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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. João Diogo Barbosa, há uma aparente divisão entre Zelenskyy e o chefe das Forças Armadas do país, que veio assumir que a guerra está num impasse, cenário de que o presidente da Ucrânia discorda. Não é, de resto, o primeiro episódio de tensões, alguns até se traduziram em afastamentos. Fala-se cada vez mais na fadiga da guerra. Aconteceu no último Conselho Europeu, nos bastidores. Isto é revelador agora do cansaço da guerra também dentro de portas.

Claramente. Zelenskyy está a passar uma má fase, um mau momento, que não começou com o conflito entre Israel e o Hamas. Esse terá sido apenas o passo mais recente. A verdade é que desde o início do ano, Zelenskyy não conseguiu o armamento que vinha pedindo ao Ocidente, conseguiu qualquer coisa alternativa e insuficiente do seu ponto de vista. Acho que também do ponto de vista da contraofensiva, houve uma má gestão de expectativas e, portanto, Zelenskyy perdeu um pouco o controle da narrativa no Ocidente e na Ucrânia em relação àquilo que podia ser o esforço de guerra ucraniano. E isso tem tido custos muito evidentes e que se têm visto nos últimos tempos pelo aparecimento de adversários políticos e militares internos que contribuem para fragilizar Zelenskyy, não só dentro da Ucrânia, mas também no Ocidente. Estas notícias são ouvidas aqui em Portugal e na Europa, desde logo, com grande preocupação, porque fica a ideia de que a Ucrânia que se está a defender, não se está a defender de forma unida ou que pelo menos poderá haver problemas sobre os quais não temos a total visibilidade, e isso torna mais difícil até a continuação do apoio. Ao mesmo tempo, Zelenskyy tem beneficiado de alguma solidariedade europeia. Von der Leyen, a presidente da Comissão, esteve lá nos últimos dias a elogiar progressos nas reformas do país e no caminho para a adesão europeia e também a manifestar a sua solidariedade e a continuação de algum apoio europeu, mesmo com o conflito em Israel, mas sabe a pouco. E sabe a pouco, sobretudo, porque Zelenskyy tem um problema político interno muito relevante. Hoje soubemos também que Putin se recandidatará em 2024. Ninguém duvidava. Mas Zelenskyy tem também um mandato presidencial que termina em 2024. Ora, isso pode ajudar a explicar em parte estes movimentos e o aparecimento de figuras a criticar a sua presidência, mas nós não sabemos ainda se a Ucrânia vai realizar eleições, em que condições o poderá fazer, até porque é muito cedo para avaliar a situação no terreno. E essa fragilidade de Zelenskyy parece também ter leituras eleitorais e até o decorrer de um certo posicionamento dos seus adversários tendo em vista o futuro. O grande risco que Zelenskyy tem aqui é de deixar de ser visto pelo Ocidente como um parceiro fiável ou o parceiro que mais facilmente pode assegurar a unidade da Ucrânia perante a agressão russa e, portanto, deixar de ser uma solução e tornar-se parte do problema. Acho que, ao contrário do que nós vimos no início da invasão, em que foi a personalidade de Zelenskyy e a sua capacidade de aparecer mediaticamente que garantiu o apoio à Ucrânia e provavelmente até a sua capacidade de sobrevivência nos primeiros meses, temos agora Zelenskyy um pouco isolado e até um pouco cansado, sentindo a falta de apoio interno e externo, e a forma como ele poderá resolver esse problema nos próximos meses vai ser seguramente decisiva no seu futuro. Ao mesmo tempo, há também em 2024 eleições na América e essas eleições são muito importantes. Biden está já constrangido em relação ao apoio que pode prestar. Zelenskyy hoje tentou convidar Donald Trump para apresentar o seu caso e explicar que não é possível a paz agora. Isso mostra que Zelenskyy, ao contrário de Putin, não tem nas eleições americanas de 2024 um só candidato. Não o pode ter, porque cada vez mais o apoio militar americano é mal visto pelo eleitorado democrático e, portanto, 2024 será um ano de várias eleições, de vários cálculos eleitorais que podem também prejudicar a posição de Zelenskyy e a posição da Ucrânia face à Rússia.

João Diogo Barbosa, aproveitando essa referência ao anúncio da recandidatura de Putin, uma notícia da Reuters que o Kremlin, entretanto, recusou-se a qualquer declaração, mas também não desmentiu essa notícia, pergunto-lhe se será o segredo mais mal guardado da Rússia. Se ganhar, Putin ficará no poder até 2030. Que consequências é que esta mais do que certa candidatura e vitória de Putin terá também para a guerra que se desenrola na Ucrânia?

Sérgio, a verdade é que a questão raramente é se Putin será candidato. A questão é quem é que se candidatará contra ele. E esse é um tema bastante relevante, até em comparação com as eleições na Ucrânia. Poderá Putin ter um candidato da oposição relevante? Será isso permitido em 2024, tendo em conta tudo o que tem acontecido nos últimos tempos? Navalny continua preso, por exemplo, e não se sabe bem o seu estado de saúde. A oposição russa tem tido dificuldade em mobilizar-se e sobretudo em mobilizar-se em oposição à invasão da Ucrânia. Portanto, Putin pode ter aqui uma oportunidade muito relevante de solidificar o seu apoio interno, e isso permitir-lhe-ia Não só governar de forma mais pacífica internamente durante os próximos anos, como também reforçar o seu esforço de guerra. Vale a pena lembrar que não há muito tempo estávamos a discutir um quase golpe conduzido por um chefe militar ou paramilitar que tinha como objetivo, nunca se percebeu muito bem, mas provavelmente remover a liderança russa e que se tenha passado dessa discussão para Putin será candidato, e será candidato provavelmente sem oposição relevante ou tendo uma vitória que permite consolidar o seu poder, é um movimento interno relevante. Eu não desvalorizaria a importância dessas eleições, até porque com as baixas que a Rússia teve, haverá algum descontentamento no país, seguramente em relação à invasão da Ucrânia, mas se Putin conseguir controlar a oposição, conseguir novamente, através de eleições que não são livres, solidificar o seu poder, isso pode ser um sinal importante não para os russos, para o russo médio, mas para os membros da oligarquia, para aqueles que são mais próximos e que poderiam vir a considerar uma substituição do presidente, provavelmente não por eleições, mas por qualquer outro meio. E esse é o ponto mais relevante. Se Putin conseguir controlar a questão eleitoral, tendo controlado perfeitamente o golpe de Estado ou o quase golpe de Estado dos últimos meses, parece que fica numa posição muito sólida internamente e se não houver um desenvolvimento grande no terreno, e isso parece não estar a acontecer perante a Ucrânia, tem todas as condições para continuar este movimento e para prejudicar os interesses dos ucranianos.

João, a última pergunta, que o nosso tempo está a chegar ao fim. A Ucrânia confirma a produção em massa de drones kamikaze, que têm um alcance máximo de 1000 km. Este esforço de fabricar equipamento militar tem como objetivo aguentar os combates no inverno, que sabemos será um tempo ainda mais difícil?

Sim, e a Ucrânia tem, desde logo, uma dificuldade prática muito concreta. O impasse atual ajuda a Rússia, porque a Rússia tem mais estruturas militares, tem uma capacidade maior de mobilizar a sua economia e a sua sociedade para o esforço de guerra e, portanto, cada momento que não seja de combate ou de avanço ucraniano é um momento que a Rússia aproveita para se rearmar. E no momento em que também o Ocidente tem tido dificuldade em responder a todos os pedidos ucranianos, seja porque não há grande disponibilidade política para isso, seja porque também do ponto de vista logístico é difícil o Ocidente continuar a sustentar um esforço de guerra como o ucraniano, que é muito pesado e muito intensivo. É importante que a Ucrânia consiga ter as suas próprias estruturas e adaptar-se para uma certa forma de subsistência. A verdade é que, apesar desses movimentos em direção à independência ou autonomia serem relevantes, não é possível hoje em dia combater uma guerra por si só ou de toda a forma assegurar a continuidade do esforço de guerra apenas pela produção ucraniana. Portanto, será sempre necessário o apoio dos aliados e isso tem sido conseguido até com alguma ajuda de Israel nos últimos tempos. E é mais expectável que, a haver progresso, ele venha daí e não propriamente do desenvolvimento de uma indústria de guerra na Ucrânia.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.