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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos a mais uma análise sobre alguns dos conflitos um pouco por todo o mundo. Hoje recebemos Rui Vilar, especialista em defesa. Muito boa noite, Rui. Bem-vindo mais uma vez ao Gabinete de Guerra. Vamos concentrar-nos mais no Irão neste Gabinete de Guerra, até porque a atualidade também assim o exige. As defesas aéreas da NATO destruíram hoje um míssil iraniano que se dirigia para o espaço aéreo da Turquia. Para quem está na Europa, isto é uma notícia que nos deixa um pouco alarmados, naturalmente. Pergunto-lhe se devemos recear que, de alguma forma, este conflito se estenda precisamente ao continente europeu ou se isto pode ter sido uma questão acidental.
Boa noite aos ouvintes. Eu acho que os europeus devem estar sempre preocupados e cada vez mais preocupados face às escaladas de conflitos que existem no mundo, nomeadamente nesta nova era que estamos a viver agora com a presidência de Trump, mas também, e uma vez que estamos em plena discussão sobre o papel de Portugal e muito também fomentado pela posição espanhola, temos que perceber que o Irão tem neste momento mísseis que podem alcançar parte do território europeu, nomeadamente o leste da Europa, mas estava a fabricar e tinha no seu programa militar o fabrico de mísseis que atingiriam um raio maior e que podiam atingir o centro da Europa e nomeadamente o nosso país, Portugal. Portanto, eu sei que pode parecer muito fácil condenar o bombardeamento por parte dos Estados Unidos e de Israel a bases militares iranianas e a este ataque, mas se calhar esse ataque é preventivo face ao fabrico de mísseis que o Irão tinha previsto para esses poderem atingir todo o território da Europa. Portanto, sim, eu acho que devemos estar alertas, devemos estar bastante preocupados e atentos e principalmente os nossos governantes nas decisões estratégicas que têm que tomar e no caso em Portugal, eu acho que temos tomado boas decisões.
Mas no caso dos Estados Unidos, vou também aqui fazer uma pequena provocação, uma vez que falou na posição de Espanha e já vamos falar sobre isso também. Os Estados Unidos estão mais preocupados em defender, na defesa, ou estão mais preocupados em monopolizar nesta altura, e isto muito personalizado em Donald Trump, tudo o que seja comércio energético?
Eu acho que essa poderá ser uma leitura mais fácil e como é óbvio, qualquer intervenção poderá ter vários objetivos e poderá ter diferentes benefícios ou prejuízos para os países envolvidos. Agora, o que me parece evidente, até pela coligação, entre aspas, com Israel, é que o objetivo mais do que principal destes bombardeamentos americanos ao Irão é a contenção do programa militar iraniano, uma vez que em junho de 2025 já vimos a contenção do programa nuclear iraniano, naquele ataque protagonizado por Israel, e agora claramente parece-me que é esse o objetivo, até mais do que a mudança do regime. Agora, acho que a mudança do regime também se poderá proporcionar. Já vimos que os Estados Unidos estão a jogar como habitualmente em vários tabuleiros nesse sentido, também de certa forma baralhando o adversário, mas não nos podemos esquecer do que aconteceu há poucas semanas no Irão e nos massacres sobre a população com milhares e milhares de mortos. Há quem diga que foram mais de 50 mil mortes, crianças, jovens, enfim, não nos podemos agora esquecer disso tudo. Mas voltando à pergunta que a Diana me fez, e foi uma boa provocação, eu acho que o objetivo principal foi a contenção do programa militar iraniano, neste caso, dos mísseis iranianos e no fabrico que estava a acontecer, quer de mísseis, quer de drones, principalmente nos últimos meses que se tinha intensificado e que depois poderia atingir proporções maiores em caso de ataque. Eu acho que os americanos perceberam que a janela de oportunidade de atacar era este momento e por isso é que o fizeram.
O Irão tem atacado outros países vizinhos no Médio Oriente. Por que terá esta estratégia? Em que é que isto pode prejudicar Israel e os Estados Unidos? Para percebermos estes ataques a outros países que à partida não estariam diretamente envolvidos neste conflito.
Na minha opinião, estes ataques demonstram um claro desnorte e desorientação por parte do Irão, porque no fundo o que conseguiu foi criar uma coligação cada vez maior de países que aprovam os bombardeamentos americanos e não só os aprovam como também os auxiliam, porque naturalmente querem responder. É natural percebermos isto porque já tínhamos percebido o ano passado que o Irão não tem tanta capacidade militar como aquela que se achava. E depois quis fazer aqui uma demonstração de alguma desestabilização da região e atacando vários países, mas importa lembrar que, ao contrário do que muitas vezes pensamos, o Irão não goza de boa reputação na região, pelo contrário, o Irão já era um país que não era aliado da grande maioria dos países do Golfo, já era até considerado como inimigo. Portanto, o Irão no fundo está a aproveitar para se vingar, ao que me parece, numa opção estratégica de desnorte e desorientação, e depois aproveitando também para voltar ao seu velho conflito no Líbano e para atacar também aquela região. Mas sinceramente eu não vejo, não consigo, e já pensei muito nisso, perceber qual o objectivo estratégico do Irão. Mas nós temos que perceber uma coisa: os líderes militares já haviam sido mortos, grande parte deles no ano passado. Nesta ofensiva voltaram a ser completamente dizimados vários líderes militares, líderes políticos, governantes. A sua frota naval já foi completamente dizimada. Várias bases militares foram completamente dizimadas, portanto, é natural que o país esteja sem liderança e um pouco desorientado. Aliás, eu arrisco a dizer que quem é que hoje quer ser o líder supremo do Irão, sabendo que tem logo um alvo apontado na testa? Quem é que hoje quer participar numa reunião estratégica de defesa do Irão, sabendo que os americanos, ou mais concretamente os israelitas, têm acesso a informações, onde sabem inclusive onde se reúnem as altas cúpulas militares e do governo do Irão.
Não pode ser mais fácil para quem queira, de facto, uma mudança de regime dentro do Irão?
Eu acho que sim. Agora, nós temos muita dificuldade em perceber o que se passa lá, porque como habitualmente há os cortes de comunicações, de internet, e as pessoas têm muita dificuldade em comunicar e em perceber efectivamente o que se está a passar, porque o regime ainda está, achamos nós, a controlar a quase totalidade da informação que circula dentro do país. Mas eu acho que a oportunidade é esta, e é dor, e deve acontecer. E já vemos americanos agora que já estão a anunciar ali que um grupo separatista de uma região do Irão, falam sempre em Reza Pahlavi. Eu acho que é uma estratégia americana para baralhar e para mostrar que tem várias alternativas, mas eu acho que vamos assistir ao continuar desta escalada, gradualmente vai diminuir. Aliás, já temos visto que mesmo no disparar de mísseis, o Irão tem reduzido dia para dia, o que pode indicar que as reservas estão a ficar cada vez mais pequenas. E passando uma primeira fase, que será o tal objectivo principal e primeiro da contenção do programa militar iraniano, nomeadamente a construção dos drones e de mais mísseis, passará depois, e quero crer que quer os Estados Unidos, quer Israel, mas principalmente os Estados Unidos, estejam também já com várias soluções e a preparar essa solução de transição de regime, para finalmente libertarmos aquele povo de um regime opressor, extremamente repressor e terrorista, não podemos esquecer. E terrorista que prejudicou a vida, tirou a vida a muita gente.
Falava há pouco, Rui Vilar, na posição espanhola relativamente à utilização das bases aéreas por parte dos Estados Unidos. A Casa Branca há instantes afirmou que Espanha concordou em cooperar com as Forças Armadas norte-americanas, mas não deu detalhes. Vamos focar-nos para já naquilo que sabemos, que é uma resistência de Pedro Sánchez em, de alguma forma, como ele diz, estar, ainda que indirectamente, a cooperar com estes ataques no Médio Oriente. Por outro lado, Trump ameaçou Espanha que iria romper com todos os acordos com Madrid. Pergunto se neste braço de ferro tem de haver aqui cedências de ambas as partes, porque é certo que estamos a falar na maior potência militar do mundo, no caso dos Estados Unidos, mas Espanha também tem a sua relevância a nível internacional, na NATO, na União Europeia. De que forma é que estes dois líderes se podem tentar aproximar um do outro?
À primeira vista, e não sabia desse último desenvolvimento, que pelos vistos há uma cedência por parte de Espanha, mas à primeira vista parece-me uma posição desastrosa em termos estratégicos por parte do governo espanhol e que poderá trazer consequências bastante graves para a economia daquele país. E sinceramente não se percebe, face ao tipo de regime e ao que se tem passado no Irão nos últimos anos, que Espanha tenha feito esta posição de força, quando poderia perfeitamente ter assumido uma posição semelhante aos outros países europeus. E Sánchez não pode esquecer que há países europeus que têm as suas bases atacadas pelo Irão. E portanto, acho que se exigia uma maior solidariedade com os países europeus e também uma maior solidariedade com um país que é um aliado histórico nos últimos anos, como são os Estados Unidos. Mas parece-me que é mais também uma posição política de Pedro Sánchez para muito consumo interno. Sabemos que ele está bastante acossado. Aliás, os seus governos vivem constantemente num grande clima de instabilidade. E aliás, a exemplo do que também tem acontecido em França, onde vemos Macron sempre muito interventivo no que à política externa diz respeito, também poderá ter a ver alguma coisa com isto. Agora, eu acho que é uma posição extremamente errada e um desastre autêntico essa tomada de posição, mas vamos ver. Donald Trump já foi bastante claro ao dizer que acabariam ali os acordos comerciais. Vamos ver se há uma cedência espanhola ou não. Agora, nesse confronto de força, e percebo que fale na força do país e de Espanha, sem dúvida, é uma grande economia, mas é incomparável Com o poderio económico e militar americano.
Eu, por último, quero perguntar-lhe se a Ucrânia pode ficar prejudicada dadas as dimensões que este conflito está a tomar, se pode ficar esquecida, se pode ficar em segundo plano. Aliás, e a minha pergunta tem a ver com o simples facto que basta consultarmos, por exemplo, a imprensa internacional, até a imprensa quer da Rússia, quer da Ucrânia, para perceber que o destaque é dado quase exclusivamente ao conflito no Irão. Que consequências é que isto pode ter no conflito que ainda está para durar ou não? De preferência que não, mas antevemos que sim, este conflito que está, à partida, para durar na Europa.
Eu acho que o que vimos nos últimos dias e a visão que falou da imprensa é normal e natural face aos acontecimentos dos últimos dias, mas a Ucrânia vai continuar a estar na agenda, a questão da invasão russa, e também me parece que ela, na agenda dos líderes europeus está de certeza.
Zelensky já disse que está com receio disso mesmo, de que a Ucrânia acabe por ficar um pouco esquecida.
E fez bem para dar um sinal de vida nestes últimos três ou quatro dias, porque não nos podemos esquecer daquele conflito que grassa no nosso continente. Mas tenho a certeza que os líderes europeus não se vão esquecer da questão ucraniana, mas também acho, e já falamos nisto noutros programas, nesta presidência efervescente de Donald Trump, que já falamos também sobre o calendário que Trump tem para a Ucrânia e que os Estados Unidos têm para a Ucrânia, e eu acho que ele vai continuar com esse calendário em simultâneo com o que quer que aconteça no Irão, porque Trump tem um calendário para tentar resolver a questão ucraniana e vai mantê-lo. Portanto, muito provavelmente, à boa moda da presidência americana, daqui a uns dias já vamos estar outra vez a falar na Ucrânia, porque Donald Trump vai fazer ou dizer qualquer coisa. Para já, não me parece que seja um motivo de grande preocupação, mas é natural que Zelensky a demonstre, porque está a sofrer diariamente com um problema gravíssimo também. E nós não nos podemos esquecer. Fez muito bem em lembrar, Diana.
Rui Vilar, muito obrigada pela sua participação neste Gabinete de Guerra e pelas suas explicações. O Gabinete de Guerra que está de regresso amanhã.