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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que destacamos as principais questões geopolíticas, com destaque para os conflitos no Médio Oriente e também na Ucrânia. Hoje contamos com a análise de Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Nuno Gouveia, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre a Europa. Numa altura em que está no horizonte uma reunião restrita dos Estados Unidos na Polónia sobre o futuro da Aliança Atlântica, a NATO, vai juntar Alemanha, Países Baixos e também os países nórdicos. Nuno Gouveia, o que lhe parece que possa vir a estar em cima da mesa?
Olá, muito boa tarde e obrigado pelo convite. Este tipo de reuniões parcelares dentro da NATO, apesar de não ser propriamente uma novidade no contexto da NATO, é um pouco contraproducente no momento em que a atual Europa vive, visto que isto está a ser encarado por alguns países da NATO como divisivo e que pode quebrar a unidade da NATO. Por outro lado, também não podemos desligar-nos do fato de quem está a promover esta reunião, o número três do Pentágono, Elizabeth Colby, figura muito próxima de J.D. Vance, é alguém que tem uma visão muito particular da Europa, da NATO e do papel que os Estados Unidos devem ter na NATO, que é um pouco contrário àquilo que parece ser o entendimento da maioria dos aliados europeus. O que os responsáveis americanos dizem que estão a ter estas reuniões parcelares é precisamente o contrário, é para preparar a apresentação de propostas a todo o conjunto da NATO, para a preparar para o futuro. E o que os responsáveis americanos dizem e apresentaram esta reunião como algo que se decida a partilhar uma estratégia comum com alguns aliados, para depois discuti-la e apresentá-la aos restantes aliados. E parece-me que poderá ser isso que estará em jogo nesta reunião na Polónia.
Vamos também continuar a falar da Europa, até porque é uma notícia de hoje. O primeiro-ministro da Bulgária diz que dois navios comerciais foram atingidos por drones. Ontem já foi registado um incidente semelhante a envolver a Turquia. Nuno Gouveia, que ilações podemos retirar deste tipo de incidentes e até onde é que podem escalar, sendo que para já, sobretudo neste ataque de drones ou estes dois navios que foram atingidos por drones, ainda não se sabe de onde é que terão vindo esses drones.
Sim, de facto, ainda não há confirmação de qual terá sido a origem deste ataque de drones. Agora, o que nós sabemos é que nas últimas semanas e meses, têm aumentado este tipo de incidentes na parte leste da Europa. Sabemos também, por informações que têm vindo a ser reveladas por alguns governos e alguns serviços de inteligência, que as interferências russas em território europeu têm aumentado. As primeiras informações que tivemos deste ataque é que terá sido de origem russa.
E o que é que isso nos diz?
O que me parece é que está a existir por parte da Rússia uma forma de pressão sobre os aliados europeus. No fundo, eles causam pequenos incidentes que começam a não ser tão pequenos assim para testar a unidade dos países da NATO e a resposta dos países da NATO. Evidentemente, nenhum país da NATO defende ou quer um conflito aberto com a Rússia. Agora, este aumento de incidentes com origem russa tem vindo a minar cada vez mais as relações entre a Rússia e os países europeus. E nós sabemos que isto a continuar e a acontecer um incidente com mais gravidade poderá levar a um escalar das relações entre a Rússia e o bloco europeu, que poderá levar a um escalar deste conflito. Nós obviamente esperamos que a Rússia, que parece evidente já que está a testar a capacidade de resposta europeia, que fique por este tipo de incidentes e que não aumente o nível de interferências nos países europeus. Por enquanto, nós temos visto as reações dos responsáveis europeus tentando não aumentar este clima de tensão com a Rússia, mas se isto continuar, parece-me que a partir de certo momento, os responsáveis europeus terão que ter uma resposta eventualmente mais dura e mais eficaz para conter estes ataques russos.
Vamos também falar sobre Estrasburgo, no Parlamento Europeu, onde está Luís Montenegro, o primeiro-ministro português, discursou durante o dia de hoje para pressionar a Europa a juntar-se à guerra, à burocracia e ao excesso de regulamentação. É uma das ideias defendidas pelo primeiro-ministro português no Parlamento Europeu. Que notas é que podemos retirar do discurso do primeiro-ministro?
Parece-me que o primeiro-ministro português, e bem, colocou-se claramente ao lado daqueles que dentro da União Europeia, partindo se calhar do relatório Draghi, têm feito um combate ao excesso de regulação, ao excesso de burocracia na Europa como algo que tem impedido a Europa de avançar. E isso parece-me evidente. Nós temos os números que nos últimos anos indicam claramente que há um atraso maior da Europa em relação a outros espaços geopolíticos, como os Estados Unidos, como a China. E portanto, parece-me que o primeiro-ministro tentou dar força a esse movimento. Por outro lado, duas ou três notas muito particulares do seu discurso. Montenegro colocou à disposição dos seus aliados europeus a política imigratória que tem sido seguida pelo governo português nestes últimos dois anos, tentar ter uma política migratória regulada e que permita receber imigrantes, mas não de forma tão massiva como aconteceu em Portugal nos anos anteriores. E esta parece-me ser uma linha na política migratória que neste momento parece que há um relativo consenso entre os governos europeus que é preciso regular e deixar de ter uma política de portas abertas como aconteceu no passado. Por outro lado, sendo primeiro-ministro português e sendo governante num país que recebe fundos da coesão, o seu apelo também à manutenção dos fundos de coesão e contestando os, neste momento eu diria, mais quase certos cortes dos fundos de coesão no próximo quadro comunitário. Montenegro, sendo Portugal um país recetor, não poderia deixar de dizer aos seus parceiros europeus que Portugal continua a defender a coesão como valor importante na União Europeia e manter a política de coesão da União Europeia como algo central, algo que nós sabemos que no próximo quadro, eventualmente irão existir cortes na política de coesão. E, por outro lado, Montenegro também aproveitou obviamente este discurso para dizer algumas coisas relativas à política interna, nomeadamente na política de habitação, não deixando de dar alguns remoques aos partidos da oposição portugueses.
Vamos avançar, falar também sobre a Ucrânia, até porque Volodymyr Zelenskyy deixou hoje o aviso de que a Rússia se estará a preparar para um ataque em grande escala e que as forças ucranianas estão a preparar-se nesse sentido. Nuno Gouveia, o que é que nos diz a geopolítica atual sobre este tema, a guerra na Ucrânia?
Nós sabemos que a guerra, pelo menos parece que está para durar. O que nós temos visto é que a Ucrânia, de facto, tem tido uma capacidade de resistência notável aos ataques russos. Nós sabemos que neste momento existem dificuldades operacionais da Ucrânia, nomeadamente na questão da capacidade antibalística. E eu penso que os ataques russos e a ofensiva russa no inverno irá passar muito por aproveitar as fragilidades ucranianas na capacidade de defesa de mísseis balísticos. Agora, a Ucrânia tem conseguido aguentar-se. Nós sabemos que a decisão, eventualmente, para este conflito continua a ser uma decisão política, uma questão negociada. Os Estados Unidos, com Donald Trump, deixaram de ser um país quase aliado da Ucrânia para ser um país mediador. Ainda recentemente, Marco Rubio disse que esperava que as negociações voltassem agora durante o mês de outubro, impulsionadas pelos Estados Unidos. Nós sabemos, pelo menos, que as posições de um lado e de outro mantêm-se iguais. A Rússia não tem demonstrado a mínima intenção de ceder em alguma das suas posições maximalistas. Por outro lado, a Rússia também não tem conseguido conquistar militarmente avanços significativos. Pelo contrário, o que sabemos é que a Ucrânia nas últimas semanas até reconquistou algum território. Portanto, a menos que haja um colapso de um dos lados político ou militar, vamos continuar a ter um conflito entre os dois lados e infelizmente com baixas em ambos os lados e a Ucrânia a resistir. Sabemos que, obviamente, as opiniões públicas dos dois países estão cansadas da guerra. Na Rússia, como é um Estado controlado por uma ditadura brutal, pouco sabemos, mas sabemos que na Ucrânia começa a haver, de facto, uma fadiga de guerra e um pedido de negociações. Vamos ver como é que o governo ucraniano lida com esta tensão interna que começa a parecer mais evidente.
Temos ainda tempo para falar do Médio Oriente. Nuno Gouveia, o Qatar diz que as negociações entre Estados Unidos da América e Irão continuam, apesar do impasse, numa altura em que se continuam a registrar ataques em vários países no Médio Oriente. Podemos dizer que há qualquer tipo de entendimento, ainda está longe? Qualquer tipo de entendimento ainda está longe?
Parece-me que neste entendimento, e de facto há um impasse, e o que nós temos visto é ambos os lados continuarem a dizer a mesma coisa que diziam há três, quatro, cinco meses. Obviamente, os Estados Unidos neste momento estão a pressionar, não militarmente, mas economicamente o Irão. E nós sabemos que as pressões econômicas estão a surtir efeito no Irão. Sabemos também que a capacidade do Irão resistir ao sofrimento é enorme, é uma ditadura brutal que não se preocupa com o bem-estar do povo e, portanto, tem uma capacidade de resistência maior que haveria numa democracia. Nós, pelo contrário, nos Estados Unidos, estamos a ver um cansaço enorme neste conflito, que ameaça até prejudicar os interesses do Partido Republicano nas próximas eleições intercalares, o que me parece que vai acontecer neste próximo mês até às eleições, os Estados Unidos não terão a potência para voltar a atacar militarmente o Irão. Agora, depois das eleições intercalares e com alguma irresponsabilidade de Donald Trump em relação às eleições, portanto, independentemente de ganhar ou de perder as intercalares, ele vai continuar a ser presidente dos Estados Unidos e a comandar a política externa americana. E depois das eleições, se estivermos neste impasse até às eleições, parece-me que o que poderá acontecer é um aumento, portanto, um escalar militar por parte dos Estados Unidos. Por outro lado, o Irão também percebendo o contexto americano, poderá tentar negociar um acordo até às eleições intercalares e no fundo ceder algumas das posições que têm sido manifestamente impossíveis de aceitar por parte dos Estados Unidos.
Nuno Gouveia, temos ainda um minuto e meio para abordar a situação em França. Marca também a geopolítica mundial, os protestos de estudantes. Que leitura podemos fazer destas quase três semanas de protestos que culminam hoje com muita tensão nas ruas de Paris? Temos um minuto e meio até o final do programa.
Nós temos eleições presidenciais francesas no próximo ano e obviamente muito importantes para a França, mas também para a União Europeia, logo a seguir. E o que me parece é que este conflito nas ruas está a favorecer os dois candidatos mais extremistas. Por um lado, a France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon, tem vindo a apoiar estes protestos e espera ganhar algum élan com esta confusão nas ruas e, por outro lado, Marine Le Pen, que espera também, e que neste momento lidera as sondagens, espera ganhar o voto daqueles franceses que querem lei e ordem, querem segurança nas ruas. E olhando para a ação do governo, que não está a ser eficaz em conter estes protestos, em primeiro lugar, em dar uma resposta aos motivos dos protestos, pois sabemos que também existe um problema financeiro na França que até está a originar cortes brutais no orçamento de Estado. Por outro lado, também não está a ter capacidade de repor a ordem nas ruas e isso parece-me que favorece os dois candidatos mais à direita e mais à esquerda e certamente poderá ter implicações nas eleições do próximo ano.
Chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise de Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana, a quem agradeço a disponibilidade. O Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.