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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com o Major-General Isidoro Moraes Pereira. Desde já, obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós. Começamos pela situação de Israel, porque Benjamin Netanyahu está numa visita aos Estados Unidos da América e vai reunir-se hoje com Donald Trump. Um encontro importante porque Netanyahu está a tentar manter todas as opções em aberto. É assim?
Exato, exatamente. Benjamin Netanyahu olha para a situação interna norte-americana e tal como nós, tal como todos nós, não tem uma certeza de quem possa sair vencedor desta contenda. Mas uma coisa ele tem para si como certo: nos próximos cinco meses ou quatro meses, quase cinco, quem vai continuar no leme, quem vai ser o homem do leme vai continuar a ser Joe Biden. Daí ele ter se encontrado com Joe Biden para acertar, naturalmente, estratégias quanto àquilo que reporta este conflito do Médio Oriente e uma possível solução futura, tendo em vista o futuro. Depois, naturalmente que não pôde deixar de parte um importante encontro que teve ontem com Kamala Harris, que muito possivelmente vai ser nomeada agora em agosto, em meados de agosto, vai ser oficialmente nomeada como a candidata proposta pelo Partido Democrata para a presidência dos Estados Unidos da América. E cada vez ela se aproxima mais e as sondagens é isso que dizem, que há aqui praticamente um empate entre ela e Donald Trump. De qualquer maneira, Donald Trump é uma personagem que não poderia ser esquecida, não vai ele ganhar as eleições e Benjamin Netanyahu também não se esqueceu de ir a Mar-a-Lago ter um encontro importante para acertar, naturalmente, estratégias futuras para esta questão, tendo em vista a resolução desta questão do Médio Oriente. Portanto, ele está exatamente como disse, está a pôr os ovos nos três cestos. Um deles porque tem que pôr, obviamente, porque tem mais cinco meses de governação norte-americana e os outros dois, porque qualquer um deles pode ser o vencedor. Ninguém, neste momento, poderá afirmar com uma certeza razoável quem será o próximo incumbente ou quem será o próximo presidente dos Estados Unidos da América. Eu tive a oportunidade de ouvir as declarações à imprensa por parte de Kamala Harris, na sequência do encontro que teve com Benjamin Netanyahu, e de fato não nos admira as questões que ela colocou. Ela não nega, naturalmente, o direito que Israel tem à autodefesa, aliás, na sequência daquilo que tem vindo a ser a política da Casa Branca e de Joe Biden, mas coloca algumas restrições ao emprego da força. Ela diz que não está em causa o direito à utilização da força para resolver este conflito, mas a forma como ela tem vindo a ser utilizada. E vai para além disso. Vai muito para além disso, na procura, de fato, de uma solução política que permita que quer palestinianos, quer israelitas, no futuro, a médio prazo, possam viver em paz e possam ser vizinhos sem existir constantemente este nível de confrontação. Parece-me que esta é a posição de Kamala Harris, deixou bem clara qual é a sua posição. Também disse, para sossegar, naturalmente, Israel, porque Israel, o país, não deve ser confundido com o atual governo, como é óbvio. Aliás, todos nós sabemos e as sondagens que têm sido feitas em Israel, se neste momento houvesse eleições, muito dificilmente Benjamin Netanyahu se manteria como primeiro-ministro. Portanto, nunca se deve confundir o atual governo com aquilo que é o país em si e o direito à existência de um país como Israel. E Kamala Harris também deixa isso perfeitamente vincado e de forma absolutamente clara e transparente. Vamos esperar pelo resultado deste encontro, o encontro de hoje em Mar-a-Lago com Donald Trump. Esperemos que Donald Trump também faça declarações na sequência desse encontro à imprensa, para podermos analisar se há grandes diferenças entre a posição republicana e a posição democrata. Parece-me que existirão algumas, porque todos nós sabemos que a posição republicana é muito mais pró atual governo de Israel do que propriamente a posição do Partido Democrata, que é muito mais cautelosa e muito mais na busca de soluções tendo em vista o futuro. Aliás, não devemos esquecer que foi o próprio Donald Trump que durante o seu mandato como presidente dos Estados Unidos da América, tomou uma decisão que eu consideraria de alguma forma desastrada, que é transferir a embaixada norte-americana de Tel Aviv, que é a capital política de Israel, para Jerusalém. Todos nós nos recordamos dessa ideia de Donald Trump. Portanto, vamos esperar, vamos aguardar com alguma expectativa, mas de fato, a forma como colocou a questão é exatamente assim. Quer dizer, Benjamin Netanyahu está a procurar jogar numa tripla Se isto fosse um totobola, ele está a jogar numa tripla, não vai qualquer um deles ganhar. Sendo que uma delas é óbvia. Nós temos Joe Biden pelo menos pelos próximos cinco meses e ele tem que ter um relacionamento cordial com Joe Biden, porque não ganha nada em não ter. Porque cinco meses é muito tempo e cinco meses em guerra ainda se vivem com muito mais intensidade. E a intensidade com que Israel está a viver os últimos tempos é uma intensidade de um país que está em guerra, porque Israel está a ser atacado não apenas pelo Hamas, não tem só esta contenda com o Hamas, tem a faixa norte do seu país, onde viviam cerca de 70 mil israelitas que ainda não conseguiram regressar aos seus locais de residência, porque esta faixa norte encostada ao sul do Líbano está a ser constantemente atacada pelo Hezbollah. De quando em vez, os próprios Houtis lançam ataques sobre Israel. Há aqui uma série de problemas que, vamos lá ver, Israel tem forças armadas poderosas tem forças armadas bem preparadas, com uma grande capacidade de mobilização.
Mas não deixa de precisar de apoio internacional.
Essa que é a grande questão, de apoio internacional e, sobretudo, o apoio dos Estados Unidos da América. Essa que é a grande questão.
Deixe-me virar aí, porque o apoio dos Estados Unidos da América é também muito importante pra situação na Ucrânia, numa altura em que a Ucrânia está a sofrer ataques grandes por parte da Rússia e em que têm existido alguns erros na avaliação do armamento enviado pelos Estados Unidos. Ainda hoje há uma notícia de que Kiev pode vir a receber mais 2 bilhões de dólares em armamento porque foi sobreavaliado. Como é que está este ponto de situação da defesa ucraniana numa altura em que a Rússia parece estar numa fase ofensiva?
A Rússia, vamos lá ver, felizmente nunca chegou à fase que nós esperávamos. Porque nós esperávamos, grande parte dos analistas. Eu sempre achei que a Rússia nunca seria capaz de pôr em pé uma ofensiva em grande escala neste verão. Nunca achei porque o complexo militar industrial russo, de alguma forma, consegue colmatar algumas deficiências, consegue produzir munições ou se não consegue, a Rússia vai buscá-las à Coreia do Norte, vai buscá-las ao Irão. Mas a capacidade do complexo militar industrial russo nunca foi capaz de repor na quantidade suficiente os carros de combate que tem perdido, as viaturas de combate de infantaria, as viaturas blindadas de transporte pessoal, a quantidade imensa, um número quase incontável de obuses e peças de artilharia que tem perdido face aos fogos de contrabateria que a Ucrânia tem levado a cabo, o número de sistemas de defesa antiaérea que tem perdido, ainda esta noite perdeu mais na Crimeia ocupada, ainda perdeu mais um sistema S-300. A Rússia tem tido alguma capacidade para repor as perdas em pessoal, que andam ali na casa dos mil por dia, mas em termos de material não tem sido capaz de repor o material que tem perdido. Portanto, daí que seja fácil concluir que uma ofensiva em grande escala, uma ofensiva com um ímpeto tremendo que pudesse levar tudo à frente e conquistar tudo aquilo que falta da Ucrânia, eu nunca acreditei que os russos fossem capazes de o fazer. E o que eles têm feito ultimamente? Têm procurado algumas debilidades que resultam dos seis meses em que a Ucrânia não recebeu apoio por parte dos Estados Unidos e ultimamente esse apoio tem chegado, já está a chegar. A nova bateria Patriot da Alemanha já chegou, a bateria Patriot da Roménia estará a caminho, a bateria norte-americana estará a caminho, mas ainda não chegou, os F-16 estão pra chegar e irão chegar muito possivelmente, se não for ainda neste mês, no próximo mês. Mas a Ucrânia, de fato, continua a receber material, ainda não recebeu material na quantidade necessária. A Ucrânia encalhou, e aí as culpas têm que ser imputadas diretamente ao governo ucraniano, porque atrasou imenso a aprovação da lei da mobilização. Quando a Ucrânia neste momento já devia ter treinadas e mobilizado 150 mil praticamente a terminarem a fase de formação, mas o próprio comandante das Forças Armadas ucranianas, o Syrskyi, ainda há bem pouco tempo disse, numa entrevista que deu, que são precisos outros 250. A Ucrânia, neste momento, debate-se fundamentalmente com problemas de falta de pessoas, de pessoal, de militares prontos pra combater. É evidente que vai tê-los a seu tempo. A Ucrânia está a ter grandes dificuldades em defender-se, vai progressivamente ter cada vez mais capacidade pra o fazer, mas uma capacidade pra libertar os territórios que lhe foram ocupados, não creio que este ano, ainda em 2024, seja capaz de o fazer. Quer dizer, julgo que a Ucrânia progressivamente vai ser capaz de se defender, e vai, porque a chegada das baterias Patriot e dos F-16, pelo menos, vão acabar com aquilo que tem sido a maior ameaça por parte da Rússia, que é a utilização de bombas planadoras, que tem sido algo que tem dado uma vantagem enorme às ofensivas russas. Os russos continuam a recrutar cerca de 25 mil homens por mês, atiram com eles pra frente mal treinados E é isso que tem, de alguma forma, também permitido que a Ucrânia, mesmo com a falta de unidades e falta de material, tenha conseguido manter razoavelmente as posições da linha da frente, com algumas perdas aqui e acolá, mas de uma forma geral, a Rússia não tem conseguido pôr em pé a tão propalada grande ofensiva de verão que toda a gente estaria à espera. Não, não aconteceu nem vai acontecer, porque o verão na Ucrânia, a primavera começa mais cedo do que nas nossas paragens. O verão também começa mais cedo, mas, por outro lado, o outono e a época das chuvas também começa mais cedo e os grandes lamaçais lá para outubro começam a impedir os movimentos mecanizados e blindados. Essa é que é a grande questão. E a Rússia, nos últimos dois grandes ataques que fez com formações blindadas de alguma dimensão, fê-lo de forma completamente desastrada. Foram detectados a tempo e a Ucrânia conseguiu defender-se deles com alguma eficácia. O que é que vamos assistir nos próximos tempos? Vamos assistir à Rússia a aproveitar, a esticar esta janela de oportunidade até poder, porque a Rússia sabe perfeitamente que quando a Ucrânia receber o resto das baterias de defesa antiaérea que faltam, as três baterias Patriot e as tiver posicionadas, mais a bateria Aster 30 Samp/T italiana e os F-16, a Rússia vai ter muito mais dificuldade em atacar, em levar a cabo manobras ofensivas mesmo de pequena monta, de pequena dimensão. Já para não falar na questão da ofensiva que a Rússia decidiu abrir na região de Kharkiv, que foi um erro operacional colossal.
E que pode ter consequências para o futuro. E infelizmente não temos mais tempo, Major-General Isidro Morais Pereira. Muito obrigado pela disponibilidade para nos ajudar a nós neste Gabinete de Rádio.
Sempre de boas.
Obrigado.