Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que damos destaque às principais questões da geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Temos dois temas principais para abordar: os disparos junto a Donald Trump e a situação no Médio Oriente. Vamos começar precisamente por aí e por uma declaração recente com poucos minutos. O chanceler alemão diz que o Irão está a humilhar os Estados Unidos da América, isto em relação ao que está a acontecer no Médio Oriente. Bruno, que análise fazes desta declaração de Merz e que resposta é que pode originar isto em Donald Trump?
O chanceler Merz realmente tem se destacado — e boa tarde a todos, já agora — porque realmente não é nada diplomático. Tínhamos uma diplomacia alemã extremamente prudente e muitas vezes não se pronunciava, pelo menos não se pronunciava de forma muito clara sobre questões controversas. Aqui temos quase o outro extremo. Merz realmente de vez em quando tem problemas porque faz declarações pouco diplomáticas. Ainda há tempos no Brasil, por exemplo, resolveu dizer que os jornalistas alemães estavam todos desatos de regressar à Alemanha e não ficar no Brasil. Depois o presidente Lula respondeu até com alguma piada a essa, dizendo que eles não foram aos sítios certos, etc. Mas enfim, é alguém que tem um pouquinho este estilo. Aqui eu acho que falar em humilhação talvez não fosse realmente o termo mais recomendável do ponto de vista de uma potencial reação de Donald Trump. Acho que sim, é possível que ela venha aí. As relações com a Europa já estão tensas. Donald Trump, de uma forma completamente inaceitável, veio exigir que aliados que não foram informados, quanto mais consultados sobre isto, viessem agora envolver-se por via das redes sociais, viessem no fundo avançar com navios, com tropas, com marinheiros para uma missão de alto risco que nem os americanos estão a conseguir ou a querer levar a cabo, que é a questão de voltar a garantir a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, uma operação extremamente arriscada, que exige muitos meios e que tem muitos riscos. Por tudo isso, parece-me realmente que se pode de fato dizer que a declaração é capaz de não ser muito feliz do ponto de vista diplomático. Em termos da substância dos argumentos, eu tendo a concordar com Merz. Ele diz coisas que eu aliás já tenho escrito ao longo destas semanas, que os norte-americanos, Donald Trump subestimaram os iranianos e que os Estados Unidos não têm uma estratégia clara, não têm objetivos claros, não têm meios e uma estratégia também ao nível operacional para saber exatamente como é que vão sair disto melhor do que antes, com uma situação melhor do que aquela que existia antes. Eu vi os problemas que este tipo de campanhas prolongadas colocam, por exemplo, com o Afeganistão e parece ser essa a postura, a aposta do Irão, que o prolongar do conflito vai ser muito difícil de gerir pelos Estados Unidos, por Donald Trump, em termos económicos e políticos. Isso dá alguma vantagem ao Irão em termos estratégicos, embora em termos militares táticos, o Irão tenha sofrido enormes perdas, até porque conseguiu mostrar que mesmo sem uma marinha convencional, com meios não convencionais, com minas, com a simples ameaça de minas ou de drones ou do que seja, consegue realmente em grande parte bloquear a navegação no Estreito de Ormuz.
E é precisamente do estreito de Ormuz que vamos falar de seguida. O Irão apresentou aos Estados Unidos uma nova proposta para reabrir o estreito e pôr um fim à guerra, adiando para mais tarde as negociações sobre o programa nuclear de Teerão. Esta informação é dada pelo portal Axios, que não elabora muito o que é que pode estar aqui em cima da mesa do lado iraniano. Bruno, separando a questão nuclear do estreito de Ormuz e do fim da guerra, torna-se mais simples encontrar um entendimento para o fim do conflito?
A mim custa-me dizer isto porque eu realmente não tenho a mínima simpatia pelo regime iraniano e acho que se o regime iraniano cair, seria à partida bom para os iranianos, bom para o Médio Oriente, porque o regime há décadas que de fato investe milhares de milhões de dólares do petróleo a desestabilizar países vizinhos, a armar grupos terroristas de guerrilha por todo lado. Mas a verdade é que realmente não parece haver jeitos disso. Trump não parece ter preparado uma estratégia credível para isso acontecer. Trump, aliás, está a negociar com o regime iraniano. No fundo, se o objetivo fosse derrubar o regime, nada disto, nada destas negociações fariam sentido. Aquilo que eu tenho também escrito, aliás, ao longo destas semanas é: parece-me que o cenário mais racional e o cenário melhor no curto prazo, pelo menos do ponto de vista da economia mundial e de limitar o impacto negativo que isto está a ter sem ganhos, porque isto não parece estar a levar a uma queda iminente do regime iraniano, é realmente separar-se essas questões, ou seja, é fazer um cessar-fogo e um acordo mais limitadoSobre o livre-trânsito no Estreito de Ormuz, em que os Estados Unidos deveriam garantir que realmente é livre-trânsito, ou seja, não está condicionado à autorização ou controle da guarda revolucionária ou algum tipo de pagamento ao Irão. Em contrapartida, os Estados Unidos também levantarem o bloqueio à navegação iraniana. Eu próprio também comecei por dizer que não parecia muito compreensível que o Irão pudesse bloquear o estreito a toda a gente, mas o continuasse a usar livremente e, portanto, eu percebi quando os Estados Unidos avançaram com essa medida de retaliação em relação ao fecho do estreito. Agora já não pareceu fazer nenhum sentido quando Donald Trump anunciou que iria reabrir o estreito embora, aparentemente, com algumas condições que à partida não seriam de aceitar, mas a reação do Donald Trump foi dizer: "E nós vamos manter fechado o estreito para a navegação iraniana". Portanto, parece-me que isto seria a solução mais racional e depois permitiria ganhar tempo para negociações de um plano de paz muito mais ambicioso e muito mais difícil. Eu recordo que as negociações anteriores que resultaram no acordo para limitar o plano de enriquecimento de urânio pelo Irão demoraram vários anos a negociar. Realmente, parece-me que desse ponto de vista seria uma proposta razoável. Agora, é preciso sempre ver os detalhes e, por exemplo, esta questão do Irão reclamar o direito de continuar a cobrar uma espécie de portagem no estreito, isso parece-me que seria criar um precedente muito perigoso e portanto isso não devia ser aceito, mas é para isso também que servem estas negociações à partida.
Entretanto, ainda sobre o Médio Oriente, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão vai reunir-se com o presidente russo. Bruno Cardoso Reis, isto é um encontro apenas diplomático ou há aqui alguma hipótese de negociações fora da caixa?
À partida, é um sinal de apoio diplomático, de apoio político da Rússia ao Irão, sendo que o apoio prático tem sido bastante limitado e é uma característica desta aliança entre potências autoritárias, a Rússia, a China, o Irão, é que realmente é uma preocupação sempre muito pragmática. Agora, tanto quanto percebemos, tem a ver com coisas como fornecimento de algum material, alguma ajuda em termos de indústria de armamento, embora certamente muito limitada, mais em termos de conhecimento, etc., mas limitada porque a própria Rússia está muito pressionada em termos dos seus arsenais, da produção de armamento por causa da campanha na Ucrânia. E depois há esta ideia também, que me parece credível, de que a Rússia estará a apoiar com informações, ou seja, com intelligence, com informações imediatamente para a aquisição de alvos. Alguns ataques que o Irão tem feito parecem difíceis com os meios de recolha de informações que o Irão teria. Portanto, é possível que realmente a Rússia esteja a ajudar. Mas em todo caso aqui certamente se irá falar desse tipo de coisas, mas a par disso também em si mesmo este encontro é um sinal de apoio político da Rússia ao Irão, sem no entanto a Rússia se querer aqui atravessar demasiado e pôr com isso em risco, no fundo esta aproximação, esta prioridade que é no fundo manter boas relações com o Donald Trump, que sempre se tem mostrado bastante favorável em termos pessoais até ao líder russo Vladimir Putin e na questão da Ucrânia, o que temos visto sempre é uma enorme pressão, muitas vezes até insultuosa, etc., sobre a Ucrânia ou sobre os aliados europeus e sempre uma enorme compreensão em relação à Rússia inclusive neste conflito, quando surgiram esses sinais de que a Rússia estaria a ajudar o Irão militarmente, no fundo, a destruir alvos, a pôr em risco vida de soldados americanos, a reação do Donald Trump foi de grande compreensão e de não retirar nenhum tipo de consequência em termos de alguma retaliação em relação à Rússia.
Bruno, antes de irmos aos Estados Unidos e à situação com Donald Trump, a NATO está em exercícios nos próximos dias, começaram hoje no Mediterrâneo. Portugal está a contribuir para esses exercícios da Aliança Atlântica. O que é que está aqui em cima da mesa, Bruno, e o que é que implicam estes exercícios que juntam força aérea, força naval e também forças terrestres?
Os exercícios aqui mais importantes que se chamavam Defender, agora chamam Sword 26, mas no fundo eram exercícios que visavam planear a projeção de forças norte-americanas através do Atlântico para lidar com alguma situação de alguma agressão contra um país aliado na Europa. Desta vez o foco é muito mais nas forças americanas que já estão na Europa, a par de forças de países aliados. São à volta de 9 mil soldados americanos, 6500 soldados de países aliados. Visa no fundo manter a capacidade operacional, testar esta capacidade também crucial numa aliança que é a questão de interoperabilidade, que nunca se pode dar como adquirida. Aliás, nós vimos isto agora na guerra com o Irão, por haver má coordenação entre aliados, o Cohen acabou a abater acidentalmente dois aviões F-15 norte-americanos. E uma das formas fundamentais de evitar isso realmente é treinar muito em conjunto, é ter doutrina conjunta, é ter experiência de trabalhar, se quisermos treinar e depois combater em conjunto e portanto no fundo é isso que se está aqui a fazer mais ou menos dentro da rotina portanto a NATO continua a funcionar naquilo que diz respeito à rotina obviamente aqui o grande problema é todas as dúvidas que surgem quandoQuando Donald Trump passa o tempo a insultar os aliados ou agora nesta guerra com o Irão, utilizar a guerra do Irão para no fundo dizer que os aliados não estão a cumprir as suas obrigações no contexto da Aliança Atlântica, o que é uma descarada mentira. Não há nenhuma obrigação dos aliados de apoiar os Estados Unidos em guerras ofensivas. Houve múltiplas guerras fora desta zona do Atlântico Norte, que está bem definida no tratado, no artigo sexto, por imposição americana, que não se queria envolver em guerras fora desta área com os países europeus, inclusive foi o caso de Portugal. Os Estados Unidos deram zero apoio nas guerras coloniais portuguesas de 1961 em diante, até decretaram um embargo à venda de armamento para uso em África. Obviamente, eu não estou com isto a dizer que fosse uma boa ideia Salazar insistir em defender de armas na mão as colónias, mas se o princípio na NATO fosse que um aliado tem sempre que apoiar outro sempre que ele entra num conflito, por qualquer razão que seja, obviamente, esse apoio teria de ser dado. Portanto, aí o problema realmente é essas dúvidas sobre a garantia de segurança americana, se manter ou não.
Temos ainda três minutos para falar do incidente que aconteceu nos Estados Unidos. Um homem terá tentado invadir o jantar entre Donald Trump e várias figuras da administração Trump e jornalistas em Washington DC. Foi detido, mas ainda conseguiu ferir um agente dos serviços secretos. Donald Trump, a mulher e o vice-presidente dos Estados Unidos foram retirados da sala sem qualquer tipo de ferimento. O atirador que é presente agora a tribunal. Continuam a chegar pormenores, Bruno, é certo, mas pelo que sabemos já, podemos falar num desastre evitado? Temos três minutos até o final do programa.
Primeiro que tudo, é preciso sublinhar este ponto essencial, que em uma democracia, qualquer tipo de violência política é absolutamente inaceitável. Nós podemos ser mais ou menos críticos de Donald Trump, essas críticas fazem parte, aliás, da liberdade de expressão de uma democracia, mas obviamente essas coisas numa democracia resolvem-se pela via eleitoral, pela via do debate, dos votos no Parlamento. Aparentemente, esta pessoa terá sido radicalizada politicamente, embora eu leia aquilo que passa por uma espécie de manifesto, mas é mais uma espécie de pedido de desculpas a várias pessoas pela asneira que ele vai fazer, e que de alguma forma terá percebido que seria uma asneira e que seria muito criticada por muita gente, inclusive a família, amigos, etc, mas não deixou de a fazer, com umas justificações políticas também muito vagas, mas enfim, aparentemente ele estaria ligado agora a grupos mais radicais de esquerda, mas as acusações que são feitas a Donald Trump nem são particularmente de esquerda, coisas como traição, pedofilia, etc. Depois, em termos do que aconteceu nesta zona. Pode-se dizer, devia ser um sítio mais seguro. Agora, sendo num hotel, e isso é muito típico nos Estados Unidos, grandes hotéis também com grandes salas para conferências para esse tipo de encontros, realmente os serviços secretos parecem ter feito o que seria preciso, ou seja, vários círculos concêntricos de segurança para quem entra no hotel naquele dia, mas também junto à zona mais da entrada do evento. Ele, de facto, fez uma coisa inteligente, que foi para contornar alguns desses controles, foi estar registrado como hóspede no próprio hotel. Apesar de tudo, foi travado ainda antes de entrar na sala ou poder ter algum tipo de ângulo para atingir o presidente. Segurança absoluta não existe. Pode-se dizer, seria preciso escolher outro local? Sim, com certeza, mas tudo isso depois tem custos, tem implicações. Se calhar é preciso mais agentes, não se pode estar a exigir que criem ainda mais controles com o mesmo pessoal, por exemplo, ou o presidente terá de restringir também as suas deslocações a zonas mais públicas, onde é muito mais difícil, obviamente, criar um perímetro absolutamente seguro e completamente fechado, a não ser mesmo naquela zona mais próxima do presidente, que foi o que aconteceu aqui.
Pode, Bruno, num minuto, haver aqui algum tipo de aproveitamento de Donald Trump deste incidente?
Eu francamente acho que as declarações que ele fez, tirando dizer que o atirador parecia ser anticristão, na verdade, se virmos o manifesto, ele parece até assumir-se como cristão e está a tentar explicar porque é que sendo cristão pode fazer um ato de violência deste tipo, absolutamente inaceitável. Tirando isso, ele pareceu ter um tom mais unificador, menos polarizador do que tem sido habitual. Não houve aqui ataques ao Partido Democrático ou algum tipo de implicação de que haveria aqui alguma simpatia com esse tipo de ataques, que realmente não se tem verificado, pelo menos ao nível da liderança do Partido Democrático. Agora, é normal que Donald Trump, no fundo, procure tirar aqui esta ideia, e eu nisso dou-lhe razão. No fundo, ele é uma pessoa muito importante, com muito poder e, portanto, nesse sentido, é um alvo. Isso realmente é verdade. E é também uma figura muito controversa e também é verdade que, à partida, os líderes políticos transformadores, para o bem ou para o mal, pode-se concordar ou não, mas os que querem mudar muitas coisas, realmente tendem a gerar reações mais fortes, inclusive deste tipo, que volto a dizer, são inaceitáveis, mas portanto nesse aspecto eu dou-lhe alguma razão. Achei que as declarações foram de algum aproveitamento, mas dentro do que seria normal, tendo em conta este contexto.
Estamos a chegar ao final do nosso tempo. Muito obrigado, Bruno Cardoso Reis é historiador, esteve na análise destes temas geopolíticos. Fica por aqui "O Gabinete de Guerra", está de regresso amanhã à Rádio Observador. Renovo o meu agradecimento, Bruno Cardoso Reis. Até uma próxima.
Obrigado.