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14 de julho, dia que promete ficar marcado por uma declaração de Donald Trump sobre a Rússia. Foi isso que prometeu o presidente norte-americano. Disse, na semana passada, que hoje iria fazer uma declaração importante sobre a Rússia. Este é um dos temas em destaque nesta edição do Gabinete de Guerra. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito boa tarde. O próprio Donald Trump disse que vai fazer este anúncio sobre a Rússia, depois de semanas em que tem expressado a frustração com Vladimir Putin. Tem sido veiculado ao longo do dia de hoje que Trump vai anunciar um plano de armamento agressivo para a Ucrânia. Nesta altura, Donald Trump está reunido em Washington com Mark Rutte, o secretário-geral da NATO. Tudo aponta para este reforço de ajuda à Ucrânia. É isto que achas que podemos esperar desta declaração de Trump?
Sim, acho que tudo aponta nesse sentido. Com Donald Trump, eu insisto sempre, tudo é quase possível ou quase tudo é possível e há sempre aquele elemento de imprevisibilidade. Geralmente, os presidentes americanos, quando intervêm em público, têm uma intervenção muito preparada e seguem aquilo muito à risca para evitar dizer palavras fora do sítio que depois possam criar problemas, confusões. Com Donald Trump, nada disso se aplica, portanto, ele muitas vezes ignora o papel ou improvisa. Mas à partida, todos os sinais que temos apontam nesse sentido e portanto, se não for, será uma grande surpresa. Para mais, também há esse dado, que não deixa de ser relevante, que é depois de um encontro com o secretário-geral da NATO, que tem feito aqui um esforço enorme, talvez às vezes até excessivo, uma espécie de excesso de zelo, para conquistar o coração de Donald Trump para a Aliança Atlântica. Portanto, eu diria que também isso é mais um sinal de que, à partida, o anúncio que virá-
Estávamos a escutar o Bruno Cardoso Reis, creio que perdemos momentaneamente esta ligação. Vamos tentar restabelecer a ligação com o historiador Bruno Cardoso Reis e falávamos desta notícia que vai marcando o dia de hoje. Donald Trump tem agendada para hoje uma declaração que foi descrita pelo próprio presidente norte-americano como uma declaração importante sobre a Rússia, que pode mudar o conflito na Ucrânia. A decisão de enviar mais armamento para Kiev representa uma grande mudança para Donald Trump, se assim se confirmar. Sempre explicou, Donald Trump, que só forneceria armas defensivas para evitar uma escalada do conflito. É certo hoje que Donald Trump já se prepara, e isto já foi detalhado hoje, para enviar armas para a Ucrânia e também para enviar um sistema de defesa antiaérea Patriot. Zelensky já detalhou isso mesmo. Zelensky, que também está reunido com um representante dos Estados Unidos da América, Keith Kellogg, um encontro que acontece em território ucraniano. Hoje, como eu dizia, o presidente norte-americano anunciou que os Estados Unidos da América vão enviar sistemas de defesa antiaérea Patriot para a Ucrânia. Isto acontece no momento em que as relações entre Donald Trump e Vladimir Putin estão a mostrar sinais de deterioração. E acontece também num dia em que, mais uma vez, a Rússia veio dizer que está disponível para sentar na mesa de negociações, algo que tem dito já várias vezes desde o início do conflito. Bruno, creio que já estamos novamente em linha, já estás novamente em linha. Falávamos deste anúncio que Donald Trump vai fazer hoje. Já se falou do envio de sistemas de defesa antiaéreo Patriot para a Ucrânia. Falamos de um sistema de defesa, mas espera-se que Trump possa anunciar mesmo armas de ataque, podemos dizer assim, um reforço dessa ajuda militar à Ucrânia.
Como eu estava a dizer, por um lado, o facto de ser a seguir ao Mark Rutte, é mais uma indicação de que poderá haver aí um anúncio que seja convergente com as prioridades e com as preocupações dos aliados europeus da NATO. Mas há esses dados que complicam um bocadinho a questão. À partida, eu diria, as indicações, os sinais vão no sentido certo, que é de que Trump finalmente percebeu que Putin só percebe a linguagem da força, que não terá nenhum interesse em negociar de boa fé, se quer um cessar-fogo, se continuar a achar que tem vantagens em termos militares em continuar a avançar. Ou seja, se a expectativa é de que haja cada vez menos apoio militar, nomeadamente norte-americano, à Ucrânia, isso é um incentivo para Putin insistir na via militar. Agora, há esses dados, que por um lado são defensivos, o que é que são sistemas defensivos? Quer dizer, claramente os Patriot, os sistemas antiaéreos são, mas à partida, para a Ucrânia se defender, por exemplo, de ofensivas russas, precisa de atacar os sítios onde estão a ser concentrados meios ou tropas para esse avanço e muitas vezes isso pode ser em território russo ou pode ser em território ocupado e, portanto, isso é ofensivo, é defensivo. Portanto, essa questão cria aqui algum ruído. Eu diria que era melhor que não houvesse essas limitações. E depois ainda há uma outra, que é esta ideia de Donald Trump também de que, à partida, isto será pago para já, pelo que se percebe, pelos norte-americanos, mas será pago depois pelos europeus. Portanto, tudo o que seja criar aqui passos adicionais ou necessidade de decisões adicionais ou de financiamento adicional, vai complicar esse processo, mas pode ser que também, mais uma vez, seja um pouco esta técnica retórica de Donald Trump, de procurar sempre passar a mensagem de que os Estados Unidos, agora com ele, conseguem vantagens, e vantagens imediatamente financeiras, que não conseguiam antes, mesmo que isso às vezes não se traduza muito em nada de muito concreto, mas teremos de ver. Portanto, ainda há aqui algum espaço para alguma prudência, mas os sinais são positivos.
Zelensky disse, já depois da reunião com o enviado especial norte-americano à Ucrânia, Keith Kellogg, isto foi há minutos, um comunicado emitido pela presidência ucraniana, que está pronto para adquirir armas norte-americanas, particularmente sistemas de defesa antiaéreos, ou seja, para comprar estas armas. Isto entra aqui naquilo que estavas a dizer. Há aqui esta ligação, trata-se de uma compra, os Estados Unidos, de facto, vão disponibilizar algum tipo de armamento, mas há também armamento para ser comprado pela Europa ou pela Ucrânia.
Sim, isso também não é mau. Aliás, uma das grandes preocupações era que nem sequer fosse possível comprar armamento para fornecer à Ucrânia. Naquelas fases em que Donald Trump tinha sempre declarações muito simpáticas em relação a Vladimir Putin e depois tinha sempre declarações muito críticas em relação a Zelensky e até aos aliados europeus. Portanto, isso é um aspecto importante, porque realmente há aqui uma dimensão de apoio, sobretudo de manutenção e de municiação dos equipamentos americanos que já foram fornecidos. O exemplo mais evidente é o dos Patriot, que realmente só é possível através de firmas americanas e, portanto, corria-se o risco, no fundo, haver até sistemas que já tinham sido fornecidos que deixavam de estar operacionais porque ou não havia manutenção, não havia peças ou não havia munições para serem utilizados. Portanto, isso em si também é um bom sinal, mas Donald Trump ainda tem à volta de mil milhões de dólares de uma autorização de gasto, que vem do tempo de Joe Biden, que ainda não foram gastos, portanto nem precisava de sobrecarregar a sua proposta orçamental, onde aliás, isso não está previsto. Portanto, ainda teria margem para continuar a dar algum armamento à Ucrânia. Também é importante perceber se algum desse equipamento pelo menos será dado ou se a ideia é que todo ele seja comprado, seja diretamente dos ucranianos, seja através dos aliados europeus.
Entretanto, na Ucrânia, Zelensky prossegue com a lei marcial. Claro, isto faz parte do conflito, foi novamente renovada, prolongada, podemos dizer assim, mas há também mexidas no executivo ucraniano. Há uma nova primeira-ministra, neste caso, sai o primeiro-ministro que estava no cargo, Denys Shmyhal, entra Yulia Svrydenko. É uma mudança de Zelensky, remodela aqui o executivo. Que mexidas são estas que está a fazer Zelensky no executivo ucraniano?
Aquilo que podemos deduzir, pelo menos do perfil da pessoa, é alguém que é próxima do presidente, portanto, trabalhou diretamente com ele, e é alguém que tem um perfil muito econômico. Trabalhou sempre mais nesta parte da gestão da economia de guerra, e realmente essa é uma função também crucial. Ou seja, obviamente, um país só pode continuar a combater durante anos se tiver minimamente uma base econômica para fazer isso, seja em termos das outras coisas continuarem a funcionar para além da guerra, que também são necessárias para a vida corrente, quer inclusive no próprio esforço de produção de guerra, embora também haja uma equipa especializada para essa função. Mas, no fundo, garantir que a indústria militar, a indústria de defesa-
Bruno, deixa-me interromper-te, porque está a falar agora Donald Trump, depois da reunião com Mark Rutte. Donald Trump, que já ameaçou tarifas a 100% se não houver um acordo com Putin em 50 dias, está a falar a partir da Sala Oval. Vamos escutar um pouco, à boleia da CNN Internacional, o que está a dizer Donald Trump nesta altura.
That turned out to be a big problem. I don't know. I think the United States funded the dam. I don't know why they didn't solve the problem before they built the dam. But it's nice when the Nile River has water. It's a very important source of income and life. It's the life of Egypt. And to take that away is-
Donald Trump está a falar mais do Médio Oriente neste momento. Está a falar depois da reunião com Mark Rutte, que está a chegar da NATO.
The only one I haven't been able to get to yet is Russia.
Agora sim, da Rússia. "Não estou contente. A Ucrânia quer fazer uma coisa. Se eu fosse presidente, esta guerra não tinha começado. Eu falava com o Putin na altura. Mas assim que vi o que estava a acontecer, previ que ia começar uma guerra. O que Joe Biden disse na altura foi o oposto do que devia ter sido dito. A guerra começou. É uma confusão. Estão a perder cinco, seis mil pessoas por dia. Maioritariamente soldados, mas muitos civis a morrer também. Tem de ser parado. E se não temos um acordo em 50 dias, temos de avançar com tarifas de 100%. Espero não chegar a esse ponto, mas há tanta conversa, mísseis a serem atirados para Kiev. Ainda agora, um míssil matou 60 pessoas. Isto tem de parar. O propósito disto é dizer que estamos a chegar aqui a um grande acordo. São milhões de dólares em equipamento militar norte-americano que vai ser distribuído para o campo de batalha, para a Ucrânia. A Ucrânia, quando começou a guerra, não tinha hipóteses e continuaria a não ter hipóteses se não tivessem o melhor equipamento, os melhores aviões, os melhores mísseis. Nós fazemos isso, somos os melhores do mundo nisso. Estou muito satisfeito, entusiasmado com a proteção que vamos poder dar. Eles tiveram coragem. Estão a lutar com coragem, continuam a lutar com coragem. Eles estão a perder, estão mais fracos a nível de equipamento. A Rússia tem muita força". E agora escutamos Mark Rutte também a falar dos bombardeamentos russos à Ucrânia. Diz que é uma situação que cria pânico em toda a Ucrânia, os bombardeamentos das últimas semanas, e a falar também das infraestruturas essenciais que estão a ser afetadas pela Rússia.
That's going to be the next problem
Donald Trump a falar agora do que será a reconstrução da Ucrânia, que vai demorar muito tempo. "Mas eles continuam lá", diz Donald Trump. "Continuam, resistem, sabendo que o míssil pode cair a qualquer momento. Num apartamento pode cair um míssil. O apartamento pode colapsar. E eles continuam." São milhares de pessoas que estão a morrer. Estamos a fazer progressos. Sabemos que vamos fazer progressos. Agradece agora também a Mark Rutte pelo serviço que está a desempenhar e Donald Trump a dizer que os Estados Unidos da América são amigos da NATO. É o essencial das declarações de Donald Trump, como escutámos, aponta para tarifas 100% se não houver acordo com Putin em 50 dias. Bruno, peço-te uma reação precisamente ao que acabámos de escutar e a estas declarações de Donald Trump ao lado de Mark Rutte na Sala Oval.
No fundo, há aqui a tentativa também da parte dos países da NATO de encaminhar Donald Trump para uma convergência com os interesses europeus e ucranianos na resistência à questão russa, usando algumas das preocupações, se quisermos, das obsessões dos instintos habituais de Donald Trump, ou seja, esta questão ele gosta muito de tarifas, portanto, em vez de se falar de sanções, fala-se tarifas contra a Rússia. Na verdade, enfim, se forem tarifas secundárias, ou seja, se for lidar com o tal contrabando, a tentativa de escapar às sanções, acho que pode ser útil se for em relação ao comércio direto entre os Estados Unidos e a Rússia, no fundo, é só o fim de uma anomalia que já tinha sido muitas vezes sublinhada. Basicamente, o Donald Trump declarou uma guerra comercial global até contra países como os outros, alguns dos países mais pobres do mundo, que têm realmente, às vezes, uma vantagem no comércio com os Estados Unidos, mas isso não prejudica nada os Estados Unidos, são números insignificantes para a economia americana. Mas realmente a Rússia não tinha nenhuma tarifas, portanto, há esta ideia, mas está aqui uma pressão adicional, estas tarifas de 100%. E depois esta ideia também de que o fornecimento de armamento à Ucrânia será uma vantagem económica também para os Estados Unidos. Portanto, das últimas coisas que ouvimos agora nas declarações de Donald Trump é muito este lado dele de vendedor, que é muito o que ele é, profissionalmente. Portanto, é esta ideia de que o armamento americano é o melhor do mundo, não há equipamento melhor. Portanto, claro que os ucranianos são heroicos na sua resistência, mas aqui o equipamento americano é fundamental. E nesse caso, ele tem toda a razão. Eu tenho insistido muito nisso desde o início da guerra. A única forma realmente da Ucrânia resistir é ter aqui uma enorme determinação de não perder a sua independência, portanto, há lado de heroísmo, de disponibilidade para sacrificar a vida por muitos ucranianos que é crucial, mas também para minimamente reequilibrar esta enorme assimetria de poder em relação à Rússia. Em muitos dos equipamentos das capacidades militares mais importantes, ele era 10, às vezes de 20 pra um, em termos de aviões, de carros de combate. Na Marinha, praticamente a Marinha ucraniana não existia depois da ocupação da Crimeia em 2014. Portanto, era fundamental este apoio realmente militar ocidental e, em particular, norte-americano. Portanto, aí ele tem alguma razão. Aí ele volta a insistir que isso será pago, será encaminhado através da NATO. Pelo que se percebe, isto é a referência àquele mecanismo de coordenação que era chamado de Ramstein, mas que agora está baseado em Paris e será através desse mecanismo e depois haverá uma distribuição dos custos entre os aliados europeus. Portanto, o que parece aqui mais claro é que os Estados Unidos não irão assumir despesas nesse fornecimento. Será sobretudo esta questão do lucro, ou seja, exportação de armamento pago pelos ucranianos ou pelos aliados europeus.
Confirma mesmo Trump que a NATO vai comprar armas norte-americanas para serem utilizadas na Ucrânia. E foi anunciado por Mark Rutte que pelo menos oito países já aceitaram comprar armas aos Estados Unidos da América para enviar para a Ucrânia, neste caso, da Alemanha, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suécia, Países Baixos, Reino Unido e também o Canadá. Só mesmo para terminar, Bruno, até porque a seguir vamos atualizar toda a informação na Rádio Observador, o que se espera agora de uma reação russa?
Os russos já estavam a preparar aqui a reação, ou seja, estavam a desvalorizar esta questão. Portanto, Dmitry Peskov a dizer que os fornecimentos continuavam, na verdade, estavam reduzidos ao mínimo e aqui com uma grande incerteza. Portanto, isto não é algo de somenos. E também voltar a insistir que a Rússia está completamente disponível a negociar e mais uma vez dar a entender que quem não quer negociar é a Ucrânia. Ora, realmente não temos tido muitos sinais de negociação de boa fé da Rússia. A Rússia basicamente repete ou até acrescenta condições àquelas que colocou no início da guerra, coisas como a completa desmilitarização da Ucrânia, portanto, a Ucrânia ficar indefesa perante a Rússia, não poder ter qualquer tipo de verdadeira independência na sua política externa, ou até coisas como as tropas da NATO, por exemplo, passaram a estar presentes nos países do Leste a partir de 2014 ou mais concretamente e em maior número a partir de 2017 pra fazer face à ameaça russa nos países bálticos, na Polônia, etc, teriam de sair também. Portanto, nada disso aponta pra uma negociação de boa fé, mas parece ser um pouco a Rússia a tentar, por um lado, desvalorizar o impacto disto e, por outro, tentar voltar mais uma vez a cair nas boas graças de Donald Trump, dizendo que por ele sim, se avança já pra um processo de paz, mas realmente sem nenhuma credibilidade nessas declarações.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por ter estado conosco nesta tarde na Rádio Observador em mais uma edição do Gabinete de Guerra. Um abraço.
Obrigado.