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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos analisar nos próximos minutos o foco de tensão principal, o Irão, um conflito que está neste momento ainda sem ser resolvido. Contamos com a análise para isso mesmo da Ana Cavalieri, especialista em relações internacionais. Muito bem-vinda, Ana, mais uma vez e boa noite.
Muito obrigada, boa noite.
Vamos falar disso mesmo, do Irão, que rejeita um acordo para o cessar-fogo temporário com os Estados Unidos. Teerão exige o fim definitivo da guerra em toda a região, ou seja, inclui também o Líbano e o Mar Vermelho. Do outro lado do conflito, Donald Trump reitera várias vezes que acredita na possibilidade de um acordo durante este fim de semana. Aliás, o presidente norte-americano já disse várias vezes também ao longo dos últimos dias que acreditava num acordo para breve, acordo esse que ainda tem se prolongado no tempo. Os Estados Unidos precisam de sair desta guerra, de facto, o mais rápido possível, Ana?
Eu penso que sim, sendo certo que a situação no Irão também está devastadora. É preciso lembrar que o Irão tem a sua estrutura industrial e militar muito degradada, e isso é algo que sustenta a questão do financiamento da Guarda Revolucionária, ou seja, aquilo que tem sido o bloqueio naval, cujo grande objectivo é tentar não só asfixiar cerca de 90% da economia iraniana que passa pelos portos do Irão, pode fazer a pressão que era necessária ser acrescentada àquilo que foram os ataques durante quase 35 dias relativamente a determinadas infraestruturas industriais e militares. E eu penso que neste momento nós temos o Irão, que naturalmente tem uma espécie de resistência ao sacrifício, diferente daquilo que é o nosso panorama ocidental. Eles têm, ou pelo menos são liderados por um regime que vê o martírio, o sacrifício e a resistência à dor, por mais que oprima o seu próprio povo, de uma maneira diferente do que aquilo que são os critérios do eleitorado americano, que ter a gasolina e o gasóleo um pouco mais caros já afeta aquilo que são as perspectivas políticas depois para as eleições em novembro. Todavia, aquilo que têm sido os anúncios publicados nas redes sociais por Trump ao longo deste dia, parece, ou pelo menos é isso que ele anuncia, não sabemos se isso depois vai ser concretizado, mas parece que há um memorando de cerca de três páginas que indica que o Irão vai ceder em toda a linha relativamente àquilo que são as linhas vermelhas americanas, ou seja, aquilo que foi anunciado por Trump, mas nós nunca sabemos se o anúncio depois corresponde verdadeiramente à execução e à realidade, é que o Irão estará disposto, naquilo que vai ser assinado nos próximos dias, a desistir do seu programa nuclear, a dar ou a conceder aos Estados Unidos aquilo que é o urânio enriquecido, que ainda está enterrado naquilo que são as ruínas de Isfahan e Natanz, aquilo que eram as estruturas subterrâneas nucleares, é aquilo que o Trump indica como nuclear dust, ou seja, o pó nuclear, e também compromete-se a desativar e a desmantelar as infraestruturas subterrâneas ligadas ao programa nuclear. Havendo também o compromisso de não desenvolver, naturalmente, se não pode desenvolver aquilo que é a parte subterrânea, também não conseguirão desenvolver em segredo na parte sobre o solo, mas não desenvolver nenhum programa nuclear. Isso seria uma grande vitória para Trump. Aquilo que é o programa de mísseis balísticos, o armazenamento de mísseis balísticos, de cruzeiros e também de drones, também está bastante degradado. Por isso é difícil imaginar o Irão conseguir projetar poder convencional da forma como poderia antes da guerra, isso seria também uma vitória para Trump. E ele também pode reivindicar a destruição da Força Aérea Iraniana e da Marinha. Isso é aquilo que Trump diz que os iranianos concordaram. Agora, aquilo que vem do lado iraniano é que parece que o Estreito de Ormuz ainda não está livre e aberto, sem nenhum tipo de controle da Guarda Revolucionária. Ora, aceitar um Estreito de Ormuz ainda sob algum controle institucional ou formal por parte do iraniano é algo que não pode acontecer. Ou seja, Trump e os americanos nunca poderão conceder esse nível e não sabemos se isso então vai ser uma força de bloqueio para este eventual acordo de paz ou de cessar-fogo permanente.
Sim, mas esta guerra, Ana, é mais dos Estados Unidos ou de Israel? Estou a fazer esta pergunta por quê? Porque há instituições nos Estados Unidos que diziam que o Irão não constituía uma ameaça para território norte-americano. E é para nós percebermos também se isto, de alguma forma, faz parte também deste apoio histórico que as administrações norte-americanas dão a Tel Aviv.
Eu penso que estas questões são pertinentes. Eu penso que existem objetivos partilhados geopolíticos, e não é só entre os Estados Unidos e Israel, é também Europa e Israel, na medida em que o Irão é sustentado por um regime, por uma ideologia, que é a Makhlouma, que tem por base a noção de que o Irão está numa perpétua resistência àquilo que é a influência nefasta do mundo ocidental. E o grande inimigo do Irão é os Estados Unidos, também por eles serem, no fundo, aquilo que é o símbolo máximo dessa civilização ocidental, mas a própria Europa está incluída naquilo que é esta influência nefasta nas sociedades islâmicas do Médio Oriente. Mas não é só Israel que pretende o apoio americano para conseguir estancar aquilo que é a expansão do poder regional por parte do Irão. O Irão, naquilo que foi o seu Ring of Fire, a sua estratégia do círculo de fogo Sem causar muitos problemas àquilo que são os aliados do Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrain, o próprio Qatar, é uma grande fonte de terrorismo e de desestabilização contra as autoridades desses países, que são de maioria sunita, e nós sabemos que o Irão é maioria xiita. Há aqui também uma componente sectária religiosa e também de própria filosofia daquilo que o Médio Oriente deve ser. O Bahrain, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita têm a filosofia de que aquilo que o Médio Oriente, principalmente o Golfo, deve ser, no fundo, um espaço seguro de oportunidades econômicas, desenvolvimento, investimento, cooperação com o Ocidente. E isso é totalmente o oposto daquilo que o Irão pretende. Então o Irão, pelas capacidades militares que eles tentaram desenvolver de curto alcance, nomeadamente os mísseis balísticos e de cruzeiro, e também os drones, o alcance deles só é justificável se há um plano para dissuadir e projectar poder contra aquilo que são os Estados do Golfo. Mas nós também sabemos com o ataque a Diego Garcia, que o Irão conseguiu desenvolver, sendo certo que eles não admitiam e negavam, e muitos especialistas diziam que não era possível, mas eles de facto conseguiram desenvolver mísseis balísticos de médio alcance que podiam atacar várias capitais europeias, o que também é do nosso interesse. E sabemos também que o grande objectivo do programa nuclear desenvolvido naquilo que eram infraestruturas e com reactores muito específicos que estavam enterrados no subsolo, era para eventualmente conseguir, a partir do momento em que eles conseguem desenvolver mísseis de médio alcance, que têm um alcance de 4000 km, estão a cerca de dois anos de conseguir, em termos tecnológicos, desenvolver mísseis intercontinentais que chegassem até aos Estados Unidos. Se eles já tinham o enriquecimento de 60%, de 60% para 90%, que pode ser posto numa ogiva nuclear, num míssil intercontinental que pudesse atingir os Estados Unidos, isso é relativamente pouco tempo, pelo que eu penso que era absolutamente essencial os Estados Unidos impedirem que o Irão conseguisse essa arma de projecção de poder intercontinental que seria uma bomba nuclear. Era algo absolutamente inconfortável e não é coincidência, não é à toa que todas as administrações, desde o Clinton a Bush, a Obama, a Biden, tinham como prioridade impedir o Irão de desenvolver armas nucleares e não era por causa disso que a acusação de que Israel dominava totalmente a política externa americana surgia. Parece também que houve declarações hoje, nomeadamente algo bastante arrojado de Trump, a dizer que os Estados Unidos proibiam Israel de prosseguir aquilo que são os ataques no Líbano, se essa proibição é real e vai ser executada, o que parece que isto é o momento em que os interesses americanos divergem dos israelitas e que os americanos, se conseguirem todas estas concessões que são importantes para os israelitas, mas os israelitas com certeza não concederiam algum constrangimento à sua ação sobre o Líbano ou gostaria de destruir ao máximo aquilo que é a estrutura econômica, financeira e militar ao ponto de tentar promover uma mudança de regime. Aqui parece que os objetivos divergiram e os Estados Unidos estão a promover aquilo que são os interesses americanos, mesmo que isso não seja perfeitamente coincidente com os interesses israelitas.
E o facto de estarmos a falar de umas negociações com um regime que é teocrático pode ter realmente aqui influência no resultado dessas conversas. É porque a estratégia de negociação entre dois países que se regem por regras similares é completamente diferente de negociar com um regime que tem desígnios diferentes dos nossos.
Exatamente, essa pergunta é excelente e absolutamente fundamental. É aquilo a que os americanos chamam de "the crux of the matter". Ou seja, sabemos que parece ter havido uma boa sintonia entre Ghalibaf, que é o speaker of the parliament, ou seja, o líder da assembleia, o presidente da assembleia iraniana. Não esquecer que os americanos e os israelitas mataram Khamenei, o sucessor, Mostafa, provavelmente está em coma. Larijani, que era o grande braço direito de Khamenei e alguém que provavelmente estaria incetivamente a governar e a impor os grandes trâmites e as grandes guidelines políticas, foi também morto, o ministro da Defesa foi morto, o sucessor foi morto. Ou seja, as 50 grandes figuras do regime foram todas eliminadas. O que significa, e isto vai ser importante para depois o pós-guerra, que a Mossad e a CIA, mas principalmente a Mossad, têm uma capacidade de penetração e infiltração no regime que é absolutamente histórica. Mas parece ter havido uma grande sintonia de Ghalibaf, que foi poupado precisamente por identificarem que ele tem um estatuto dentro da Guarda Revolucionária que consegue mostrar ou impor alguma autoridade naquilo que é uma organização muito descentralizada. A Guarda Revolucionária está dividida em 31 comandos de província e é preciso alguém que ainda tenha uma capacidade de reunir uma autoridade que consiga centralizar algumas decisões e impor essas decisões. Mas Ghalibaf é ao mesmo tempo alguém que é acusado de corrupção, de desvio de fundos, ou seja, é alguém que estando dentro de uma organização fanática, parece também que é seduzido por talvez motivações mais materiais e prosaicas. E então isso é alguém que eu penso que os Estados Unidos Pensam que vai ser um interlocutor que pode fazer alguns ajustes que tornem o Irão, o regime iraniano, menos antagónico relativamente ao regime americano e mais de cooperação. E também temos Araghi, que é o ministro dos Negócios Estrangeiros, que parece ser alguém que ganha o respeito também de Jared Kushner, Steve Witkoff e do vice-presidente Vance. Agora não sabemos verdadeiramente a possibilidade de concretização de alguma das concessões que se antecipa que Galibaf e Araghi fizeram aos americanos. Porque mesmo que haja uma formalização deste memorando de entendimento de três páginas que concedem em toda a linha as vontades americanas, é preciso ver se também é possível executá-lo e se as condições no terreno estão reunidas. Porque, por exemplo, Donald Trump diz agora que o Estreito de Ormuz está livre e aberto, sem constrangimentos. Disse quando anunciou na semana passada o cessar-fogo, mas a verdade é que os constrangimentos continuaram a existir.
E acredita que o Irão descobriu que tinha aqui, de repente, uma arma que é mais inteligente do que qualquer outra que tinha à disposição?
O controlo do Estreito de Ormuz?
Sim. Ou já sabia.
Já se sabia, nomeadamente, os Estados Unidos e quatro países do Golfo também já sabiam. O Pentágono tem há 20 anos uma unidade cujo único objetivo é fazer jogos de guerra ou board games sobre todos os cenários possíveis de disrupção e encerramento do Estreito de Ormuz. E eu penso que o bloqueio naval, que não foi anunciado para o Estreito de Ormuz, o bloqueio naval é anunciado a navios que têm como objetivo chegar a portos iranianos ou que saiam de portos iranianos, isto no fundo para abalar cerca de 90% da economia iraniana, que depende dessas importações e exportações que passam por esses portos. Esse bloqueio naval é feito precisamente na altura em que a Arábia Saudita conseguiu arranjar aquele oleoduto que estava danificado, que conseguiu fazer acordos de cooperação com outros estados do Golfo pra conseguir usar esse oleoduto para evitar o Estreito de Ormuz. E também precisamente quando houve uma reorientação global estratégica de vários petroleiros para irem abastecer, aonde? Precisamente nos Estados Unidos da América, no Golfo do México, ou agora como o Trump chama, o Golfo da América. Há uma espécie de realimentação energética, onde os Estados Unidos passam a ter uma preponderância que antes desta guerra não tinham. Isto também tem de ser analisado de uma maneira mais macro, relativamente à luta, à arena geopolítica entre os Estados Unidos e a China, porque no fundo aquilo que Trump tem ambicionado é retirar as rotas energéticas dominadas pela China, nomeadamente vindas da Venezuela e do Irão, e tentar espancar ou pôr no fundo essas rotas sob o controlo americano. Vamos ver se consegue ou não, mas há aqui uma análise mais macro, que é maior do que regional, porque quando há pouco me perguntava se o Irão fazia parte dos objetivos geoestratégicos dos Estados Unidos, faz absolutamente parte, na medida em que aquilo que Trump quer é chegar ao próximo mês numa cimeira com o Xi Jinping e dizer a Xi Jinping que os Estados Unidos da América têm uma influência muito maior nas rotas energéticas que alimentam a China, porque ao contrário dos Estados Unidos, a China depende muito das importações de petróleo, do que tinha antes da guerra. Porque também há essa análise macro.
Ana Cavalieri, tínhamos aqui pano pra mangas nesta análise sobre o Irão. Vamos com certeza voltar a falar sobre este tema. O Gabinete de Guerra hoje fica por aqui, mas desejo-lhe um bom fim de semana e obrigada por ter estado connosco.
Também um bom fim de semana e obrigada.
Obrigada.