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Abrimos a porta a mais um gabinete de guerra aqui na Rádio Observador, programa em que olhamos para os dois principais conflitos ativos no mundo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Para tal, hoje contamos com a análise do especialista em história militar, Pedro Nascimento, a quem agradeço ter aceitado este nosso convite. Pedro Nascimento, seja muito bem-vindo. Começamos por olhar para a guerra no Médio Oriente. Benjamin Netanyahu começa hoje uma visita à Hungria que vai durar até o resto da semana. Que principais temas acredita Pedro Nascimento que vão estar em cima da mesa para o primeiro-ministro de Israel?
Boa tarde, Rafael. Boa tarde a todos os ouvintes e agradeço mais uma vez à Rádio Observador o convite. É sempre um gosto estar aqui. O que vai estar em cima da mesa, obviamente, não é propriamente fácil abordar, mas o que podemos concluir é que Benjamin Netanyahu não foi à Hungria só para estreitar relações diplomáticas. Isto é claramente o envio de uma mensagem ao mundo, e essa mensagem é muito simples: Israel não se vai submeter ao isolamento internacional imposto por Bruxelas, ou pelo Tribunal Penal Internacional, ou por quem quer que seja. Tal como Viktor Orbán na Europa, o primeiro-ministro israelita desafia o consenso político dominante. E ao escolher Budapeste, não está apenas a fortalecer uma eventual aliança, está a dizer ao mundo que há um outro eixo de poder que não depende da narrativa ocidental tradicional. E para além disso, há outra questão: a Hungria tem sido um dos poucos países europeus a criticar a posição da União Europeia em relação a Israel. E ao visitar Budapeste, Netanyahu acaba por reforçar essa parceria e, no fundo, desafia aqueles que tentam isolar Israel no palco internacional.
E nesse sentido, Pedro Nascimento, a Hungria é, no seu entender, a única opção?
Não diria que seja a única opção, mas diria que é aquela que cria mais impacto, porque nós sabemos perfeitamente qual é o posicionamento da Hungria relativamente, por exemplo, ao conflito na Ucrânia, e isso obviamente traz-nos aqui uma relação que pode ser perfeitamente comparável em relação ao isolamento de Israel no Médio Oriente e àquilo que a Hungria tem representado nos últimos tempos na Europa.
Pedro Nascimento, Benjamin Netanyahu vai deslocar-se então à Hungria e há o Partido Verde Europeu que pede a detenção do primeiro-ministro de Israel. Parece-lhe uma situação a ter em conta, tendo em conta o mandado internacional que existe?
É evidente, mas nós também nos podemos recordar daquilo que aconteceu com a visita de Vladimir Putin à Mongólia. Infelizmente, eu acho que muitas destas decisões acabam por ser para inglês ver, porque não há uma possibilidade de coercivamente obrigar, por exemplo, neste caso, a Hungria a deter Benjamin Netanyahu. Aliás, não sejamos inocentes. Sabemos perfeitamente que Netanyahu tem mais do que garantias de que isso não vai acontecer, senão nunca na vida iria colocar os pés em Budapeste.
Ainda sobre Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel terá dito à polícia que não sabia de nenhuma ligação entre assessores e o Qatar. Que ilações há, Pedro Nascimento, a tirar do chamado Catargate?
Eu acho que algo que é interessante referirmos desde logo é que uma das pessoas mais implicadas neste caso, que é Feldstein, terá atuado como lobista do Qatar enquanto trabalhava diretamente no gabinete de Netanyahu. Nós estamos aqui a falar de um alto funcionário israelita a promover interesses de um país que mantém relações dúbias com grupos radicais na Faixa de Gaza. Ok, Netanyahu foi citado para se pronunciar e tentou minimizar o caso, dizendo que se trata de uma caça às bruxas. Bem, mas esta história não é só sobre corrupção, é também sobre uma contradição que sempre existiu nesta relação entre Israel e Qatar, esta hipocrisia nesta relação Israel-Qatar. O Qatar é há anos um dos principais financiadores da Faixa de Gaza. Canaliza centenas de milhões de dólares e muitos deles acabaram nas mãos do Hamas. E o que é mais irónico aqui? É que Israel aprovou e facilitou esse financiamento durante anos, argumentando que seria a única forma de evitar um colapso humanitário em Gaza. Quer dizer, agora no meio de uma guerra contra o Hamas, com Israel a tentar erradicar a sua presença, descobre-se que altos funcionários israelitas podem ter sido pagos pelo mesmo país que financia os seus inimigos. Então, como é que ficamos? Durante anos, Netanyahu e os seus aliados aceitaram o dinheiro do Qatar porque servia os seus interesses e agora, de repente, são apanhados num escândalo de corrupção e fingem que esta relação nunca existiu. Isto para Netanyahu significa muito. Quer dizer, este caso chega num momento crítico para o primeiro-ministro israelita, porque ele enfrenta um crescente isolamento internacional, está pressionado pelo Tribunal Penal Internacional, há cada vez mais tensões internas dentro de Israel sobre a condução da guerra em Gaza. Este escândalo não é apenas mais um caso de corrupção, é um golpe político que mina a credibilidade de um governo no momento em que Israel precisava definitivamente de unidade.
E Pedro Nascimento, acredita que este caso vá continuar a marcar a atualidade no Médio Oriente?
Eu acredito que o Catargate expõe uma realidade muito desconfortável. Os interesses políticos de curto prazo levaram Israel a aceitar uma relação ambígua com o Qatar. E agora Netanyahu está a pagar o preço por isso. Se este caso se aprofundar, pode ser definitivamente o princípio do fim para o governo Netanyahu. Não às mãos do Hamas ou da comunidade internacional, mas sim pelo próprio jogo de interesses que Netanyahu ajudou a construir. Se a história nos ensinou alguma coisa, é que quando o jogo da política envolve demasiados interesses ocultos, mais cedo ou mais tarde, a verdade vem ao de cima. Mas permita-me aqui fazer só um parêntesis. É fundamental nós distinguirmos duas questões que muitas vezes, na minha ótica, se têm misturado muito no debate público. Eu defendo o direito inalienável de Israel à autodefesa, contra a opinião de muitos na comunidade internacional que insistem em negar-lhe essa legitimidade. Os conflitos no Médio Oriente não começaram apenas com Israel, nem se mantêm por culpa de Israel. A maior parte da responsabilidade, como já tive a oportunidade de dizer aqui, e na minha ótica, recai sobre os países árabes que alimentaram durante décadas uma hostilidade intrínseca. Mas há uma outra questão que não pode ser ignorada: é que o governo Netanyahu está a usar este momento de guerra para consolidar o seu poder. E este caso do Qatar, por exemplo, acaba por expor ligações financeiras muito questionáveis, que nada têm a ver com a segurança de Israel, mas sim com os interesses políticos de quem está no poder. Ou seja, defender Israel não significa defender Netanyahu. E é exatamente essa distinção que na minha ótica deve-se fazer.
Antes de avançarmos para o conflito na Ucrânia, olhar aqui para duas situações no campo de batalha, digamos assim. A nova ronda de ataques na Faixa de Gaza subiu para 42 o número de vítimas esta madrugada. Pedro Nascimento, que leituras é que se podem fazer destas novas rondas de ataque? Um novo cessar-fogo é cada vez mais uma miragem?
Olha, José Rafael, tentando dizer isto de forma direta e simples, alguém acreditava mesmo que este cessar-fogo iria durar. Nós desde o primeiro momento dissemos aqui na Rádio Observador que qualquer pausa nos combates sem uma iluminação total das forças do Hamas seria apenas isso, uma pausa. E hoje a realidade confirma isso. O Hamas, apesar de muito debilitado, continua minimamente operacional, apesar destes meses de ofensiva. Este grupo terrorista usa qualquer fogo para reorganizar as suas redes subterrâneas e reforçar posições dentro das suas limitações. E lá está, voltamos ao Qatar, porque por um lado intermediou as negociações, por outro nunca cortou o financiamento a grupos jihadistas na Faixa de Gaza. Israel sabe que não pode sair desta guerra sem desmantelar o Hamas. Qualquer acordo que acabe por deixar o grupo vivo vai ser como um prólogo da próxima guerra. A única questão agora é se a pressão internacional será suficiente para obrigar Israel a aceitar um acordo que, na minha opinião, só acaba por beneficiar os terroristas e o perpetuar.
Pedro Nascimento, os Houthis reivindicaram novos ataques a navios nos Estados Unidos, no Mar Vermelho. É por aqui que o conflito no Médio Oriente tem mais margem para escalar?
É preciso percebermos o que querem especificamente os Houthis, ou melhor, o que quer o Irão, porque desde o início desta guerra em Gaza, os Houthis têm vindo a intensificar ataques no Mar Vermelho, não havendo a ameaça do comércio global. Mas vamos ao facto. Os ataques não estão a mudar a realidade no terreno. Aliás, os Estados Unidos e o Reino Unido já se aliaram com muita força e o Irão não parece disposto a um confronto direto. Agora, o que tudo isto nos diz? Isto pode ser o último grande momento do Irão antes da pressão sobre o regime aumentar a um ponto de não retorno. Porque o foco mundial neste momento está na Ucrânia e em Gaza. Teerão pode achar que esta é a sua oportunidade para ainda mostrar força, mas a verdade é que a situação interna do país é cada vez mais frágil e eu creio que isto pode ser o canto do cisne do Irão, porque se os Houthis forem empurrados para fora do tabuleiro, o próximo será o Irão.
Ora, vamos avançar, olhar para o conflito na Ucrânia e aqui para ataques russos a infraestruturas energéticas. Pelo menos é o que diz Volodymyr Zelensky, que são acusações ucranianas seguidas de desmentidos russos. Pedro Nascimento, esta questão seria uma violação do cessar-fogo em vigor, que impede ataques a infraestruturas energéticas. Isto é uma guerra de informação plena e que importância tem este tipo de ataques a estes alvos em específico?
Olhe, José Rafael, nós temos que ter primeiro uma visão global. A guerra na Ucrânia está a entrar numa nova fase. É impossível nós discutirmos estas questões mais diplomáticas, sem olhar primeiro pra realidade no terreno. Quem ignorar o campo de batalha, não entende a negociação. Nós, se durante os últimos meses, vamos dizer estes três anos, dependendo de algumas situações, acabamos por assistir a uma frente de guerra praticamente estática, aliás, reminiscente das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, com posições fortificadas, ataques limitados, um enorme desgaste humano e material. Mas agora, apesar de ainda não estarmos a assistir a avanços significativos, há sinais de que certas zonas locais poderão desmoronar e isso pode criar novas oportunidades para ofensivas.
E que zonas são essas?
Estamos a falar essencialmente da zona de Kharkiv, porque estamos muito focados na região do Donbass, mas esta questão de Kharkiv é muito importante, porque Kharkiv já foi um campo de batalha decisivo antes. Temos a história da Segunda Guerra Mundial, que é perfeita para nós percebermos qual é a importância geoestratégica daquela cidade. E a Hitler e Stalin disputaram ferozmente a cidade porque sabiam o que ela representava Kharkiv é um centro estratégico para qualquer avanço russo. Controlar aquela cidade significa enfraquecer a defesa do leste ucraniano e Putin sabe que se cair Kharkiv, há uma autoestrada para a capital. Mas centrando-me agora naquilo que falou relativamente aos ataques à estrutura energética. Se alguém achava que Putin ia parar, eu peço desculpa, mas não pode perceber nada de Rússia e da história da Rússia, porque estes ataques à infraestrutura energética da Ucrânia não foram meros acidentes nem retalições isoladas. Isto é uma mensagem clara: o Kremlin ainda tem a capacidade de destruir o que quiser, quando quiser. Infelizmente, essa é a realidade. E há um padrão histórico aqui, é que Putin acaba por agir como um czar e não como um presidente. Ele não negocia de igual para igual, não aceita compromissos. Para ele, a força é que determina a realidade. E voltando à questão dos ensinamentos da história, o que nos ensinou o czarismo russo? É que não há contentamento com metade de uma vitória. E aqui, tal como os Romanov, Putin faz o que quer, quando quer, como quer e sem prestar contas a ninguém. Se o Ocidente esperava que Donald Trump o fizesse recuar, estava perfeitamente enganado. Putin não cede, nem mesmo com este regresso do ex-presidente norte-americano, parece que não.
Penso que a ligação ao Pedro Nascimento terá caído.
Sim.
Já sim. Temos então condições para continuar. E falava aqui Pedro Nascimento da importância do presidente norte-americano, neste caso Donald Trump, isto numa altura em que os Estados Unidos estarão mesmo a debater mudar a estratégia para tentar pôr fim à guerra na Ucrânia. Um cessar-fogo num curto espaço de tempo parece impossível. Que leitura é que se pode fazer dessa possível mudança de posição por parte dos Estados Unidos e até que ponto é que a paciência de Trump pode ser um fator na guerra da Ucrânia?
Isso é, Rafael. Os Estados Unidos percebem agora que o cessar-fogo na Ucrânia é mais complicado do que parece. Mas quem é surpreso? Eu creio mesmo que só Trump e os seus seguidores é que estavam convencidos de que Putin iria simplesmente aceitar uma pausa na guerra, porque Washington assim queria. Putin não é um político ocidental, ele não responde a pressões mediáticas ou eleitorais. Joga a longo prazo. O cessar-fogo, tal como está a ser proposto, não é um caminho para a paz. Já sabemos que isto é como um atalho para uma derrota disfarçada da Ucrânia e isso já não passa despercebido em Washington. Putin basicamente deixa Trump sem opções. Não vai dar-lhe aquilo que ele pretende, que seria esta vitória política de aparecer como salvador e que conseguiria a paz a todo o custo. E eu acho que Trump tem agora, definitivamente, uma tarefa muito árdua em mãos, porque não é fácil lidar com alguém que tem a experiência e a posição política de Putin. E portanto, veremos quais são os próximos passos. Uma coisa é certa, o tempo joga a favor da Rússia.
Para já, o próximo passo, Pedro Nascimento, estamos a aproximar-nos do final deste gabinete de guerra, é a primeira vez, ou pela primeira vez desde o início da guerra, um enviado de Vladimir Putin que vai visitar Washington para um encontro marcado com o enviado do presidente Trump. O que é que nos pode dizer este encontro?
Eu diria que a diplomacia russa nunca é inocente. E este enviado especial de Putin para Washington não está ali para negociar a paz. Está ali para, uma vez mais, ganhar tempo. Tempo para rearmar o exército. Tempo para desgastar a paciência dos aliados ocidentais. Tempo para criar divisões na opinião pública dos Estados Unidos. Se há algo que o Moscou sempre soube fazer, e muito bem, é jogar com o tempo. No fundo, cada mensagem ambígua serve apenas para adiar a ação real e testar até que ponto é que os Estados Unidos estarão dispostos a endurecer a sua posição. Até lá, como disse, cada segundo, cada minuto, cada hora joga a favor de Putin.
Muito obrigado, Pedro Nascimento. Fica por aqui mais um episódio do "Gabinete de Guerra", que está de regresso amanhã aqui na Rádio Observador.