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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, a coincidir com a intervenção de Donald Trump no Fórum Económico Mundial que decorre em Davos, na Suíça. O presidente dos Estados Unidos abordou a intenção de controlar a Gronelândia. Deixou uma garantia: não pretende tomar o território pela força, antes comprá-lo. É por aqui que começamos a conversa com o professor Orlando Samões, coordenador da Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Senhor professor, boa tarde. Bem-vindo, obrigado pela disponibilidade. Podem os europeus ficar descansados com esta garantia de Trump de afastar uma intervenção militar para assumir o controle da Gronelândia?
Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Não creio que possamos ficar descansados e muito pelo contrário. Até essas frases, apesar de terem sido muito vincadas, em que não haveria o uso da força, que normalmente são boas notícias, na realidade aparecem num contexto em que Donald Trump parece misturar muitos assuntos ao mesmo tempo, confundir países. Aliás, algumas vezes diz Islândia quando queria dizer Gronelândia. Aparenta estar, por vezes, até confuso em relação àquilo que é o território, neste caso da Gronelândia, chegando a dizer que é nosso, "that's our territory", que foi uma frase que eu reparei. E porque não há sinal de Dinamarca ou outras frases como "nós devolvemos a Gronelândia depois da Segunda Guerra Mundial à Dinamarca". Critica-se por isso, quando, na realidade, mesmo a seguir à Segunda Guerra Mundial, houve uma tentativa de compra por parte dos Estados Unidos, que foi mais uma vez rejeitada pela Dinamarca. Pelo que a total falta de cortesia, o tom muito pouco magnânimo, um tom sempre muito cerrado, algo caótico, em que os temas vão se misturando sem grandes referências, nem intelectuais, nem filosóficas, nem de qualquer outro nível, que poderia ser uma forma de estar de Trump ou até interna de outros presidentes dos Estados Unidos. Pelo contrário, ainda continua a culpar a administração anterior de Biden, como se estivesse na ordem do dia, muito menos num encontro como o de Davos. Parece ter dito isso, mas ao mesmo tempo disse que não iria investir, que não iria proporcionar que a Gronelândia ficasse a salvo e protegida para a Europa, sem que nada de bom acontecesse para nós, Estados Unidos. Apesar de ter dado essa garantia, parece-me que continuamos a ter razões, não só para duvidar, como para outras formas de continuar a prosseguir este objetivo ou parece estar mesmo muito obcecado.
Sim, diz Trump que não quer fazer uso da força, mas quer comprar a Gronelândia, sendo que tanto o governo autónomo do território como as autoridades dinamarquesas já afastaram essa possibilidade. Diz este pretexto do presidente dos Estados Unidos que se a Dinamarca recusar, passo a citar: "Vamos lembrar-nos disso." O que é que significa esta afirmação? Como é que interpreta e que tipo de resposta podem dar os Estados Unidos caso, de facto, as autoridades dinamarquesas recusem esta proposta de compra do território da Gronelândia?
É, de facto, um tom que não fica nada bem a um presidente dos Estados Unidos. Algumas conquistas que ele alcançou e mesmo a paz que conseguiu entre conflitos que emergiram já na sua administração e outros que vieram detrás e dos quais ele se orgulha e que nos quais teve alguma interferência positiva, é verdade, derivam do facto de ele estar numa posição que enquanto presidente dos Estados Unidos, dispõe de um conjunto de poderes que pode, pressionando, por vezes, o lado certo de um determinado conflito, obrigar entre a Índia e o Paquistão, entre a Hamas e Israel, a proporcionar uma possibilidade de acordo ou entre o Azerbaijão e a Arménia. Mas nota-se que assim que o tema é um bocadinho mais complexo, nomeadamente Ucrânia e Rússia, aí vem ao de cima toda esta maneira de estar que é muito de Trump e que já não tem a ver com a posição que ocupa enquanto presidente dos Estados Unidos, mas sim da sua personalidade, que ele próprio acha que é uma personalidade com as características necessárias para conseguir resolver estes conflitos. Essa sua pergunta é muito importante, porque ele está a comprar. A compra costuma ser um movimento voluntário entre quem quer comprar e quer vender. O comércio livre é uma das formas mais voluntaristas, graciosas de interação entre as pessoas. Ora, obrigar a vender é mais um ato de guerra do que de comércio propriamente dito. E ele já está preparado para, e falou nisso, de punir os países, os oito países da NATO, que fizeram o exercício militar na Gronelândia e que estão do lado da Dinamarca, que aliás são só os oito primeiros, porque eu creio que toda a União Europeia poderá vir a ter que ter uma postura um bocadinho mais controlada em relação a Donald Trump. Isto tem sido até agora um prestar de alguma vassalagem e elogio, que também se compreende não só pela posição que ele ocupa, mas também Pelos Estados Unidos da América que todos respeitamos imenso e que foi uma enorme inspiração para o mundo em termos do que era uma ordem mundial baseada em regras, o que era uma república verdadeiramente popular que iniciou a marcha da democracia, mas que, na realidade, neste momento, tem noutros interlocutores muito mais essa herança americana. E gostaria até de lembrar isso. Nós estávamos à espera deste discurso, já com algum ceticismo, provavelmente, mas tivemos ainda ontem o de Gavin Newsom. Deu a entender isso mesmo, que os europeus não se devem vergar perante o Donald Trump e que se calhar, em vez de dar estas prendas, estes prêmios, estes elogios, que muitas vezes lhe são endossados para o tentar apaziguar, talvez a postura tenha que ser outra. E o que é fato é que ele desistiu de força, pelo menos para já na Groenlândia, também se calhar ao ver a posição um bocadinho mais firme da própria União Europeia, dos países europeus ou mesmo do Canadá, que também tem em Mark Carney um discurso absolutamente brilhante, muito interessante, em que no fundo dá a entender que temos estas alturas na história da humanidade em que todos vivemos uma espécie de mentira e continuamos a fingir que está tudo bem, quando se calhar é necessário vermos exatamente o que se está a passar. Temos Trump a tornar-se aqui um elemento disruptivo. Não está a criar uma nova ordem, está a dar traços de alguma desordem. E em contraste com aquilo que são os próprios Estados Unidos da América. Ainda há dois dias tivemos um discurso muito interessante do Speaker da House of Representatives, portanto, o presidente da Câmara Baixa dos Estados Unidos no Reino Unido, em que, ao contrário de Trump, cita as principais inspirações filosóficas da República e da Revolução Americana e da paz no mundo, do comércio internacional, a influência de Churchill naquilo que era a relação especial entre os Estados Unidos e o Reino Unido, a importância dos europeus, a sua longevidade, porque estamos a falar de uma civilização muito antiga e da qual os Estados Unidos também foram parte. E foi interessante porque Mike Johnson chegou a dizer: "Temos que pôr as coisas em perspectiva. Os Estados Unidos têm 250 anos e eu ontem jantei aqui no Reino Unido com talheres que eram mais antigos do que os Estados Unidos." Portanto, a Europa tem algo a dizer. E o que temos aqui em Trump é estas críticas à Europa e à sua posição, que esquece a posição em que a Europa está e as suas próprias dificuldades e as suas próprias tentativas de ter outro tipo de economia, que se calhar, de fato, não nos está a trazer grande benefício. Este discurso de Trump, ao início, foi um pouco mais organizado quando ele fala nas questões econômicas e na dimensão econômica, na necessidade de haver menos regulação, corte na burocracia, a maneira como ele tenta ter uma política que ajuda a estimular o crescimento e dá-nos a entender. Atenção, que a China, que ainda utiliza o carvão e que ainda utiliza energias, portanto, mais baratas, baseadas em petróleo, está a conseguir expandir a sua economia, enquanto que os europeus estão a ficar para trás, precisamente porque abraçaram, se calhar, com demasiada rapidez, aquilo que ele chama este scam, portanto, este esquema do Green Deal. A Europa está a ficar irreconhecível também porque está a perder esta pujança econômica. Estes avisos não deviam vir desta maneira da parte do presidente dos Estados Unidos, mas têm, por vezes, um traço de verdade. Ele vai dizendo: a Inglaterra tinha a possibilidade de fazer como nós e também ter as suas perfurações para ter energias mais baratas, para não ficar tão dependente, até porque o que Trump gostaria-
Mas as preocupações ambientais não se sobrepõem a esse objetivo de dinamizar e promover o crescimento econômico?
Pois é que, de fato, a Europa foi demasiado rápida. A transição que até pode ser necessária, tem que ser um pouco mais gradual, porque pode nos sair caro, no sentido de não estimular todo o desenvolvimento e todo o dinamismo e a competitividade econômica. E agora estamos numa situação em que precisamos crescer um bocadinho, até para nos podermos rearmar, até para podermos ter mais facilidade a bater o pé, como nestas questões da Groenlândia, termos mais possibilidades de ter uma voz no mundo e por isso até estas escolhas estratégicas de nos virarmos para o Mercosul e conseguirmos acordos de comércio internacional, que no fundo demonstra esta disponibilidade da Europa de traçar o seu próprio rumo e introduzir uma estratégia na economia que não passe por uma dependência extrema nos Estados Unidos e que no fundo é o que foi seguido também no tal discurso de Mark Carney, também aqui em Davos. Ele fala na geometria variável e se lançar em acordos com a China, com o Catar, com a Índia, também com o Mercosul, que temos que ter, quando os Estados Unidos se isolam, se mantêm estas políticas protecionistas, ele volta a dar a entender que está investido numa produção industrial doméstica, quando na realidade nós pensávamos que essa dimensão mais industrial pesada da nossa economia podia ser levada para outros países e ficarmos com uma contribuição para a economia de maior valor acrescentado e mais tecnológica, e, portanto, mais limpa. Mas Trump está nos a lembrar que se calhar às vezes é preciso saber dar um passo atrás. E até aqui ele pode ter um certo ponto. A Europa perdeu, de fato, muito da sua quota parte na economia mundial. Pode estar agora a pagar também um preço por isso, de não estar à mesa das negociações importantes, de não conseguir ser mais firme perante a Rússia, perante esta forma de estar do presidente dos Estados Unidos, que tenta muitas vezes incluir a Rússia na discussão, incluir a Rússia nos conselhos de paz Que nos deixam sem possibilidades, a nós europeus, de reagir de igual para igual, como poderíamos fazê-lo se tivéssemos tido essas preocupações, sim, que são necessárias, mas com outro tipo de razoabilidade. Portanto, no meio de todo este discurso que nos deve deixar alarmados, preocupados, Trump também nos deixa algumas pistas que podem ajudar a reflexão da Europa.
Há algum paternalismo de um chefe de Estado estrangeiro vir ditar qual deve ser a orientação económica do velho continente, não é?
Sim, e que não lhe fica nada bem. Ele vai dizendo que acredita na ligação com a Europa e lembra os seus ancestrais. Dá a entender que é meio escocês, meio alemão. "No fundo, eu também venho da Europa." Foi um momento interessante. Agora, para que ele quer ser meio escocês, meio alemão, se não for para manter este conjunto de alianças, este modo de vida, porque era isso que estava em causa quando nós não defendíamos a política dos Estados Unidos apenas enquanto protetores que nos ajudavam a ter segurança e defesa a nível internacional. Era também por um modo de vida, por uma maneira de estar democrática, aberta, pluralista, que é certo que está em causa, que é certo que tem que ser nutrida todos os dias porque facilmente pode se desmoronar, mas isso também aconteceu nos Estados Unidos. Tem piada que ele vai dizendo que o problema europeu, eu sublinho essa frase, é a cultura que criaram nos últimos 10 anos. Pois, mas essa cultura que foi criada de maior restrição nas liberdades de expressão e de opinião, veio precisamente dos Estados Unidos, principalmente dos mais universitários dos Estados Unidos, onde houve muitas limitações, infelizmente. Que aliás, são os sítios onde deveria haver mais liberdade de experimentação, de tentativa e erro, de abertura de linguagem e liberdade de pensamento filosófico, que são as universidades. Precisamente as universidades americanas, de onde veio esta cultura que agora Trump critica, que infectou em parte a Europa, mas não tanto, e que ele aqui, com esse tom altivo, até paternalista, dá a entender que o problema está conosco e com a Europa e atira-nos contra a Rússia, dando a entender que se quisermos assegurar a Ucrânia, apesar do encontro que ele poderá ter hoje com o Zelensky, esperemos que sim, que essa incumbência seria nossa enquanto europeus. Ele até diz a frase: "Estamos muito longe da Ucrânia, temos um oceano pelo meio."
Professor, estamos quase no final deste Gabinete de Guerra, temos ainda aqui dois minutos. O senhor professor fazia referência a Zelensky e esse encontro de Trump. Trump anunciou que vai encontrar-se com o presidente ucraniano. Diz também que tanto Zelensky como Vladimir Putin querem a paz, querem um acordo. Isto tem alguma adesão à realidade?
Muito dificilmente. Nós temos visto que Putin quer um acordo, mas à custa de um Estado ucraniano que não seja soberano e que até se torne possivelmente inviável sem a ligação a Moscovo. E por isso continua a atacar. Neste momento, estarmos até mais voltados para a situação da Gronelândia, que é claramente muito alarmante, até nos fez descurar da situação terrível na Ucrânia. Trump, também no discurso, está preocupado com as mortes, diz isso, que acima de tudo continua a tentar mediar por causa dos mortos, que estão ao nível quase das guerras mundiais. Aliás, em número de dias até já ultrapassou, não medido através do início, mas desde a operação da invasão da União Soviética por parte da Alemanha Nazi, contando o número de dias, esta guerra é maior, em terreno da Ucrânia, do que a Segunda Guerra Mundial. Estamos num cenário perfeitamente de alarme geral, mas em que a Rússia não parece ter qualquer tipo de disponibilidade, nem em privado, nem em público, de retirar algumas das suas condições para a paz. Mas era para isso que Trump deveria voltar e firmar uma posição um bocadinho mais forte perante o Putin. Não tem feito e por isso continuamos sem ter possibilidades do mínimo de acordo. Putin está disposto a continuar a avançar, mesmo que à custa de muitos homens, e a Ucrânia está na situação que sempre esteve. Quer muito rapidamente a paz ou um cessar-fogo, mas sem abdicar completamente da sua soberania, da sua liberdade. Até estão dispostos a fazer um acordo na linha de contacto. E nem assim a Rússia aceita. Portanto, estamos como sempre estivemos e vão aparecendo outras situações que nos devem preocupar a nível internacional, que nos retiram o foco da guerra da Ucrânia, quando na realidade a guerra da Ucrânia é muito complexa e intrincada, mas na qual se está a jogar o futuro de toda a humanidade, porque isto não é apenas entre a Ucrânia e a Rússia. É a maneira como o mundo, principalmente o mundo ocidental, vai acomodar a Rússia numa altura em que os Estados Unidos estão a retirar as suas forças e a desmobilizar da Europa. E é por isso que esta questão é tão complexa, porque não tem sido assegurada muita paz, mesmo entre os povos europeus, sem a presença dos Estados Unidos da América, quando estes estavam imbuídos de um espírito de direito internacional, de dar a entender e mobilizar as pessoas para o seu modo de vida e que com isso veio também a ideia de uma ordem internacional baseada em regras, que teve as suas dificuldades, é verdade, mas que desde 45 e depois desde a década de 90, com maior acréscimo ainda do multilateralismo, chegamos a ter perspectivas de futuro e esperança num mundo melhor, que agora, infelizmente, estão a ruir. Mas enfim, Trump não está sozinho e até temos sinais positivos a vir de outros interlocutores dos Estados Unidos que ainda não têm, se calhar, o poder que poderiam ou deveriam ter para contrabalançar esta pessoa que neste momento, ao ser presidente dos Estados Unidos, nos está a deixar a todos com muitas incertezas pela frente.
Deixar aqui uma porta aberta para avaliarmos precisamente que resposta no interior dos Estados Unidos a esta política externa promovida por Donald Trump, em particular, como é que o Partido Republicano está a acolher esta nova orientação política por parte do presidente dos Estados Unidos. Professor Orlando Samões, muito obrigado por ter estado conosco. Foi o convidado do Gabinete de Guerra desta quarta-feira.
Muito obrigado.