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Está reunido mais um gabinete de guerra na Rádio Observador. Uma tarde marcada pelo anúncio de que Vladimir Putin vai enviar para o Oceano Atlântico uma fragata com capacidade nuclear. Este é o primeiro ponto na ordem de trabalhos com o historiador Bruno Cardoso Reis, mas também com a Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.

Já vamos à possível ameaça que essa decisão de Putin pode representar. Antes de mais, Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Que mísseis hipersônicos é que são estes com que a fragata Korolev está equipada?

Olá, boa tarde. É com estes mísseis hipersônicos Zircon, ou seja, é uma nova capacidade que a Rússia tem estado a desenvolver nos últimos anos, tal como a China. Faz parte aqui de uma espécie de nova corrida ao armamento, e nomeadamente ao armamento nuclear, que é realmente bastante perigoso. Ainda no ano passado houve vários debates a esse respeito e havia até uma pressão grande nalguns países europeus, até inclusive em Portugal, chegou a ser perguntado ao ministro dos Negócios Estrangeiros Santos Silva, porque é que Portugal não aderia a este tratado de proibição de armas nucleares. E na altura, eu chamei a atenção que era paradoxal estar-se a pedir aos Estados Unidos e a fazer pressão sobre os Estados Unidos e a pedir aos países da NATO que abdicassem deste chapéu nuclear norte-americano, quando a Rússia e a China, e sobretudo a Rússia, que está mais ao pé e já é a maior potência nuclear em termos de número de armas nucleares, estava ativamente a modernizar o seu arsenal, a desenvolver novos mísseis, mais sofisticados, mais difíceis de detetar, mais difíceis de interceptar. É exatamente o caso deste Zircon, que é um míssil hipersônico, ou seja, que está definido como viajando a mais de cinco vezes a velocidade do som e que, além disso, tipicamente estes mísseis hipersônicos, também têm capacidade de desviar a sua trajetória, ao contrário dos mísseis de cruzeiro, que fazem uma trajetória balística e bastante mais previsível e portanto tornam-se muito mais difíceis de detetar e de interceptar. Apesar de tudo, a verdade é que não há garantias de que estes mísseis tenham ogivas nucleares. E também é importante dizer que sendo este sistema de armamentos importante, a verdade é que o pilar naval da dimensão nuclear militar, no caso da Rússia como no caso dos Estados Unidos, são os submarinos nucleares em termos de propulsão, ou seja, basicamente podem estar submersos durante meses e além disso também com armamento nuclear, esses são ainda muito mais difíceis de detetar. Obviamente que uma fragata, apesar de tudo, pode ser seguida, embora os mísseis que possa utilizar, esses sim, sejam mais difíceis de detetar.

A Bloomberg, Bruno, diz que esta fragata vai navegar para o Oceano Atlântico e Índico, além do Mediterrâneo, que é muito perto de nós, pode representar uma séria ameaça ou estamos perante mais uma tentativa de demonstração de poder?

Eu penso que é sobretudo isso, ou seja, uma demonstração de poder. Recordar que de facto a Rússia tem capacidade nuclear, tem sistemas de armamento sofisticados. O grande problema é que realmente não é com este tipo de fragatas que se ganha a guerra da Ucrânia. Por exemplo, esta fragata pode ir para o Atlântico, pode ir para o Mediterrâneo, mas não pode ir para o Mar Negro, porque a Turquia, até com base na lei internacional e também com base na sua situação geopolítica, controla os estreitos que dão acesso ao Mar Negro e declarou proibir a circulação de navios de guerra dos dois beligerantes. Neste caso, isto basicamente significa da Rússia, porque obviamente a Ucrânia não tem navios fora do Mar Negro, portanto proibiu os navios militares russos de entrarem no Mar Negro. Mas em todo o caso obrigará os países da NATO, inclusive Portugal, a alguma vigilância, algum seguimento, enfim, faz parte das regras deste sistema de dissuasão que existe entre os Estados Unidos e a Rússia, entre os aliados dos Estados Unidos e os aliados da Rússia. Portanto, vai obrigar, apesar de tudo, a que há alguma atenção e também nos faz recordar que de facto esta postura mais agressiva da Rússia obviamente manifesta-se sobretudo de forma mais trágica, mais violenta, mais urgente, obviamente na Ucrânia e no leste da Europa, mas também se manifesta noutras regiões, com outros meios, inclusive com meios navais, inclusive, por exemplo, com uma presença mais agressiva já nos últimos anos no Atlântico e no Mediterrâneo.

Bruno, a Polónia assinou um acordo com os Estados Unidos para a compra de 116 tanques Abrams, é o primeiro país europeu a receber este tipo de tanques. Isto tem que ver com a guerra e já agora, que tipo de tanques é que são estes?

São considerados os tanques mais avançados a nível dos meios militares ocidentais. A Polónia já tem tanques Leopard 2, portanto, a versão mais avançada dos tanques alemães que têm sido muito procurados pela Ucrânia. É de facto um reforço significativo, trata-se também de um investimento significativo, 1400 milhões de dólares. Aparentemente aqui o elemento novo é que, sobretudo, isto corresponde a uma entrega mais rápida, mais acelerada do que aquilo que já estava contratado. A Polónia tinha comprado uma versão ainda mais avançada deste tanque para ser entregue a partir de 2025, mas agora compra à volta de 100 da versão anterior e para começarem a ser entregues já este ano. E isso é descrito de forma muito clara pelo ministro da Defesa polaco como sendo, ele diz, reforçar o punho de aço que é o exército polaco para dissuadir o agressor, ou seja, obviamente está-se a falar aqui da Rússia. Eventualmente, uma dimensão que se terá de perceber é se isso também corresponderá eventualmente à Polónia ceder Como tem feito com outros sistemas de armamento, que também tem estado a adquirir aos Estados Unidos ou, por exemplo, à Coreia do Sul, ceder alguns destes tanques, por exemplo, Leopard, à Ucrânia à medida que os tanques Abrams vão chegando. Portanto, pode ter aqui um efeito mais direto na guerra, se for assim, ou um efeito sobretudo indireto e de procurar dissuadir uma Rússia mais agressiva na sua vizinhança pelo reforço das Forças Armadas polacas.

Vamos a outro ponto na nossa ordem de trabalhos, Bruno. A ministra dos Negócios Estrangeiros alemã está cá em Lisboa e pede uma voz única da Europa em resposta à agressão russa. Quase um ano depois, ainda não encontrámos essa voz?

Eu acho que, por um lado, infelizmente, não completamente. E aqui estamos a falar sobretudo de um caso que é o da Hungria, que ainda recentemente deu problemas, sobretudo por causa da agenda nacionalista do primeiro-ministro Orbán e também de negociação de fundos a nível europeu, mas corresponde também a uma agenda de manter boas relações com Putin, que ele tem há vários anos, e que se complicou porque, de facto, esta guerra correu muito pior do que Putin esperava e do que provavelmente Orbán também esperava. Não foi nada parecido com o que aconteceu na Crimeia em 2014. E, portanto, a Hungria tem estado relativamente isolada nessa postura de grande reserva em relação à Ucrânia, aos apoios à Ucrânia, e de tentar manter algumas pontes com a Rússia. Mas, de facto, é um Estado-membro e, portanto, cria alguns problemas. Acho que é sobretudo isso. Acho que há, apesar de tudo, que sublinhar, um grande grau de coesão, maior do que aquilo que seria talvez de esperar, entre os outros, vamos dizer assim, 26. Não sei se a ministra dos Negócios Estrangeiros alemã também não está aqui a falar de uma outra agenda alemã, que essa já me parece mais questionável. Esta declaração parece-me completamente compreensível e de apoiar. É, de facto, fundamental a coesão da Europa contra a agressão russa e no apoio à Ucrânia. Mas não sei se ela não está aqui a aludir a esta agenda alemã de passar a haver votação por maioria no seio da União Europeia em relação a questões de política externa e defesa. Espero bem que não, até porque não é muito lógico. No fundo, se se está a falar de coesão, a votação por maioria, de alguma forma, já é uma confissão de derrota. E além de tudo, não me parece que é muito lógico avançar-se nessas áreas quando, por exemplo, os alemães rejeitam completamente a questão de votação por maioria em relação ao orçamento comunitário. Portanto, eventualmente a começar-se a ir por aí. Mas acho que, tomando a declaração em termos daquilo que realmente diz, acho que é uma declaração pertinente, correta e importante, e sobretudo é importante que se mantenha esta coesão no longo prazo e aí a Alemanha é, de facto, um teste decisivo. Muita gente apostou que por causa do aumento do preço do gás, por causa das dificuldades econômicas que isso trazia, inclusive à indústria alemã, ao aquecimento dos alemães, que a Alemanha seria um dos primeiros países a procurar afastar-se do apoio à Ucrânia, procurar manter boas relações com a Rússia e, de facto, isso, para já, ainda não se concretizou e eu espero que continue a não se concretizar.

Obrigada, Bruno Cardoso Reis. Foi mais um "Gabinete de Guerra". Estamos de volta amanhã.