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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Mais de um ano depois, o Parlamento turco está prestes a aprovar a entrada da Suécia na NATO. A acontecer, como se prevê, nas próximas horas, fica ultrapassado o maior obstáculo à expansão da Aliança Atlântica, sendo que ainda temos também a Hungria. Mas perspetivando que haja, para já, esta aprovação da Suécia, quais é que são os próximos passos?

Boa tarde. Sim, realmente, este é um processo já muito longo. O pedido feito pela Suécia já tem mais do que um ano e foi feito ao mesmo tempo do que a Finlândia, que já é membro da NATO desde abril de 23. Na última cimeira da NATO em Vilnius, em julho, o presidente Erdogan tinha sinalizado que a adesão da Suécia estaria próxima, e a verdade é que já estamos em janeiro de 24 e ainda não aconteceu. Tem havido aqui uma espécie de bazar turco que tem levado a uma procrastinação deste processo, ao qual está também associado, e isto é ainda mais inacreditável, a ratificação da adesão por parte do Parlamento húngaro. A Hungria fez sempre depender da Turquia a sua ratificação da adesão da Suécia e espera-se que a seguir à ratificação por parte do Parlamento turco, seja célere a ratificação por parte da Hungria. Embora também tenhamos que esperar por parte de Viktor Orbán, não seria a primeira vez que o faria, uma tentativa de negociação da ratificação húngara à adesão da Suécia à NATO.

De resto, Viktor Orbán, entretanto convidou o chefe de governo sueco a visitar a Hungria e negociar essa entrada na NATO.

Exatamente, porque vem dizer que os parlamentares húngaros não estão muito convencidos da bondade da adesão da Suécia. No caso húngaro, é um caso ainda mais grave do que o turco, porque a Hungria é um Estado membro da União Europeia, portanto, tem aqui deveres de solidariedade para com a Suécia, que resultam dos tratados. E é incrível que isto esteja a acontecer entre Estados-membros da União Europeia. Esses deveres não existem em relação à Turquia, embora, é preciso também dizer que foram feitos convites, quer à Suécia, quer à Finlândia, há um ano e meio. Quando é feito um convite a estes Estados para aderirem à NATO e passado um ano e meio, ainda estamos a discutir o processo de ratificação, tudo isto diz-nos muita coisa sobre a dificuldade que existe da adesão à NATO, quando existem Estados problemáticos dentro da NATO, como é o caso tanto da Turquia como da Hungria. Nós costumamos olhar para a NATO como um clube de democracias, mas temos aqui autocracias eleitorais, tanto na Hungria como na Turquia, e isto manifesta-se neste tipo de situações.

A mesma pergunta para si, coronel Mendes Dias. A Suécia pode ser um trampolim para a Hungria depois vir a ceder também ou teremos sempre aqui uma resistência?

Boa tarde para si e para o senhor professor Francisco Pereira Coutinho. Dizer o seguinte, eu acompanho na generalidade o que já aqui foi dito. Obviamente que a entrada da Suécia e este anuir por parte da Turquia, caso se venha a confirmar, pode servir, respondendo objetivamente à sua questão, como um trampolim, e eu até acredito, por convicção, não é que eu tenha dados da vida internacional, que de facto a Turquia, ao dizer "sim", o seu Parlamento ao votar "sim", significa que já há certamente qualquer coisa combinada entre a Turquia e a Hungria no sentido da ação. Apenas também dizer o seguinte: eu percebo a lógica de dizer a NATO como um conjunto de democracias e em grande medida, esmagadoramente é, mas eu percebo a NATO como uma organização de cooperação militar também. E desse ponto de vista, não posso deixar de dizer que de facto a Suécia entrando, e ainda bem que assim é, mas não posso deixar de dizer que se transforma, ou acaba-se por transformar, estamos finalmente o Mar Báltico no Mar NATO. Basta ver os países que o rodeiam e com a Suécia passarão a ser todos, e mesmo alguma limitação na projeção para o Ártico, passarão a ser todos pertencentes à NATO.

Entretanto, Rússia e Egito lançaram hoje a primeira pedra da nova unidade na central nuclear egípcia de El Daba, pela empresa estatal russa Rosatom. Francisco Pereira Coutinho, o que podemos esperar desta parceria entre Rússia e Egito?

Isto é mais um sinal de que a Rússia procura quebrar o isolamento que tinha nas relações internacionais desde que iniciou a agressão em larga escala contra a Ucrânia em fevereiro de 22, e procura fazê-lo através de parcerias em domínios em que tem tecnologia que pode exportar, e um desses domínios é justamente o domínio nuclear. E claro, o Egito é um parceiro importante militar do Ocidente, principalmente dos Estados Unidos, mas também nunca queimou todas as pontes para com a Federação Russa, que mostra que no sul global continua a marcar pontos, não obstante as violações manifestas do direito internacional que tem praticado e que continua a praticar com a agressão à Ucrânia que permanece. Isto é mais um sinal de que o isolamento internacional da Federação Russa já foi maior do que aquele que existe neste momento.

A marcar o dia no teatro de operações, temos um ataque em larga escala com mísseis da Rússia na Ucrânia, incluindo a capital Kiev, e com o Kremlin a dizer que a Rússia não atinge alvos civis. Coronel Carlos Mendes Dias, há alguma evidência disso neste ataque ou antes pelo contrário?

Sim, eu julgo que faz as duas coisas. Muitas delas estão provadas, outras não. Mas de facto, basta ver, atinge alvos civis, atinge alvos militares e atinge alvos civis que, por força do fenómeno da guerra, se transformam em alvos militares. Muitos serão, aliás, parece ser evidente, alvos civis. Neste caso muito particular, estamos a falar de Kiev, Kharkiv e Poltava. Na maior parte dos casos, do meu conhecimento, mas a confirmar, são locais onde de facto estava a tropa russa ou locais de fabrico de mísseis, explosivos e até munições. Mas há uma componente desses objectivos que eu, a esta distância e do que sei, não posso dizer que sejam de facto objectivos militares, porque me parece que não são. E, por conseguinte, não posso ser mais objectivo. Dizer também que muitos mísseis foram utilizados. Eu julgo que já tinha dito, mesmo aqui no Observador, a 14 ou 13 de Janeiro, etc, dessas fragilidades da defesa aérea ucraniana para determinados tipos de mísseis, que no seu conjunto rondavam os 20% a 25% de taxa de empenhamento de sucesso, independentemente de estarem a defender Kiev ou estão na linha da frente, ou de alguns que estavam a defender Kiev, Kharkiv, etc, tiveram de ir para a linha da frente, porque senão a Força Aérea Russa ficava com toda a liberdade de ação. Dos dados que tenho, houve uma taxa de empenhamento com sucesso ucraniano a rondar os 50%, neste caso de mísseis. E vou só destacar a utilização do míssil Iskander. E destaco porquê? Porque é um míssil muito difícil de apanhar, por causa da sua velocidade. A velocidade é julgo que Mach 6, Mach 7, estou a dizer de cor, mas certamente não estou a errar muito. Isto é mais ou menos entre 7300 km/h a 8500 km/h, com erros circulares prováveis, conforme os sistemas de amiante, 57 metros, 25 metros de precisão. Se utilizar o míssil, e julgo que foi este, é a versão Iskander-M, o míssil 9M273, que tem capacidade nuclear, não foi utilizado, obviamente, mas é o míssil que é utilizado, na maior parte dos casos, para objectivos de muito elevado valor. E foi utilizado desta feita e julgo que é importante mencionar.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.