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As relações entre a Coreia do Norte e a Rússia e o recrutamento russo a chegar a Cuba estão entre os pontos na ordem de trabalhos para hoje do Gabinete de Guerra. Hoje com Luís Tomé, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e do Centro de Investigação Observar, Observatório de Relações Exteriores. E também com os membros residentes deste gabinete de guerra aqui em estúdio, Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
O New York Times avançou que o líder da Coreia do Norte vai à Rússia para acertar a venda de armas a Moscovo e deve receber tecnologia e alimentos nesta troca comercial. O Kremlin não confirma este encontro entre Putin e Kim Jong-un. Comecemos por aqui, Luís Tomé, bem-vindo ao Gabinete de Guerra. Interessa mais a Moscovo ter uma postura discreta sobre este encontro, até por causa dos exercícios militares conjuntos entre os dois países, que já foram admitidos pelo ministro russo da Defesa?
Olá, boa tarde. Bom, nós estamos aqui perante sinais contraditórios, porque esta publicidade desta possível visita de Kim Jong-un a Vladivostok para se encontrar com Putin é anunciada por um jornal americano, depois de a Casa Branca ter afirmado ter novas informações de negociações avançadas de troca de armas ou de entrega de armas da Coreia do Norte à Rússia. E isto já depois do próprio ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, ter ido a Pyongyang no final de 2023. Aliás, uma comitiva russa e uma comitiva chinesa foram as primeiras que foram visitar a Coreia do Norte desde a pandemia e assistiram à parada pela primeira vez desde 2018, e já nessa altura tentou convencer Pyongyang, o ministro da Defesa russo, a vender em especial munições de artilharia. Mas é bom perceber que nós estamos aqui numa fase de crescente interesse mútuo de Pyongyang e de Moscovo, não só porque ambos são objeto de sanções do Ocidente, mas porque de facto têm aqui convergência de interesses. A Rússia manifestamente precisa de munições, e munições que a Coreia do Norte dispõe, até porque nunca desmantelou o seu potencial metalúrgico-industrial, como fizeram os países ocidentais e até a própria Rússia a seguir à Guerra Fria. E, portanto, a Coreia do Norte manteve sempre essa produção e tem muitas munições, exatamente com os mesmos calibres soviéticos e russos. E a Rússia, obviamente, tem e pode fornecer petróleo, alimentos e tecnologia de que a Coreia do Norte precisa e não dispõe. Portanto, há aqui interesse e vantagem mútua. Os riscos são de que no futuro, e talvez agora Kim Jong-un esteja a utilizar essa pressão, para desde já a Rússia fornecer certo tipo de capacidades tecnológicas, know-how e outros materiais para fazer avançar mais rapidamente o seu programa de armas nucleares, de mísseis hipersônicos e outros, inclusivamente mísseis intercontinentais lançados a partir de submarinos. Agora, eu esperaria para ver se de facto a tal reunião, a tal visita de Kim Jong-un, se vai concretizar na próxima semana, disse algures entre 10 e 13 de setembro, em Vladivostok à margem de um fórum económico. Esperaria porque tornada pública esta potencial visita, pode boicotá-la, pela razão simples de que tanto Kim Jong-un como Putin são completamente paranóicos com a sua segurança pessoal. Por outro lado, seria um mau sinal público para o mundo, no mesmo momento em que Putin não vai à Índia para uma cimeira importante do G20, encontrar-se com o líder relativamente marginal de um país ostracizado pela maioria da comunidade internacional, como é a Coreia do Norte. Seja como for, venha ou não a concretizar-se, o facto de vir a ser noticiado uma eventual cimeira e cartas trocadas ao mais alto nível entre Putin e Kim Jong-un, mostra, por um lado, que é preciso uma troca de um acordo ao mais alto nível para serem resolvidos certos problemas, certos pormenores entre os dois governos. E, portanto, as negociações têm sido muito difíceis para ambas as partes chegarem a um acordo. E, por outro lado, que há aqui uma lógica muito diferente do passado, em que a Rússia parece estar a querer fazer uma articulação e aproximação à Coreia do Norte em parceria também com a China, porque os exercícios militares que estão anunciados não serão apenas bilaterais, Rússia-Coreia do Norte, que já de por si seria significativo, mas a três, com a China também. E, portanto, o tabuleiro euro-asiático é muito mais do que entrega de armas e munições da Coreia do Norte para a linha da frente russa na Ucrânia, envolve um tabuleiro muito mais amplo, inclusivamente no Ásia-Pacífico e no Nordeste Asiático, e um outro ator relevante, direta ou indiretamente, como é no caso a República Popular da China.
Luís Tomé, é notícia hoje também que Cuba desmantelou uma rede russa que recrutava mercenários cubanos para lutar na Ucrânia. Em que medida é que isto pode prejudicar, se é que pode prejudicar, as relações entre Cuba e a Rússia?
Eu honestamente creio que não prejudica nada. O governo cubano tem tido uma posição, e os meios de comunicação oficiais cubanos têm feito eco disso, de uma retórica muito similar, seguindo aquela que é a de Moscovo ao longo deste ano e meio, quando há referências à invasão e à questão russa na Ucrânia. Embora, por vezes, nas Nações Unidas, nas votações da Assembleia Geral das Nações Unidas, Cuba até tenha optado por se abster. Por outro lado, a forma como os cubanos dão nota disto é o desmantelamento de uma rede de tráfico de seres humanos que, a partir da Rússia, recrutava cidadãos cubanos Radicados na Rússia para lutarem na guerra da Ucrânia ao lado, naturalmente, dos russos. Não é propriamente uma novidade. Nós sabemos há muito tempo que a Rússia tem feito campanhas de recrutamento também junto de estrangeiros, inclusive estudantes estrangeiros. Pode ser surpreendente por ser Cuba, e por ser Cuba a dar conta disso publicamente, mas nós vemos a Rússia nos últimos meses, sobretudo desde aquela tentativa de mobilização parcial em setembro do ano passado, permitindo-lhe recrutar ao que dizem 300 mil soldados. Mas há uma aceleração drástica de recrutamento de estrangeiros ao longo deste ano e designadamente junto de países vizinhos da Ásia Central e do Cáucaso Sul, mas também outros países europeus, e o caso particular da Hungria e da Sérvia. Não há muito tempo tivemos notícia daquela Saint Istvan Legion da Hungria, que se apresenta como uma organização russo-húngara e opera a partir da Rússia e que publicamente na internet fez apelos aos húngaros étnicos, independentemente da sua cidadania, para se juntarem às Forças Armadas Russas. E na Sérvia a operação de recrutamento é muitíssimo maior. A operação de recrutamento russa com o apoio das redes nacionalistas pan-eslavas, em particular, em torno daquele clube de motociclistas dos Night Wolves e do Marko Milošević, que é o filho do antigo presidente sérvio Slobodan Milošević, que todos bem nos lembramos. Portanto, o recrutamento russo, inclusive de estrangeiros, e podemos estender isto para o Medio Oriente e o Norte da África também, é uma forma que a Rússia tenta para não mobilizar e causar mais inquietação junto da sociedade russa e impopularidade do Kremlin, sobretudo tendo em vista as eleições presidenciais do próximo ano. Para evitar uma vida de mobilizações populares, o que a Rússia tem feito é recrutar, também como fazia o grupo Wagner e outras empresas mercenárias nas prisões, e também estrangeiros a troco de recompensas chorudas, oferta de cidadania, faz parte do processo. A surpresa aqui, se é que podemos chamar assim, é isto ser tornado público por parte de Cuba, mas estamos a falar essencialmente de cubanos na Rússia, depois por alguns laços familiares e de amizade que tenham também em Cuba.
A Rússia diz que o novo ministro da Defesa não vai mudar a natureza do governo ucraniano. É uma reação expectável, mas a escola de Rustem Umerov pode de alguma forma deixar o Kremlin melindrado, até pelo papel que este teve nos esforços internacionais para reverter a anexação da Crimeia?
Nós podemos ter aqui duas interpretações diferentes, porque nenhum de nós tem acesso exatamente ao pensamento e aos critérios do presidente Zelenskyy para designar o novo ministro da Defesa da Ucrânia, que inicia suas funções amanhã, nem sabemos exatamente o que é que corre nos corredores do Kremlin a respeito do Rustem Umerov. O que nós sabemos é o perfil deste novo ministro. Sabemos que ele é um tártaro, ele nasceu na antiga República Soviética do Quirguistão, depois instalou-se na Crimeia com a família, quando os tártaros foram autorizados a regressar à Crimeia nas décadas de 80 e de 90. Mas é um deputado recente, desde 2019, no Rada, no Parlamento Ucraniano, onde foi presidente da plataforma da Crimeia, foi conselheiro do líder histórico dos tártaros da Crimeia, participou em muitas negociações discretas e outras menos discretas com a Rússia, quer sobre a troca de prisioneiros e operações humanitárias da retirada de civis, quer sobre a parte da delegação ucraniana que participou nas negociações da iniciativa de cereais do Mar Negro. Mas é por isso que algumas fontes russas e outras dizem que a escolha, não só pelo simbolismo de ter um tártaro da Crimeia a ser nomeado para o Ministro da Defesa, e isso politicamente é um sinal muito importante e uma mensagem relevante quer para Moscovo, quer para o mundo, sobre a forma como Kiev encara e planeia o fim da guerra, seja lá quando for, mas precisamente por ter estado envolvido em múltiplas negociações ao longo deste ano e meio com a Rússia e ter alguns, porventura, canais paralelos, há quem diga que a sua escolha é tanto essa mensagem poderosa, no caso da Crimeia, como uma forma de ter alguém que possa estabelecer com os russos discretamente o início de algum tipo de negociações. Agora, a reação russa não é nada surpreendente. Aliás, tal como não é surpreendente que o ministro da Defesa nesta reação também diga, como disse Putin ontem depois da cimeira com Erdogan, que a contraofensiva ucraniana está a falhar. Mas a referência é de que a natureza do governo ucraniano não mudou porque na lógica e na narrativa de Moscovo, internamente e para os seus mais próximos parceiros, é de que o governo ucraniano é um governo fascista, neonazi. Portanto, desse ponto de vista, Moscovo limita-se a dizer um pouco do que tem vindo a dizer nos últimos tempos.
Acaba por não ser surpreendente, como dizia. Gostávamos também de ouvi-lo aqui a propósito do acordo de cereais, depois do encontro que teve com Vladimir Putin, o presidente da Turquia deve reunir-se também com Volodymyr Zelensky. Ontem, em Sochi, na Rússia, defendeu que a Ucrânia deve suavizar a posição contra a Rússia no que toca aos cereais. Isto foi para russo ver, adaptando aqui a expressão, ou pode de fato ser uma pressão adicional para Kiev, ainda para mais depois do anúncio de Putin, de que tem praticamente fechado um acordo para vender cereais diretamente a seis países africanos
Eu, honestamente, penso que o presidente turco Erdoğan improvisou e foi para lá daquilo que teriam sido as notas que lhe tinham preparado e que ele próprio teria a dizer. Ele estava naturalmente um pouco agastado por não ter conseguido obter o êxito que esperava neste encontro, sobretudo poder anunciar um acordo para o regresso russo ao acordo de cereais do Mar Negro, mas ao mesmo tempo ele também estava muito grato e satisfeito porque a Rússia adiou para o próximo ano uma conta de gás natural, equivalente a 600 milhões de dólares, que a Turquia tinha que pagar à Rússia. Agora, o que é incompreensível é que no contexto em que isto acontece, e portanto é a primeira vez que Erdoğan se encontra com Putin desde outubro do ano passado, posicionando-se como um mediador entre Kiev e Moscovo, depois não só de unilateralmente a Rússia ter saído do acordo, como desde então ter vindo a atacar permanentemente esses portos ucranianos, o silo de cereais e até do Danúbio, o presidente turco tenha dito que é a Ucrânia que tem que ter uma política de maior apaziguamento em relação à Rússia, ou que a Ucrânia precisa suavizar as suas abordagens em relação à Rússia. E é por isso, aliás, que de Kiev nós temos sinais até contraditórios sobre a sequela da visita de Erdoğan e a possibilidade de Erdoğan se vir a encontrar com o Zelensky também. Porque o ministro dos Negócios Estrangeiros diz que a seguir a este encontro com Putin é provável que o líder turco se encontre com o presidente Zelensky, mas um conselheiro de Zelensky diz que é impossível a Ucrânia abrandar a sua posição ou seguir uma política de apaziguamento, que era apenas nisso que a Rússia estava e está interessada, bem como no levantamento das sanções. A questão é que esta afirmação de Erdoğan, quase que responsabilizando a Ucrânia, não só é totalmente descabida, como falhou alvo, porque quem impõe sanções, que aliás Putin coloca como condição para poder regressar ao acordo de cereais, não é a Ucrânia. A Ucrânia não tem condições para impor essas sanções, nem as condições que o Kremlin reivindica. É o Ocidente, são sobretudo os países ocidentais, os países europeus, os Estados Unidos, e até sobre isso, já os Estados Unidos e as Nações Unidas apresentaram algumas soluções que o próprio Erdoğan ontem focou. Pelo que esta ideia de Erdoğan de que a Ucrânia deve suavizar as suas abordagens só pode ser no sentido de talvez abrandar o ritmo da contraofensiva. Não há outra leitura, porque a Ucrânia não está a aplicar nenhuma das sanções, não é um player decisivo naquilo que a Rússia reivindica para o regresso ao acordo de cereais, como seja o regresso do seu Banco Agrícola ao Swift, como sejam condições para fazer outro tipo de seguros, o fim das sanções de maquinaria agrícola, que naturalmente pode transformar também em materiais de apoio militar. Portanto, é um pouco estranho. Acho que Erdoğan foi para lá daquilo que deveria ter ido e caso se encontre com Zelensky, mas mesmo independentemente disso, vai ter que explicar junto de Kiev e dos seus aliados NATO o que é que quis dizer com isto, porque de facto, sem o explicar ficamos um pouco inquietos e incrédulos com as palavras do presidente turco.
Temos de aguardar essas explicações. Obrigada pela sua análise, Luís Tomé, aqui no Gabinete de Guerra. Luís Tomé, director do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e também do Centro de Investigação Observar, o Observatório de Relações Exteriores. Amanhã abrimos novos Gabinetes de Guerra. Rádio Observador