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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é por aqui que todos os dias analisamos as duas principais guerras pelo mundo, quer na Ucrânia, quer também no Médio Oriente. Hoje para isso junta-se a nós o professor e historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo. Bom dia. Hoje vamos começar pelo tema forte desta semana, ainda que não esteja diretamente relacionado com os dois grandes conflitos. Vamos falar sobre o atentado com Donald Trump durante este fim de semana e vamos tentar perceber com a tua ajuda, Bruno, como é que foram reagindo os vários países que estão envolvidos nestes conflitos a esta situação. Vamos olhar para como reagiu a Rússia, a Ucrânia, mas também Israel, e se este atentado terá algum impacto naquela que é também a relação diplomática entre estes países e também os Estados Unidos da América. O que é que nos podes dizer?

Realmente, pode-se dizer que genericamente todos os atores tentaram usar um pouco o atentado para fazer passar a sua mensagem. Embora há aqui um aspecto em comum, que é a rejeição deste tipo de ataques terroristas contra os chefes de Estado, com um problema de base, que é no caso da Rússia, há essa condenação, mas depois, nomeadamente a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo utiliza isto para atacar o Partido Democrático, o presidente Biden, a atual administração, e dizer que eles no fundo promovem o ódio e a violência contra outros, realmente tendo uma extraordinária hipocrisia vindo de um país que, como nós sabemos, tem tido o hábito de eliminar opositores políticos com bastante frequência, inclusive com ataques em países ocidentais. Já falamos aqui várias vezes disso, o ataque em 2018 contra os Skripal em Salisbury, uma cidade na Grã-Bretanha, que acabou por resultar na morte de uma cidadã britânica e em vários cidadãos britânicos, inclusive policiais, gravemente doentes e que estiveram entre a vida e a morte. Portanto, aí a Rússia não terá grande autoridade, mas no fundo isto corresponde aqui a uma tentativa de colar as críticas que são feitas a Putin e à Rússia, às críticas que são feitas a Donald Trump. Depois, a Ucrânia, Zelenskyy vem sublinhar aqui a rejeição da violência, do uso da violência para resolver conflitos políticos e, portanto, também é evidente que sem ser uma coisa tão flagrante, também estava aqui a passar a mensagem que o tipo de política brutal da parte da Rússia também corresponde a uma certa normalização da violência na política. Aliás, sabemos que Zelenskyy foi alvo de várias tentativas de assassinato por parte da Rússia e, portanto, também procurou usar este evento para relembrar isso. Do lado de Netanyahu, ele tem uma simpatia pessoal conhecida com Trump, certamente é daqueles líderes que estão a torcer para que Trump ganhe, porque a expectativa é que ele teria uma postura muito mais favorável a Israel do que a atual administração. Mas aqui ele aproveitou, sobretudo ele e os seus aliados, para também atacar a própria oposição interna, os críticos de Netanyahu no interior de Israel, e isso gerou uma enorme polêmica em Israel, uma rejeição que pudesse haver aqui qualquer tipo de semelhança entre críticas, mesmo que muito duras da oposição, e depois algum tipo de cumplicidade com atos de violência política, terrorismo.

Bruno, olhando para os conflitos em si, e vamos começar pela Rússia, já que falamos aqui da Rússia também. A Rússia e a China começaram hoje treinos militares conjuntos. Os militares estiveram já presentes numa cerimônia de boas-vindas na cidade de Zhanjiang, no sul da China. Que impacto é que isto pode ter, de forma já quase imediata, na guerra com a Ucrânia, Bruno?

Não tem um impacto muito direto neste sentido, que é o que estamos aqui a falar e o que temos visto com alguma frequência, alguma regularidade entre a China e a Rússia, desde a invasão da Ucrânia, são exercícios militares navais. Neste caso, aqui eventualmente a novidade é que ao contrário de serem mais para norte, mais junto ao Japão, à Coreia, etc., ou seja, mais nas águas que fazem fronteira entre a China e o Extremo Oriente russo, temos nos de recordar que a Rússia vai até ao Extremo Oriente, Vladivostok está literalmente na fronteira com a China. Neste caso são bastante mais a sul, naquela zona já do mar do Sul da China, isto é frente à ilha Daião, onde há uma série de disputas territoriais entre a China e outros países. Portanto, eu diria que é uma demonstração de solidariedade militar, diplomática, política da Rússia em relação à China nestas disputas, numa zona que já tem diretamente a ver com elas, mas com meios navais que não podem ser usados, não são utilizáveis no conflito com a Ucrânia, inclusive porque a Rússia tem esse problema geoestratégico de base, que tem uma costa vastíssima, mas muito voltada, grande parte dela para o Ártico, e muito dispersa. A Rússia tem que ter uma frota no Extremo Oriente, tem que ter outra frota para o Ártico, tem que ter uma frota para o Báltico e tem que ter uma frota para o Mar Negro, que para todos os efeitos é um mar fechado nesse sentido. A Turquia tem a possibilidade legal e também prática de fechar o Mar Negro num contexto de um conflito armado e fez isso desde o início. Ou seja, a Rússia não pode enviar novos navios de guerra, por exemplo, desta frota do Extremo Oriente para o Mar Negro. Portanto, pode usar estes meios navais para mostrar que ainda tem algumas capacidades no Extremo Oriente que são úteis à sua aliada, cada vez mais importante na guerra, nomeadamente em termos económicos, que é a China. Portanto, tem esse efeito, mas indireto, de sublinhar aqui esta aproximação, esta convergência entre a Rússia e a China, que é muito importante para a Rússia sustentar o seu esforço de guerra.

E Bruno, a primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas, apresentou a demissão para assumir o lugar de Josep Borrell na União Europeia, ou seja, o lugar de alta representante da União Europeia para os negócios estrangeiros. Pergunto quem é Kaja Kallas, o que defende e também que mudanças é que podemos esperar agora neste cargo tão importante na União Europeia?

Kaja Kallas é uma política muito experiente, é a primeira-ministra da Estónia desde 2021. Antes disso, foi também deputada europeia, portanto tem bastante experiência na política europeia. Aquilo que aqui é mais de sublinhar é, evidentemente, até pelo histórico dos países bálticos e até pela história pessoal dela. Ela é descendente de uma dinastia política muito importante na Estónia. O seu bisavô foi inclusive chefe das Forças Armadas estônias no período da conquista da independência, depois da revolução comunista na Rússia. A sua avó e a sua mãe, a mãe da Kaja Kallas, basicamente cresceu na Sibéria, viveram 10 anos deportadas na Sibéria durante o período soviético e, portanto, obviamente, ela caracteriza, sobretudo, eu diria, a grande diferença em relação ao seu antecessor, isto partindo do princípio que vai correr tudo bem e que ela realmente será aceita pelo Parlamento Europeu como alta representante para a política externa e para a defesa. A grande diferença será acentuar muito mais a prioridade à Ucrânia, ao Leste e uma dimensão muito cética, se quisermos até muito hostil em relação à Rússia de Putin, muito crítica. Isso obviamente tem sido a linha que ela seguiu sempre. E menos atenção, menos importância e menos prioridade às questões, por exemplo, do Mediterrâneo, do Médio Oriente, da Palestina, onde a Estónia historicamente tem tido uma postura muito mais prudente, o que não quer dizer que também não tenha sido crítica nalguns aspetos de Israel. Por exemplo, a Estónia apoiou com os outros países nórdicos e bálticos a elevação do estatuto da Palestina nas Nações Unidas há poucos meses, mas realmente não é uma prioridade para a Estónia, e a Estónia aí tipicamente tem uma postura muito mais reticente, muito menos crítica de Israel, muito menos pró-palestiniana do que aquela que tem tido Borrell e que é aquela também que tradicionalmente os principais políticos espanhóis têm tido.

Bruno, vamos passar então à guerra no Médio Oriente, ao conflito no Médio Oriente e obviamente já aqui falámos, os últimos dias têm sido muito marcados pelo ataque a Donald Trump. Vamos olhar também para essa questão. Com os Estados Unidos em polvorosa, o apoio a Israel pode estar em risco ou pode haver aqui um ponto de viragem nessa relação?

Na verdade, com Joe Biden, pelo menos, não foi isso que aconteceu. Há uma postura mais crítica do que de muitos no Partido Republicano e também do próprio Donald Trump. Embora, é importante sublinhar, o Donald Trump é conhecido por ser muito errático, ser muito imprevisível, ser muito pouco favorável a ajudas significativas a outros países. Israel tem sido uma exceção, mas não quer dizer que isso não possa voltar a ser posto em questão. Mas à partida, eu diria, como resultado direto disto, não é expectável que haja qualquer mudança. Biden continua em funções, tem plena autoridade para continuar a dirigir a política externa dos Estados Unidos. No caso de eleições em novembro resultarem numa vitória de Donald Trump e Trump depois assumir a presidência em janeiro, é bem provável que tenha uma postura mais favorável a Israel, menos crítica a ações militares mais brutais, menos preocupada com a questão dos dois Estados, negociações de paz. Portanto, tudo isso é expectável, mas obviamente só a partir de janeiro, quando Trump assumiria o poder. Eu diria, em todo caso, há aqui um efeito indireto, que é há muitos analistas, e eu tendo a concordar, que consideram que uma das prioridades do Netanyahu, no fundo, é ir arrastando o conflito e ir se mantendo no poder até novembro, porque se Trump for reeleito, a expectativa é que a pressão para ele sair deixa de existir a partir dos Estados Unidos. Algum apoio, mesmo que prudente à oposição mais moderada, deixa de existir a partir dos Estados Unidos e, portanto, as possibilidades de ele sobreviver politicamente a um contexto muito difícil, em que ele tem uma enorme impopularidade e rejeição, mais de 70% dos israelitas querem que ele saia, pode aumentar.

Certo. Bruno, vamos fechar ainda com a guerra no Médio Oriente e depois de várias afirmações contraditórias feitas por diferentes elementos do Hamas e aqui afirmações feitas em público, Israel veio agora esclarecer que as negociações para um acordo que possa permitir a libertação dos reféns continuam. A minha pergunta é: passado todo este tempo que já dura este conflito, ainda é possível acreditar num acordo neste sentido?

Eu tenho sido sempre muito cético, tenho sempre insistido que temos de esperar que um acordo seja assinado e até que ele comece a ser implementado para podermos dar por seguro que realmente há um acordo, que é um cessar-fogo. E a razão para isso é que realmente há muitas divisões, quer ao nível do Hamas, quer ao nível de Israel, mas o setor que tem prevalecido é sempre o setor mais duro, é sempre o setor mais favorável a soluções militares. Tivemos declarações do próprio líder da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, obviamente condenando as ações de Israel, mas dizendo que é o Hamas que é responsável por continuar a querer a continuação do conflito, no fundo, sacrificando os civis palestinianos para tentar criar dificuldades em termos externos a Israel, mas à custa dos civis palestinianos. Independentemente aqui dos detalhes, aparentemente houve um setor mais duro que usou o ataque contra o líder militar do Hamas, que é obviamente um alvo militar à partida legítimo. Se depois o ataque foi proporcional ou não, se deveria ter sido feito numa zona onde poderia ter provocado a morte de muitos civis é outra questão, mas Mohammed Deif é realmente o principal responsável, nomeadamente pelos ataques do 7 de outubro. Mas usar isso como pretexto para não avançar com as negociações e há outros setores mais políticos dentro do Hamas que aparentemente consideram que se deve continuar a negociar. Israel vem dizer que as informações que têm é que realmente as negociações continuam, mas o que isto revela, sobretudo, são estas divisões e que há um setor muito forte dentro do Hamas e que em última análise, até ver tem tido a última palavra, realmente não é muito favorável a chegar-se a um compromisso. E claro, também do lado de Israel e do governo de Israel, sabemos que também há setores ainda mais duros do que o próprio primeiro-ministro, que também são completamente hostis a qualquer compromisso.

Bruno Cardoso Reis, voltaremos a encontrar-nos noutra oportunidade para mais um Gabinete de Guerra. O de hoje fica por aqui. Obrigado, Bruno, e até uma próxima.

Obrigado.