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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Estamos no programa em que fazemos um ponto de situação dos conflitos em curso e da situação que se vive a nível internacional no que toca aos conflitos. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com Rui Vilar, é especialista em defesa. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco aqui na Rádio Observador, Rui. É incontornável falar do discurso de Donald Trump em Davos, na Suíça, no Fórum Mundial Económico. Um discurso em que Donald Trump colocou tudo isto, de facto, na parte econômica e afastou um cenário de presença de tropas na Gronelândia. Disse que não quer uma solução militar para a Gronelândia e aposta, antes, numa compra, numa solução econômica. Pode a Europa respirar de alívio, de certa forma?
Boa noite. Boa noite a quem nos ouve.
Boa noite.
Boa noite, Miguel. Antes de mais, acho que é uma boa notícia percebermos que da parte da presidência americana já não se fala em intervenção militar, porque caso ela acontecesse, poderíamos estar a falar do fim da NATO e do fim do período do pós-guerra como nós conhecemos e como temos vivido. Mas isso não muda a panorâmica global que neste momento pesa sobre o mundo inteiro e com o protagonista quase sempre o mesmo, Donald Trump. A compra é também um estilo, de certa forma trumpiano, de resolver os problemas. Seria uma coisa impensável e inimaginável nos últimos 30 ou 40 anos ouvirmos este tipo de discurso por parte de um presidente americano, mas Donald Trump diz mesmo que quer comprar, de certa forma, um país, neste caso, a ocupação do país. E eu acho, ouvindo já o secretário-geral da NATO hoje de manhã e agora ao fim do dia, que já há aqui uma certa combinação entre a NATO, os próprios líderes europeus e a presidência americana para haver aqui uma cedência, ou seja, a Europa vai ceder, e eu penso que vai ceder em vários aspetos, no que toca, nomeadamente, a uma atualização do acordo de 1951, que previa já as tropas americanas presentes na Gronelândia. Vai passar, certamente, por abrir ainda mais às empresas americanas mineiras a exploração naquele território, vai permitir a implantação de escudos antimíssil naquele território e também, e muito importante, eu acho que vai incluir a exclusão total da China e da Rússia daquela zona. E de certa forma é uma saída, face ao que pensamos nos últimos dias, mais limpa, que também protege os líderes europeus e a Europa face às afirmações que temos visto nos últimos dias, quer do presidente do Conselho Europeu, ainda hoje, do próprio Emmanuel Macron, que de facto tem liderado vários destes temas que falamos sobre conflitos. Macron tem tentado ser um player mundial e tem-no feito bem ou mal, mas tem aparecido, tem tido notoriedade. Aliás, até me faz lembrar, face à crise que a França vive atualmente, aquela frase de De Gaulle: "A França tem que se comportar como uma grande potência, precisamente porque já não é." E parece que Macron aprendeu com De Gaulle e está, de facto, a querer colocar a França no centro das operações. E isso é importante também para Donald Trump perceber que há aqui líderes europeus fortes e que o enfrentam. Porque, acima de tudo, eu acho que a Europa tem que aprender com o que estamos a assistir nos últimos dias, e que ainda não está finalizado, é que, tal como disse o antigo chefe da NATO, Rasmussen, chega de elogios. Vamos ter que deixar de lidar com elogios com Trump e temos que passar a mostrar uma imagem de força, de união e de unidade na Europa, porque ele também respeita essa linguagem. E nós vemos a forma como ele respeita Putin e a forma como ele respeita Xi Jinping, é precisamente por causa disso, porque olha pra eles como se estivessem quase no mesmo patamar em termos de força e de liderança. E a Europa tem que mostrar e tem aqui uma oportunidade, e está a fazê-lo, diga-se, apesar de, como sempre, há várias vozes, o que complica sempre a coisa, mas está a fazê-lo. E as ameaças que fez da bazuca, o congelamento do acordo de comércio, acho que são boas respostas da Europa.
Sim, ainda assim, da parte da NATO, a mensagem não tem sido bem assim. Mark Rutte tem sido dos líderes que mais elogiam Donald Trump. Hoje, a reação de Mark Rutte falou de um cenário, descansou aqui uma preocupação de Donald Trump, mostradas nesta conferência de imprensa, de que outros aliados da NATO não iriam ajudar os Estados Unidos da América em caso de ataque. Mark Rutte garantiu que isso iria acontecer em qualquer cenário. Para além disso, também já esta tarde, Anders Fogh Rasmussen, o antigo secretário-geral da NATO, disse que é uma boa mensagem, uma mensagem importante o que disse hoje Donald Trump. Fica, de facto, o problema resolvido no que toca a um possível desmantelamento da NATO com toda esta história da Gronelândia e das intenções de Donald Trump?
É assim, eu penso que sim. Quanto aos elogios, de facto, esta nova forma de abordagem política por parte da presidência americana consegue quase que enxovalhar os líderes europeus e, neste caso, também o secretário-geral da NATO, ao expor mensagens privadas de forma pública e onde se percebe, no fundo, aquela abordagem que aconteceu até à semana passada e que agora parece que mudou, que era a tal abordagem muito elogiosa para Donald Trump e passou, principalmente nesta semana, a ser bastante mais dura. Eu acho que não havendo intervenção, os Estados Unidos não fazendo uma ofensiva militar num território europeu, uma região autônoma Que pertence à Dinamarca, eu acho que está excluído o fim da NATO. Agora percebemos, e já percebemos em 2016, quando da primeira presidência de Donald Trump, que de facto ele tem outra visão da NATO e tem pressionado fortemente os países que compõem a organização, nomeadamente na questão orçamental, e os países europeus têm respondido com essa questão. Agora, o que Donald Trump tem que perceber é que isto, ao contrário do que ele possa pensar que funciona na vida dele privada, a política é muito mais do que questões económicas e monetárias. E ele devia perceber que a NATO funciona e é muito útil para os Estados Unidos, porque, por exemplo, neste momento ele está muito preocupado em construir um escudo acima, na Gronelândia, que o proteja da Rússia e da China, mas ao mesmo tempo está a desmembrar o escudo que tem abaixo, que é a Europa. Porque se a Europa deixar a NATO e as bases americanas deixarem de estar no território, no continente europeu, os Estados Unidos perdem o seu escudo de baixo.
E não há Gronelândia que salve, nesse caso.
Exatamente. Está a apostar tudo em cima e a desmembrar completamente o que se está a passar embaixo. E está a criar bastantes conflitos com vários líderes europeus. E eu acho que é hora de a Europa se mostrar firme, ainda mais firme do que o que se mostrou hoje, em relação aos Estados Unidos. Se isso poderá ter consequências para os europeus? Poderá ter, é assim a vida. Nada é perfeito, as consequências existem e às vezes é melhor sofrer algumas consequências agora, mas que consigamos ultrapassar, do que consequências futuras que não consigamos ultrapassar. Agora, os líderes europeus têm que perceber uma coisa: o cenário pós-Segunda Guerra Mundial acabou. Neste momento não existe. Existem três grandes impérios, a China, a Rússia e os Estados Unidos, que estão com uma abordagem mundial totalmente diferente daquela que nós estávamos habituados nos últimos anos. E adicionando aqui um pormenor que eu acho que é importante para a Europa, eu não estou a dizer se nós concordamos ou não, mas que a Europa deve analisar, é que, de facto, na semana passada, tivemos Vladimir Putin a perceber claramente que a Europa está a ficar órfã da sua proteção americana e já fez um discurso virado para a Europa e a falar para a Europa, a dizer que gostava de construir uma arquitetura nova, confiável, em termos de segurança europeia e global. Falou nas raízes históricas que tem com vários países da Europa, com Portugal incluído, inclusive referiu o nosso país. Portanto, a Europa tem que aproveitar isto, tem que ouvir, tem que analisar e de certa forma também dizer a Trump que está aqui no meio. E se a Europa é assim tão fraca como Trump acha que está, mas está a ser cobiçada, de certa forma, quer pelos Estados Unidos, quer pela China. Portanto, é esta a nossa posição central, histórica e em termos até geoestratégicos, para Trump, para os Estados Unidos e para a segurança americana, é fundamental ter a Europa com eles.
Vamos fechar com alguém que acha que Donald Trump, de facto, ainda não mudou de ideias. Os líderes da Gronelândia, que hoje avançaram com um folheto, uma nova recomendação para a população, um documento de preparação para crises. Isto acontece em plena tensão com os Estados Unidos da América, claro. Avisa agora a liderança da Gronelândia que a população deve estar preparada para cinco dias de crise e, portanto, deve ter um kit de emergência nesse sentido, deve estar preparado para toda a eventualidade durante cinco dias. A Gronelândia, de facto, não consegue ficar calma mesmo perante o discurso de Donald Trump de hoje.
Sim, e eu percebo, e é também sintomático daquilo que falávamos há pouco, deste novo cenário pós-pós-guerra, em que não é só a Gronelândia agora, por causa deste caso, a própria Suécia, salvo erro ainda há poucos dias a Noruega, aí já também com algum receio de uma invasão russa, também já distribuíram esse tipo de kits e é uma nova realidade, é todo um novo mundo e a Europa tem, de facto, que perceber que é assim que vive. Acho que a Gronelândia está a fazer bem, até porque com Trump nunca percebemos bem onde é que pode acabar, até porque temos sempre que pensar. Isto hoje já nos leva a ter essa conclusão. Trump estica muito a corda, é um businessman claro, e atira longe para conseguir um acordo sempre antes. Faz isso a negociar tarifas, faz isso nos acordos comerciais com a China, já o fez na primeira presidência e agora está a fazer isso com a Gronelândia. Atira longe o objetivo, o pior, que é a invasão militar, para depois conseguir uma negociação e no fundo conseguir aquilo que ele pretende, que é controlar a Gronelândia, que ele agora chama comprar, que é uma linguagem também que eu acho que não é a mais correta, mas dali não podemos esperar muito mais.
Rui Vilar, muito obrigado.
Obrigado, boa noite.