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Gabinete de Guerra. Começa agora o novo Gabinete de Guerra, hoje com a análise de José Filipe Pinto, professor catedrático em Ciência Política e especialista em movimentos extremistas e relações internacionais. Bom dia, professor José Filipe Pinto. Muito obrigado por estar conosco.

Muito bom dia, João Miguel. Bom dia, senhores ouvintes.

Professor, nas últimas horas o Irão alertou o Egito para que as companhias aéreas egípcias evitem o espaço aéreo iraniano devido a manobras militares iranianas. A pergunta que lhe faço é: a região está a preparar-se para um conflito regional? O perigo é real?

O perigo é real, apesar de ser um pouco moderado. E por quê? O John Kirby, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, afirmou que o cessar-fogo entre Israel e o Hamas estava mais perto do que nunca. Eu entendo que esta afirmação é demasiado otimista, malgrado, e é real, o intenso labor diplomático que está a ser desenvolvido, e não apenas pelos Estados Unidos. Repare que os Estados Unidos já avisaram o Irão do perigo de uma guerra entre ambos, uma situação que o Irão quer evitar, no caso da retaliação por parte do Irão ir além daquilo que os Estados Unidos admitem.

Professor, mas já estamos também para lá da retórica, ou não? E se sim?

Neste momento ainda estamos muito na fase da diplomacia e da preparação daquilo a que se chama a bonança que anuncia a tempestade. O problema é percebermos qual a dimensão da tempestade. A meu ver, o otimismo de Kirby é exagerado. Por quê? Porque repare, primeiro que tudo, o conflito não é apenas entre Israel e o Hamas, e o Hezbollah está a ficar muito ativo e difícil de controlar até por parte do Irão. E segundo, a escolha de Sinwar para liderar o Hamas é a opção do grupo pela via belicista. E além disso, repare, temos de contar com o Irão. E o que acontece é que o líder supremo do Irão, o Ali Khamenei, já prometeu vingar o assassinato de Ismail Haniyeh em Teerão. Por isso, a meu ver, a retaliação vai mesmo acontecer, apesar do recém-eleito presidente do Irão ter implorado a Khamenei para se abster de atacar diretamente Israel, devido ao medo que a resposta israelita vá provocar muitos danos na vida econômica do Irão. Quando o país há um colapso econômico.

Nesse caso, professor, qual é que deverá ser a resposta do Irão?

Repare, enquanto o recém-eleito presidente é da visão modernista ou progressista, Khamenei é da linha fixista. É esta linha fixista que controla a vida iraniana. Por isso o Irão não pode dar sinais de fraqueza, porque isso acabaria por traduzir-se numa falha, numa quebra de autoridade de quem quer liderar a ordem islâmica. Repare, o Irão está muito isolado. O Irão é xiita, está muito isolado no mundo islâmico, que é maioritariamente sunita. O problema é que o Irão está a saber jogar. E o que é que procurou? Procurou o apoio de todo o mundo islâmico. Por isso é que o Irão que pediu a reunião da Organização de Cooperação Islâmica, que foi realizada ontem na Arábia Saudita, o líder sunita. O que é que isto nos mostra? Mostra-nos que o Irão está a tentar que o mundo islâmico também se una à sua volta. E o mundo islâmico deu-lhe um recado de duas dimensões, tal qual como a situação relativamente às negociações com os Estados Unidos. Quais são essas duas dimensões? Primeiro, o Irão tem direito a retaliar porque Haniyeh foi assassinado em Teerão, convidado pelo Irão para um acontecimento notável, que era a tomada de posse do novo presidente. Segundo, esses estados islâmicos exigiram moderação na resposta. O mesmo se passa da parte dos Estados Unidos, que exigem moderação na resposta. Portanto, aquela grande operação que nós imaginávamos que o Irão iria desencadear e que eu sempre disse que não seria isso, provavelmente o Irão iria procurar atingir alvos políticos, civis e militares. E por esta ordem, porque o que lhe interessava, primeiro que tudo, era ver se conseguia assassinar algum alto dirigente israelita pra se sentir retaliado. E, portanto, o que aqui nós vamos ter é uma resposta. Se essa resposta é concertada como o Irão pretendia ou acaba por ser mais obra do Hezbollah, dentro dos próximos dias vamos assistir a isso. Agora, que vai haver resposta, vai haver resposta. Que o Irão está envolvido, vai estar envolvido. Que não tem a dimensão que se chegou a recear, claro que não. Por quê? Pela pressão do mundo islâmico, que não está interessado num conflito regional. O conflito sempre foi global, nem sequer foi regional. O problema é o alastrar da guerra. E o que acontece é que o conflito vai permanecer. O que os países vizinhos não querem é o alastrar da guerra.

Podemos dizer que nesta fase o Irão está a tentar procurar ou reunir apoio e possivelmente atores no terreno para levar a cabo uma retaliação por procuração, professor José Pinto?

Por procuração e simultaneamente podendo haver algum envolvimento da parte do Irão, mas não aquele envolvimento que se chegou a temer, porque sabemos que quem fornece todos os proxies é o Irão. E por isso mesmo pensou-se que se o Irão interferisse e acabasse por participar diretamente, o conflito poderia ter uma dimensão maior sob o ponto de vista da destruição Só que o Irão sabe muito bem que os Estados Unidos lhe fizeram logo chegar, precisamente pela via islâmica dos países que mantêm relações com os Estados Unidos, a informação de que não abandonaria Israel. E há aqui um dado importante: a Arábia Saudita, que lidera a parte sunita do Islão, está interessada em fazer um acordo de segurança com os Estados Unidos e, por isso mesmo, o interlocutor privilegiado dos Estados Unidos na zona acaba por ser a Jordânia, a Arábia Saudita e, evidentemente, o Egito. E estes países, que pertencem todos ao mundo islâmico, estão a fazer também pressão junto do Irão pra lhe dizer que não é possível ganhar esta guerra. Por quê? Porque os Estados Unidos, em situação última, evidentemente que irão ser eles também a retaliar, e não apenas Israel.

O professor já aflorou vagamente a reunião que decorreu ontem da Organização para a Cooperação Islâmica. A pergunta que lhe faço, professor José Filipe Pinto, é se neste momento o mundo islâmico apesar de todas as contradições no seu interior está unido como em outros momentos da história, sempre que se fala numa resposta a Israel.

João, nunca vai estar unido enquanto não for decidido quem é que vai liderar a ordem islâmica. Todos nós sabemos que a ordem liberal é liderada pelos Estados Unidos. Todos sabemos que a ordem eurasiana é liderada por Moscou, que a ordem da Rota da Seda é liderada por Pequim. E a ordem islâmica quem é que lidera aquilo que eles chamam a comunidade, a Ummah: há três candidatos. Um é o Irão, xiita, outro é a Arábia Saudita, sunita, e aparece um terceiro player aqui, que é a Turquia. O que acontece é que não podem falar apenas a uma voz. E por que não podem falar apenas a uma voz? Repare, a Arábia Saudita aceitou que a reunião fosse na Arábia Saudita e reconheceu que o Irão tinha direito a retaliar, a defender-se. Mas repare, ao mesmo tempo, aconselha a moderação. Isto significa o quê? A Arábia Saudita sabe que não pode entrar em confronto direto também com os Estados Unidos por aquilo que eu acabei de dizer, de querer fazer um acordo de segurança com os Estados Unidos. Por isso, o mundo islâmico nunca irá falar a uma única voz enquanto não for decidido quem é que vai liderar esta ordem islâmica.

Professor José Filipe Pinto, muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra desta quinta-feira e um ótimo dia. Muito obrigado.

Um bom dia pra si também, João.

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