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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje o Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Bem-vindo, Jorge, a mais um Gabinete de Guerra. E vamos começar pela situação do Médio Oriente. O primeiro-ministro israelita esteve reunido por duas vezes com Donald Trump durante a viagem aos Estados Unidos. Daquilo que se sabe destas reuniões, considera que há algum avanço, alguma luz que possa ver-se ao fundo do túnel sobre um possível cessar-fogo mais ou menos duradouro?

Boa tarde, Luís. Em boa verdade, nós notamos algum esforço por parte da administração Trump de resolver rapidamente este conflito. É uma promessa eleitoral que tenta cumprir, não tem tido sucesso na Ucrânia, de certo modo cria um pouco de pressão para o sucesso eventual nesta região. Estas reuniões começaram pela frase de ser um momento de rápida comemoração entre os dois, mas na prática esta terceira visita de Netanyahu é nitidamente uma forma de pressão para, de alguma forma, se aproximar mais da paz na região. Mas este relacionamento entre Israel e os Estados Unidos é talvez um caso até paradigmático e singular no sistema político internacional, em que uma potência regional acaba por ir controlando uma superpotência nos grandes desígnios que acabam por ter para a região. Netanyahu é muito rápido a negociar e a aceitar, mas depois não cumpre normalmente a sua parte e quer verdadeiramente, neste caso, a sua paz, os seus objectivos maximalistas para Israel. Mas se analisarmos também, de uma forma mais profunda, nós sabemos que verdadeiramente ele tem objectivos de impor uma mediação e só conseguirá se realmente demonstrar que os interesses dos Estados Unidos se sobrepõem às necessidades políticas de Netanyahu. O objectivo de restauração estratégica dos Estados Unidos na região é sempre um objectivo que têm desde já o primeiro mandato e acaba por definir duas ou três linhas que são essenciais e que gostaria de ver cumprida nesta estratégia para o Médio Oriente. Uma é ter Israel como amigo, ter uma promoção dos Acordos de Abraão com a aproximação à Arábia Saudita, e impedir que o Irão chegue a um armamento nuclear. E isso realmente necessita da evolução da situação na região de Gaza. O ponto de situação do acordo de cessar-fogo, em boa verdade, nós não temos outros estados neste momento. Sabemos que poderemos chegar ao terceiro cessar-fogo. Sim, há um grande esforço dos Estados Unidos, do Qatar e do Egito. Os objectivos de paz, de ajuda humanitária, de resgate dos reféns, batem, no entanto, no futuro da ameaça existencial, que não há dúvida nenhuma que Israel tem razões para se preocupar a nível de segurança, preocupação com a administração da Faixa de Gaza. Mas Netanyahu verdadeiramente está disposto apenas para os ditos 60 dias, 50% dos reféns à troca por umas centenas de prisioneiros que estão em Israel, palestinianos que estão em Israel, mas queria, e este ponto é particularmente relevante, poder continuar o conflito até atingir os objectivos políticos. E é que é verdadeiramente o que está aqui em causa.

E precisamente, deixe-me só colocar aqui também este ponto, que é: Netanyahu, por um lado, em entrevista à Fox, diz que há uma boa hipótese de haver um cessar-fogo, mas depois há esse discurso também de que Israel está determinado em alcançar todos os objectivos em Gaza. De certa forma, não são discursos contraditórios, não coloca isto mais dificuldades na obtenção desse objectivo de um cessar-fogo?

Definitivamente coloca, mas ele está sob pressão a nível interno, pressão de Smotrich, pressão de Ben-Gvir, pressão de uma ala mais conservadora em que verdadeiramente seguem um objetivo político superior, nunca é declarado, é certo, mas que já é muito superior ao militar, porque o militar já foi de alguma forma alcançado. E portanto, Israel, para além de obviamente ter sempre questões a nível de onde se colocam as forças, onde poderão estar as forças de Israel durante o cessar-fogo, e nomeadamente agora fala-se muito no corredor Morag, altamente estratégico para a situação, não só para o controlo do período de cessar-fogo, como também para a fase posterior. E nesse sentido, é exatamente o que Netanyahu pretende, ou seja, repetindo, pretende o acordo de paz, sim, ou melhor, um cessar-fogo, sim, mas nos seus termos e nas suas condições, e nomeadamente conseguir alcançar e ter a certeza que pode lutar pela não presença, passe aqui o mau português, não presença do Hamas na administração da Faixa de Gaza na fase seguinte. Portanto, uma vitória total, diria. Mas o Hamas, naturalmente, também tem os seus trunfos, quer ficar, é essencial para o eixo da resistência e sabe perfeitamente que a organização depende de continuar na administração da Faixa de Gaza. Por último, o último ponto que chegou a ser falado era a eventualidade da saída dos palestinianos que quisessem, não sei o que isso verdadeiramente significa, se quereriam mesmo ou seriam ajudados a querer, vá lá. Mas que países é que os vão receber? Não estou a identificar quem é que poderá estar disponível para isso. Portanto, em suma Isto acaba até por resumir as duas questões que me colocou. Eu acho que ainda não há equilíbrio estratégico, seja a nível local, seja na grande competição global, portanto ainda não estão reunidas as condições para avançarmos decisivamente na direção de uma paz sustentável na região.

Jorge Rodrigues, olhando para o outro conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Hoje houve já um encontro entre Volodymyr Zelensky e o Papa Leão XIV, que se mostrou disponível, isto num encontro no Vaticano, para receber negociações entre a Rússia e a Ucrânia no Vaticano. Zelensky também vai encontrar-se, igualmente no Vaticano, com o enviado norte-americano para a Ucrânia. Até que ponto pode ser útil e eficaz esta mediação de Leão XIV, tendo também por base aquele encontro que houve entre Zelensky e Donald Trump na altura do funeral do Papa Francisco?

O Papa pode ter realmente um papel relevante no nível do soft power. Poderá ser decisivo nesse campo, poderá criar as condições para o efeito. E este segundo encontro entre o Papa Leão XIV e Zelensky, que antecede já agora uma importante cimeira de esforço de reconstrução da Ucrânia em Roma, que de alguma forma pode liderar para uma paz urgente e duradoura. Só que os mediadores têm que ter três características. A última delas é conseguir impor os termos do acordo, é o que falta neste caso. O Vaticano não tem esse terceiro elemento e, portanto, não será capaz de impor, precisa de outros que o ajudem nesse passo. Agora pode criar as condições. É um interlocutor que é respeitado nas duas capitais, de alguma forma pode ser importante na criação de pontes, mas depois falta-lhe nitidamente essa tal capacidade, essa tal força, essa tal intervenção estratégica que permita realmente impor os acordos que vieram a ser decididos.

O certo é que o presidente norte-americano, nas últimas horas, últimos dias, endureceu o discurso sobre Vladimir Putin. Donald Trump mostrou-se mesmo frustrado com o presidente russo, diz que não confia nas informações que Putin passa. Apesar de Moscovo desvalorizar, Donald Trump pode perder de vez a paciência com Vladimir Putin.

Pode. Isto é um romance que pode ter acabado, mas também poderá ser apenas um arrufo. Aliás, o Wall Street Journal, eu já citei isso aqui no "Observador" uma vez, que eu tinha uma manchete que achava bastante engraçada que é: "O rei vai nu, quem é que vai dizer isto a Trump?" E de alguma forma, ele demorou sete meses a chegar a essa conclusão, mas foram sete meses que Putin ganhou tempo e que foi ganhando tempo com iniciativa, com impacto no terreno, embora não extraordinário, e portanto mantém essa capacidade no terreno e o apoio internacional pela China demonstrada esta semana e pelos BRICS, que estão a acontecer neste momento, e de facto dá-lhe alguma energia para ir mantendo a sua pressão. Putin estava preparado para esta situação e dá a ideia que irá manter os objetivos até ultrapassar as causas profundas do conflito, como designa. Trump tem pressa e a Ucrânia não é prioritária na estratégia dos Estados Unidos. Isso é patente e não é propriamente o melhor elemento numa posição negocial. É um elemento de fraqueza que é evidente e que Putin se aproveita. E verdadeiramente o conflito só para se houver uma intervenção decisiva dos Estados Unidos ou se eventualmente deixar totalmente de apoiar, mas mesmo aí a União Europeia poderá manter o apoio e poderá haver uma certa continuidade. Mas se os Estados Unidos intervirem decisivamente, e aí estamos a incluir entrega de armamento, sanções definitivas, seja diretas, seja secundárias, e uma pressão efetiva nos vários elementos e nas várias dimensões. Aí sim poderá ser criada uma posição de força que seja compreendida por Putin e eventualmente ter algum tipo de sucesso. Mas para Putin, isto é decisivo, é um objetivo definitivo e está disponível para ir até às últimas consequências, até porque tem consciência que o seu próprio regime depende do sucesso desta missão. Para Trump, como não é prioritário, poderá não estar disposto a jogar tanto neste campo, portanto prevê-se um endurecimento do discurso, mas se bem jogado por Putin, eventualmente dentro de meses a dias temos novamente um acalmar neste romance.

E entretanto o Departamento de Estado norte-americano confirma que o envio de armas à Ucrânia foi retomado depois do anúncio de que esse envio iria ser suspenso. É também um sinal dessa eventual frustração de Donald Trump, este avança e recua relativamente àquilo que é o envio de armas e do apoio à Ucrânia.

Definitivamente, é bem levantada a questão, porque é exatamente isso que se passa. As armas são defensivas, visam pressionar Putin, é exatamente dentro da linha do que nós vimos. E realmente a Ucrânia sem esse apoio, nomeadamente para os ataques em profundidade e para a defesa aérea, que é algo que tem obrigado a tomar decisões como um F-16 para ser usado em defesa aérea, que depois acabou por ser eliminado pelas tropas russas. De alguma forma, a movimentação do hub da Polónia, onde têm este tipo de equipamento, seja componentes, seja elementos principais como os mísseis de longo alcance, os Patriot, os F-16 e componentes também, de alguma forma são essenciais. Só que há uma luta política interna, e este ponto que eu queria relevar, uma luta que é política interna nos Estados Unidos Sempre houve, mas agora esteja talvez maximizada entre o que é uma superpotência global com objetivos de intervir nos vários pontos do globo, ou se os Estados Unidos devem fazer apenas uma projeção de força concentrada nos locais onde realmente necessita ter essa intervenção de uma forma mais efetiva. Essa luta política tem dado origem a movimentações diferenciadas e obviamente nota-se isso na Ucrânia de uma forma mais direta quando desinveste na Ucrânia para se concentrar na Ásia-Pacífico, que é o grande objetivo, a competição global que tem com a China. E obviamente, neste contexto, a Ucrânia por incapacidade acaba por ser ultrapassada e por vezes ficar sem este apoio que é determinante. No momento concreto, parece haver agora, pelo menos durante algum tempo, um apoio que permitirá ter outra capacidade estratégica e operacional para a Ucrânia. Vamos ver se mantém durante pelo menos alguns meses.

E relativamente aos apoios à Ucrânia, há também uma notícia que vem agora nos últimos minutos, tendo em conta que a União Europeia está a preparar o 18º pacote de sanções. Ainda não foi aprovado devido à oposição da Eslováquia. É a primeira vez que a Eslováquia bloqueia a aprovação de novos pacotes de sanções à Rússia. Há aqui também algum cansaço europeu perante aquilo que tem sido este conflito?

Naturalmente que sim, e Putin sabe disso. Aliás, uma das armas que Putin sabe que tem, e que é uma fraqueza do Ocidente, é o cansaço do Ocidente em relação a esse tipo de questões, enquanto que para o objetivo prioritário, pelos quais se morre, aliás, em estratégia é assim que se designa, para Moscovo, a população tende a compreender que a Rússia está sob um cerco do Ocidente e portanto tem outra capacidade para manter, até pelas características do regime, não propriamente democrático, ou o que se chama uma democracia liberal, que é algo estranho, verdadeiramente não liga uma coisa com a outra, mas a nível de conceitos vai-se falando nisso. Ele sabe que o tempo está a jogar perfeitamente a seu favor e portanto vai utilizando o mais que pode a extensão, seja na relação com os Estados Unidos nesta negociação que vai prolongando, e já falamos de sete meses, seja com a União Europeia ou com a Europa de uma forma mais global, se incluirmos o Reino Unido, em que vai esticando, vai pressionando e vai desenvolvendo uma guerra de comunicação que sabe que é um ponto fraco que existe a nível de democracias ocidentais, e que portanto ele encontra aqui pontos frágeis onde tocar. Umas vezes é através de Orbán, outras vezes é através da Eslováquia, mas vai pisando também nas fronteiras, criando algum tipo de desestabilização das fronteiras ocidentais e também nas capitais com movimentos nacionalistas que de alguma forma são apoiados por Moscovo. Isto para além de, obviamente, também ameaçar com um conflito híbrido que já tem dado algum tipo de consequências através de algum tipo de proxies que são desenvolvidos a partir de Moscovo.

Jorge Rodrigues, muito obrigado por ter estado em mais um "Gabinete de Guerra", coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Até à próxima, obrigado.

Obrigado, até breve.