Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Boa tarde, Jorge Rodrigues, bem-vindo a mais um Gabinete de Guerra. Começamos, naturalmente, com tudo aquilo que se passa no Médio Oriente e os ataques, as respostas e contra-respostas entre Israel, o Líbano e também o Irão. Como é que olha para este momento do conflito? Estamos aqui perante uma escalada?
Boa tarde, Luís. Naturalmente que há um agravamento, não há a mínima dúvida que estamos numa fase diferente e que realmente as últimas três semanas foram marcantes no status quo da região. Portanto, de alguma forma, há aqui uma evolução. No entanto, não me parece que ainda estejamos numa fase de escalada descontrolada, seja vertical, seja horizontal, apesar de ter havido evolução nos dois sentidos. Basicamente porque ninguém quer, ninguém quer regionalmente e ninguém quer a nível global, que sabemos que tem bastante influência na região. E por que não querem? O Irão porque não está em condições, apesar de ter sido agora exposto a uma situação preocupante, visto que os seus proxies vão caindo um por um, acaba por não ter defesas diretas, mas também não tem capacidade para enfrentar Israel numa guerra aberta, numa guerra direta. Israel, porque de alguma forma pretende, bem ao seu estilo, combater, porque é a sua doutrina, de uma forma faseada, em que basicamente acaba por bloquear e retirar liberdade de ação aos seus oponentes múltiplos, concentrando forças num desses adversários. Nesse sentido, está numa fase em que está orientada para a questão libanesa e, portanto, ao Hezbollah, e não pretende de alguma forma enfrentar diretamente o Irão, até porque o Irão estaríamos a falar naturalmente de um adversário muito mais complexo, seja a nível militar, seja a nível de complexo global, que obviamente já teríamos que pensar de outra maneira.
Precisamente, Israel fez saber que prepara uma retaliação significativa contra o Irão. Estaremos aqui a falar que há também uma informação do "Times of Israel", que é uma fonte do governo israelita, diz que essa resposta ao Irão irá infligir danos financeiros significativos. Que tipo de resposta é que poderemos estar aqui a falar?
Exatamente a questão, Luís. Poderemos analisá-la como uma resposta preocupante, porque aí sim poderá dar origem a desenvolvimentos de outro nível. No entanto, como eu disse há pouco, poderá não haver esse interesse por parte de Israel. Uma coisa é certa, Israel já atingiu um patamar, e nomeadamente com as ações que teve recentes no Líbano, com o Hezbollah, em que uma ação de menor impacto acabará sempre por passar uma imagem de menor força, de maior fragilidade, no sentido de conseguir passar uma imagem de responder às dificuldades que vão surgindo. Por isso é capaz de verdadeiramente procurar outro tipo de ações, sejam elas inclusivamente utilizando ataques digitais, os chamados ataques complexos, e que poderão de alguma forma infligir dificuldades ao Irão, seja no seu sistema financeiro, seja mesmo na gestão energética ou mesmo do sistema nuclear. Mas a verdade é que há sempre um receio de um ataque direto em território nacional iraniano, porque aí sim poderia dar origem a uma escalada futura. Portanto, acreditamos, até por alguma influência externa dos Estados Unidos, que Israel vai procurar responder sim, mas não de forma a originar uma escalada.
Jorge Rodrigues, por outro lado, o Irão, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano fez uma declaração a dizer que com o ataque de ontem provou que os longos braços iranianos são capazes de chegar a qualquer sítio que queiram. A ofensiva ontem do Irão contra Israel provou alguma coisa também em relação ao regime iraniano?
O ataque foi mais impactante do que o de abril, isso não há a mínima dúvida. Portanto, realmente há aqui uma ação progressiva, nota-se um evoluir, e há pouco dizia uma pequena escalada, digamos assim, do pré-aviso de 72 horas passamos a seis, dos mísseis que foram o equipamento que foi utilizado, passamos agora a ter mísseis balísticos, que são muito mais difíceis de abater pela manobrabilidade, pela velocidade, etc. Para termos também alvos mais significativos, e saliento o QG da Mossad em Tel Aviv. Mas a verdade é que mantém a tal prudência que referimos há pouco. De certo modo, manteve o pré-aviso, coordenou com a Rússia e os Estados Unidos foram avisados, o que permitiu aos Estados Unidos, Reino Unido e França, de alguma forma, apoiarem na defesa ou completar a defesa do Iron Dome, a defesa aérea de Israel, portanto, manteve alguma responsabilidade dentro do conflito. Agora, naturalmente, que abre aqui um caminho que demonstra alguma capacidade, não só direta pelo equipamento que tem, mas também de lições aprendidas, porque ao longo de todo este processo, uma coisa que temos identificado é que realmente, seja pelas ações Huti, seja pelas ações do Hezbollah, houve sempre uma tentativa de ir experimentando as defesas de Israel para tentar, de alguma forma, ter mais sucesso nos seus ataques. Portanto, há realmente alguma capacidade, mas por enquanto ainda Não é suficiente para causar danos muito eficazes em território israelita.
E nesse sentido, Israel tem continuado a incursão também no sul do Líbano. Não se vislumbra que haja algum regresso atrás nessa incursão. É de esperar que ela continue e que vá continuando Israel a tentar atingir os seus objetivos também no sul do Líbano?
Naturalmente que sim, Luís. Aqui a questão é que temos que começar um pouco pelo princípio. Haveria um acordo já antigo com uma resolução do Conselho de Segurança em que era definida uma linha azul a norte do rio Litani. A ONU com o UNIFIL, que tem, relembrando, 10 mil capacetes azuis, não está a impedir que realmente os ataques surjam, apesar de obviamente aqui uma força de manutenção de paz, não de imposição, mas a verdade é que não tem conseguido de alguma forma nem sequer diminuir e por vezes temos os abrigos das forças do Hezbollah a 50 metros dos capacetes azuis. Há aqui qualquer coisa que tem que ser ainda esclarecido pela ONU. Mas a verdade é que o Hezbollah continua a atacar Israel, apesar de todas as ações que já foram desenvolvidas. Israel necessita de colocar tropas no terreno para conseguir talvez criar uma buffer zone, o que tinha sido negociado nessa tal resolução, mas a verdade é que não tem sido eficaz. Portanto, qual é aqui o problema? O problema realmente é a população como escudo humano. É um problema que já vimos em Gaza numa escala extraordinariamente negativa, mas que também surge aqui no Líbano. E depois, Israel sabe como vai entrar, não sabe como vai sair, não tem ainda uma estratégia de saída, o que pode criar problemas como em 1982, que acabou por sair apenas em 2000, ou em 2006, que não teve o sucesso que esperava ter e 36 dias depois teve que retirar com uma sensação amarga na boca. Apesar de agora, neste momento, termos tropas de forças especiais, de operações especiais e algumas forças regulares, mas que ainda não estão ainda na capacidade máxima, a verdade é que se demonstra que há uma intenção de ocupação temporária de terreno no sul do Líbano, no sentido de atingir objetivos maiores, nomeadamente alguns a nível político, e também o regresso da população de Israel, do norte de Israel, portanto, o regresso a casa de cerca de 60 mil pessoas.
Jorge Rodrigues, vamos também olhar para o outro conflito, que é o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. O líder da China, numa mensagem enviada ao presidente russo, a propósito dos 75 anos do estabelecimento de relações diplomáticas bilaterais, garantiu estar disposto a trabalhar pela paz e estabilidade globais. Esta relação entre a Rússia e a China é importante para esses dois países continuarem a demonstrar que têm uma ligação e que continuam a trabalhar em conjunto?
Esta ligação serve interesses de ambas as capitais, naturalmente. Há aqui uma procura de alternativa no sistema político internacional, que se encontra numa fase de desequilíbrio e portanto de competição. Há aqui uma superpotência de alguma forma desregulada, que não consegue neste momento controlar todo o sistema, e há a potência desafiante, que é a China. A Rússia, sendo potência regional, portanto sem uma capacidade de se impor a nível global, tem, no entanto, o armamento nuclear que lhe transporta naturalmente para uma outra posição. São dois atores importantes, é isso que eu pretendo dizer, e que de alguma forma pretendem surgir como alternativa ao sistema de segurança euro-atlântico e à forma como a nível global tem sido orientada toda a política internacional. Portanto, essa alternativa, baseada também no Global South, numa liderança de um mundo descontente com esse sistema, acaba por servir à China pela capacidade que vai maximizar a capacidade de desenvolvimento de ações estratégicas, seja através de rotas no sentido europeu do Belt and Road, seja a nível de ocupação territorial na região do Mar da China, e que portanto, de alguma forma, vai conseguindo capitalizar alguma capacidade de influência do sistema internacional. Para a Rússia, naturalmente diretamente afetada pelo conflito da Ucrânia, interessa também ter esse apoio e desenvolver esse apoio. Agora, em última análise, a verdade é que, apesar de tudo, não estou a ver propriamente Putin aceitar submeter-se às orientações de Xi Jinping. Portanto, será algo circunstancial e que é utilizado com um inimigo comum, mas que chegando a uma fase mais evoluída da relação e se esse inimigo comum for considerado já menos interessante, eles não têm condições para continuar a comprar, visto que têm uma relação de competição de longa data e os seus objetivos em alguns momentos são mesmo conflituosos.
E essa relação entre a China e a Rússia, Jorge Rodrigues, poderá ser também um dos grandes desafios para o novo secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que lidera a instituição desde esta semana.
Naturalmente que sim. Aliás, os três grandes objetivos, e eu já julgo que por aí se resume tudo, o que será o futuro da NATO, segundo o secretário-geral da NATO, e vamos lá ver porque não tem o poder, como sabem, é apenas uma cara para decisões que surgem das capitais ocidentais. Mas a verdade é que definiu em linha com o que o seu antecessor mantinha, três grandes objetivos, que é manter a NATO forte, particularmente importante tendo em conta o conflito que se desenrola, assegurar que a Ucrânia receba apoio face ao conflito do invasor russo e portanto prosseguir no sentido da sua adesão à Organização Atlântica e aqui o terceiro ponto, que é diretamente orientado para isto, que é o enfrentar os desafios globais à segurança euro-atlântica. Isto bate exatamente naquele primeiro ponto que eu referi na pergunta anterior e que, portanto, terá que ser uma análise, deixar de apenas considerar a NATO como uma organização atlântica e pensar também nos interesses a nível global, porque realmente, apesar de não estar no seu tratado constitutivo, estamos num patamar em que tudo está interligado e que não poderemos considerar que apenas os acontecimentos nos Estados Unidos e na Europa acabam por influenciar o futuro. Não é assim, portanto, terá que estar aqui uma margem de segurança, seja direta, seja através de parcerias, a nível global, a nível de interesses mesmo na Ásia e no Pacífico.
Muito obrigado, Jorge Rodrigues, pela sua análise. Jorge Rodrigues, oficial das Forças Armadas e coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Eu sou o Luís Soares. Este foi mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador.