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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos do conflito no Médio Oriente. Hoje com o especialista António José Telo, antigo professor na Academia Militar. Boa noite, António José Telo. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começamos com as recentes declarações do presidente iraniano, que disse que o acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irão não vai incluir uma negociação sobre os mísseis balísticos iranianos, isto porque Teerão não confia nos Estados Unidos. Diz isto recordando os dois ataques norte-americanos que decorreram a meio das negociações. Eu perguntava-lhe: como é que se avança com conversações e negociações com vista à paz, com um ambiente de desconfiança nos bastidores?
É uma excelente pergunta, mas é preciso ter em conta que ainda não estamos propriamente em conversações com vista à paz. Estamos nos preliminares, no protocolo que estabelece as condições para começar as negociações, que por seu lado dá um prazo geral de dois meses. Não é normal que nesse prazo se chegue a qualquer acordo de paz, portanto, o mais normal é que seja prolongado, pelo menos mais dois, três meses, ou seja, até ao final do ano. E ambos os lados estão nessa perspetiva. Aliás, a questão dos mísseis balísticos é um dos pontos dos objetivos oficiais desta operação, é uma que claramente fica fora das negociações, o que significa que é um dos pontos que nos permite entender que estas negociações são essencialmente para ocupar estes próximos meses até ao final do ano, porque interessa quer aos Estados Unidos, quer a Israel, quer também ao Irão, que isso aconteça. E que todos os lados, quer o Irão, quer os Estados Unidos, quer Israel, estão a preparar para que ao fim de algum tempo comecem a surgir incidentes, uns a seguir aos outros, se não diretamente em Ormuz, no Líbano, se não no Líbano, noutro sítio qualquer, que esses incidentes se vão acumulando e que haja depois a ocasião e justificação para uma operação de outro tipo.
Quando falamos em incidentes, não nos podemos esquecer aqui o contexto frágil da questão do Líbano, das negociações também entre a delegação libanesa e Israel, que estão a ser mediadas pelos Estados Unidos. Perguntava-lhe qual é a viabilidade também de alcançar um acordo com este contexto frágil do cessar-fogo no Líbano.
Repare, no Líbano é uma situação muito curiosa, porque Israel está, no essencial, em concordância com o governo do Líbano e, por sua vez, concorda também e tem o apoio do governo da Jordânia e tem o apoio de uma parte substancial da Síria, a começar no governo da Síria. E tem o apoio porque todas essas entidades querem uma coisa, que é o desarmamento do Hezbollah. E o desarmamento do Hezbollah, que é uma coisa que já foi aprovada várias vezes em anos anteriores, seria a única solução para estabelecer uma situação de paz minimamente estável no Líbano. É duvidoso que o Hezbollah, mesmo que diga que aceita, aceita fazer isso, embora ele neste momento está de facto numa posição de fragilidade, que é a dificuldade de ser abastecido pela sua antiga autoestrada, que era a autoestrada que passava pela Síria e hoje está não completamente cortada, mas está muito debilitada. Portanto, o Hezbollah está aqui também a ganhar tempo e tem como sua principal arma o Irão e as pressões que o Irão vai fazendo sobre os Estados Unidos. Portanto, é uma situação que torna muito difícil uma paz estável, porque o Hezbollah não aceitará o desarmamento, mesmo que o diga à última hora, haverá sempre algum pretexto para que isso não aconteça. E Israel também não pode aceitar que a sua população no norte continue a ser castigada a partir do Líbano, não pelo Líbano, mas pelo Hezbollah, com rockets, com drones, com artilharia, etc. E como tal, há uma situação de dificuldade em obter qualquer paz estável e, pelo contrário, é um dos pontos mais frágeis de todo o Médio Oriente, onde possivelmente será um dos pontos de rutura, não já, mas daqui a umas semanas, meses.
Referiu-se a Israel. Ainda hoje o ministro da Segurança Nacional israelita afirmou que se for necessário, Tel Aviv é capaz de desafiar Donald Trump em relação a esta questão do cessar-fogo no Líbano. Como é que esta posição de Israel pesa na balança em tudo isto?
Israel não vai recuar no Líbano no sentido de que não vai retirar do sul do Líbano sem que o Hezbollah seja desarmado e sem que isso se concretize e sem que haja no terreno alguma situação concreta e efetiva para implementar isso. Eu recordo, nomeadamente, que inclusive já houve um acordo da ONU que implicou a projeção de forças da ONU para o sul do Líbano e o objetivo era, num primeiro momento, desarmar o Hezbollah, não se conseguiu. Num segundo momento, servir de interposição, de força de interposição entre o Hezbollah e Israel, também não se conseguiu. Isto durou vários anos. Portanto, por várias vezes têm falado nisso e, pelo contrário, a realidade até agora tem sido um reforço em relação ao Hezbollah, que em termos dos mais de 40 proxies que o Irão tem em todo o Médio Oriente, é sem dúvida o mais forte neste momento e continua a ser o mais forte Israel não vai aceitar a retirada do sul do Líbano sem que haja uma solução garantida internacionalmente de desarmamento do Hezbollah, o que seria excelente para o governo do Líbano. Era a melhor coisa que o governo do Líbano queria e seria ainda mais excelente pra população do Líbano. No entanto, uma das coisas que marca também o dia de hoje e que é significativa é que, de novo, tornamos a ver colunas de caminhões e de carros com civis no Líbano, mas agora vêm pra sul. Agora o êxodo é, de fato, para sul. Há, aparentemente, alguma esperança daquela população de que conseguirá retomar o seu território, as suas povoações e as suas habitações, pelo menos aquelas que ainda estão de pé.
Outra questão que tem marcado este conflito é a questão do estreito de Ormuz. Hoje o Irão e Omã reuniram-se em Mascate e no final do encontro afirmaram que todos os acordos ligados ao estreito de Ormuz devem respeitar na íntegra as respectivas soberanias dos dois países. O que está realmente em causa nestes encontros bilaterais entre o Irão e Omã em relação ao estreito de Ormuz?
Essencialmente, o que está em causa é a futura arquitetura de segurança do Medio Oriente, pelo menos desta parte do Medio Oriente, ou seja, do Sinai para Oriente. E é isso que está em causa, o Irão, como é evidente, quer uma arquitetura de segurança em que ele esteja no centro e em que os restantes países, que neste momento são aliados dos Estados Unidos neste conflito, tenham um entendimento com ele que lhes permita cobrar uma portagem, na prática, no Estreito de Ormuz, e quer o respaldo dos restantes países para tentar fazer isso. Os Estados Unidos não me parece que vão aceitar, mas também não me parece que vão cortar imediatamente as negociações por causa disso. Vão fazer todos os possíveis para prolongar as negociações durante mais uns meses, porque neste momento não lhes interessa retomar as operações em termos de operações militares. O Irão quer isso. É evidente que há uma outra arquitetura de segurança alternativa que é proposta pelos Estados Unidos. E neste momento, curiosamente, começa a desenhar-se uma outra arquitetura de segurança para essa zona, que implica uma participação maior de essencialmente três Estados muito importantes, mas que têm mantido relativamente discretos. Um que é o Paquistão, que é um poder nuclear oficialmente. O Paquistão quer ter também uma voz numa arquitetura de segurança futura, até porque o Irão é um vizinho demasiado poderoso para o seu gosto. Outra que é a Turquia. A Turquia também já disse claramente, deu a entender, que qualquer futura arquitetura de segurança tem que ter uma voz, deu a entender à volta da situação do Líbano, mas esta situação do Líbano prende-se diretamente a uma outra que interessa muito à Turquia, que é a dos curdos, que estão em vários Estados, nomeadamente no Estado turco. A Turquia também quer uma participação. E finalmente, há um terceiro que ainda tem sido mais discreto, mas que tem tido um papel significativo em muitos dos passos nestas negociações, que é o Egito. Esses três, de alguma maneira, quererão entrar numa arquitetura de segurança. Os Estados Unidos, pelo menos Rubio, Marco Rubio, estão interessados em trazer para essa arquitetura de segurança, sem dúvida o Egito, e eventualmente, embora com um ponto de interrogação, qual o papel da Turquia. E no caso do Paquistão, já é mais duvidoso. Já agora, o Paquistão prende-se diretamente à quarta arquitetura de segurança. Este é tão complexo que há quatro arquiteturas de segurança possíveis para o futuro do Medio Oriente. E essa quarta é uma arquitetura de segurança em que o Paquistão, que é quase a mesma coisa que dizer que a China, teria um papel importante e eventualmente fazendo um entendimento diretamente com a Arábia Saudita e com outros países, nomeadamente Omã. Há aqui muitas coisas em cima da mesa e o Estreito de Ormuz é um ponto de choque destas múltiplas arquiteturas de segurança que estão a tentar gizar e que estão a tentar sair daqui. É uma coisa que se vai prolongar até o final do ano, e no final do ano ou se resolve de uma maneira ou se resolve de outra. Aliás, eu acho que neste caso é uma das poucas vezes em que o presidente Trump tem razão naquilo que diz, porque ele o que diz é: "Se o Irão se portar bem, muito bem, teremos o entendimento e poderemos caminhar pra uma paz estável". E diz isto com um ar que não acredita nada nisso. "Se não, teremos que retomar outras medidas". É justamente essa perspectiva fundamental, é o cenário mais provável que os Estados Unidos têm em cima da mesa. É um dos poucos casos em que o presidente Trump diz a verdade.
Referiu-se ao presidente Donald Trump. O Ministro das Relações Exteriores da Rússia apontou-lhe hoje o dedo, diz que Donald Trump voltou a atenção para o Medio Oriente e deixou de ser um mediador objetivo para negociar o fim da guerra da Ucrânia. Isto é propaganda russa ou os Estados Unidos deixaram mesmo em segundo plano qualquer intenção de intervir e de mediar o conflito na Ucrânia?
Não é para deixar em segundo plano. O interesse básico dos Estados Unidos em relação à guerra da Ucrânia tem sido fundamentalmente um, que é a futura relação com a Rússia. E a guerra da Ucrânia, quando os Estados Unidos se interfiram, e houve o encontro do Alasca, etc, foi tudo feito na base de, a partir da revisão da futura relação com a Rússia no contexto global, se resolver a questão da guerra da Ucrânia. Essa fase já passou, ou seja, neste momento os Estados Unidos já têm uma visão diferente do que será a sua futura relação com a Rússia. E têm uma visão diferente por uma razão, na minha opinião, relativamente simples, é que verificaram que o peso da China é maior do que eles pensavam. E como o peso da China é maior do que eles pensavam, e de facto a Rússia sai, em termos globais, enfraquecida, independentemente do fim que esta guerra venha a ter. Neste momento, os Estados Unidos já exploram uma outra hipótese e o que tinham pensado para a relação com a Rússia já é posto em causa. Isso tem consequências diretas nas relações Estados Unidos e Europa. Europa, pelo menos União Europeia, mas isso influencia diretamente essas relações. Ou seja, há aqui uma reavaliação de um projeto, que era o projeto americano, independentemente de quem o concebeu, mas que era o projeto americano de médio prazo, essencialmente, porque de facto a China está a crescer mais depressa e a ter mais força e a adquirir força mais depressa do que se pensava. E não é só do ponto de vista militar e político, é também, sobretudo, do ponto de vista tecnológico. Isso obriga a rever muitas coisas.
Professor António José Telo, o nosso tempo chegou ao fim. Agradeço-lhe mais uma vez a sua análise e a sua disponibilidade em falar com a Rádio Observador. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.