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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis e Isidro Morais Pereira, bem-vindos. Começo por si, senhor general. O líder das Forças Armadas Ucranianas volta atrás no que disse à The Economist em novembro. Rejeita agora que a guerra esteja num impasse, mas não quer falar sobre as operações no inverno. E o porta-voz da Força Aérea Ucraniana admite que não é fácil perceber os planos de Moscovo, que estará nesta altura a abastecer-se de mais drones. Nota aqui alguma desorientação na estratégia ucraniana?

Não, eu julgo que não há propriamente uma desorientação. Há aquilo que o general Zaluzhnyi referiu a propósito do artigo que apareceu no Die Welt, que dá conta de que a Ucrânia poderá estar a planear uma nova contraofensiva de verão ou de início da primavera pra 2024. O general Zaluzhnyi responde de forma clara que esse tipo de declarações não são adequadas, porque a guerra é um assunto sério, não é um espetáculo, e que se trata de vidas humanas e aquilo que está a ser planeado, naturalmente, tem que ser mantido em segredo absoluto. Assim como do lado da Rússia, é muito difícil adivinhar aquilo que a Rússia possa estar a planear. Aquilo que me parece a mim, enquanto analista, e olhando para as últimas operações que têm sido levadas a cabo por Rússia, é que a Rússia procura conquistar nesta fase, que é uma fase muito difícil, em que ainda a trafegabilidade do terreno é muito difícil, em que devido ao fenômeno do El Niño, que também tem alguns efeitos sobre estas regiões do globo, verificam-se, de forma alternada, temperaturas baixíssimas, com congelamento, com chuvas geladas e durante o dia a temperatura pode subir aos seis graus positivos, seis, sete. Portanto, há aqui um congelar e descongelar, há os lamaçais. Neste momento, a Rússia tem tentado repor parte do terreno que a Ucrânia conquistou durante a ofensiva de verão, mas, em boa verdade, não podemos dizer que a Rússia tenha conquistado alguma localidade notável até agora. É muito difícil adivinhar aquilo que está na mente da Rússia. Aquilo que muitos analistas, e olhando para alguns dos institutos de referência ou dos think tanks de referência, em muitos deles aparece a referência de que a Rússia poderá estar a planear uma nova ofensiva em grande escala também na primavera. Assim, temos aqui duas situações: parece que a Ucrânia estará a planear uma ofensiva pra primavera e a Rússia também estará a planear uma ofensiva pra primavera. Bom, vamos ver. O que é facto é que a Ucrânia, e isto são palavras do próprio general Zaluzhnyi, de todo o equipamento que foi fornecido na antecâmara da ofensiva ou da contraofensiva de 2023, cerca de 95% do equipamento ocidental ainda não foi destruído. A Ucrânia ainda o tem na sua posse. Tudo depende, porque não basta ter equipamento, não basta ter o material que foi fornecido à Ucrânia, não basta ter os F-16 que muito possivelmente, imagino eu, que a partir de fevereiro, meados de fevereiro, poderão estar operacionais nos céus da Ucrânia, pelo menos os primeiros, mas é preciso ter um fluxo ininterrupto de munições pra alimentar todos os sistemas de combate. Vamos ver. Hoje há sinais, há desenvolvimentos positivos no Senado dos Estados Unidos quanto àquele pré-requisito que os republicanos queriam ver por parte dos democratas, sancionadas algumas das medidas tendentes a melhorar as condições da imigração na fronteira com o México. Há sinais positivos, mas ainda não foi definido um acordo final. Mas tudo indica que os 60 mil milhões ou 66 mil milhões de dólares, ou bilhões, como se diz em termos americanos, que possam naturalmente ser aprovados. E isso significa que a Ucrânia poderá vir a ter tudo aquilo que pediu. Aliás, já consta da nova lista, inclusivamente, o fornecimento, porque o general Zaluzhnyi e as entidades militares da Ucrânia já formularam novos pedidos, tendo em vista as operações pra 2024, onde incluem, por exemplo, os helicópteros de ataque, os Apaches, entre outros pedidos. Vamos ver até que ponto é que isso será sancionado e tudo depende muito também da aprovação dos cerca de 60 bilhões de dólares, porque uma coisa são os 50 mil milhões que a União Europeia irá aprovar, certamente em janeiro, sem grande dificuldade ou de uma maneira ou de outra, ou com a aprovação da Hungria ou sem aprovação da Hungria, é praticamente garantido que a Ucrânia poderá contar com esses 50 mil milhões. Mas esses 50 mil milhões não têm o mesmo significado que têm os 60 mil milhões vindos do outro lado do Atlântico. É que estes 50 mil milhões da União Europeia são pra o funcionamento da economia ucraniana, enquanto os outros 60 mil milhões Que do outro lado do Atlântico, dos Estados Unidos, são fundamentalmente para traduzir em armas e em munições, e isso pode fazer toda a diferença no futuro.

E há, nesta altura, a confirmação de que foram encontrados dispositivos de gravação em salas usadas pelo líder das Forças Armadas da Ucrânia.

Exatamente.

Sinal de que a Rússia está a ser bem-sucedida na guerra infiltrada. Bruno Cardoso Reis, boa tarde.

Olá, boa tarde. Vamos ver, se confirmar isso e se confirmar que são russos, sim, seria realmente uma falha de segurança grave. Acho, em todo caso, um pouco estranho que essa informação tenha vindo a público, ou seja, parece-me que é um sinal também de tensões entre as chefias militares e as chefias civis que temos vindo a aflorar algumas vezes. Aquelas declarações do general Zaluzhnyi ao Economist que haveria um impasse no conflito, que eu acho que no essencial corresponde à verdade. Obviamente, o impasse não quer dizer que não haja nenhum tipo de movimentação na frente. Mas realmente não há rupturas decisivas, não há grandes avanços nem de uma parte nem de outra. Mas claramente a chefia civil, Zelensky achou que não eram declarações adequadas e obviamente, à partida, os chefes militares não devem fazer declarações que não estejam bem coordenadas com os líderes civis. Há uma tutela em qualquer boa democracia consolidada, há uma tutela absoluta sobre as Forças Armadas pelo poder civil eleito e, portanto, à partida, eu até concordaria com essas declarações, mas realmente deviam ter sido concertadas com a chefia política e desde aí há alguns sinais desta tensão. Ou seja, não era preciso dizer que tinham sido encontradas escutas. Isso no fundo pode ser visto até como uma confissão de alguma fragilidade da segurança operacional da parte da Ucrânia. Mas seja como for, é uma má notícia, eventualmente pelas duas razões, ou provavelmente pelas duas razões, porque é um sinal de que realmente houve aí alguma quebra grave da segurança e que a Rússia teria acesso à informação que não teria por outra via, embora também não sabemos exatamente o que é que teria sido escutado, em que salas é que teria sido, se seriam mais ou menos importantes, mas é um mau sinal. E depois também, ter-se sabido, eu diria que é provavelmente um sinal dessas tensões.

Zelensky classificou este caso como uma guerra.

Classificou este caso como uma...?

Guerra. A própria questão das escutas por si só.

Sim, é uma guerra, claro. Há uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia, portanto, numa guerra há sempre, qualquer dos dois lados procura o mais possível obter informações de qualidade e a interceção de comunicações, as escutas, são uma forma de obter informação, de um modo geral, de melhor qualidade do que, por exemplo, através de fontes humanas. À partida, um espião que esteja infiltrado nunca se sabe se é um agente duplo ou triplo, exatamente onde é que estão as suas lealdades, aquilo que ele diz é mesmo assim, se ele percebeu bem o que foi dito.

E será que o que Putin diz é mesmo assim também ou não, Bruno? O Instituto do Estudo da Guerra diz que as declarações do presidente da Rússia a garantir que o país não está interessado em atacar os países da NATO são muito parecidas com aquelas que fez antes de invadir a Ucrânia, mas já ameaçou também recentemente a Finlândia. Como é que interpretas essas novas declarações?

Sim, na mesma conversa, na mesma entrevista, ele diz que é falso, que ele quer ameaçar países da NATO e depois a seguir ameaça um país da NATO e diz que vai haver problemas com a Finlândia, porque a Finlândia foi arrastada, como ele diz, para a NATO, o que logo mostra que de facto as declarações dele não merecem nenhuma credibilidade. Não foi tudo isso que aconteceu. A Finlândia teve muitas décadas descansadamente a seguir a sua política de neutralidade. A NATO não fez nenhum tipo de pressão para ela ser alterada. O que aconteceu foi a invasão russa da Ucrânia, que levou os finlandeses, a esmagadora maioria da opinião pública, mais de 80%, de acordo com a maior parte das sondagens, passaram a apoiar a adesão à NATO, quando antes 60% defendiam uma posição de neutralidade. Portanto, isso não merece credibilidade e também como foi referido, muitas vezes no passado, Putin tem feito declarações que depois se revelam completamente falsas. Ele garantiu, até à véspera da invasão, que não ia haver nenhuma invasão da Ucrânia. Garantiu que todas aquelas tropas estavam mobilizadas para exercícios e que tudo aquilo era um exercício de propaganda do Ocidente. Ele garantiu a seguir a anexar a Crimeia, em 2014, que era falso que ele quisesse anexar mais territórios ucranianos. Sabemos bem o que é que aconteceu, ou atacar e anexar mais territórios ucranianos, que a Crimeia era uma exceção. Sabemos o que é que aconteceu em fevereiro de 2022 e o que é que ele fez aos territórios que entretanto conseguiu ocupar. Portanto, realmente um dos problemas, um dos dramas da política global atual e em particular na região da Europa, é precisamente que temos uma grande potência, uma potência nuclear, que não merece qualquer crédito, ou seja, não se pode de todo confiar nas declarações, nas garantias, nos compromissos que sejam assinados pela atual liderança russa.

Eu estava a dizer há pouco que Zelensky tinha falado numa guerra, nessa questão das escutas, mas não foi Zelensky, foi o líder das Forças Armadas da Ucrânia, portanto, o alvo dessas mesmas escutas.

Zaluzhnyi.

Exatamente. Só para clarificar aqui. O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.