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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que olhamos para os principais conflitos ativos no mundo. Para tal, contamos hoje com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, vamos começar desta vez com a guerra comercial, com o recuo de Donald Trump nas tarifas para telemóveis e computadores. Antes de mais, boa tarde, Bruno.

Boa tarde.

Olhemos então para esse recuo, Bruno, sabendo que grande parte das exportações chinesas são precisamente neste tipo de dispositivos. Isto quer dizer que, afinal, o efeito não será tão forte como Donald Trump quis fazer parecer ao início?

O que é incrível aqui é que não sabemos bem porque, entretanto, isso voltou a ser posto em questão. Quer dizer, foi anunciado na sexta-feira, mas depois durante o fim de semana, aparentemente Donald Trump não terá gostado do que viu nos canais televisivos, essa ideia de que havia aqui uma grande exceção para uma grande parte das exportações chinesas, são praticamente 25% das exportações chinesas para os Estados Unidos são desses produtos. Eles representam praticamente metade do mercado nos Estados Unidos, ou seja, metade dos telemóveis, dos computadores nos Estados Unidos vêm da China, inclusive coisas como o iPhone, por exemplo, e depois o seu secretário do Comércio e o próprio Donald Trump vieram dizer que não era bem assim e que se calhar não ia continuar assim durante muito tempo. No fundo, o que parece haver aqui é uma guerra constante entre uma certa racionalidade económica, também imenso lobby, ou seja, a questão das tarifas do ponto de vista de Donald Trump é uma vitória clara, no sentido que o coloca no centro das notícias permanentemente, embora não por boas notícias necessariamente, e lhe dá imenso poder e obriga muita gente, muitos países, muitas empresas a virem pedir-lhe exceções, favores. Agora, neste caso, aparentemente, ele não terá gostado da forma como estava a ser recebido, sobretudo porque aquilo que foi muito comentado aqui nos Estados Unidos é: para grandes empresas como a Apple, aparentemente há exceções, porque têm acesso direto ao presidente, mas depois para os pequenos empresários que estão muito dependentes de produtos finais ou até de compra de componentes que depois incorporam nos seus produtos que vêm da China, realmente aí não havia exceções e isso em muitos casos significava pôr em questão a própria viabilidade do negócio. Têm havido aqui imensas reportagens, desde eletricistas que dizem que precisam de comprar material que depois não vão conseguir com estes preços manter os orçamentos que tinham para dar às pessoas, construtores, pequenas empresas que vendem isto aquilo ou aquilo outro, desde banda desenhada a brinquedos, etc. Houve aqui esta crítica a esta exceção e aparentemente Donald Trump está novamente a colocar isto em dúvida. Aqui a única conclusão, realmente, volto a insistir neste ponto, é esta incerteza permanente que é péssima para a economia global e que é péssima para a economia norte-americana também. Ou seja, é muito difícil com isto saber que investimentos fazer, que compras fazer. Tivemos sempre as notícias de que os empresários do vinho em Portugal estão a dizer que já não estão a receber encomendas dos Estados Unidos porque realmente não se sabe que tarifas é que vão estar em vigor, até quando, quando é que aumentam, quando é que descem. E tudo isso cria aqui imensas complicações na economia global, por causa do peso dos Estados Unidos e na economia norte-americana.

Costuma dizer-se precisamente ao exemplo do que estavas a dizer, que os mercados gostam de estabilidade. Este constante vai e vem, Bruno, estas mudanças de posição dão a entender que Donald Trump, ao contrário do que vão garantindo várias figuras do Partido Republicano, até da administração Trump, não tem assim tão bem definido onde quer chegar, ou seja, qual é o objetivo final destas tarifas.

Sim, esse parece ser o problema. Ou seja, foi passada a narrativa logo a seguir ele ter suspendido as tarifas mais elevadas para a generalidade dos países, com exceção da China, foi vendida a ideia de que isto era parte de um plano. A sua porta-voz veio dizer isso. Passada uma hora ou duas, o próprio Donald Trump veio dizer: "Não, eu comecei a ver que os mercados estavam muito agitados, os de ações e os de obrigações também, a própria dívida norte-americana estava a aumentar o que tinha de pagar e decidi que era melhor acalmar um pouco as pessoas." Isto realmente parece confirmar-se aquilo que já devia ser evidente, que é que nesta administração Donald Trump está muito mais radicalizado, está muito menos controlado, no sentido que tem uma administração basicamente composta de pessoas que puseram a sua carreira à frente de qualquer tipo de posição coerente na dimensão de política em geral ou de política econômica em particular. Isto significa que basicamente está tudo dependente das inclinações de um homem, do presidente dos Estados Unidos. Pode-se dizer: "Bem, ele foi eleito e portanto tem toda a legitimidade para isso", mas apesar de tudo, e cada vez mais aqui é destacado este ponto, que é claramente aquilo que aparecia como a principal razão para os votantes do Donald Trump votarem em Donald Trump era a questão de se convencerem que ele era um bom gestor da economia, que a economia ia voltar a crescer muito e que os preços iam descer, que ele conseguiria controlar a inflação. Ora, nesses dois aspectos, esta receita de caos, de incerteza e tarifas muito elevadas vão exatamente no sentido oposto. Ou seja, a generalidade dos atores econômicos o que estão a dizer é que a probabilidade de haver estagflação, ou seja, de haver uma recessão e de haver um aumento da inflação, é bastante grande.

Daqui a cerca de um ano, os Estados Unidos, onde tu estás agora, Bruno, vão ter as chamadas midterms, eleições intercalares. Dirias que é cedo para perceber se esta guerra comercial e os efeitos que pode ter para a economia americana vão se fazer sentir também nessas eleições, ou seja, o Partido Republicano pode pagar caro no próximo ano?

Sim, as midterms serão em novembro, mas os próprios republicanos, pela primeira vez, por exemplo, congressistas, senadores importantes, desde o Ted Cruz ou John Thunes, a dizerem: "Atenção, que isto pode correr muito mal e pode ter um custo muito elevado, e nós vamos querer garantias que não vai correr mal." Porque realmente a ideia também é que, por volta de abril do ano das eleições, as pessoas começam, até muito em função da economia, a definir as suas posições e depois são simplesmente margens muito curtas que oscilam a partir daí. No fundo, é muito esta ideia que basicamente, como dizias, o presidente, o Partido Republicano, tem aqui um ano para resolver esta questão e para mostrar que isto não vai ter os custos que muitos dos críticos preveem, embora sempre com este elemento de grande incerteza que existe na economia. É muito difícil prever exatamente o que vai acontecer, até porque também é difícil prever como é que as tarifas vão realmente evoluir. De facto, há muitos países desejosos de chegar a algum tipo de acordo. Se Donald Trump simplesmente quiser declarar vitória, mesmo com base em concessões muito limitadas, isso poderá provavelmente ser bastante fácil de se fazer. Pode ser que ele ainda vá a tempo de inverter esta tendência, mas desde logo, em especial com a China, isso parece muito mais complicado. A China tem uma cultura política, uma cultura até histórica, estratégica, que valoriza muito a questão de salvar a face. A narrativa toda dos dirigentes chineses é que eles acabaram com o século de humilhações em que o Ocidente impunha coisas à China. Vê-se com muita dificuldade como é que eles podem, com facilidade, simplesmente ceder a esta pressão enorme do Donald Trump. Apesar de tudo, a China é a segunda maior economia do mundo, é um grande fornecedor dos Estados Unidos em muitas áreas-chave e portanto, mesmo que a guerra seja limitada à China, os custos podem ser bastante elevados.

Muito bem, vamos então olhar agora para outro tipo de guerra, guerra no terreno e aqui na Europa, porque este fim de semana houve um ataque russo à região de Sumy, 34 pessoas morreram. Entretanto, hoje estão reunidos os chefes da diplomacia europeia, ou seja, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 anunciaram há pouco mais um pacote de sanções à Rússia. Bruno, dirias que este pacote já ia avançar ou é também uma resposta a este ataque?

Sim, a Europa tem estado a avançar com bastante regularidade com estes pacotes. Certamente o timing não é completamente coincidência, ajuda a mostrar que há aqui algum tipo de resposta, mas realmente é uma resposta fraca em relação àquilo que é um dado fundamental, que é a guerra que continua. O que eu destacaria mais é realmente o fato de a generalidade dos líderes ocidentais europeus, terem feito críticas muito violentas a este ataque, que é realmente aquilo que causa mais mortes civis neste ano e que mostra que realmente não mudou nada com esta suposta-

Perdemos aqui o contato com o Bruno Cardoso Reis.

Atães sistemáticos contra-

Já estamos ouvindo

...indiscriminados.

Força, Bruno, tínhamos perdido o contato contigo, mas já está.

O que realmente parece acontecer-

Bruno.

Claro. Aparentemente, o que vemos é a Rússia a manter a tática habitual, que é ataques indiscriminados contra alvos civis, contra centros populacionais. O próprio porta-voz russo veio dizer, não sei se lhe terá escapado a boca para a verdade, veio dizer que atacaram alvos militares ou quase militares em Sumy, o que é que é isso de alvos quase militares? Não existe propriamente nas leis da guerra. A condenação dos líderes europeus foi bastante clara. Aquilo que é extraordinário é a reação do Donald Trump em relação a este ataque, em que se recusa mais uma vez a criticar Vladimir Putin, praticamente é o único líder mundial ao qual ele nunca faz críticas, e vem acusar Joe Biden, o próprio Zelensky, culpar as vítimas da guerra pela guerra. Isso realmente é que é extraordinário e extraordinariamente preocupante em relação ao que é a postura dos Estados Unidos neste processo de paz. E de facto, uma aparente incapacidade do presidente Trump perceber que só haverá algum tipo de cessar-fogo, só haverá algum tipo de processo de paz, se a Rússia for forçada a negociar. Se isso acontecer a partir de uma posição de força e com garantia de segurança para a Ucrânia e com um real aumento de pressão sobre a Rússia, ora ele está a fazer exatamente o oposto.

E enquanto os Estados Unidos não estiverem do lado da Europa como já estiveram no passado, ou no mínimo, como dizias, na mesma página a condenar este tipo de ataques, este tipo de pacotes de sanções tem algum efeito ou a Rússia só vai parar quando efetivamente for assinado algum tipo de acordo?

A Rússia só vai parar quando sentir que tem mais a perder do ponto de vista militar e não só, também económico, do que a ganhar. Aquilo que era fundamental, por exemplo, e que mais uma vez é inexplicável, era aumentar a pressão económica, por exemplo, através das tarifas. O que também aqui é inexplicável é que Donald Trump declara uma guerra comercial global. Depois, quando começam a surgir as críticas sobre por que há uma exceção para a Rússia, o primeiro argumento é que não há comércio com a Rússia. Ora, sabemos que até a Ilha dos Pinguins, aquelas ilhas australianas na Antártida, tiveram tarifas, portanto esse sim tem de comércio zero. Não é verdade, a Rússia tem 3000 milhões de comércio com os Estados Unidos, já teve 30000 milhões, é 10% do que era por causa das sanções, mas é mais do que muitos países africanos que levaram tarifas muito elevadas. Além do mais, ele aplica tarifas à Ucrânia. O argumento que vem a seguir é: "Mas há um processo negocial." Mas há um processo negocial com duas partes, em que a Ucrânia também é parte. Aparentemente, a ideia aqui é fazer toda a pressão sobre a Ucrânia, como se a Ucrânia não quisesse a paz. É evidente que sim, agora não quer uma paz a qualquer preço, que no fundo seria uma rendição e que seria apenas um adiar de uma nova invasão russa num contexto que fosse mais favorável ao Kremlin daqui a alguns anos. Isso aqui é que faz toda a diferença. Desse ponto de vista, o que é mais difícil de perceber é esta ausência de tarifas em relação às sanções. A questão sempre é: pode-se aumentar as sanções secundárias, pode-se aumentar a tentativa de evitar contrabando, ou seja, mecanismos para contornar estas sanções, mas realmente, sobretudo a Europa, já avançou com sanções muito pesadas em relação à Rússia. Elas têm um efeito que é cumulativo e que exige tempo, não quer dizer que não estejam a ter algum impacto, e estão. A economia russa está sob enorme pressão, mais de 20% de inflação, taxas de juro com mais de 20%, inflação acima dos 10%. Realmente, a economia russa está sob pressão. Agora, quando há um regime autoritário que está determinado a continuar a combater e acha que neste conflito está em jogo a sua própria sobrevivência, e provavelmente está, do regime russo, não da Rússia, obviamente isso significa que há uma enorme capacidade de absorver custos económicos significativos. As sanções têm sempre um impacto que exige tempo, não são imediatos e muitas vezes têm um impacto limitado, sobretudo se o regime que governa esse país está disposto a sacrificar a prosperidade, as condições de vida da sua população, em nome de se manter no poder e de atingir os seus objetivos.

Bruno, temos cerca de um minuto, por isso pedia que fosses breve a responder esta última pergunta. Este fim de semana ouvimos Volodymyr Zelensky a pedir a Donald Trump que se desloque à Ucrânia para ver com os próprios olhos os efeitos da guerra. Consideras que isso vai acontecer, Donald Trump vai deslocar-se à Ucrânia?

Não me parece muito provável. De facto, não é muito característico de Donald Trump confrontar-se com dificuldades ou com problemas, ou com falhas das suas políticas. Ele claramente tem uma postura também que privilegia sobretudo relações com homens fortes, com regimes autoritários, que são capazes de fazer acordos rápidos, sem grandes problemas em termos de limitações dos poderes para chegar a um acordo, e que favoreçam diretamente interesses americanos e muitas vezes até interesses próximos dos Estados Unidos. É revelador, por exemplo, que Donald Trump, a primeira visita que está a planear para fora dos Estados Unidos, tal como aliás no seu primeiro mandato, é à Arábia Saudita, que é um grande cliente dos Estados Unidos, por exemplo, de armamento, é um grande produtor de petróleo, desse ponto de vista é um país incontornável, mas sabemos que é também uma monarquia absoluta, portanto, em que realmente a questão da democracia e dos direitos humanos não é propriamente uma prioridade. É o primeiro presidente dos Estados Unidos que assume esta prioridade no seu relacionamento. Tudo isso me leva a acreditar que não é muito provável que Trump aceite este convite. Aliás, sabemos que J.D. Vance também recebeu esse convite naquele famoso encontro na Casa Branca e recusou publicamente, dizendo que não precisava de visitar a Ucrânia para saber o que se estava a passar.

Muito bem, fica então por aqui mais um "Gabinete de Guerra", desta vez com o historiador Bruno Cardoso Reis. Muito obrigado, Bruno.

Obrigado.