importante tem sido claramente, desde logo, dos Estados Unidos, depois dos beligerantes, mas também dos estados árabes e islâmicos, mas os estados árabes vizinhos, em particular o Egito e depois também os estados do Golfo, com a sua enorme riqueza, portanto com a capacidade de financiar muito este esforço. Aqui a questão que se coloca é que papel resta para a Europa. Tipicamente, o papel tem sido financiar. Ao contrário também do que muitas vezes se ouve dizer, a Europa, de facto, nunca se desinteressou da questão palestiniana, nem mesmo quando ela não estava em cima da mesa. Grande parte dos serviços públicos prestados aos palestinianos, saúde e educação, são pagos e são prestados por entidades internacionais e a percentagem maior de contributo para isso, historicamente, nas últimas décadas, tem sido da Europa e em particular os países da União Europeia. Esse seria aqui o padrão habitual. É verdade que a Europa está sob muito mais pressão, nomeadamente por causa da necessidade de se defender da agressão russa. Muitos destes países do sul global que apoiam muito a Palestina não têm nenhum interesse em apoiar a Ucrânia, não arriscaram um cêntimo de negócios com a Rússia. Basicamente não querem saber da ameaça que a Rússia representa para a segurança europeia, mas isso significa que a Europa tem de se preocupar com isso, tem de se rearmar, tem de ajudar a Ucrânia e portanto há aqui menos disponibilidade do que existiria eventualmente no passado. A questão da presença de tropas. Para já, Macron parece ter-se adiantado a esse respeito, ter dado a indicação de que haveria alguma disponibilidade francesa, mas eu duvidaria que houvesse um grande entusiasmo por uma presença militar muito significativa, até também por estas razões, de que cada vez mais a Europa está preocupada também com a sua própria segurança.

Falávamos há pouco da União Europeia e da Ucrânia. Falemos então do conflito no leste da Europa e este dado em particular, a quebra da ajuda europeia à Ucrânia no verão para quase metade. Vou devolver a pergunta que tu sugerias para servir de introdução a este tema. Este é um sinal de abandono

Nós temos o Instituto de Kiel, que é um instituto especializado na geoeconomia, portanto na economia global, que faz desde o início do conflito este Aid Tracker, um acompanhamento sistemático da ajuda à Ucrânia, venha de onde vier, e procurando o mais possível aproximar-se não das promessas, mas já da concretização em termos de compras ou de financiamento. No fundo, combinando quer a ajuda militar, quer a ajuda humanitária, financeira ou econômica. Realmente, o instituto detectou uma quebra de quase 40% na ajuda europeia durante o verão. Se formos ver com mais atenção, o próprio instituto adianta que há oscilações muito grandes na ajuda, portanto eles não dão por garantido que isto é uma quebra, é uma mudança já para ficar. Pode ser uma destas oscilações, que tem a ver com o fato de no verão os serviços públicos, de um modo geral, estarem menos ocupados, etc. Tudo isso é um pouco preocupante, tendo em conta que estamos a falar de uma guerra. Obviamente mostra como é complicado também a Ucrânia gerir esta grande dependência da ajuda externa. Há aqui um receio, que é que isto pode significar que a Europa fez um esforço muito grande para compensar e conseguiu fazer isso no primeiro semestre do ano, conseguiu compensar a quebra basicamente total da ajuda militar, portanto da doação de armas americanas à Ucrânia. Agora as armas americanas ou as munições que vão pra Ucrânia são pagas pelos europeus, mas há a questão de saber se isto, no fundo, foi um esforço temporário com esta ideia de termos de acorrer aqui a uma urgência, mas será que há depois disponibilidades financeiras e vontade política pra continuar a manter esse esforço mais substancial. O próprio Instituto Kiel deixa claro que não tem dados suficientes para dizer de forma taxativa que é uma coisa ou outra, mas realmente é um sinal um pouco preocupante e talvez por isso também tenha surgido tanto em cima da mesa esta discussão, que mais uma vez estará agora em discussão no Conselho Europeu esta semana, de utilizar os bens russos congelados para fazer uma espécie de empréstimo que a Ucrânia pagaria quando recebesse compensações da Rússia pela destruição causada por esta guerra de agressão. E no caso de isso não acontecer como deveria acontecer, então cancelar-se-ia, uma dívida cancelaria a outra. Claramente a questão de como continuar a sustentar a ajuda europeia à Ucrânia é uma questão que também está em cima da mesa, mas sublinhando este aspecto que é: isto aplica-se também, sobretudo, à ajuda militar, não na ajuda financeira e humanitária. Pode também haver aí problemas de reajuste da questão de onde é que se vai obter as armas para conseguir concretizar esta ajuda. E como eu referi, no caso do Instituto Kiel, o que eles procuram é exatamente isso. Não é simplesmente promessas de dinheiro, é já compromissos de aquisição de armas, no caso da ajuda militar, e isso também pode estar a ser complicado pelo fato de, mesmo da parte dos Estados Unidos, haver referências cada vez maiores a dificuldades com o estoque, dificuldades com a produção. Mais uma vez, isto também remete pra outra discussão que está muito em cima da mesa, que é como é que rapidamente se aumenta a capacidade de produção própria na Europa, como é que se consegue aumentar, de um modo geral, a capacidade de produção da indústria de defesa no Ocidente, que durante muito tempo esteve a funcionar no modelo de paz, em que não havia estas urgências, em que se podia esperar antes por licenciamentos, etc. E tudo isso claramente num contexto de um conflito armado, de uma Rússia muito mais ameaçadora, já não funciona.

Das últimas horas, há também esta sugestão de Donald Trump para que a Ucrânia abdique de parte do território em nome de um acordo de paz. O presidente dos Estados Unidos foi questionado diretamente sobre se entendia que o Donbass devia ser entregue à Rússia. Não respondeu de forma direta, mas sugeriu que sim, que a Ucrânia deve abdicar de parte do território. É uma inevitabilidade, é o único caminho para um acordo de paz?

Aparentemente terá havido aqui uma certa mudança ou um ajuste na conversa com o Zelensky, que ele terá insistido em que ele aceitasse, para lhe dar esta paz que ele tanto deseja rapidamente, que ele aceitasse as condições de Putin, ou seja, ceder território. Não é já todos os quatro distritos ou Oblas que Putin anexou, seriam só os do Donbass, entre aspas, mas obviamente isso pra Ucrânia não é aceitável, estar a ceder território que ainda não perdeu. Aparentemente Trump agora terá indicado que a ideia seria fazer um cessar-fogo congelando as linhas de contato, ou seja, aquilo que é habitual realmente num cessar-fogo, deixar que as partes mantenham o território que já ocuparam militarmente para se conseguir avançar pra outras fases da negociação. Isso seria menos mau, evidentemente, mas aquilo que me parece aqui evidente é que isto mostra que, de fato, Donald Trump não quer saber da lei internacional, da ordem internacional vigente pra nada. Esta ideia de que não se pode aceitar uma guerra de conquista é algo que pra ele não é importante. Eu diria que há até razões pra temer que eventualmente ele até não se importasse de consagrar esse princípio de que as grandes potências, como a Rússia, mas também os Estados Unidos, podem tomar o território que conseguirem tomar pela força, ou podem ameaçar tomar pela força de forma mais credível, uma vez que isso já aconteceu no passado. Parece-me que isso é algo que é um dado permanente. Esta procura também constante de melhorar relações com outras grandes potências, até pra conseguir benefícios econômicos, nomeadamente com a Rússia, mais uma vez, ignorando completamente o seu comportamento, a natureza mais ou menos autoritária do regime. No fundo, pondo de lado Aquilo que há muitas décadas é um dos pontos importantes na política externa americana, nunca foi o único. Obviamente, há sempre um elemento de pragmatismo na política externa. Nenhuma política externa de nenhum Estado é completamente coerente, isso não existe, e há sempre um elemento pragmático. Mas durante muito tempo, os Estados Unidos, apesar de tudo, ainda prestavam alguma atenção aos valores, a procurar proteger regimes democráticos, aliados tradicionais dos Estados Unidos, há alguma preocupação com manter normas básicas da lei e da ordem internacional. Isso parece-me que no caso do Donald Trump, realmente é completamente indiferente. No fundo, o que podemos jogar é sempre a forma como isto pode ser mal ou bem visto pela opinião pública americana, até que ponto ele não passa uma imagem de excessiva cedência à Rússia, de excessiva fraqueza. Eventualmente, o que é que os europeus também podem ter aqui a oferecer em troca, em termos de mais compras de armamento, etc. Acho que é tudo muito nesse registro que funciona realmente com o Donald Trump, e os europeus já deviam ter percebido isso há muito tempo, já se deviam ter deixado de ilusões a esse respeito há muito tempo. Esta esperança de que, de repente, Trump vai vir à luz e vai passar a ser o melhor amigo da Ucrânia, realmente não parece realista.

É melhor não acalentar essa esperança. Para terminar, temos um minuto e meio. Hoje é também notícia a manifestação de disponibilidade por parte da Bielorrússia, através do líder do Comitê de Segurança Estatal, de que o país procura diálogo com a Ucrânia para procurar criar consensos e acabar com a guerra no leste da Europa. A Bielorrússia é um possível interlocutor com capacidade de mediar este conflito ou não?

Não, não tem nenhuma credibilidade, ou seja, a Bielorrússia é um satélite da Rússia. Eu gosto sempre de não exagerar as coisas, portanto, a Bielorrússia continua a procurar ter, nomeadamente o ditador que domina a Bielorrússia há décadas, o Lukashenko continua a ter a sua própria agenda, não quer ficar completamente na mão de Putin se o conseguir evitar, mas está muito mais dependente do que estava no passado. Só sobreviveu a um levantamento popular contra ele depois de uma fraude completamente evidente nas últimas eleições. Só sobreviveu a esse levantamento popular graças ao apoio até de forças russas. O preço disso foi a Bielorrússia ser usada pelas tropas russas para invadir a Ucrânia. E portanto, só esse facto basta. As tropas russas que atacaram Kiev vieram a partir do norte, a partir da Bielorrússia, no início da invasão em fevereiro de 2022. Esse facto basta para mostrar que realmente a Bielorrússia não tem a mínima credibilidade, é basicamente um satélite, um Estado dependente de Moscovo e, portanto, a ideia de que poderia ser um mediador, realmente não faz nenhum sentido. Isto parece-me ser uma forma da Bielorrússia tentar recordar que ainda existe, tentar passar esta ideia de que tem algum tipo de autonomia, de que está também interessada na paz, agora que se percebe que é um bocadinho para aí que o vento está a soprar, mas isso não tem nenhuma credibilidade. Eventualmente, a única utilidade é ajudar também esta ideia de que a Bielorrússia está alinhada com os esforços do presidente Trump. Lukashenko tem feito esse esforço, até para tentar reduzir sanções da parte dos Estados Unidos, etc, de algum tipo de aproximação ao Donald Trump nos últimos meses.

Bruno Cardoso Reis, historiador, especialista em Relações Internacionais, a ajudar-nos aqui a ler alguns dos factos relacionados com as guerras no leste da Europa e também no Médio Oriente, em mais um episódio de Gabinete de Guerra.