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É o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos fazer o ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje é nosso convidado Luís Tomé, investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais. Luís Tomé, muito boa tarde. Bem-vindo.

Olá, boa tarde.

Donald Trump deu uma entrevista ao programa 60 Minutos onde defendeu, sem surpresas, o acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas, um acordo que o próprio Donald Trump ajudou a elaborar. Diz o presidente norte-americano que é um acordo muito sólido e nada frágil. É verdade, é assim que Luís Tomé definiria este acordo entre Israel e o Hamas e a forma como tem estado a ser implementado nos últimos dias?

Não, está à evidência de todos que o acordo e o cessar-fogo é muitíssimo frágil. Chama-se cessar-fogo porque nós queremos que vigore, mas todos os dias há violações desse acordo, desse cessar-fogo, por ambas as partes. Há um problema de fundo no início que é não envolver diretamente os palestinianos, apenas se fala vagamente na reforma da autoridade palestiniana. Na verdade, este plano Trump é um ultimato imposto ao Hamas, que teve o mérito de envolver países árabes e outros países islâmicos e, portanto, o resto da comunidade internacional acabou por ir ao encontro porque todos queremos a paz e que acabe a tragédia humanitária em Gaza e que deixe a população na Faixa de Gaza ser dominada por um grupo terrorista. Agora, o cessar-fogo é muitíssimo frágil. Estamos aliás a ficar numa situação perigosa que não é apenas o regresso de uma intensidade alta de confronto entre o Hamas e a Jihad Islâmica e outros grupos de Israel, mas também ficamos num limbo em que não há um verdadeiro cessar-fogo entre estes principais beligerantes, mas também há um intensificar dos confrontos entre os vários grupos armados que persistem dentro da Faixa de Gaza. E nós continuamos com muitas dúvidas sobre tal força de estabilização internacional. Hoje mesmo há uma reunião importante de ministros dos estrangeiros na Turquia de países de maioria islâmica. Turquia que acolhe este encontro e que Israel não quer de todo ver envolvida nas forças de estabilização para desarmar o Hamas e acompanhar a retirada de Israel da Faixa de Gaza. Israel que ocupa 58% do território da Faixa de Gaza ainda e não creio que seja por má informação que chega ao presidente Trump. Acho que é à boa maneira dele, um otimismo daquilo que ele faz, acha que é sempre tudo bem e quer manter o plano que traçou. Claro que o prazo já não tem nada a ver com as 72 horas iniciais, mas na verdade não corresponde àquilo que a evidência mostra. O cessar-fogo é muitíssimo frágil, corremos o risco de deixar de existir até.

Até porque nos últimos dias e também esta manhã continuam a existir ataques israelitas aqui principalmente nas imediações da cidade de Gaza.

E na Cisjordânia, depois também no Líbano, enfim, não é só na Faixa de Gaza.

O cessar-fogo para cumprir o termo não deveria pôr fim a este tipo de ataques por parte de Israel?

Deveria e é por isso que surgem múltiplos apelos para que o cessar-fogo seja respeitado. O próprio presidente de Israel faz um apelo nesse sentido, os países muçulmanos fazem um apelo nesse sentido. Agora nós temos que entender que não estando envolvido diretamente o lado palestiniano e sobretudo percebemos que o Hamas resiste àquilo que são pressupostos fundamentais deste plano Trump, que é o seu desarmamento, a destruição de túneis e não ter qualquer papel político. E se é verdade que alguns membros do Hamas até publicamente têm dito que sim e até já saíram do território, aliás muitos deles estão num resort de luxo no Egito, há muitos militantes combatentes do Hamas que pura e simplesmente não querem entregar as armas, não querem deixar de ter qualquer papel político, continuam a acreditar que o martírio a que a população palestiniana na Faixa de Gaza está é justificável e o fim justifica os meios. Mas depois temos aqui outro problema: mesmo que grande parte dos militantes do Hamas aceitasse entregar as armas, a quem? E isso implica que eles próprios tenham o mínimo de confiança em quem entregam as armas para depois gerir a situação, a administração do território. O Egito seria o parceiro normal, mas as reticências colocadas por Israel lá por causa da Turquia dificulta até a pressão acrescida de Ankara sobre o próprio Hamas. É bom também lembrar que a Turquia e o presidente Erdogan foram descrevendo o Hamas como "freedom fighters". Naturalmente que Israel tem todas as razões para desconfiar do papel da Turquia e não querer soldados turcos na Faixa de Gaza, mas amontoam-se as complicações que se previam desde o início e que agora dificultam a execução prática. Nós até nos lembramos que poucos dias depois Donald Trump disse que já estávamos na fase dois. Bom, qual fase dois? Ainda estamos na fase um do plano e todos desejamos que passemos às fases seguintes, mas na verdade o Hamas continua a jogar de uma forma muito cínica com a entrega de restos mortais de não reféns, de outras pessoas, mas não propriamente reféns. Isso também dá pretexto para alguns membros do governo israelita e o próprio Netanyahu continuarem com a sua agenda habitual para levar a cabo uma destruição ainda maior na Faixa de Gaza. A tentativa de desarmar pela força O Hamas e condenar a população palestiniana de Gaza a essa tragédia humanitária que temos visto.

O Luís Tomé já falou aqui do papel da Turquia e também de Erdogan. A Turquia está hoje a receber vários líderes da diplomacia de países islâmicos para discutir este plano de paz, este cessar-fogo que está em vigor. Países como o Qatar, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos, o Paquistão, Indonésia e também o Egito. Erdogan disse hoje que o Hamas parece determinado em respeitar este cessar-fogo. O que eu lhe quero perguntar é se a mediação deste acordo pode ser feita por outros países que não sejam os Estados Unidos. A Turquia tem um papel aqui a desempenhar, apesar de todas as reservas que o próprio Luís Tomé já ressalvou.

Tem, porque desde logo é dos poucos atores regionais e em particular dos poucos Estados que têm relações de proximidade históricas de apoio junto do Hamas e, portanto, obviamente que os dirigentes e os militantes do Hamas mais facilmente cedem a pressões ou a um certo enamoramento do lado de um parceiro que reconhecem como a Turquia do que de outros interlocutores. E a realidade é que o presidente Erdogan e o ministro dos Negócios Estrangeiros hoje voltam a fazer declarações favoráveis ao processo a este plano de cessar-fogo, voltam a dizer que o Hamas está interessado e empenhado em manter os compromissos e, portanto, no fundo, a Turquia volta a responsabilizar Israel e teria um papel se fosse possível previamente um acordo político entre Israel e a Turquia. A Turquia tinha de facto um papel importante na força de estabilização para, como disse anteriormente, acompanhar a retirada dos militares israelitas da Faixa de Gaza, o seu recuo e assegurar o desarmamento do Hamas. Mas a verdade é que não existe esse ambiente e, portanto, a Turquia pode tentar reposicionar-se, fazer valer o seu papel, mas Israel e os Estados Unidos já disseram que Israel tem esse direito de veto. Se Israel não quer forças armadas militares turcas e nem sequer de ajuda humanitária ou, por exemplo, para operações de resgate, Israel não quer turcos na Faixa de Gaza, é evidente que esse papel que poderia ser muito importante da Turquia fica diminuído precisamente porque não há condições políticas entre Israel e a Turquia, que aliás bem sabemos também estão em disputa na Síria. Pelo que restam outros atores na região. Esperemos que seja suficiente, mas o Hamas tem uma agenda própria. Não é uma marioneta de ninguém. Obviamente fazia o jogo do Irão, que agora está na situação em que está, mas o Hamas tem uma agenda própria. E para além do Hamas, temos outros grupos que têm uma agenda similar, como a Jihad Islâmica, e tem grupos armados que são opositores ao próprio Hamas, inclusivamente armados por Israel. Portanto, na verdade, não estamos apenas perante dois beligerantes e um cessar-fogo entre dois beligerantes. Há outros atores que têm interesses e agendas divergentes que ajudam a complicar o processo. A Turquia poderia ser o facilitador, no estado das relações que está com Israel, não pode desempenhar esse papel.

Luís Tomé, voltamos a Donald Trump agora para falar da guerra na Ucrânia. Ontem no avião presidencial, o Air Force One, o líder da Casa Branca afirmou que não está por enquanto a considerar a possibilidade de fornecer mísseis Tomahawk à Ucrânia. Que diferença é que estes mísseis poderiam fazer e o facto de não estarem a ser ponderados pelos Estados Unidos da América coloca em causa a defesa ucraniana face a Moscovo?

A Ucrânia não tem recebido estes mísseis, tal como não recebe os Taurus alemães. E é evidente que podendo, por um lado, receber mais sistemas de defesa aérea, como tem reclamado ao longo de muito tempo, e agora pudesse dotar-se deste tipo de mísseis com maior alcance e, portanto, com possibilidade de atingir alvos na profundidade do território da Federação Russa, e estamos a falar de alvos militares, não é apenas centrais energéticas, mas são verdadeiros alvos militares, aeródromos, aeroportos, depósitos de munições, aquilo que ajuda a fazer esta agressão à Ucrânia, obviamente que a Ucrânia estaria numa posição para equilibrar um pouco mais o jogo e futuramente estar em condições nas negociações de poder jogar este tipo de cartas. Agora, percebemos que Donald Trump continua a resistir. Ele pode facilmente avançar com sanções secundárias contra a Rússia, mas ele também agora veio dizer nesta entrevista que as tarifas contra a Rússia não seriam eficazes para acabar com o conflito. Num dia diz uma coisa e faz umas ameaças, no outro dia diz outra e faz o contrário. Donald Trump continua a ser relativamente imprevisível, mas percebemos que no fundo, Donald Trump, por um lado, percebeu que aquela estratégia inicial ao longo de meses de apenas apaziguamento e toda a pressão sobre a Ucrânia não resultou. E agora de repente quer mostrar publicamente que também pressiona o lado russo, mas com poucos dados concretos. E eu acho que ele está à espera de um sinal que venha do Kremlin, de Putin em concreto, para poder voltar à sua lógica de apaziguamento. E infelizmente a Ucrânia continua a ser vítima da agressão e acho aliás que a Rússia não só tem intensificado os ataques, como está claramente a desenvolver uma nova estratégia de inverno que já conhecemos, causar uma profunda crise energética na Ucrânia e até com isso alimentar uma nova vaga de refugiados para a Europa, tentando destabilizar e dividir os aliados europeus e ao mesmo tempo Aumentar a escalada de dissuasão face aos países europeus e aos Estados Unidos que vêm apoiando a Ucrânia. Isso é uma estratégia antiga que repetidamente Putin prossegue. Agora nas últimas semanas tem feito uma série de testes de novas capacidades, precisamente para atingir esse outro lado, que são os países que apoiam a Ucrânia.

Mas então isso significa, Luís Tomé, que Donald Trump vai ficar sentado à espera que o telefone toque por parte de Vladimir Putin para poder negociar um acordo para a Ucrânia uma vez que é o próprio presidente norte-americano que rejeita utilizar tarifas, por extensão talvez até novas sanções contra Moscovo. Se o presidente dos Estados Unidos não está disponível a utilizar estes mecanismos, que mecanismos é que pode utilizar para pressionar Vladimir Putin e levá-lo a uma mesa de negociações?

Não só Donald Trump mudou um pouco a estratégia, e não quer dizer que não mude outra vez, como dizia há pouco, mas a Ucrânia e os países europeus também foram adaptando a sua estratégia à figura, à personalidade de Donald Trump. E, portanto, o que vão tentando fazer, ucranianos e europeus, é manter os Estados Unidos ligados ao apoio à Ucrânia, seja através de continuarem a vender armamento a europeus que por sua vez depois entregam à Ucrânia, mantendo a intelligence que é crucial para os ucranianos se poderem defender, por um lado, e lançar alguns ataques por outro, e na retórica ir mantendo algum tipo de pressão que aparentemente seja coesa do lado da NATO no apoio à Ucrânia e portanto algum tipo de pressão sobre a Rússia. Os países europeus vão acumulando pacotes de sanções, os Estados Unidos vão ameaçando fazê-lo, mas pelo menos manter os Estados Unidos ligados a este processo aparecendo como estando ao lado da Ucrânia. Embora interessada na paz, procura com a Rússia, é o mínimo que os países europeus e os ucranianos tentam, porque já sabemos que, como acontece frequentemente após uma chamada de Trump com Vladimir Putin ou o seu enviado para todas as questões, Whitcoff, no contacto com russos, Donald Trump pode voltar atrás, acentuar toda a pressão do lado do agredido, impondo aos europeus e ucranianos aquilo que é a sua perspectiva e portanto fazendo o jogo de Vladimir Putin. Eu continuo convencido de que Putin é muito motivado pela estratégia dos primeiros meses de Donald Trump, espera obter com Trump aquilo que não consegue por via militar. E nos cálculos de Putin continua isso. É preciso que os Estados Unidos e Trump mostrem mais do que apenas esta retórica flutuante que vão exercendo.

Luís Tomé, investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais, muito obrigado por ter estado conosco esta tarde aqui na Rádio Observador. Foi mais um Gabinete de Guerra. Obrigado e boa tarde.

Eu é que agradeço. Boa tarde.