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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos os principais temas da geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo de novo à Rádio Observador. Obrigado por teres aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar da situação no Médio Oriente, até porque prosseguem os ataques de ambas as partes e a diplomacia iraniana mantém a porta fechada a conversas de paz. Bruno, até onde é que esta situação se pode arrastar?

Eu acho que pode se arrastar muito. Eu recordo, por exemplo, quando começou o conflito na Ucrânia, houve rapidamente especulações, ao fim de poucas semanas ou até de poucos meses: "Todos os conflitos acabam em negociação, isto não se pode prolongar, certamente irá acabar". E a verdade é que já lá vão vários anos. Isto para não falar no Iraque ou no Afeganistão, que se prolongaram por várias décadas. Realmente uma das características dos conflitos armados no período mais contemporâneo, a partir de 1945, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, é que muitas vezes são conflitos assimétricos, são conflitos irregulares e são conflitos realmente muito prolongados, que se prolongam por vários anos. Neste caso, temos esta urgência que torna mais difícil nós concebermos que isso possa ser assim, que é a questão do Estreito de Ormuz. Realmente parece complicado do ponto de vista da própria economia global, dos interesses de grandes potências, não apenas das potências regionais do Golfo, mas potências como, por exemplo, a China, que já estão a ter aparentemente um impacto económico negativo por causa de todo este efeito recessivo na economia global, das limitações à liberdade de navegação no Estreito, com este impacto que nós sabemos, em volta de 25% do mercado global de petróleo e de gás. Acho que é muito difícil de prever, até porque temos dois lados, dois beligerantes principais, o Irão e os Estados Unidos, cujas declarações públicas são pouco de fiar, com objetivos muitas vezes pouco claros também. É realmente muito imprevisível. O histórico apontaria para a possibilidade de um conflito prolongado. Aqui a geopolítica, a geografia, a importância tão grande do Estreito de Ormuz apontaria para a necessidade de haver algum tipo de acordo, até por pressão externa, por pressão da própria economia global. Vamos ver o que é que prevalece.

Para já, entretanto, o Irão terá pedido aos Houthis para que estejam preparados para bloquear qualquer rota do Mar Vermelho. A minha primeira pergunta, Bruno, é se o grupo dos Houthis, os rebeldes, têm capacidade para tal e o que é que o Irão ganha com este bloqueio de qualquer rota no Mar Vermelho?

O problema realmente ainda é pior, porque não é um ponto de estrangulamento, são dois grandes pontos de estrangulamento do comércio global, o Estreito de Ormuz, do lado oriental da Península Arábica, e o Estreito de Aden, no Bab-el-Mandeb, na extremidade ocidental da Península Arábica. São dois dos grandes pontos de estrangulamento da navegação global e do comércio global. O Estreito de Ormuz é especialmente importante para o mercado da energia, mas o Estreito de Aden é muito importante para o comércio global de bens, sobretudo entre a Europa e a Ásia. Estima-se que em volta de 30% do comércio de contentores a nível global passe pelo Estreito de Aden e seria agravar ainda muito mais o impacto económico negativo de tudo isto. Sobre a questão das capacidades, os Houthis não são um Estado, ao contrário do Irão, mas a verdade é que o Irão, basicamente, o que está a fazer no Estreito de Ormuz é replicar a estratégia que os próprios Houthis já tinham utilizado no passado no Estreito de Aden, com mais meios, no caso do Irão, mas é no fundo usar meios assimétricos, não convencionais, usar minas, usar drones, usar lanchas rápidas, etc. E não uma grande marinha convencional para criar suficiente insegurança, uma perceção de risco que leve a que, desde logo, as empresas seguradoras ou não queiram garantir a segurança da navegação ou peçam prêmios, apólices com custos que se tornam incomportáveis. As próprias companhias de navegação, pelo menos as mais responsáveis, não querem arriscar tripulações, não querem arriscar navios e não é preciso muito para garantir que o estreito, se não fica completamente cortado, pelo menos fica altamente condicionado. A navegação cai abruptamente, os custos da navegação que arrisca aumentam muito e é uma guerra naval assimétrica, em que com muito poucos meios consegue criar realmente esta perceção de insegurança, enquanto que uma grande marinha muito poderosa como a dos Estados Unidos tem este problema que tem de garantir 100% do tempo, 100% das vezes, a segurança dos navios. Ora, isso é realmente muito difícil de conseguir, quando é possível atingir o navio com um drone, com uma lancha rápida, etc., que são muitas vezes muito difíceis de detetar ou deter a tempo também, porque como o nome indica, estamos a falar de estreitos, ou seja, de vias de navegação muito reduzidas e aí também a capacidade de reação, o tempo de reação em relação a um projétil que vem de terra é muito mais reduzido.

Bruno, ainda no Médio Oriente, o Paquistão quer retomar a mediação entre os Estados Unidos e o Irão. Já o fizeram no passado, mas sem fumo branco nem um acordo total de paz. Que condições é que tem este país para mediar a situação no Médio Oriente e por que não tem tido sucesso até agora?

Eu penso, para ser claro, que não é que eu tenha uma particular simpatia pelo atual governo do Paquistão, que não ganhou as eleições, que está no poder por causa do apoio dos militares. Aliás, uma das figuras cruciais ou as duas figuras cruciais neste processo de mediação são o primeiro-ministro Sharif, mas também o próprio chefe das Forças Armadas, o marechal Munir, por quem Donald Trump mostra sempre grande apreço. Ele gosta muito de homens fortes, muitas vezes com poucas ou nenhumas credenciais democráticas. Eles realmente têm esta questão, que é ter uma boa relação com Donald Trump e também têm, até porque são um país vizinho, uma relação de trabalho e aparentemente de alguma confiança com o próprio regime iraniano. Também partilham um inimigo comum, que são os separatistas Baluchs. Nesta zona de fronteira entre o Irão e o Paquistão há, de facto, esse movimento separatista que os dois Estados procuram reprimir. O Paquistão ainda por cima também assinou um tratado de defesa mútua com a Arábia Saudita, que tem sido um grande financiador também do Paquistão e portanto, de alguma forma, haveria o problema de a Arábia Saudita poder evocar esse tratado levando a algum tipo de envolvimento do Paquistão nesta guerra, porque como sabemos, o Irão também tem atacado os países do Golfo, com o pretexto da presença de bases americanas. Realmente eles têm o interesse, têm o acesso. Eu acho que o grande problema, para ser também muito claro, e como eu digo, isto não tem a ver com particular simpatia pelos líderes paquistaneses atuais, mas o principal problema não tem sido a mediação do Paquistão, é mesmo o facto de os beligerantes, do Irão e dos Estados Unidos, terem um histórico de enorme desconfiança, de enorme hostilidade, e isso ainda se agravou mais nos últimos tempos. Estes episódios mais recentes de ataques durante o período de negociação, de compromissos que depois não são cumpridos com os dois lados a acusarem o outro de violar esses compromissos, obviamente isso não ajuda nada a avançar o processo negocial ou a retomar o processo negocial, independentemente de quem seja o mediador.

Bruno, vamos mudar de tema, mas manter o foco nos Estados Unidos. Há notícias de hoje que dizem que o Pentágono terá estudado cenários para um ataque dos Estados Unidos a Cuba, mas a situação no Médio Oriente travou qualquer tipo de intervenção. Isto é sinal de que a resolução de um conflito no Médio Oriente pode significar o início de outro em Cuba?

Há realmente essa especulação e eu acho que ela não é disparatada. Ou seja, a ideia de que no fundo, até em termos da própria popularidade interna de Donald Trump, o conflito no Irão não é nada popular, nunca foi. É mesmo a intervenção militar americana mais impopular desde o início nas sondagens, apesar de na intervenção no Iraque ou no Afeganistão, inicialmente, mesmo quando havia algumas reservas antes de ela acontecer, quando ela acontece, a reação inicial é de algum apoio, portanto dá uma espécie de benefício da dúvida ao presidente. Neste caso, isso realmente nunca aconteceu. Os números têm continuado não só maus, mas têm piorado. No fundo, a ideia seria que para fazer esquecer o Irão, uma boa ideia seria algum tipo de intervenção em Cuba, tentando replicar eventualmente, de alguma forma, o modelo da Venezuela e portanto uma coisa mais limitada, com mais efeitos imediatos. Realmente o regime cubano é muito impopular nos Estados Unidos, sobretudo na comunidade cubana americana, que é muito importante, em particular na Flórida, como um bloco importante de votantes e tudo isso também do ponto de vista da política interna, do legado de Donald Trump e da sua popularidade podia fazer sentido. Agora, o grande problema, como referias, é que fazer esquecer o conflito no Irão é muito difícil se o conflito no Irão continua, além de que há estas limitações práticas. Os Estados Unidos são uma grande potência, são a maior potência militar a nível global, são o país que mais gasta em defesa a nível global, quase na linguagem deles, um trilhão, na nossa linguagem são 960 mil milhões de dólares. Mas ser uma grande potência não é a mesma coisa que ser onipotente. Ser uma grande potência não é a mesma coisa que ser onipotente, não é garantia de sucesso, mesmo militar. E há esta regra de base na estratégia que é sempre possível evitar mais do que um conflito ao mesmo tempo, porque isso obviamente obriga a dispersar recursos, meios e portanto, à partida parece-me realmente plausível que haja algum tipo de trabalho de cenarização, de planificação, com base até em planos anteriores, mas que os militares estejam a dizer: "Atenção que nós estamos aqui a empenhar muitos meios no Irão". Estima-se que à volta de metade dos meios operacionais aéreos e navais norte-americanos estão nesta zona e isso obviamente limita a possibilidade depois de utilizar meios em Cuba, sobretudo se as coisas correrem mal, significa que basicamente não há reserva estratégica para acorrer alguma emergência no outro lado ou eventualmente a uma escalada de um destes conflitos, se os dois estiverem a acontecer ao mesmo tempo.

Bruno, temos ainda dois minutos para falar um pouco da Ucrânia. O presidente Volodymyr Zelensky estará a preparar remodelações no governo, já a pensar no inverno. Há ministros que podem estar na porta de saída. Há um que já saiu, que foi o ministro da Defesa da Ucrânia, que pediu a demissão. O que está a acontecer na liderança ucraniana, Bruno Cardoso Reza?

À partida, realmente confirma-se esta ideia. Aliás, já houve uma votação no Parlamento de Serhii Korenskyi, que era o responsável da principal empresa de petróleo e de gás, a Naftogaz, ser o novo chefe do Executivo, o novo chefe do Governo. À partida, essa substituição não parece colocar-se assim tantos problemas, porque realmente havia a ideia de que, no fundo, a própria primeira-ministra também tinha sinalizado algum cansaço e a grande prioridade para o governo nos próximos meses vai ser preparar a guerra de inverno, que tipicamente tem sido a parte da Rússia, muito uma aposta na destruição da capacidade de produzir energia, de aquecer as casas da Ucrânia, portanto, é uma área em que ele tem um histórico e é visto como um bom gestor, como alguém com boas credenciais nessa área. Realmente, o que tem suscitado mais críticas, e que eu partilho, confesso, é este afastamento do ministro da Defesa, Fedorov, que estava há volta de seis meses no cargo e que se revelou extraordinariamente eficaz. Foi, de acordo com basicamente todas as análises credíveis, uma figura-chave nesta recuperação da iniciativa pela Ucrânia, de melhorar muito a capacidade logística, de avançar com esta estratégia de ataques de longa distância contra a Rússia, de investir em parcerias na produção de armamento em áreas cruciais, também com muito sucesso, também parcerias com tecnológicas, inclusive de Silicon Valley. Por exemplo, ele tem uma relação próxima com o responsável da Palantir, o Alex Karp. Portanto, acho que realmente o afastamento do Fedorov é visto como negativo, como tendo mais a ver com ele se ter tornado muito popular, ser visto como muito eficaz e poder estar de alguma forma a fazer sombra ou aparecer como rival do presidente Zelenskyy. E portanto, acho que isso à partida é uma má notícia. O ministro da Defesa, no contexto de uma guerra, a questão prioritária não devia ser estas disputas de política interna, devia ser a sua eficácia na defesa de um país em guerra. Mas enfim, isto também é verdade que sempre aconteceu historicamente. Numa guerra não é suposto continuar a haver divisões internas e politiquices internas, mas elas sempre aconteceram, sempre acontecem, mas vamos ver qual é a alternativa e se ele de alguma forma continua envolvido no esforço de guerra ou não.

Questões para desenvolver no futuro em próximas edições do Gabinete de Guerra. Nós chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra hoje com a análise do Bruno Cardoso Reis, a quem agradeço a disponibilidade. Um grande abraço, Bruno. O Gabinete de Guerra fica, como sempre, disponível em podcast.