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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Está conosco o Bruno Cardoso Reis, é historiador e coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE. Bruno, obrigada por estares neste gabinete. Vamos começar pelas eleições presidenciais russas. A votação começa esta sexta-feira, termina domingo. Há observadores independentes que acompanham a eleição. São mesmo independentes ou este ato eleitoral é uma farsa como foram os anteriores?
Boa tarde. Eu acho que infelizmente a resposta tem de ser que não há realmente eleições com observadores verdadeiramente independentes, mas mesmo que houvesse, à partida, o facto de ser o governo, o regime a fazer o escrutínio, ainda mais agora com a questão do voto eletrónico, é muito mais fácil até manipular a votação. Não é preciso preocupar-se com a papelada, com os boletins de voto. E ainda por cima, e para mais, também os candidatos a que foi permitido concorrer, além de Putin, há outros três candidatos, mas todos eles apoiam a guerra, apoiam a invasão, estão sancionados pela comunidade internacional, recusam-se até a apresentar-se verdadeiramente como alternativas a Putin. Dizem sempre que estão a apresentar-se a votos porque cabe ao povo decidir e porque como líderes de partidos, do Partido Comunista, do partido ultranacionalista, mas que se chama Liberal, do Partido das Novas Pessoas, o que quer que isso seja. No fundo, estão aqui a cumprir uma obrigação também de simular eleições. Realmente não há nenhuma dúvida de que não há alternativas a Putin. E no fundo, é muito essa a mensagem que as eleições procuram transmitir. Não há uma real alternativa e a questão dos observadores aqui é completamente irrelevante. Já está tudo montado para não haver uma real opção. A única questão que resta é percebermos se a oposição conseguirá fazer alguma coisa. Há um protesto anunciado para domingo em torno de meio-dia em diferentes estações de voto. Vamos ver se conseguem fazer isso e com consequências. Mas em termos do resultado, é evidente que Putin vai ganhar e aliás, já foi anunciado por Dmitry Peskov que provavelmente chegaria aos 90%. Acho que é bastante provável que essa previsão se confirme, porque não é verdadeiramente uma previsão, no fundo, é o objetivo do regime em termos destas eleições, é mostrar que há um apoio esmagador a Putin e que não há alternativas a ele.
Este ato eleitoral pode ser uma espécie de reforço da legitimidade da invasão da Ucrânia?
Do ponto de vista do regime, sim. Ele vai ser apresentado como uma confirmação de que os russos apoiam a invasão, mas eu recordo que o Boris Nemtsov, que era um candidato que se tinha apresentado atrevendo-se a criticar a guerra, foi impedido de concorrer. Na verdade, em qualquer dos candidatos que votem, estão a votar no apoio à guerra. Como eu disse, todos estes quatro candidatos, não só Putin, apoiam a guerra. E sim, também a questão de haver votação nos territórios ocupados, nestes territórios anexados, mas que a comunidade internacional não reconhece como russos, também vai ser usado para dizer que isso mostra que realmente já estão a participar na vida política do Estado russo. É, no fundo, uma legitimação, sobretudo para efeitos internos, para o interior da própria Rússia. Em termos externos, realmente não é uma eleição com nenhuma credibilidade e não pode ser usada para legitimar o que quer que seja, só mostra realmente o grau crescente de consolidação autoritária deste regime. E, por outro lado, este lado paradoxal dos regimes autoritários atuais é que realmente se dão ao trabalho de fazer eleições e apesar de tudo, procuram de alguma forma dizer que a sua legitimidade vem do povo, mesmo que, na verdade, sejam regimes que se mantêm através da repressão e da força.
Hoje o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, deixou um aviso nas redes sociais, horas antes de se encontrar com o chanceler alemão e o presidente francês, em que escreveu: "Solidariedade verdadeira com a Ucrânia, menos palavras, mais munições". Esta pode ser uma forma de pressão e pode ajudar que os outros países europeus contribuam mais para apoiar a Ucrânia?
Sim, penso que sim. Este encontro que referiste, o chamado Círculo de Weimar, da França, da Alemanha e da Polónia, no fundo, é uma mensagem que ele pode passar aos dois. Pode passar à França, que agora em termos até de discurso público, aparece como sendo muito mais defensor de um apoio musculado à Ucrânia, mas que até aqui, se formos ver os números do apoio militar efetivo, do fornecimento de armamento de munições, está bem atrás da Alemanha. E em termos relativos, é até dos países europeus que tem apoiado menos a Ucrânia, portanto, pode realmente aumentar esse apoio. Do lado da Alemanha, sabemos que em termos financeiros, como de costume, a Alemanha tem aqui grande disponibilidade financeira para apoiar e tem feito isso, mas em termos de discurso e até em termos de alguns sistemas de armamento mais importantes, tem sido o último país a fornecer esses sistemas, tem sempre resistido imenso a fornecer esses sistemas. Foi assim com os carros de combate, só aceitou fornecer Leopard e autorizar o fornecimento de Leopard, que são de fabrico alemão, depois dos americanos dizerem que também iam fornecer carros Abrams. Agora a questão dos mísseis, dos Taurus, destes mísseis de mais longo alcance. Parece-me bastante evidente que sim, eu diria que provavelmente está-nos a dizer em público aquilo que vai dizer em privado a estes outros líderes de países europeus, que podem fazer aqui uma grande diferença, realmente.
Só para concluir este tema, entretanto, quem contribuiu com 100 milhões de euros para o programa europeu de apoio à Ucrânia foi Portugal. Vai servir para comprar 1 milhão de munições. Foi uma boa decisão do governo português?
Sim, acho que foi uma excelente decisão. Espero que tenha sido coordenado também com a oposição, mas há aqui uma grande solidariedade e um grande apoio do conjunto da opinião pública, todas as sondagens mostram isso. Portanto, acho que se aplica aquilo que diz, não valem a pena boas palavras de encorajamento aos ucranianos, o que interessa são estes tipos de gestos. Realmente, Portugal é um país com recursos limitados, mas tem alguns e, do meu ponto de vista, muitas vezes na sua ação externa peca por fazer pequeníssimos gestos, dar o mínimo possível apenas para dizer que participa de alguma forma, mas sem ter grande impacto. É evidente que os nossos parceiros e aliados também percebem isso. Portanto, acho que este é o tipo de gesto que faz sentido, que é num momento decisivo em relação a uma questão que é crucial, que é esta das munições. Há aqui a possibilidade de Portugal fazer realmente alguma diferença e ter algum impacto a nível internacional. Este gesto tem tido bastante visibilidade e tem sido muito comentado a nível internacional, até contrastado, por exemplo, com os Estados Unidos, que continuam a bloquear o seu apoio. Um país relativamente pobre da Europa, muito afastado da Ucrânia, mostra realmente verdadeira solidariedade e contraria, por exemplo, os argumentos trumpistas de que a Europa não está a fazer o suficiente em relação à Ucrânia. Parece-me realmente uma excelente iniciativa e num momento absolutamente crítico e dando uma visibilidade positiva a Portugal, no momento em que há outras razões que se calhar não justificam tanto essa visibilidade positiva, esta maior instabilidade política.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 e tem nova edição depois das notícias das 16h, e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Judite França. Até amanhã.