Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Está aberto mais um gabinete de guerra nesta tarde da Rádio Observador, com o tema a centrar-se nos ataques russos com mísseis hipersônicos. Este fim de semana, a Rússia anunciou por duas vezes o disparo de mísseis desta natureza contra a Ucrânia. Não o tinha feito até ao 24° dia de guerra, Miguel.
Para analisar este ataque por parte do país liderado por Vladimir Putin, temos conosco Daniel Pineu, especialista em terrorismo e relações internacionais. Boa tarde, professor.
Olá, boa tarde, tudo bem.
Agradeço-lhe a disponibilidade para estar conosco neste gabinete de guerra da Rádio Observador. Que armamento é este?
O importante de percebermos destas armas é que elas são mísseis, portanto, são projéteis balísticos hipersônicos. Na verdade, não são. Nós falamos muitas vezes deles serem supersônicos, não são. Uma arma supersônica voa ligeiramente acima da velocidade do som, que é o que nós chamamos de Maquiavel 1, e elas são hipersônicas, portanto, vão acima de cinco vezes, são pelo menos cinco vezes tão rápidos quanto a velocidade do som. E voam também a uma altitude mais baixa do que mísseis de cruzeiro convencionais, e voam extremamente rápido. Portanto, a Rússia tem três programas de mísseis: tem o Zircon, tem o Kinzhal e um chamado Avangard. São todos ligeiramente diferentes. Aquele que foi utilizado, parece ter sido o Kinzhal, que quer dizer punhal, e esse míssil voa até 10 vezes a velocidade do som. Ou seja, eles são tão rápidos e voam a uma velocidade tão baixa que, na verdade, são indetectáveis ou muito dificilmente detectáveis por radar. E mesmo que fossem detectados por sistemas convencionais de defesa antimíssil, como por exemplo, os Patriots americanos ou o Iron Dome israelita, ou vários outros tipos. O que acontece é que essas baterias antimísseis não os conseguem interceptar, porque no momento em que fazem o cálculo e disparam os seus mísseis, ele já andou muito mais rápido. E além disso, o Kinzhal ainda tem a capacidade de fazer manobras de evasão, portanto ele é manobrável, isso tem a ver com o tipo de míssil que é. Os mísseis normais têm uma mistura de combustível sólido e líquido e ficam em uma só direção. E isto é muito mais parecido a um veículo como um jato, como um avião a jato, e portanto, como consome o oxigênio do ar, é muito mais leve, o que significa que vai até distâncias muito maiores. Este tem um alcance de cerca de 2 mil km no máximo, e é muito mais manobrável. E são também armas que podem levar uma carga convencional, portanto, altamente explosiva, inclusive armas como bombas de fragmentação, ou pode ser adaptado para uma carga nuclear, embora até hoje não tenhamos tido qualquer evidência disso ter sido tentado, ou ter havido os testes ou os treinos necessários pra ter uma carga nuclear, mas ele é possível.
E esta é uma tecnologia exclusivamente russa, só a Rússia que detém mísseis hipersônicos, ou pelo menos é o primeiro país a utilizá-lo. Qual é a histórico deste armamento na história da guerra no mundo?
Na verdade, a Rússia foi o país que mais se adiantou na investigação, na teste e no uso, agora pela primeira vez, que nós saibamos, ou que foi declarado em contexto de guerra, mas vários outros países têm programas desta natureza, os Estados Unidos também, e a China também. Tecnicamente, eles são programas bastante difíceis de completar, porque há uma série de problemas, se quisermos, de física, que têm a ver com a velocidade a que viajam, a sua capacidade de manobra, o fato de poderiam não ser interceptados, etc. A Rússia desenvolveu este programa, sobretudo, porque ficou particularmente preocupada com as capacidades europeias. Ou seja, a ideia foi tentar dissuadir os países da NATO de terem mísseis convencionais e nucleares perto das fronteiras da Rússia, que conseguissem chegar à Rússia. Aliás, nós agora já não estamos lembrados, mas Vladimir Putin ficou particularmente incomodado com isso, com o posicionamento de mísseis da NATO em países do antigo Pacto de Varsóvia, que os Estados Unidos e a NATO diziam que tinham a ver com a defesa em relação ao Irão, antes do acordo nuclear, mas que a Rússia sempre achou que tinha a ver com a Rússia. E portanto, como tinha alguns problemas, por um lado, não querer ter esses mísseis, mas ao mesmo tempo não querer fazer uma ameaça nuclear, precisava de uma ameaça que dissuadisse a NATO de continuar a fazer isto, mas que fosse convencional, e então resolveu investir muito nestes mísseis. A segunda coisa é porque a Rússia, do ponto de vista terrestre, tem algumas vantagens, mas do ponto de vista naval, tinha muito poucas capacidades, perdeu muitas capacidades desde o final da Guerra Fria. Isso significa, por exemplo, a Rússia só tem um grupo de porta-aviões, os Estados Unidos têm 14 grupos de porta-aviões, a NATO tem mais alguns por causa da França e do Reino Unido. O que isso significa? Significa que estes mísseis são particularmente bons em irem contra navios. Há até um sistema, o Zircon, que pode ser lançado a partir de navios e que tem uma capacidade de buscar navios através do seu radar e portanto é praticamente impossível detectá-lo ou evadi-lo. E portanto, a Rússia, por estas duas razões, por uma disparidade naval, mas sobretudo para tentar dissuadir a NATO de estacionar mais homens e sobretudo mais mísseis em países do antigo Pacto de Varsóvia, desenvolveu muito rapidamente estes mísseis e já em fevereiro tinha dado alguns sinais que os poderia utilizar, porque a 8 de fevereiro houve relatórios que a Rússia mudou uma parte, um número significativo dos seus esquadrões, perdão, dos seus aviões MiG, das suas aeronaves MiG. Os MiG-31 são dos poucos aviões que estão adaptados para poderem disparar este tipo de míssil, porque é um sistema muito específico. Eles foram postos em Kaliningrado, que é uma enclave entre a Polónia e a Lituânia, que é território russo e que fica totalmente rodeado de NATO e da União Europeia, e que tem uma base naval e uma base nuclear importante, com submarinos nucleares, etc. E os russos tinham, no dia 8 de fevereiro, enviado alguns aviões MiG equipados com estes mísseis pra lá. Isto foi uma tentativa de dissuadir a NATO de nem sequer se envolver numa putativa escalada que depois vem a acontecer com a invasão da Ucrânia.
Eu ia perguntar-lhe precisamente como é que interpreta a utilização deste armamento militar nesta altura, nesta circunstância, tendo em conta que considerando as características que já aqui fez referência, eventualmente, será um meio demasiado sofisticado face à proximidade do território russo e do território ucraniano. Não haveria necessidade de usar mísseis com todas estas características que aqui fez referência. Como é que interpreta este uso deste tipo de armamento militar? Uma manifestação de força?
Claramente é uma sinalização importante, ou seja, eu não creio que nós vamos ver estes mísseis usados muito mais vezes ou em massa. Nós temos que perceber que isto é significativo porque foram utilizados. São uma tecnologia extraordinariamente avançada, mas foram utilizados um ou dois confirmados versus centenas e centenas de outros mísseis de médio e curto alcance que estão a ser utilizados pelos russos, portanto, são uma proporção ínfima. A razão pela qual não vão ser mais utilizados é porque são extraordinariamente caros e, portanto, é usarmos um martelo para matar uma mosca. É desproporcional para aquilo que é necessário para os seus objetivos. Agora, isso permite duas coisas. A primeira é que permite que os aviões, que são muito caros e que são muito avançados, que disparam estes mísseis, os disparem de dentro do espaço aéreo russo. Podem, na verdade, dispará-los a partir de Kaliningrado ou a partir da própria Rússia, ou a partir da Crimeia russa, sem qualquer problema, no sentido em que os mísseis têm um alcance muito grande, muito longo, até cerca de 2000 km. Portanto, isto é uma forma de não arriscar que o míssil seja interceptado e não arriscar que o avião que lança o míssil seja abatido, porque isto pode ser feito para lá das linhas, fora do espaço ucraniano. Portanto, isto sinaliza à NATO duas coisas: se nós quisermos atingir um determinado objetivo, somos capazes de o fazer sem nunca nos pormos em perigo de ser interceptados. Número dois, um míssil que alcança alvos até 2000 km pode atingir capitais europeias e até Ancara no espaço de sete a 10 minutos, portanto, não há qualquer tipo de aviso possível ou de preparação possível, ao contrário de um míssil continental interbalístico que levaria entre 30 minutos e 1 hora, 40 minutos, 28 minutos, 30 minutos, já dá pra fazer mais alguma coisa. A terceira coisa é possivelmente dizer à NATO: "Scusam de pensar em escalar, não pensem em fazer uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia, não pensem em enviar sistemas muito mais avançados, antimíssil e antiaéreos do que aqueles que já estão a enviar, porque nós, mesmo que vocês enviem isso, nós temos esta capacidade, portanto, não vale a pena." Claro, isto não é bem verdade, porque os russos não vão utilizar apenas estes mísseis e iam ficar muito rapidamente sem estas munições, porque são poucas, são raras, são caras, mas a verdade é que estão a tentar sinalizar e estão a tentar dissuadir a NATO de se envolver ainda mais em relação ao espaço aéreo e aos ataques com mísseis da Rússia na Ucrânia.
E tendo em conta também que falamos aqui de uma demonstração de força, em parte para aqueles países que estão do lado da Ucrânia nesta batalha que em termos de sanções é global. Por um lado, não pode ser também uma demonstração de força para a própria Ucrânia, para que nos processos de negociação de paz, o país ceda um pouco mais nas exigências de Moscovo?
Sinceramente, não creio, porque é muito mais significativo para a Ucrânia aquilo que está a acontecer em termos de uma escalada convencional com o uso de bombardeamentos aéreos, mas sobretudo o uso de mísseis a destruir infraestrutura civil. Estes mísseis conseguem atingir todo o território da Ucrânia, portanto, supostamente conseguem atingir mesmo a fronteira oeste da Ucrânia com países da NATO, mas isso já era possível de formas mais convencionais. Já houve, aliás, ataques mais convencionais desse gênero. E estes mísseis, a não ser que estejam equipados com ogiva nuclear tática ou estratégica, coisa que não é o caso, não sabemos sequer se há capacidade técnica da Rússia o fazer, e acreditamos que não, não fazem nenhum sentido desse ponto de vista da coerção através da força, porque são muito mais munições de precisão. Ou seja, o que eles são capazes de fazer é evadir a defesa aérea, mas neste momento os russos estão a utilizar várias outras armas, algumas muito avançadas, como os chamados drone kamikaze, portanto, drones mais pequenos em grande número, que se atiram contra um alvo e explodem no impacto, que são muito baratos e que são razoavelmente difíceis de impedir se forem em muita quantidade, já estão a ser utilizados. Estão a ser utilizadas armas termobáricas, estão a ser utilizadas armas de dispersão e de fragmentação e, portanto, na verdade, não vale muito a pena a Rússia usar isso para mandar um sinal para a Ucrânia, porque a destruição de infraestrutura e a perda de vidas civis que se estão a ver têm muito mais a ver com outro tipo de armamento, mais convencional e mais barato, do que propriamente um armamento ponta. Isto é muito mais um sinal da Rússia de que não se importa de escalar para um certo patamar e é um sinal, sobretudo, para os países da NATO que estão a ajudar a Ucrânia.
Professor, hoje há mais uma ronda negocial, começou de manhã ainda sem fundo branco, uma reunião que se vai prolongar entre as delegações da Rússia e da Ucrânia. Consegue antecipar um cessar-fogo nos tempos mais próximos ou este conflito está para durar?
Eu creio que a dificuldade maior, neste momento, nós temos duas dificuldades. Uma que tem a ver com o processo negocial em si, porque ele é muito complicado, ou seja, ambos os lados têm posições mais ou menos maximalistas. A Ucrânia já cedeu, pelo menos, naquele aspecto.
Naquilo que foi o argumento invocado por Vladimir Putin para invadir a Ucrânia. Volodymyr Zelensky repetiu de forma reiterada na última semana que a Ucrânia vai assumir um papel de neutralidade no que diz respeito, pelo menos, à integração da Ucrânia na NATO. Isso não deveria fazer calar de imediato as armas e parar esta ofensiva militar russa?
Exatamente. Isso é o primeiro passo que a Ucrânia deu, que é importantíssimo para as negociações. No entanto, ficou silencioso e os sinais não têm sido em sinal de não ceder no estatuto da Crimeia, portanto, reconhecer o estatuto da Crimeia como território russo, porque a Crimeia desde 2014 que foi tomada pela Rússia, foi invadida pela Rússia, foi anexada pela Rússia, e também o estatuto das repúblicas separatistas na região do Donbass. Porque a Rússia pode insistir na implementação dos acordos de Minsk, sobretudo Minsk II, mas isso seria praticamente impossível de fazer a Zelensky, sobretudo agora. Já foi praticamente impossível em termos de não ter apoio popular suficiente e não ter capacidade de verificação dos acordos antes, quando tentou. Aliás, ele concorreu numa plataforma que disse que os ia implementar, não conseguiu fazê-lo, agora não teria legitimidade popular para ceder à vista do povo ucraniano nesse ponto. E, portanto, isso é bastante complicado. Isso é um dos problemas. O outro dos problemas que me parece particularmente difícil de perscrutar o que vai acontecer é o seguinte: é que nós não sabemos, independentemente do trabalho das negociações ou do mapa e dos argumentos que sejam apresentados ou da flexibilidade de ambas as delegações, do ponto de vista da Rússia, por via da política externa russa estar tão concentrada e tão personalizada na figura de Vladimir Putin, especificamente, não na diplomacia do Kremlin. Ao contrário da União Soviética, em que tinha que haver um acordo ou, se quisermos, um beneplácito do Comitê Central, no Kremlin hoje em dia, a palavra de Putin vale muito mais do que qualquer outra pessoa e como nós já vimos até em público, ele não se coíbe de contradizer ou de calar os seus críticos no Kremlin. Isso significa que mesmo que estejam todos os sinais postos em cima da mesa e haja um bom acordo, depende inteiramente da vontade de Vladimir Putin de refazer, repensar o seu cálculo estratégico e pensar se lhe vale a pena ou não entrar em negociações ou aceitar o resultado das negociações. E é por isso que é tão difícil nós prevermos se isso pode acontecer. Eu creio que nos próximos tempos, estamos a falar nos próximos dias ou semanas, não vamos infelizmente ver um acordo de paz, a não ser que haja algum mediador internacional com muita capacidade para coagir Putin, do ponto de vista económico ou estratégico, para o fazer. Esse mediador não pode ser os Estados Unidos, não pode ser a NATO e tanto a Turquia como Israel não têm o poder de coagir, têm o poder de facilitar as negociações, coisa que têm feito e de forma bastante importante, mas não de coagir a posição do presidente Putin. A não ser que a China claramente faça força com Putin ou haja algum tipo de contrapartida que nós ainda não pensamos, nós não sabemos o que é que Putin vai achar ou vai decidir em relação às negociações. E é por isso que é tão difícil prever, mas não me parece que nos próximos tempos, estou a falar dias ou semanas e não meses ou anos, venhamos a ter um cessar-fogo sustentável. A única forma de termos um cessar-fogo é se Putin achar que um cessar-fogo lhe dá uma pausa para reorganizar, tanto em termos da sua legitimidade doméstica, como em termos da sua ofensiva militar as coisas, e ganhar algum tempo, depois quebrando esse cessar-fogo, alegando que a culpa é ucraniana. Isso é a única forma como eu vejo um cessar-fogo rápido, infelizmente, sem a entrada de um mediador muito credível na cena.
Professor Daniel Pineau, agradeço-lhe a disponibilidade para nos ajudar a analisar este conflito, os caminhos para a paz na Ucrânia, ainda distantes, na opinião do professor especialista em terrorismo e relações internacionais, que nos deu também aqui algumas informações sobre este novo armamento usado este fim de semana pelas forças russas que atacaram um depósito de armas com recurso a mísseis hipersônicos.
Fechamos, para já, este gabinete de guerra que voltamos a abrir já a seguir. Miguel Videra.