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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do major general João Vieira Borges. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Começamos pelo Médio Oriente e por aquela que penso ser uma questão inevitável neste momento. Depois destes vários dias de ataques de ambos os lados, Estados Unidos e Irão, como é que fica o cessar-fogo e, sobretudo, o memorando de entendimento que tinha sido assinado, caiu por terra?

Muito boa noite. Efetivamente, nas palavras de Trump, caiu por terra. Na realidade ou na práxis, caiu por terra, mas obviamente que não se vai resolver com a guerra. O diálogo e a diplomacia são, na minha perspectiva, o único caminho possível. Esta é uma guerra que é limitada e intermitente para ganhar em posição, mas sobretudo há aqui uma questão importante, que é a interpretação do ponto cinco do memorando de entendimento. Passou a ser o Estreito de Ormuz o ponto fundamental do memorando e não as questões nucleares, as sanções e outras questões que eram importantíssimas. Este passou a ser uma questão estrutural fundamental e enquanto não houver entendimento, vai continuar este tipo de guerra. Não é uma guerra total, obviamente, é limitada até pela circunstância de os Estados Unidos terem o poder aeronaval, mas não terem poder terrestre para empenhamento no Irão e será com alguma intermitência, até a comunidade internacional mais uma vez pressionar os Estados Unidos e haver da parte, sobretudo de Trump, uma resposta no sentido da negociação. É isso que vamos tendo, infelizmente.

Entretanto, Donald Trump disse hoje que os Estados Unidos estão a restabelecer o bloqueio naval ao Irão e adiantou também que vão impor uma taxa de 20% sobre toda a carga enviada através do Estreito para cobrir questões relacionadas com a segurança. Podemos acreditar nisto?

Não, não devemos acreditar, devemos simplesmente criticar. Efetivamente, o Irão estava a infringir o direito internacional e a Organização Marítima Internacional apelou hoje que o Estreito de Ormuz deve estar livre de qualquer taxa e encargo. Se a grande crítica dos Estados Unidos e da comunidade internacional sobre o Irão era efetivamente as taxas, os Estados Unidos colocam-se numa situação muito delicada. Isto faz parte dos discursos incompreensíveis de um presidente dos Estados Unidos. Pode dizer que pode e deve fazer o bloqueio, mas estar a dizer que vai receber muito dinheiro e que vai receber agora 20% da carga transportada por esse trabalho é perfeitamente indescritível num presidente dos Estados Unidos.

Mas e o que é que podemos esperar relativamente ao futuro do Estreito de Ormuz?

O que podemos esperar é esta conflitualidade que obviamente toca toda a região, porque nós estamos a falar de Estados Unidos e do Irão, mas temos que falar de todos aqueles países do Golfo Pérsico, que curiosamente ou não, mais uma vez, um deles, a Arábia Saudita, hoje também tem ali problemas mais uma vez com o Irão ou com os movimentos que o Irão apoia no Iémen. Espero que a situação não se alastre, porque senão a situação fica muito complicada, ainda mais do que já está. Mas é toda a instabilidade daquela região que tem limites em termos temporais, porque obviamente não é só a riqueza do Irão que está em causa, ou digamos, neste caso, as condicionantes que o Irão tem da tal perda de 500 milhões de dólares diários, é também a perda de muito mais do que isso da parte de todas as outras potências que ainda por cima estão a ser atacadas. O reajustamento geopolítico está sendo feito. A partir do momento em que continuam a ser atacados, obviamente perdem confiança nos Estados Unidos. Os Estados Unidos tinham lá as bases para garantir a sua segurança e a reação é que são atacados porque têm as bases. Isto leva alguns daqueles países a ter posicionamentos diferentes. Quem ganha com isso, obviamente, é a China, que já fez aproximações à Arábia Saudita, fez aproximações não só ao Irão, mas aos outros países e que vai vendo a guerra passar. Nem tem feito ultimamente nenhuma observação, o que é muito estranho para quem defende o direito internacional e quem defende determinado tipo de valores, mas como está a ganhar direta e indiretamente com esta guerra, digamos que já nem reage.

Vamos olhar também para a guerra na Ucrânia. A imprensa ucraniana está a avançar que o próximo primeiro-ministro da Ucrânia deverá ser o CEO da Naftogaz, isto depois de Volodymyr Zelensky ter anunciado uma reformulação do governo, que levou também à demissão da primeira-ministra. Pergunto-lhe o porquê desta remodelação agora no governo e, a ser verdade que vai ser este o próximo primeiro-ministro, por que escolher o CEO da maior empresa estatal de petróleo e gás da Ucrânia?

Zelensky só explicou a necessidade de fazer uma remodelação. Não disse por quê, ficamos sem saber, mas eu consigo deduzir a partir daquilo que ele definiu como prioridades para o futuro governo. A partir do momento em que ele define como prioridade preparar o país para um inverno mais perigoso ou mais rigoroso, neste caso, proteger infraestruturas, se não me engano, de energia e combustíveis e estabilizar a economia, e se não me engano, qualquer coisa relacionada com a gestão eficaz da ajuda internacional, isto quer dizer que O presidente de uma empresa que tem experiência nestas áreas passa a ser importante, independentemente de não haver experiência política, há experiência de gestão. Aquilo que ouvi há pouco da primeira-ministra, que deixou funções, já apresentou a demissão há pouco, é que foi muito tempo muito cansativo em guerra ser primeiro-ministro e que é fundamental que haja estas mudanças, que se podem estender, aliás, a uma pessoa que eu acho que é importante, que é o Fedorov, que está no cargo de ministro da Defesa, que tem feito um trabalho excepcional no combate em profundidade, no investimento nos sistemas de armas de profundidade, designadamente os drones, mas também de sistemas não tripulados, é o caso dos robôs, que já estão na guerra, na linha da frente para substituir a falta de militares da Ucrânia. Fez um trabalho excepcional, mas, em princípio, seria também substituído pelo ministro do Interior e iria para outras funções já mais tecnológicas. Voltaria às funções que já teve, que foram mais tecnológicas. Ou seja, nós não temos todos os dados, em resposta à sua questão. Há é, sobretudo, que fazer modificações para enfrentar novos desafios, sabendo que as pessoas estão cansadas. Ele é que lida com essas pessoas e que precisa de gente mais motivada e mais preparada para aquilo que são os novos desafios.

Vladimir Putin prometeu hoje vencer a guerra contra a Ucrânia. Foi uma promessa deixada no primeiro ato de campanha para as eleições legislativas de setembro. Numa altura em que vemos aumentar o descontentamento interno na Rússia relativamente à guerra na Ucrânia e também à forma como Putin tem gerido o conflito, ainda assim, não são esperadas grandes surpresas nas eleições.

Na Rússia, não. Independentemente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, o CSIS, na semana passada, ter referido que a Rússia perdeu mais de 1,4 milhões de militares mortos e feridos desde fevereiro de 2022. Estes são aspectos que um regime autocrático trabalha com uma narrativa histórica em que consegue influenciar o povo de que nem sequer é uma guerra. É uma operação militar especial. Morreram 1,4 milhões de militares, mas isso para ele tem pouco significado e consegue convencer o povo. Agora, a questão é que este povo não é de Moscovo, este povo não é de São Petersburgo, não é das grandes capitais, é das regiões pobres, que obviamente estão a sofrer e estão a sentir, mas os votos não chegam aí. As eleições nós sabemos como é que são trabalhadas. A oposição não tem espaço de intervenção. Aquilo que sentem a classe média e média-baixa, que tem alguma influência no voto, é fundamentalmente a questão económico-financeira, é já sentir a taxa de inflação, é sentir a dificuldade na aquisição de determinados bens, designadamente de gasolina e gasóleo. Mas o sistema está preparado para enfrentar todo o tipo de adversidade, controlando todos os órgãos de comunicação social, controlando, de maneira às vezes não entendível da nossa parte, os próprios opositores, que nós sabemos o que é que lhes acontece. E são meramente uma fachada para a continuidade de Putin, que alterou a Constituição para estar lá 20 e tal, 30 anos no poder. Ele quer ficar no poder até passar a paz a alguém da sua confiança ou até morrer, pelos vistos. O sistema está todo preparado nesse sentido. Foram muitos anos de um homem ligado aos serviços de informações e tinha o poder nas mãos e continua a tê-lo ainda mais forte hoje. Não vai ter qualquer influência, julgo eu, nas eleições.

Numa altura em que nas últimas semanas temos visto a Ucrânia atacar cada vez mais infraestruturas energéticas na Rússia, a Rússia já admitiu a escassez de combustível. Também na semana passada vimos um reforçar do apoio dos países da NATO à Ucrânia. Acha que com tudo isto estamos a ficar mais longe ou mais perto de um processo de paz?

O Trump referiu-se a isso anteontem, dizendo que estas situações de linhas vermelhas de um lado e de outro levam mais rapidamente àquilo que é um acordo de paz. Eu não penso assim, porque já estamos aqui há quatro anos e meio. Na prática, estamos há 12 anos, considerando a guerra da Crimeia, que para a Ucrânia já era uma guerra. Aquilo que vejo é a comunidade internacional muito afastada do processo, com outras preocupações, designadamente a questão do Irão com os Estados Unidos, e deixando arrastar todo este processo. A Europa não está preocupada, está nas suas fronteiras a guerra. Hoje reuniu a cimeira dos aliados e mais uma vez- Pois, chamam de vários nomes. Mas hoje reuniu essa cimeira ou coligação de voluntários, o que se queira, com pelo menos 25 países. É importante para mais uma vez apoiar a Ucrânia. Criou inclusivamente uma coligação antibalística com 10 países nos quais está a Espanha, curiosamente para integrar a base industrial e tecnológica europeia de defesa. É importante, muito embora para a Ucrânia, obviamente, a ausência do apoio dos Estados Unidos seja muito complicada para resistir a este avanço gradual, quer se queira quer não, independentemente dos ataques que a Ucrânia vai desenvolvendo, no teatro de operações a pouco e pouco a Rússia vai conquistando terreno, numa relação às vezes de um para 10. Nós não falamos disso, mas no teatro de operações é lenta a evolução, mas há evolução. E quando chegar a um determinado limite, designadamente quando chegar a uma linha defensiva fundamental, em que já faltam 25 km e 10 km nalgumas áreas, a situação vai-se complicar muito em termos militares. Não sei se haverá essa capacidade. O que a Rússia está a fazer é tentar ganhar tempo. Não havendo outras alternativas para a Rússia, para além dos Estados Unidos como um "moderador", vai ganhando tempo, porque não tem problemas com a mortandade. A mortandade, para a Rússia, faz parte do seu ADN na Primeira e na Segunda Guerra Mundial. Portanto, está à espera que haja da parte da Ucrânia esse problema. Mas a Ucrânia tem sabido substituir os militares por sistemas tecnológicos, vai resistindo ao fim de quatro anos e meio. O pouco apoio que dá, comparativamente àquilo que era necessário à própria Europa, é importante em termos políticos e em termos estratégicos, mas infelizmente não encontramos solução ao fim de quatro anos e meio. Infelizmente, continuamos nesta guerra de atrição, que já é mais do que atrição, pelo combate em profundidade. Estamos a olhar para uma guerra com uma mortandade tremenda, com dois milhões de mortos e feridos aqui na Europa, e vamos de férias, falamos de futebol e estamos todos descansados quando a guerra está mesmo aqui à porta. É isso que vamos vendo. Já nos habituamos. Quando nós estamos na guerra, ao fim de algum tempo, e eu como civil estive na guerra, não como militar, estive como civil, ao fim de algum tempo nós habituamo-nos. E aqui, infelizmente, é isso que está a acontecer. A acontecer com os ucranianos, a acontecer já com os europeus, alguns adormecidos, outros propositadamente adormecidos, outros calculistas, olhando para ciclos eleitorais e nem falamos sequer naquilo que tem sido o vai e vem do posicionamento de Trump nesta guerra. É muito triste chegarmos a esta altura e continuarmos na mesma, como estávamos no ano passado, como estávamos há dois anos, como estávamos há três anos, numa guerra que, na prática, já ultrapassou, na minha perspectiva, a duração que teve a Primeira e a Segunda juntas, porque pra mim esta guerra já tem mais de 12 anos.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigada pela sua análise.

Muito boa noite, obrigado.

Obrigada. O Gabinete de Guerras está de regresso amanhã.