Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que fazemos um ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje contamos com a ajuda do João Albuquerque, especialista em relações internacionais. João Albuquerque, bem-vindo.

Olá, Vasco. Boa tarde.

Vamos começar com este reacender do conflito no Médio Oriente que chegou esta semana. Esta quebra no cessar-fogo faz com que um novo entendimento de paz, mesmo que seja temporário e que surja mais pra frente, claro, possa perder credibilidade?

Torna certamente a situação bastante mais difícil. Nós vínhamos a assistir a um arrastar dessas negociações depois de alguns anúncios de que poderia haver alguma aproximação entre as duas partes, mas a verdade é que não tinha havido ainda, até ao momento, nenhuma concretização ou pelo menos o passo seguinte depois da divulgação do memorando de entendimento. E portanto, havia alguma expectativa sobre que passos é que poderiam ser dados para a concretização das exigências que cada um dos lados tinha colocado em cima da mesa que agora, no meu entender, caem obviamente por terra, neste caso até mais por mar, perante estes ataques de parte a parte. De facto, determinam, pelo menos nesta fase, apesar de nenhuma das partes ainda o assumir de uma forma aberta e manter a ideia de que continuam as negociações, no meu entender, isto coloca claramente em causa a possibilidade de um entendimento mais claro entre os Estados Unidos e o Irão e a possibilidade de acabar com o conflito de uma forma mais permanente. Pode haver obviamente nos próximos dias uma diminuição da tensão entre os dois lados, mas as relações que se quebram agora neste momento dificultarão obviamente o entendimento mais prolongado de negociação de paz mais duradoura, como se desejaria.

Os Estados Unidos, como sabemos, realizaram ontem uma nova vaga de ataques aéreos contra o Irão. Já sabemos que isto é uma retaliação aos ataques iranianos a navios comerciais no estreito de Ormuz. João Albuquerque, eu perguntava-lhe se encontra algum objetivo nesta nova ofensiva norte-americana que vá além desta retaliação. Ou seja, se se tratar apenas de uma retaliação, acabando essa resposta, também voltaria o cessar-fogo, não é? Ou seja, haverá aqui algum outro objetivo que obrigue os Estados Unidos a voltar pro campo de batalha?

É difícil de dizer com certeza. Eu acho que há aqui dois fatores determinantes. O primeiro deles de natureza mais geopolítica, que é o fator de grande irritação ou pelo menos de grande entrave às negociações entre as partes não estar resolvido, e esse entrave é claramente a relação com Israel. Israel tinha ficado manifestamente desagradado com o entendimento com o Irão, com algumas das concessões que tinham sido anunciadas por parte dos Estados Unidos, porque obviamente Israel considera o Irão como o principal adversário e como a principal ameaça à sua paz e segurança e, portanto, qualquer movimentação, até mesmo o próprio cessar-fogo que permitiu ao Irão um recuperar, um ganhar fôlego do ponto de vista econômico e militar, é obviamente péssimo e negativo para Israel. Portanto, este é o primeiro fator e que obviamente não tenho muitas dúvidas que tenha levado a que tenha havido pressão por parte do governo israelita sobre os Estados Unidos para repensarem os modos da negociação e que obviamente também provoca uma resposta da parte do Irão porque obviamente considera Israel também da sua parte o seu principal adversário e inimigo na região. E o segundo ponto é uma característica mais do ponto de vista pessoal, quase psicológico, dos envolvidos nesta negociação, em particular do presidente americano, que é a sua volatilidade e a imprevisibilidade daquilo que é o seu comportamento e que sujeita a que haja estas oscilações durante momentos em que se previa ou antevia que pudesse haver maior acalmia para garantir o sucesso das negociações. E, portanto, a pressão que os Estados Unidos também sentiam por falta de resposta da parte do Irão, e o Irão tem muito mais a ganhar com o arrastar deste processo no tempo e com o adiar da conclusão das negociações, terá levado a que os Estados Unidos tenham perdido, de certa maneira, a paciência com o Irão e agido em retaliação àquilo que foram as ações iniciais do Irão.

Entretanto, continuam as longas cerimônias fúnebres do enterro do Aiatolá Ali Khamenei. É coincidência que este reacender da guerra tenha chegado precisamente nesta altura e sabendo que o Irão também teve um papel nesse reacendimento?

Sim, eu acho que não podemos ser ingênuos ou inocentes na forma como olhamos para a celebração das exéquias fúnebres de Ali Khamenei acontecem obviamente num momento que é simbólico pro Irão e que o Irão já há muito pretendia conferir a esse momento de grande solenidade, mas que obviamente a presença no Iraque, o prolongar das cerimônias no tempo até um pouco para além daquilo que é habitual, não deixam de se constituir uma provocação, ainda que indireta ou pelo menos não intencional da parte do Irão, mas que obviamente terá que ter leituras da parte dos agentes externos, em particular dos Estados Unidos. E depois, obviamente que perante as ações militares do Irão, os Estados Unidos não poderiam ficar impávidos e serenos e deixar passar em branco aquilo que foram ataques Aos seus ativos militares. Portanto, é uma pessoinha de rabo na boca, uma coisa leva à outra e voltamos a estar não na estaca zero ainda, mas próximos de um grande retrocesso naquilo que tínhamos conseguido alcançar com o cessar-fogo.

Desde a assinatura do acordo, os Estados Unidos tinham se esforçado para também tentar conter Israel, especialmente nos ataques ao Líbano. Entretanto, já vimos o ministro da Defesa israelita vir afirmar que as tropas do país vão continuar no sul do Líbano até que o Hezbollah seja desarmado. Eu pergunto-lhe se este reacender do cessar-fogo no Médio Oriente também dá mais legitimidade a Israel para continuar a atacar. Ou seja, já que os Estados Unidos continuam em guerra, Israel também o fará.

Desse ponto de vista, obviamente que Israel não desperdiçará esta oportunidade.

Isto do ponto de vista de Netanyahu, claro.

Absolutamente. Também é preciso clarificar que quando falo em Israel, estou-me sempre a referir ao governo de Netanyahu e aos agentes políticos que neste momento lideram o país. Há obviamente o interesse em manter a pressão no sul do Líbano. Temos falado disso várias vezes aqui no Gabinete de Guerra. Israel estendeu a sua linha vermelha para o sul do Líbano, ocupando uma parte do território do país como forma de garantir a sua segurança ou como forma de sinalizar que é aquele território que lhe garante um tampão para a sua segurança. E perante aquilo que é o retomar das hostilidades por parte do Irão, Israel obviamente sente-se legitimado a avançar com estas operações que vê, isto obviamente do ponto de vista de Netanyahu, como sendo defensivas e portanto acaba por avançar legitimado pelo aumentar da ameaça que o Irão acaba por representar.

Temos aqui mais dois minutinhos em que faz sentido também abordarmos a questão sobre a guerra na Ucrânia. Isto porque ontem Donald Trump veio anunciar que Volodymyr Zelensky vai receber mais mísseis Patriot. Que resposta é que podemos esperar por parte da Rússia de Vladimir Putin? É inevitável também aqui na Ucrânia, e sendo certo que aqui não houve cessar-fogo, mas que a guerra volte com mais força ao território ucraniano.

Se se concretizar essa notícia, ou pelo menos as declarações do presidente americano, porque há sempre uma grande distância entre os anúncios e depois aquilo que efetivamente chega ao terreno. Mas se se concretizar, será uma boa notícia, certamente para a Ucrânia e acima de tudo para um potencial desfecho da guerra. A Ucrânia tem conseguido e aliás, vimos um Zelensky muito confiante na cimeira da NATO, até de uma forma um pouco jocosa, dando nota dos drones ucranianos que estavam em Moscovo quando Trump aventou a possibilidade de que o presidente ucraniano fosse até Moscovo. E ele disse que não era seguro porque havia imensos drones ucranianos na capital russa. Então vimos um Zelensky muito confiante, porque de facto a Ucrânia tem sido capaz de desferir golpes muito profundos em alguns ativos essenciais económicos da Rússia e tem conseguido levar para o lado russo um aumento da pressão do ponto de vista militar. E isso, obviamente, perante uma economia russa que está cada vez mais fragilizada e que tem finalmente sentido de facto os efeitos desta pressão económica, é uma boa notícia que a Ucrânia consiga ter ainda mais capacidade militar à sua disposição, porque, como eu tenho dito desde o início, só através dessa pressão militar é que a Rússia eventualmente poderá aceitar sentar-se à mesa das negociações e colocar um ponto final na invasão bárbara que leva a cabo há quase cinco anos na Ucrânia.

João Kerk, muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra. Este episódio, como sempre, fica disponível já daqui a pouco em podcast.

O gosto foi todo meu. Muito obrigado.