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Abrimos a porta para mais um "Gabinete de Guerra", programa em que fazemos a análise aos dois conflitos em curso: a guerra no Médio Oriente e também a guerra na Ucrânia. Hoje contamos com Carlos Gaspar, professor, investigador, especialista em relações internacionais. Carlos Gaspar, muito boa tarde.

Boa tarde.

Começamos a olhar para a guerra na Ucrânia. O novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convocou pela primeira vez Vladimir Putin para um encontro para negociar um acordo de paz com a Ucrânia, sob pena da Rússia correr o risco de ser destruída. Já vimos também Vladimir Putin a felicitar o 47º presidente dos Estados Unidos, a dizer que pretende procurar uma paz duradoura com Kiev. A minha pergunta, Carlos Gaspar, é se estamos próximos de ter um encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin.

Não há nenhuma indicação sólida nesse sentido. Pelo contrário, o presidente Donald Trump quis convidar o presidente Xi Jinping para a sua posse, e o presidente chinês fez-se representar a um alto nível. Também declarou que queria ir à China nos primeiros 100 dias do seu mandato e até agora ainda não aumentou as tarifas comerciais em relação aos produtos chineses, ao contrário daquilo que tinha sido a sua promessa eleitoral. Isso significa que, aparentemente, o presidente dos Estados Unidos, o presidente Trump, vai fazer o contrário do que fez o seu predecessor. Não é, aliás, o único caso em que ele faz o contrário do presidente Biden. O presidente Biden começou por prolongar unilateralmente o acordo New Start com a Rússia e foi ao encontro de Vladimir Putin em Genebra para uma cimeira antes de se encontrar com Xi Jinping. Aparentemente, neste momento, a ordem dos fatores, se me posso exprimir assim, é oposta. Primeiro Xi Jinping e depois Putin.

Até porque, Carlos Gaspar, depois da tomada de posse de Donald Trump, Putin e Xi Jinping já falaram ou planeiam falar por videoconferência a defender uma ordem mundial multipolar mais justa. A presidência de Donald Trump vai obrigar a China e a Rússia a estreitar ainda mais os laços?

O objetivo estratégico da nova administração americana é idêntico ao do seu predecessor. Tal como Biden, o objetivo principal e prioritário de Trump é separar a Rússia da China ou separar a China da Rússia. Na versão de Biden, aparentemente, separar a Rússia da China. Na versão de Trump, se nós estamos a interpretar bem os sinais, separar a China da Rússia. Em qualquer caso, o objetivo é o mesmo: é pôr fim à grande coligação entre as duas grandes potências euro-asiáticas, que é naturalmente o pesadelo de qualquer potência marítima.

O Volodymyr Zelensky está em Davos a participar no Fórum Económico Mundial.

Trump também vai participar.

Exatamente. Já discursou Volodymyr Zelensky, que pediu uma política de defesa conjunta na Europa, sugeriu até que a Europa tivesse uma Iron Dome, mais ou menos à imagem do que tem Israel. Dizia o presidente ucraniano neste discurso que apesar de todos os olhos estarem apontados à Casa Branca com o regresso de Donald Trump, a Europa não pode ficar em segundo plano. Os países europeus, nesta altura, não têm outra opção senão aumentar o investimento em defesa, nomeadamente ir ao encontro daquela meta dos 5% do PIB?

Com certeza, e os Estados Unidos também deviam ir ao encontro dessa meta. Os Estados Unidos estão um pouco acima dos 3%, um dos níveis mais baixos de gastos de defesa da sua história desde 1945, e precisam de aumentar para os 5%. Precisam de começar por fazer aquilo que querem que os outros façam. E obviamente que os 5% dos Estados Unidos são bastante mais importantes do ponto de vista estratégico do que os 5% dos principais países europeus, que estão completamente impreparados para fazer essa mudança, com exceção da Polónia, das repúblicas bálticas e, eventualmente, da Polónia e da Finlândia. Mesmo a Inglaterra e a França, bem como a Alemanha, estão no limiar dos 2%, que dentro do quadro da NATO passou a ser o nível mínimo dos gastos de defesa e não a meta a alcançar. A meta a alcançar vai ser redefinida rapidamente na contagem decrescente para a próxima cimeira do Conselho do Atlântico Norte em julho deste ano. Os mais otimistas antecipam que ela passe a ser 3,5%, mas provavelmente terá que ser um pouco mais do que isso. E além disso, é indispensável reorganizar os exércitos e restaurar, de uma forma ou de outra forma, o serviço militar obrigatório. Isso já está a ser feito na Finlândia ou na Suécia e também na Alemanha, mas é outra urgência que Está em cima da mesa para restaurar o mínimo de credibilidade da defesa convencional europeia, no quadro da NATO com exércitos europeus.

Acha que vai ser uma realidade que vamos ver em mais países europeus, além da Finlândia?

Já está em curso na Suécia e na Alemanha também. Há muitas formas de fazer o serviço militar obrigatório. O serviço militar obrigatório não quer dizer que seja um serviço universal. Pode ser um serviço militar obrigatório e não ser universal, mas é uma mudança que é necessária, de certa maneira, tão necessária como a modernização tecnológica e o reforço dos armamentos, incluindo a defesa antiaérea, onde a Alemanha e a Grã-Bretanha estão na primeira linha para criar uma defesa antiaérea no quadro da NATO, na frente leste europeia, que tenha o mínimo de credibilidade e que devia ser, obviamente, alargada à Ucrânia.

Viramos a página para falarmos também um pouco sobre a guerra no Médio Oriente. Carlos Gaspar, o Hamas confirma a libertação de quatro reféns no próximo sábado, depois de três no fim de semana passado. Uma informação que foi confirmada hoje à agência de notícias France Presse por um alto dirigente do movimento palestiniano. Também soubemos hoje que os palestinianos poderão regressar ao norte de Gaza, ao norte do enclave, a partir da próxima semana, se o acordo for mantido até lá. Já vimos Donald Trump a dizer que não está confiante neste acordo de cessar-fogo. Há razões para ter confiança?

Não há muitas razões para ter confiança, porque não está definido o que é o dia seguinte em Gaza, como é que Gaza vai ser administrada e quem é que vai ter, desde logo, tropas no terreno e quem é que vai ser a administração civil de Gaza. Enquanto isso não estiver definido, todos os acordos são contingentes e difíceis de impor. Aparentemente, aquilo que está em marcha é um esforço inteiramente necessário para impedir que o Hamas volte a ser a administração de Gaza. E perante isso, obviamente, o Hamas vai resistir e não é evidente qual seja a capacidade de resistência militar do Hamas neste momento. O Hamas foi derrotado, mas não está destruído.

Vimos também uma notícia de hoje, o exército israelita e a agência de serviços secretos do país, a Shin Bet, lançaram uma operação de grande escala na cidade de Jenin, na Cisjordânia. São fontes do Times of Israel a dizer que esta operação deverá durar pelo menos vários dias. Depois, o Hamas veio apelar a uma mobilização contra esta operação israelita na Cisjordânia. Estas operações prejudicam ainda mais um acordo de cessar-fogo que pode já estar pendurado por um fio?

Prejudicam os aliados do Hamas na Cisjordânia. Aquilo que é o plano tal qual ele está delineado nas conversações entre os Estados Unidos, o Egito e Israel, é substituir o Hamas pela autoridade palestiniana em Gaza. Mas para isso é preciso começar por neutralizar os aliados jihadistas do Hamas na Cisjordânia, coisa que aparentemente a autoridade palestiniana não é capaz de fazer pelos seus próprios meios. E nesse sentido, os israelitas vão fazer aquilo que é preciso fazer, de certa maneira, para consolidar a autoridade da autoridade palestiniana.

Deixe-me também perguntar-lhe, Carlos Gaspar, uma outra notícia de hoje. Aliás, nós já ouvimos Netanyahu a falar desta mobilização na Cisjordânia, a dizer que o objetivo é garantir a segurança de Israel. O que eu lhe queria perguntar é: o chefe das Forças de Defesa de Israel anunciou que vai renunciar ao cargo, isto em março, por causa dos falhanços que levaram ao ataque do 7 de outubro. Isto já foi aproveitado pela oposição a Benjamin Netanyahu a sugerir ao primeiro-ministro israelita que siga os passos deste comandante. O que eu queria perguntar é até que ponto é que a oposição interna em Israel pode perturbar talvez até o que se passa dentro do país numa altura de cessar-fogo. Temos um cessar-fogo há muito pouco tempo. Isto prejudica ou beneficia a oposição ao regime de Netanyahu?

O que é indispensável é que haja rapidamente eleições em Israel. A coligação que está no poder está completamente esgotada. Ela é também corresponsável pelas falhas de segurança que tornaram possível o massacre de outubro de 2023, o ataque do Hamas contra os kibutz em Israel. E, portanto, esgotou-se. A guerra já terminou em Gaza, a guerra já terminou no Líbano e, portanto, é preciso fazer rapidamente eleições, porque para fazer uma paz duradoura Uma paz duradoura é preciso um poder legítimo ou é preciso restaurar a legitimidade do governo em Israel. E nesse sentido, numa democracia, Israel é uma democracia, para haver uma paz sólida e duradoura, é preciso haver eleições e acabar com esse ciclo infernal, porque como há uma situação, há sempre uma situação de instabilidade nas relações com estes vários grupos, então não é possível pôr em causa o governo. Este governo está esgotado e é preciso retomar um processo de legitimação das instituições democráticas de Israel.

Deixe-me perguntar-lhe então se esta demissão de Herzi Halevi, que é o chefe das Forças de Defesa de Israel, não tem esse objetivo, ou seja, não tem o objetivo de ser este chefe das Forças de Defesa a assumir a responsabilidade por inteiro daquilo que aconteceu no dia 7 de outubro?

Não pode. Ele só pode assumir a responsabilidade pelo lado das Forças Armadas de Israel, não se tem outra intenção senão assumir as suas responsabilidades. De qualquer maneira, está a dar um bom exemplo.

E nesse sentido, as investigações ao que aconteceu, demite-se no dia 6 de março, que é o dia em que são conhecidas as conclusões da investigação ao ataque do dia 7 de outubro. Devemos ter o dia 6 de março sublinhado nos calendários? Pode haver um terremoto político interno quando as conclusões forem conhecidas?

Não sei quais são as conclusões e, portanto, não posso responder a essa questão. Espero apenas que haja rapidamente eleições em Israel.

Carlos Gaspar esteve conosco no Gabinete de Guerra, professor, investigador, esteve a ajudar-nos a analisar estas duas guerras em curso, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Carlos Gaspar, muito obrigado, muito boa tarde.

Obrigado.

O Gabinete de Guerra, Filipa, regressa já amanhã.