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Estamos de regresso ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, esta noite com o Bernardo Valente, que nos vai ajudar a perceber o que se passa nos principais focos de conflito. Olá, Bernardo, e bem-vindo mais uma vez.

Olá, boa noite, Ana.

Começamos pelo eventual acordo entre Estados Unidos e Irão. Donald Trump diz que há um entendimento que está cada vez mais perto. Diz até, e passo aqui a citar, que o Irão está mortinho por fazer um acordo. Já ouvimos isto várias vezes. Os Estados Unidos estão a tentar, pergunto eu, ganhar tempo para estagnar uma guerra que não lhes interessa assim tanto, Bernardo?

Eu destaco a parte do já ouvimos isto várias vezes, porque, de facto, Donald Trump por várias vezes já disse que acabaria com a civilização persa, com a civilização iraniana. Depois voltou atrás na palavra e tivemos cessar-fogos que, na verdade, nunca percebemos muito bem quais eram sequer os pontos em discussão. Sabemos que os pontos iniciais eram ou a mudança de regime ou o fim do programa nuclear. Portanto, nenhum desses dois parece próximo, mas agora surge aqui um novo elemento, e o novo elemento é a possibilidade, apesar do Irão dizer que isto não irá acontecer, de termos a transferência do urânio enriquecido para uma terceira parte. A Rússia, aliás, colocou-se logo na pole position, colocou-se logo na fila da frente para receber esse urânio enriquecido. Donald Trump e o próprio Marco Rubio já vieram dizer que podem também receber esse urânio enriquecido e que o Irão destruir caso isso aconteça. No entanto, o Irão e os representantes iranianos já disseram mais que uma vez que é impossível transferirem esse urânio enriquecido, principalmente porque essa é a grande carta negocial do Irão neste momento, para além da questão do Estreito de Ormuz. Importante realçar aqui que caso esse urânio enriquecido seja transferido ou se chegue a um acordo, que me parece difícil, como estava a explicar, há também condições e circunstâncias logísticas que dificultarão esta transferência, porque têm que respeitar todos aqueles que são os critérios da Agência Internacional para a Energia Atómica e é algo que não se faz muito frequentemente. Portanto, esta transferência de material nuclear entre países aconteceu entre a década passada e 2021, entre os Estados Unidos e o Canadá, e foi principalmente para meios médicos, portanto, uma utilização do nuclear do ponto de vista civil. No entanto, é algo que não é muito visto, esta transferência de material nuclear e que pode, aliás, acarretar grandes riscos para a saúde de todos nós. E, portanto, neste momento, é este o panorama. Sabemos que as negociações estão a ser agora novamente definidas e há um rascunho daqueles 14 pontos que está a ser discutido entre Estados Unidos e Irão neste momento. No entanto, não parece que haja grandes avanços do ponto de vista geral, no conjunto geral.

Ainda sobre este conflito, Donald Trump teve uma conversa azeda com Netanyahu. O primeiro-ministro israelita não quer um acordo com o Irão, quer ataques ao Irão. O presidente norte-americano terá insistido na diplomacia. Bernardo Valente, o que é que demonstra esta atitude de Israel? Que leitura é que podemos fazer desta conversa?

Começando então pela atitude de Israel, parece-me que Netanyahu agora está mais fragilizado que nunca, tanto do ponto de vista internacional, e já falaremos sobre isso, sobre a questão da flotilha e aquilo que são atos hediondos cometidos, não só contra ativistas ocidentais, mas também perpetrados em Gaza há mais de dois anos. E depois, por outro lado, temos também a fragilidade interna, e a fragilidade interna vem de um Parlamento ou um governo que se irá dissolver e consequentemente o Parlamento também. Teremos eleições antecipadas, claro que não serão muito antecipadas, porque em condições normais teríamos eleições em outubro. Agora há a probabilidade de essas eleições irem para o início de setembro. Tudo isto no meio de um conflito que, mesmo do ponto de vista interno, em Israel, não é totalmente popular. Portanto, há camadas da população israelita, principalmente os que não são os tais ultraortodoxos, que não concordam com este conflito. Os próprios ultraortodoxos têm agora um problema de base com Netanyahu e com o governo Netanyahu, porque sempre se dedicaram a atividades religiosas e neste momento estão a ser também recrutados para a possibilidade de ter uma extensão do conflito ao longo dos próximos meses, tanto no Irão, como no Líbano, como também em Gaza e na Cisjordânia, com os settlements, com os chamados colonatos. Portanto, este é o ponto de vista de Netanyahu a nível interno e internacional, que percebe que quanto mais depressa conseguir criar o caos completo no Irão e assim, de alguma forma, tornar ali o Irão ou puxar o Irão para a sua esfera de influência, tornar ali o Irão uma espécie de protetorado norte-americano que não seja uma ameaça a Israel, tanto melhor para Netanyahu. No entanto, Donald Trump não percebe como é que isso se pode fazer, porque aliás, ninguém percebe como é que isso se pode fazer. O Irão tem demonstrado uma resistência, diria eu, não surpreendente para os iranianos, porque foram construídos, principalmente a sua sociedade desde os anos 70, tem sido construída na base do anti-imperialismo, mas os iranianos, com métodos muitas vezes até rudimentares, com drones particularmente baratos, têm conseguido causar a disrupção, principalmente no Estreito de Ormuz, e criar ali um problema, um garrote aos mercados globais, que é um problema para Donald Trump e que Donald Trump não tem conseguido encontrar solução nem diplomática, nem militar, nem económica, em última instância. E, por outro lado, parece que oEstá cada vez mais forte. Está tão mais forte que até esta semana algumas pessoas dentro da cúpula do poder norte-americano vieram dizer que o plano inicial seria mudar o regime e colocar lá o Ahmadinejad. Eu cresci com o Ahmadinejad como um símbolo de oposição ao Ocidente. E lembro-me sempre dele nas notícias como esse símbolo de oposição ao Ocidente, e agora de repente já poderia ser uma solução para um governo tipo o de Elsa e Rodríguez na Venezuela, só que no caso do Irão. Portanto, este é o ponto da situação. Os Estados Unidos e Donald Trump estão a tentar ainda uma via diplomática, sabendo que a única coisa que têm a ganhar neste conflito com o Irão é verdadeiramente a reconfiguração daquilo que é o mercado energético global. E esta reconfiguração do mercado energético global pode trazer alguns benefícios para os Estados Unidos, apesar de não trazer para os contribuintes norte-americanos, como sabemos, devido à subida dos combustíveis, mas no ponto de vista macro, pode trazer alguns benefícios, que é principalmente conseguir agora exportar, por exemplo, o petróleo da Venezuela, petróleo esse que as companhias norte-americanas ainda não têm sido capazes de exportar e que podem agora eventualmente exportá-lo, inclusive para a Índia, que se está a tornar um dos maiores mercados dessa exportação, porque tem que encontrar soluções energéticas ao bloqueio do estreito de Ormuz e ao conteúdo energético que ia para a Índia através do estreito de Ormuz, a partir das monarquias do Golfo e do próprio Irão. Para além disso, claro que os Estados Unidos são também independentes, autónomos do ponto de vista energético, porque têm o chamado fracking, e tem sido caso bastante o chamado fracking, portanto, há extração de petróleo através da pedra, do xisto. A nível energético, os Estados Unidos estão minimamente confortáveis e este é o único fator de conforto para Donald Trump neste conflito. Todos os outros fatores são de desconforto e esses fatores são umas intercalares a chegar e uma guerra que, não só para Israel, mas também para os Estados Unidos do ponto de vista interno, é impopular, e isso vai-se refletir nas urnas em novembro, quando chegarmos às intercalares. Por outro lado, qualquer tentativa de resolução pela força, de resolução militar, irá implicar perdas do lado norte-americano, que também estão fora de questão, até pela má memória que os americanos têm das últimas intervenções no Médio Oriente, principalmente no início deste século. E depois a questão que há pouco começava a falar sobre este tópico e agora terminando exatamente neste tópico, que é o preço dos combustíveis galopante dentro dos Estados Unidos, uma China a crescer no panorama internacional e que faz com que Donald Trump precise de encontrar uma solução, que a administração norte-americana precise encontrar uma solução, até porque começam agora a falar também de uma possível intervenção em Cuba, portanto, novos focos de conflito, mas enquanto não se resolver a questão iraniana, esses novos focos de conflito, esse novo ímpeto expansionista para aquilo que é o quintal da América, portanto, a América Central e a América do Sul, será muito difícil, porque o cerne da questão é a economia global e a economia global neste momento está presa no Irão ou no Estreito de Ormuz.

Bernardo Valente, é o último gabinete de guerra da semana e por isso vamos também olhar para aquilo que foram os últimos dias. Esta semana ficou marcada por um vídeo que foi publicado por Ben Gvir, com imagens que marcaram os últimos dias. Todos vimos, vou aqui generalizar, e sendo que acho que também é importante referirmos que as imagens que vimos são apenas uma amostra da forma como Israel trata pessoas que estão detidas, é apenas uma amostra do que Israel faz, por exemplo, aos palestinianos. Feita esta ressalva, os membros da flotilha humanitária, que foi levada por Israel em águas internacionais, denunciaram pelo menos 15 casos de agressão sexual, incluindo violações, durante o período de detenção. De que forma é que o Ocidente deve investigar estes casos de maus-tratos, não só agora que se trata de cidadãos ocidentais, mas sabemos que o critério proximidade tem influência, e de que forma é que Israel pode ser punido a serem verdadeiras estas denúncias, mas também uma punição depois das imagens que todos vimos?

Tânia, eu não conseguiria fazer uma ressalva inicial melhor do que essa. Parece-me que aí está também um dos grandes fatores de tristeza em relação a esta publicação do vídeo e a todas as ações subsequentes também dos estados europeus a condenarem a ação do governo israelita, ou neste caso, das forças israelitas. Por quê? Porque há anos que é denunciado, tanto no âmbito das organizações internacionais como no âmbito da sociedade civil, as ações de Israel, principalmente em Gaza, mas poderemos levar aqui para outros destinos agora, incluindo também o Líbano, e têm sido também de forma reiterada ignoradas essas violações do direito internacional, essas violações dos direitos humanos. Aliás, uma grande resistência de alguns governos, incluindo o nosso a certo ponto, do reconhecimento da Palestina, quando sabemos que é um ato simbólico, sim, é verdade, mas que talvez fosse importante para travar aquilo que está a acontecer em Gaza. E agora que vemos isso a acontecer com ativistas ocidentais, é que de fato os governos estão todos muito preocupados e se fala em quebrar com aqueles que são os laços econômicos e mecanismos econômicos entre União Europeia e Israel. Isto é um exemplo também daquilo que é a covardia ocidental e o porquê do direito internacional não funcionar. O direito internacional não funciona porque só funciona para algunsPortanto, quando assim é, fica muito difícil de conseguir definir onde é que se quebra essa linha dos direitos humanos, onde é que se quebra essa linha da violação do direito internacional também. É isso que estamos a assistir aqui. Os governos reagiram a este vídeo, que, aliás, por vir de Ben-Gvir, e sabemos que Ben-Gvir é da direita mais radical dentro de Israel, dá até uma sensação que há uma percepção de impunidade dentro do governo israelita relativamente a estes atos e pelo que os ativistas disseram, não só os portugueses, mas também outros internacionais que já chegaram entretanto às suas respectivas pátrias, disseram que aquilo era o mais soft, aquilo eram os métodos mais suaves que utilizavam, que foram espancados durante vários dias, que houve agressões sexuais, de facto, durante vários dias. E o mundo ficar surpreendido com isso é no mínimo irônico. E se as acusações de Israel e de algumas pessoas mais ligadas a Israel sempre foi que as Nações Unidas tinham muitos árabes ou tinham muita gente ligada ao mundo árabe, que tinham muita gente ligada à Palestina e que os relatórios de organizações internacionais nunca eram relatórios imparciais precisamente por isso, ficou ali à vista e promovido e difundido por Ben-Gvir, aquela que é realmente a atitude de Israel. Isto não coloca em causa os atos hediondos do 7 de outubro. Não é isso que se está aqui a discutir. Não coloca em causa atos que foram também hediondos e também uma violação de todos os direitos e da própria condição humana. No entanto, isto que está a acontecer de forma reiterada e que agora também nos chega ao mundo ocidental através desta flotilha, é mais um exemplo da ação musculada do governo de Israel e uma ação musculada que deve ter uma resposta também veemente do mundo ocidental, neste caso da própria União Europeia, ao quebrar aqueles que são os laços principalmente comerciais com Israel, para não alimentar este tipo de ações durante muito mais tempo.

Vamos só antes de fechar, temos aqui dois minutos para falar sobre a Ucrânia. Marco Rubio reconheceu hoje que as negociações de paz mediadas pelos Estados Unidos não foram frutíferas, falharam e estão efetivamente em pausa. Os Estados Unidos desistiram desta guerra e a União Europeia pode agora chegar-se à frente ou não há confiança de Moscovo? É que, por exemplo, a Ucrânia diz que é uma boa altura para que os líderes europeus ganhem algum território, que entretanto perderam, com a presença de Donald Trump.

Sem dúvida, e Merce começou aqui a indiciar também ontem que poderíamos ter uma Ucrânia a juntar-se como membro associado à NATO muito em breve e os líderes europeus estão aqui a cavalgar um bocadinho esta distração da administração norte-americana em relação ao conflito Rússia-Ucrânia, e estão a cavalgar também algo que é ainda mais importante, que é a Ucrânia agora estar a recuperar território à Rússia. Está a levar a guerra para o território de origem, que é a Rússia. E isto é fundamental. Por quê? Porque primeiro descobriram como criar a disrupção nas forças russas, através da desativação do Starlink, dos satélites que permitiam aos russos operar, por exemplo, drones em território ucraniano. Têm também esse fator de disrupção, tem contribuído bastante para que a Ucrânia vá recuperando território e isso faz com que agora haja uma nova esperança. E aqui também faço a mea culpa, que tantas vezes disse que provavelmente um cessar-fogo ou um processo de paz implicaria algum território ucraniano passar para as mãos russas, algum território do que está ocupado hoje pelas forças russas. No entanto, agora as forças ucranianas e quem apoia as forças ucranianas, incluindo a União Europeia, está na mó de cima. Vladimir Putin, apesar de alguns ataques esporádicos em massa, a fazer lembrar um bocadinho a atitude expansionista hitleriana que deu início à Segunda Guerra. Na verdade, esses ataques, normalmente, além de não terem tido muitas consequências nos últimos tempos, são ataques que se percebe que são esporádicos, são ataques que parecem quase até um pouco desesperados. E a Ucrânia começou com drones rudimentares e neste momento está a conseguir, através de tecnologia de ponta e claro, com o apoio financeiro, principalmente da União Europeia, mas também dos Estados Unidos, quer se queira, quer não, levar a guerra para a Rússia e recuperar território. Portanto, neste momento, mesmo do ponto de vista diplomático, é o momento certo só para se começar a repensar a questão da entrada da Ucrânia nas instituições ocidentais, assim dito em termos mais latos, mas também de, a nível diplomático, se sentarem à mesa esses líderes e tentarem convencer, neste caso, Vladimir Putin, que a guerra está perdida ou que daqui para a frente será sempre a perder, mesmo tendo em conta que Putin pode estar aqui disposto a lutar até ao último homem, até porque a sua liderança neste momento na Rússia e a economia russa depende toda do esforço de guerra. Não saberemos o que é que acontecerá, não só à economia russa, como ao próprio Vladimir Putin, se perderem este conflito, porque é aqui que reside a principal esperança de Putin para a Rússia.

E é assim que fechamos o último Gabinete de Guerra da semana com o Bernardo Valente. Muito obrigada, Bernardo, por esta análise. O Gabinete de Guerra regressa na próxima semana.