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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos os principais conflitos a marcar a atualidade, com destaque à situação que envolve a Venezuela e a intervenção dos Estados Unidos. Nesse sentido, contamos com a análise da especialista em Relações Internacionais, Madalena Mayer Resende. Seja muito bem-vinda, Madalena Mayer Resende. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar a falar desta situação da Venezuela, uma vez que o governo interino anunciou a libertação de um número significativo de presos políticos. Fala num gesto de paz, tendo em conta tudo o que tem vindo a acontecer. Madalena Mayer Resende, o que nos diz esta intenção deste governo interino de Caracas?
Em primeiro lugar, parece-me que significa que Delcy Rodríguez e o seu irmão, que são um dos centros de poder em Caracas, estão a conseguir consolidar o seu poder e a trazer à sua volta vários dos outros pesos pesados do regime. Portanto, esta transição de liderança, mais do que uma mudança de regime, está a correr bem para eles. Não quer dizer que não haja lutas das elites mais escondidas, mas aparentemente eles estão em controle. Por outro lado, também parece que esta libertação poderá ser resultado das conversações com Marco Rubio, uma vez que Marco Rubio é um político favorável à transição de regime e terá também bastantes contactos na oposição.
Madalena Mayer Resende, podemos interpretar esta libertação de presos políticos como uma maior moderação do governo interino da Venezuela, após Nicolás Maduro ter sido deposto e levado para os Estados Unidos?
Não me parece que seja uma questão de moderação, pelo menos não uma moderação que venha de dentro. Parece-me mais que é uma imposição por parte dos Estados Unidos e, em particular, do secretário de Estado Marco Rubio, no sentido de tornar esta mudança de liderança algo mais do que uma mudança de liderança apenas em sentido estrito, mas que vá um pouco mais adiante e permita, a longo prazo, uma mudança, eventualmente uma transição para a democracia. Não é para já, obviamente, e não é esse o cenário nem que o presidente Trump, nem que outros grupos dentro do Foreign Policy Establishment em Washington queiram, mas sabemos que essa é uma visão do secretário de Estado Marco Rubio, e ele aparentemente tem alguma coisa a dizer sobre isto.
Mas parece-lhe, Madalena Mayer Resende, que há um dedo de Donald Trump nisto?
Não. Parece-me que a estratégia de Trump é uma estratégia muito mais conservadora, ou seja, no sentido muito mais estreita, limitada nos seus objetivos. Ele, aparentemente, o que quer é estabelecer um controle sobre o petróleo e consolidar esta influência dos Estados Unidos no hemisfério americano. E, portanto, para ele, o importante é manter um regime que não interessa que seja democrático, mas que seja favorável aos interesses dos Estados Unidos e, nomeadamente, aos interesses de controlar o petróleo que é produzido ou que poderá vir a ser produzido na Venezuela com a entrada de companhias petrolíferas norte-americanas. Mas penso que a presença, como já disse, de Marco Rubio aponta para uma reforma política um pouco mais lata, mesmo que seja com algum tempo, mas esta libertação de presos aponta para essa direção.
E falava de Marco Rubio. A verdade é que Donald Trump não diz se já falou ou não com Darcy Rodríguez, mas assegura que Marco Rubio tem estado a falar com a presidente interina da Venezuela quase todas as horas. O que nos diz este contacto permanente entre as duas partes envolvidas, entre a Venezuela e Donald Trump e a questão dos Estados Unidos?
Eu acho que em primeiro lugar nos demonstra que há aqui alguma cumplicidade, ou seja, entre Delcy Rodríguez e outros do seu grupo político, e a administração norte-americana. Não podemos saber com certeza, obviamente, mas parece muito concebível que tenha havido uma cumplicidade de vários membros do regime em entregar Maduro e manter o regime. Ao contrário, a alternativa seria talvez não entregar Maduro e o regime e eles próprios serem vítimas desta política norte-americana Sabe-se que Delcy Rodríguez e o irmão se encontraram várias vezes com funcionários americanos e é possível que tenha havido um acordo. Eu penso que o fato de Marco Rubio aparecer como o grande protagonista desta mudança de liderança, vem na continuação do fato dele ser um protagonista das décadas de promoção de democracia do Partido Republicano, um dos membros da facção neoconservadora, em particular em relação à própria Venezuela, obviamente, mas a Cuba, e que ele seja um ator e quem concebeu esta intervenção de forma mais planeada. Também vemos que Rubio tem conseguido verdadeiras mudanças nas relações da Venezuela, por exemplo, com Cuba, cortando o acesso do petróleo a Cuba. Há aqui uma política mais lata em relação à América Latina que não se cinge apenas à Venezuela, mas que tem outros dos regimes da região em mira.
A mão forte de Marco Rubio, escolhido de Donald Trump para lidar com este tipo de questões. Entretanto, Madalena Mayer Resende, há milhares de colombianos que protestam contra Donald Trump, falam numa ocupação ilegal do país. Há algum tipo de questão que possa surgir deste tipo de protestos ou para o presidente norte-americano acaba por ser um fator sem importância?
Eu acho que é preciso lembrar que Donald Trump também amiçou Gustavo Petro de forma muito aberta, como outros regimes latino-americanos, mas a Colômbia, em particular, não parece que esteja na mira de uma nova intervenção, nomeadamente em Bogotá, para depor o líder, mas pode haver outro tipo de intervenções, pode haver ataques americanos em plantações de drogas remotas na Colômbia, por exemplo, como forma de mandar uma mensagem antes das eleições. Parece-me que os colombianos estão preocupados, obviamente, e que Donald Trump conseguiu, de facto, ter uma influência em quase todos os países da América Latina por via desta política, seja os que ficaram publicamente ou privadamente aliviados com a retirada de Maduro, até mesmo os regimes esquerdistas ou os outros que eram obviamente e abertamente contra.
Ainda relacionado com as ações dos Estados Unidos, podemos reservar aqui também alguns minutos para falar e discutir a questão da Gronelândia. Donald Trump e os Estados Unidos insistiram neste tema, já tinha sido tema no passado. Esta ameaça de Trump é para levar a sério por parte da Europa em relação à Gronelândia, Madalena Mayer Resende?
Obviamente que é um péssimo sinal para os europeus e para a relação transatlântica, apenas a questão chegar até este ponto, e Donald Trump tem repetidamente voltado a falar desta ameaça. Eu acho que é para levar a sério, ou seja, já vimos que Donald Trump não é propriamente previsível e não é propriamente moderado. Portanto, eu acho que a Europa tem toda a razão em estar extremamente alarmada com estas ameaças. Também se vê uma grande luta no contexto da administração em relação ao caminho a seguir. Mais uma vez, Marco Rubio vem falar que havendo alguma ação, será uma ação no sentido de comprar a Gronelândia. Isto é uma crise absolutamente no nível mais alto das relações transatlânticas e os Estados europeus começam a falar numa intervenção ou no reforço das forças militares europeias, e haver aqui uma clara escalada das relações entre a Dinamarca e os Estados Unidos, em primeiro lugar, mas depois também os principais países europeus e os Estados Unidos. Obviamente que os Estados Unidos, como sabemos, têm uma série de bases e uma série de postos na Gronelândia e têm um acesso absolutamente aberto à segurança e também à economia da Gronelândia. Mas podemos ver realmente esta situação escalar para uma crise aberta.
Muito obrigado, Madalena Mayer Resende, é especialista em Relações Internacionais. Esteve aqui no "Gabinete de Guerra" a analisar estes conflitos, estas questões geopolíticas que envolvem os Estados Unidos após terem intervido na Venezuela e terem deposto o presidente Nicolás Maduro. Agradeço-lhe, Madalena Mayer Resende, ter aceitado este nosso convite. O "Gabinete de Guerra" está de regresso amanhã, aqui na antena da Rádio Observador.