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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Vamos falar nos próximos minutos dos conflitos em curso, com destaque para a Ucrânia e para o Médio Oriente, como habitual neste espaço no Gabinete de Guerra. Hoje recebo o Major-General João Vieira Borges, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco. Major-General João Vieira Borges, estamos num dia em que a Ucrânia se volta a sentar com os Estados Unidos da América, depois daquele espetáculo a que assistimos na Sala Oval. Zelensky e Trump não estão na reunião, estão sim representantes dos dois países. O que podemos esperar deste encontro que acontece na Arábia Saudita, sendo que o chefe de gabinete de Zelensky já disse que nunca se sentiu tão perto de um cessar-fogo?

Muito boa tarde. Espera-se deste encontro que efetivamente haja uma maior ligação entre os Estados Unidos e a Ucrânia naquilo que diz respeito não só à questão diplomática de relação entre os Estados, mas também um pré-acordo ou pelo menos uma conversação sobre aquilo que será um acordo de cessar-fogo. Não direi já um acordo de paz, mas pelo menos as condições. E por isso, Marco Rubio, inclusivamente da parte dos Estados Unidos, foi referindo no dia antes, neste caso ontem, que o acordo implicaria concessões territoriais da Ucrânia. Da parte da Ucrânia temos também algumas declarações no sentido de um cessar-fogo parcial, escalonado. Portanto, antes mesmo da própria reunião, que já tem um tom diferente daquele que se passou na sexta-feira que referiu há pouco, digamos que já há aqui algumas propostas, algumas sugestões para ir ao encontro pelo menos de um entendimento. Eu penso que agora mais importante do que tudo é haver algum entendimento que desta reunião saiam linhas positivas para o acordo de cessar-fogo e para um acordo de paz futuro.

Mas o que podemos ter efetivamente? Estamos aqui a falar da possibilidade de entrar num cessar-fogo em breve, no futuro. Que passos é que podem ser dados, efetivamente, que primeiros passos podem ser dados para chegarmos a esse cessar-fogo? Há a discussão quanto ao espaço aéreo, também a discussão daquilo que são os conflitos no mar. Qual é a situação que pode levar ao início de um cessar-fogo e que a discussão possa ser aceita também pela Rússia?

A situação é da parte da Ucrânia haver essa disponibilidade para concessões. Obviamente que a Rússia tem imposições e da parte dos Estados Unidos olha pra Ucrânia, o que a Ucrânia pode dar como concessões nesta reunião. A concessão territorial vai ser certamente a questão mais discutida, porque obviamente o ponto de partida da Ucrânia tem a ver com a sua fronteira, pelo menos a de 24 de fevereiro de 2022, já não falo de 91. 91 era inicialmente, inclusivamente no próprio plano de vitória, obviamente que uma segunda fase foi a fronteira no início da guerra e uma terceira fase já admitida por Zelensky era a linha de contacto, desde que fossem salvaguardadas garantias de segurança. Eu penso que estas três palavras, garantias de segurança, é que vão ser muito discutidas ou estão a ser neste momento muito discutidas, porque obviamente da parte do Kremlin há sistematicamente uma orientação no sentido de desmascarar qualquer força de interposição. Ainda há pouco o Lavrov dizia numa entrevista decorrente da conversa que teve com o chefe da OSCE, questionou as próprias iniciativas para organizar uma missão de paz na Ucrânia. E começou logo por dizer que o regime neonazido que é, que destrói os media russos e anda a banir a Igreja Ortodoxa, continua com a mesma linguagem, continua com o mesmo tratamento. Eu não sei que cedências vai haver do lado da Rússia. Agora do lado da Ucrânia, será a questão territorial, será a questão das garantias de segurança, mesmo antes de outro tipo de cedências.

Sim. Tudo isto e todas estas discussões acontecem neste dia, que está a ser marcado também por um ataque massivo com drones da Ucrânia à Rússia, um ataque que incide diretamente sobre a capital, sobre Moscovo. Já há registo de mortes, pelo menos três mortes civis, 20 feridos, há crianças também entre os feridos. A Ucrânia fala de um dos maiores ataques de sempre, que foi um ataque dirigido a estruturas concretas, estruturas relacionadas também com a energia russa. Já da parte da Rússia e do Parlamento vêm vozes de que a Rússia deve responder em força a este ataque. Que leitura faz desta situação no terreno?

A leitura que faço é que é a pressão normal neste tipo de reuniões, no dia anterior, haver uma pressão não só sobre os dirigentes que tomam decisões políticas, mas sobre a população em geral. E portanto, esta é uma operação que estava planeada, certamente, e foi escolhido o dia Da parte da Ucrânia, o entendimento da parte da Rússia é exatamente o oposto, mas é preciso lembrar que houve uma grande divulgação deste ataque com 337 drones, mas ao mesmo tempo, houve da parte da Rússia também um ataque enorme sobre Odessa e outro ataque sobre a própria capital Kiev. A Rússia não pode estar autorizada todos os dias a desenvolver ataques sobre as grandes cidades com uma mortandade com efeitos colaterais e quando a Ucrânia desenvolve um ataque, haver uma penalização da comunidade internacional através dos órgãos de comunicação social russos. Quer dizer, há aqui também um diferencial de entendimento quando nós temos a potência ocupante a ser bombardeada há três anos e quando a potência ocupada faz um ataque sobre alvos estratégicos iguais àqueles que a Rússia faz todos os dias há três anos, ser penalizada por esse mesmo tipo de ataques. Portanto, aqui julgo que também houve alguns efeitos colaterais, infelizmente, e isso foi salvaguardado na mensagem que a Rússia nunca envia. A Ucrânia fez este ataque e divulgou, como disse há pouco o Miguel Cordeiro, divulgou exatamente qual era o objetivo para salvaguardar interpretações de que estaria a fazer um crime de guerra. Isso faz a Rússia há três anos, todos os dias.

Major-General João Vieira Borges, vamos falar aqui também um bocadinho do conflito no Médio Oriente, porque passam os 10 dias desde que Gaza está neste bloqueio. Bloqueio à entrada de alimentos, medicamentos, combustível, tudo que seja ajuda humanitária. Desde o fim de semana está também sem eletricidade, foi cortada a eletricidade e isso está também a complicar ainda mais a vida na Faixa de Gaza. O Hamas tem se posicionado claramente contra esta situação, está a falar numa situação de massacre, condena esse bloqueio à ajuda humanitária como cartada de chantagem política por parte de Israel. Há alguma forma de sair desta situação que se torna cada vez mais grave para a Faixa de Gaza?

Há uma forma que é voltarmos à mesa das negociações. Penso que ontem já estavam reunidos. Penso que há aqui diplomacia paralela da própria parte dos Estados Unidos da América. Há uma pressão grande da União Europeia, de grandes países da União Europeia, principalmente na Alemanha, na França, que estão a pressionar no sentido de a ajuda humanitária ser restaurada, e não só a ajuda humanitária, também o fornecimento de energia, que está associado ao fornecimento de água, bens essenciais e portanto há aqui uma chantagem clara de Israel para pressionar o Hamas. Também não sabemos bem com que objetivo nesta fase, se é para pressionar para a segunda fase do acordo, se é para pressionar para outro objetivo que não sabemos.

Sim.

Estamos claramente num ponto crítico em que eu não tenho a certeza se é à espera que haja um posicionamento mais duro da parte dos Estados Unidos, mas é que os Estados Unidos aqui não resolvem a situação como resolvem na Ucrânia. Nós aqui estamos a falar de um movimento terrorista, estamos a falar de um movimento que, obviamente, estando numa área muito reduzida, já sobreviveu a mais de 16, 17 meses de guerra e vai continuar a sobreviver. Portanto, a sua destruição, como dizia Trump, já Israel atentou. É uma situação muito diferente de uma guerra convencional que nós temos na Ucrânia. Aqui não se trabalha a parte diplomática do mesmo modo. Por outro lado, os Estados Unidos, ao negociarem há mais de 30 anos ou cerca de 30 anos, que não o faziam com o movimento terrorista, também estão a incomodar Israel em todo este processo, defendendo aquilo que são os seus interesses naquilo que é a diplomacia errática típica dos Estados Unidos nesta administração, o que ainda complica mais esta situação. Agora, eu julgo que a pressão da comunidade internacional se deve acentuar, porque agora estamos numa outra fase em que obviamente quem está a ser penalizado diretamente é a população e estamos numa fase em que é importante caminhar para a tal segunda fase, mas a segunda fase, obviamente, com a retirada das forças de Israel e com a libertação dos reféns, que no fundo é o que nos interessa, é o que estava na segunda fase, tem sempre subjacente aquilo que é a governança. E a proposta dos países árabes, muito bem apoiada pela grande parte dos países da União Europeia, é uma proposta muito positiva, apesar de Israel e os Estados Unidos não concordarem. É uma proposta alternativa à proposta inicial dos Estados Unidos e é bom que se renegocie tendo em conta essa proposta, que obviamente, naquilo que diz respeito à governança, seria uma série de tecnocratas que não faziam parte do Hamas, mas que depois na segunda fase seriam da Autoridade Palestiniana. O projeto já é muito positivo e a União Europeia esteve muito bem a apoiar o projeto. O problema agora é conseguir que os Estados Unidos voltem atrás, o que é sempre difícil. Eu não digo Estados Unidos, mais o Trump do que propriamente a própria administração norte-americana. E esse é um processo que vai demorar alguns dias. Vamos ver. Tenho esperança que as coisas se vão resolver, até porque a pressão sobre a libertação dos reféns em termos internos em Israel tem sido grande, basta ver os órgãos de comunicação social israelitas.

Sim. Vamos de facto perceber o que pode acontecer. A discussão da governação de Gaza, de facto, também aqui a atrasar um pouco o avançar da segunda fase, mas é uma questão fulcral também para ditar o futuro desta região. Major-General, muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra. Estivemos à conversa com o Major-General João Vieira Borges. Estamos de regresso amanhã para continuar a discutir estas situações de conflito.