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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que destacamos as principais questões geopolíticas, com natural destaque para os conflitos no Médio Oriente e também na Ucrânia. Hoje conto com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Seja de novo muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por teres aceitado este nosso convite, Bruno Cardoso Reis. Vamos começar por falar sobre a NATO, que promete tornar totalmente inútil qualquer tipo de ataque contra aliados. Isto numa altura em que vai aumentando a tensão com a Rússia na zona europeia, sobretudo na fronteira junto aos Bálticos. Isto é uma promessa que a NATO consegue efetivamente cumprir, Bruno Cardoso Reis?

Boa tarde a todos. Não me parece que seja uma declaração muito realista. Ou seja, temos o próprio ministro polaco dos Negócios Estrangeiros, Sikorski, a chamar a atenção para algo que nós aqui temos falado muitas vezes, que é o risco crescente de haver um incidente violento, ou seja, haver uma ação de sabotagem da parte da Rússia, um destes ataques na zona cinzenta que leva a mortos, que causa vítimas. Basta pensar em drones com explosivos num aeroporto, o facto de isso não ter já causado vítimas quase que é um milagre em si. Mas o próprio ministro Sikorski dizia: "É preciso que a NATO reflita exatamente o que é que vai fazer, o que é que constitui um ataque armado", porque todo o objetivo desta guerra na zona cinzenta, deste tipo de ataques híbridos, ou seja, que misturam meios não convencionais, mais irregulares, não cinéticos, ou seja, que não são armas tradicionais, todo o objetivo desse tipo de ataques é exatamente dificultar a atribuição, com certeza, ou seja, dificultar saber exatamente quem é que fez o ataque. Não é um míssil russo que vem atacar uma base, um aeroporto na Alemanha, é um drone que é voado por um senhor, provavelmente da Bielorrússia, aparentemente, que terá entrado como turista, etc. Portanto, tudo isso é feito para dificultar depois a capacidade também de resposta, de retaliação. O problema é que realmente esse tipo de declarações muito vagas e muito assertivas são robustas na retórica, mas depois são um pouco vazias. Portanto, não me parece que seja a forma de dissuadir este tipo de ataques. Acho que a forma de dissuadir deste tipo de ataques é mostrar que eles têm custos, que a NATO não se vai deixar paralisar. Obviamente, não estamos a falar aqui de uma resposta desproporcionada, de iniciar uma Terceira Guerra Mundial por causa de uma ação de sabotagem, de um ataque com drones. Mas realmente a Rússia tem que perceber que isto tem custos, quer em termos de apoio militar à Ucrânia, quer em termos de coisas como, por exemplo, a questão de Kaliningrado, que foi falada nas últimas semanas, que é um exclave, portanto, uma parte de território russo que está separada por centenas de quilômetros da própria Rússia, que está encravada entre a Lituânia e a Polônia, no fundo, metade da antiga Prússia Oriental que os russos comunistas soviéticos anexaram em 1945 e, por exemplo, a questão do acesso a essa região, que depende da boa vontade dos países europeus, acho que é algo, por exemplo, que se devia colocar em cima da mesa pra tentar dissuadir este tipo de ataques. Se isso é feito em privado ou em público, enfim, isso já pode ser mais discutido, mas acho que este tipo de declarações não são muito credíveis e, portanto, não são muito dissuasoras.

Entretanto, Bruno, hoje a União Europeia anunciou um novo pacote de sanções à Rússia. Falam na maior expansão da lista de sanções desde que começou a guerra na Ucrânia. Que diferença é que faz este novo pacote de sanções aprovado pela União Europeia? E pergunto também se ainda faz sentido aplicar sanções.

As sanções fazem sentido, não se a ideia é que elas levassem ao fim da guerra ao fim de poucos dias ou ao fim de poucos meses, isso claramente não é o caso e também nunca foi assim.

Mas têm tido efeito?

Têm tido um efeito muito grande na economia russa. Estamos a falar de taxas de inflação, taxas de juro de 20%, por exemplo. Portanto, se nós aqui nos queixamos, imaginemos o que é que é isso na Rússia. A dificuldade em encontrar, por exemplo, importar tecnologia mais avançada, mesmo que isso depois se consiga, é através de redes de contrabando que demoram muito mais, que aumentam muito mais o preço, o custo. Tem aqui um efeito, no fundo, fazer pagar à Rússia um preço por esta agressão, por esta violação grosseira da lei internacional, por ter posto em questão a ordem regional europeia. E portanto, em si mesmo, acho que são uma punição, são uma forma de mostrar que há aqui um preço a pagar por este tipo de ações. Depois, se estas especificamente vão fazer grande diferença, aí já tenho mais dúvidas, mas em todo caso, fazem pelo menos diferença a estes cidadãos russos que estão envolvidos no esforço de guerra e que até aqui podiam, em muitos casos, por exemplo, viajar, passar férias, geralmente férias de luxo, com o dinheiro que vão desviando provavelmente do orçamento russo, nos países europeus que eles tanto gostam de ameaçar com armas nucleares dia sim, dia não. Portanto, acho que desse ponto de vista, terá aqui um impacto absolutamente marginal, provavelmente no esforço de guerra, mas mais uma vez, é uma forma de punir, de mostrar às elites russas que há um preço a pagar por este tipo de opções e por este tipo de hostilidade à Europa e aos valores europeus e aos compromissos que eles assumiram Não só a nível global, através da Carta das Nações Unidas, que não se alteram fronteiras pela força, que não há guerras de conquista, não há direito de conquista desde 1945, mas até especificamente com os países europeus. Aos acordos de Helsínquia de 1975, que são muito claros a dizer que não há alterações de fronteiras na Europa pela força e isso foi violado de forma grosseira pela Rússia e deve ter consequências.

Bruno Cardoso Reis, vamos falar então um pouco sobre a guerra na Ucrânia, até porque o Kremlin diz que procura uma paz duradoura e rejeita a ideia de cessar-fogo provisório que tinha sido apresentada por Volodymyr Zelensky, o presidente ucraniano. Quão grande é este revés para o lado ucraniano, esta rejeição por parte do Kremlin?

Tudo isto aparece no contexto daquele acordo lamentável de Donald Trump sobre o gasóleo russo, que mostra que mais uma vez Trump basicamente está interessado em fazer acordos com déspotas orientais, embora passe o tempo a falar da civilização ocidental e da sua defesa, mas um acordo que supostamente incluiria um cessar-fogo energético, vamos dizer assim, ou seja, algo que a Ucrânia tem falado muitas vezes, que é: nós podemos parar de atacar as refinarias, a estrutura energética russa, se a Rússia parar de atacar as nossas centrais elétricas, as nossas infraestruturas críticas ao nível da energia, como tem feito sobretudo todos os invernos, com as consequências terríveis que se sabem para a população civil ucraniana. Mas aparentemente Donald Trump anunciou esse acordo e esqueceu-se de informar as partes, ou seja, Zelensky disse que não estava a par, mas que estava a favor. A Rússia veio agora responder, de uma forma indireta, mas basicamente veio dizer que não aceita esse acordo. Portanto não quer nenhum tipo de cessar-fogo, quer uma paz duradoura, ou seja, traduzido por palavras que toda a gente percebe, que era a rendição incondicional da Ucrânia e está-se completamente a marimbar para Donald Trump, que claramente o Kremlin, Moscou, acha que consegue manipular facilmente. Portanto, isto é basicamente uma forma indireta de responder a Donald Trump e a esta ideia de um cessar-fogo energético, dizendo que ele não vai acontecer, porque a Rússia só aceita aquelas exigências maximalistas que mantém desde o início da guerra, basicamente de derrubar o regime democrático em Kiev, transformar a Ucrânia num satélite, de caminho anexar uma série de territórios ucranianos que não lhe pertencem e que estão ocupados ilegalmente.

Bruno, este conflito na Ucrânia acaba, de certa forma, por estar relacionado com o conflito no Médio Oriente. O mundo é global, efetivamente a geopolítica atravessa fronteiras. Eu digo isto por quê? Porque a guerra no Irão está a causar atrasos na entrega de sistemas Patriot na Polónia, ou seja, como é que se explica toda esta logística de guerra em que uma situação num lado do mundo está a afetar a entrega de mísseis num outro ponto do globo?

Explica-se porque esses sistemas são muito complexos, muito dispendiosos, cada míssil custa volta de 3 milhões de dólares, muito morosos de produzir. E no fundo, o modelo que nós tínhamos na Europa, mas também nos Estados Unidos e a nível global, era para guerras de alta intensidade, muito curta duração. Tipicamente, a maior parte das guerras desde 1945 não foram guerras entre Estados, não foram guerras de alta intensidade entre Estados, menos de 20%. Mas quando essas guerras aconteciam, por regra, eram de curta duração. Duravam os tais seis dias da famosa Guerra dos Seis Dias entre Israel e os países árabes, ou algumas semanas, alguns meses, como as guerras recentes entre o Azerbaijão e a Arménia ou o Paquistão e a Índia. E portanto, todo o sistema de produção de defesa, todo o sistema de reserva estratégica estava orientado para não ter assim tanto desses meios, porque a ideia era que eles seriam precisos, mas por um período bastante curto, bastante concentrado. E depois onde tínhamos guerras prolongadas, eram guerras tipo assimétricas, guerras irregulares, guerras de contraguerrilha, onde também se usavam alguns desses meios, mas muito mais ocasionalmente. E portanto, tudo isto está a obrigar a uma mudança enorme. E o problema é que realmente isso não se consegue fazer com suficiente rapidez para responder às necessidades que já existem.

E por quê, Bruno? Por que não é possível fazer isso dessa forma?

Porque é preciso construir fábricas novas, é preciso equipamento para isso, é preciso treinar trabalhadores. Isso tudo exige grandes investimentos, exige licenciamento. Tudo isso são realmente processos complexos. Isso está, aliás, a acontecer, mas dependendo dos sistemas de armamento, demora mais, demora menos, dependendo também dos países. O que isto também quer dizer, já agora, é que realmente os europeus têm aqui mais uma prova de que realmente precisam de maior autonomia estratégica, porque obviamente o que também acontece é quando o país produtor de um sistema de armamento precisa dele, obviamente dá prioridade às suas próprias necessidades. E portanto, quando se trata de pesar entre necessidades próprias e exportações, fazer vender a outros, obviamente dá prioridade às suas próprias necessidades num contexto de conflito. Isso é algo que nós já vimos acontecer, por exemplo, também na década de 1930, quando de repente muitos países começaram rapidamente a rearmar e, por exemplo, Portugal teve esse problema, que em muitos casos estava a encomendar sistemas e depois estava anos à espera que eles chegassem, se é que chegavam, porque entretanto a Grã-Bretanha ou outros fornecedores precisavam dos próprios sistemas também ou para um risco de conflito ou para um conflito já em curso. Portanto, isso é uma razão pela qual realmente faz todo sentido, além de razões econômicas, sustentabilidade econômica, de não estar a investir milhares de milhões que depois vão todos para fora, mas que ficam na economia europeia. É fundamental realmente que os europeus consigam fazer muito mais dos seus próprios sistemas para evitar este tipo de problemas de vulnerabilidades.

Bruno Cardoso Reis, temos ainda dois minutos para abordar a situação no Médio Oriente. As autoridades iranianas ameaçaram hoje destruir centros de dados de inteligência artificial e cabos submarinos no Golfo Pérsico, isto se os ataques norte-americanos sejam retomados, sublinhando também que os Estados Unidos têm ativos muito valiosos no estreito de Ormuz. Estamos perante uma nova dimensão da guerra no Médio Oriente? Temos dois minutos até o fim do programa, Bruno.

Estamos neste jogo também de retórica, de dissuasão, ou seja, os dois lados no fundo a tentarem convencer o outro lado que não é boa ideia voltar a intensificar o conflito. O problema é que também não há uma saída evidente fácil a nível diplomático e, portanto, esse risco realmente existe. Aqui o que o Irão está a fazer é reforçar a aposta em algo que tem tido alguns resultados, que é não tentar combater igual para igual, de forma convencional, mas tentar combater de forma estrategicamente mais inteligente, mais assimétrica, procurar áreas mais vulneráveis do adversário, em particular apostar no fato dos países do Golfo realmente terem construído economias muito avançadas, mas que têm grandes vulnerabilidades a sistemas tão básicos como drones relativamente baratos e, portanto, por exemplo, a questão dos centros de dados. A zona do Golfo estava se a posicionar como uma superpotência nesta questão da inteligência artificial, que precisa de enormes quantidades de energia, de terreno. Isso coloca muitas vezes noutros países problemas ambientais, de licenciamento, etc. Aqui, imenso capital, também imenso dinheiro para a construção destes centros de dados massivos, que vão gastar depois imensa energia. Portanto, no caso dos países do Golfo, abundância de energia, abundância de capital, não há problemas de licenciamento. Se o sultão, se o sheik, se o rei decidir é para se avançar. Tudo isso está muito bem, mas realmente tem este problema, que é os centros são alvos fáceis, são massivos, são feitos à superfície, até também por razões de custo e até também de arrefecimento, etc. E portanto, são fáceis de atacar e o Irão está a explorar essas vulnerabilidades.

E é desta forma, com esta ideia que chegamos ao final do Gabinete de Guerra, hoje com a análise do estudioso Bruno Cardoso Reis. Este e todos os episódios do Gabinete de Guerra ficam disponíveis em podcast.

Obrigado.