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"Gabinete de Guerra da Rádio Observador", o programa onde analisamos algumas das notícias mais recentes relacionadas com os conflitos em curso, particularmente no Médio Oriente e também no Leste da Europa. Análise hoje, como a Nelson sublinhava, do historiador Bruno Cardoso Reis. Boa tarde, Bruno, bem-vindo. Começava talvez por esta notícia que dá conta de que tanto a Rússia como a Ucrânia foram alvo de ciberataques contra os sistemas de alerta à população. Alguma indicação de quem perpetrou estes ataques, da responsabilidade de cada um destes países?

Isto é a nova face da guerra. Cada vez mais o domínio cibernético, do ciberespaço, está em jogo de múltiplas formas. Quer o lado ucraniano, quer o lado russo têm investido muito nisso, os próprios Estados. Muitas vezes, no entanto, aqui num regime um bocado híbrido, por vezes associando-se a hackers que mantêm algum grau de autonomia, mas aceitam também algum tipo de ligação a uma estrutura de comando até militar. Outros, efetivamente, fazem parte dessa estrutura. Parece evidente também um outro aspecto que é, como em quase todas as tecnologias, às vezes há a expectativa de que tenham um impacto decisivo. Isso raramente acontece, ou raramente acontece por si só ou durante muito tempo, porque o inimigo acaba por se adaptar e também muitas vezes por adotar essas tecnologias. E portanto, o que vimos aqui foi aparentemente uma ação inicial da parte da Rússia e depois imediatamente uma retaliação da parte da Ucrânia. Em termos do tipo de mensagens, eu acho que apesar de tudo, tudo o que seja falar de guerra nuclear ou potencial armamento radiológico, etc, acho que é uma má ideia, acho que é um mau precedente. Acho que se deve evitar o mais possível mexer nesse tabu do uso de armas nucleares, mas infelizmente, neste conflito tem sido frequente, nomeadamente da parte da Rússia, esse tipo de tentativa de chantagem com o nuclear.

Das últimas horas também, a notícia de que os Estados Unidos apoiam o restabelecimento da venda de gás russo à Europa através da Ucrânia, no contexto de um cessar-fogo energético, depois do levantamento das sanções à importação de gasóleo por parte da Rússia, agora esta ideia de a Rússia também poder exportar gás através da Ucrânia. Há uma tendência, há um caminho que está a ser percorrido de levantamento das sanções económicas à Rússia, no âmbito desta aparente aproximação de Donald Trump a Vladimir Putin?

Sim, claramente é essa a agenda do presidente americano e dos seus próximos, ou seja, o mais possível negócios, de preferência que também os envolvam a eles. Um dos grandes problemas, no entanto, é que, por um lado, não há nenhum sinal de que a Rússia esteja disposta a alterar o essencial do seu comportamento agressivo, destrutivo, de agressão à Ucrânia, por causa desse tipo de incentivos económicos. Depois é preciso convencer a Ucrânia, e para isso a Ucrânia tem insistido sempre, isso aparentemente seria parte do acordo, que tem a ver, nomeadamente, por exemplo, em relação à questão da energia, para a Ucrânia deixar de atacar a infraestrutura energética russa, que seria a pré-condição para permitir esse tipo de regresso a algum tipo de exportação em maior quantidade. As infraestruturas energéticas ucranianas também teriam de deixar de ser atacadas. Ora, a Rússia nunca realmente aceitou isso. E depois ainda há esta outra questão, que é preciso convencer os europeus de que é uma boa ideia voltar a comprar gás russo. E é verdade que há correntes na Europa que defendem essa ideia, mas há muita gente que ficou bastante escaldada com esta experiência e portanto quer evitar voltar a estar nas mãos de um fornecedor altamente imprevisível, que é capaz de desencadear uma guerra de agressão no continente europeu, portanto, desestabilizar a ordem regional europeia, pôr em questão a segurança de múltiplos países europeus, que são em parte também os clientes, países como por exemplo os países de Leste, a Polónia, os Bálticos, etc. Eram também grandes importadores, fala-se muito da Alemanha, mas não era o único caso. Portanto, sobretudo nesses casos, não parece que isso seja muito realista, não parece que a Polónia ou os Bálticos queiram voltar a estar muito dependentes do abastecimento russo. Eventualmente, no caso da Alemanha, sempre houve um setor mais pró-russo, sempre houve setores neutralistas, que veem na guerra um mal absoluto, que é sempre que recusar, e que depois também estão aliados àqueles setores que basicamente pensam apenas e só na questão do custo do dinheiro e, portanto, realmente, o gás natural russo à partida é mais barato do que outras alternativas. Agora, eu diria que é um barato que tem saído bastante caro, como se viu no passado, ficar constantemente à mercê de qualquer tipo de chantagem russa que possa levar ou a falhas de abastecimento ou a um aumento súbito dos preços. Acho que isso não é, também do ponto de vista económico, muito avisado.

Seguimos agora até ao Médio Oriente e há a informação, há a notícia de que o Irão propõe um plano para reabrir o Estreito de Ormuz em dois dias, caso os Estados Unidos aceitem as exigências de Teerão. Disso mesmo deu conta o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, sendo que nesta notícia que aqui leio no Observador, que está num live blog do Observador dedicado precisamente aos conflitos no Médio Oriente e também no Leste da Europa, não são especificadas as exigências de Teerão para que possa ser posto em prática este plano. O que motiva Teerão a fazer esta proposta? As ameaças de Donald Trump, essa ameaça que paira de uma intervenção por parte dos Estados Unidos a seguir às eleições intercalares?

Sim, eu penso que isso é certamente parte da equação. No fundo, é tentar posicionar o Irão como um regime, um Estado e um governo que procura a paz, que até oferece soluções e, nesse sentido, retirar margem ou retirar legitimidade a uma nova intervenção militar norte-americana que, compreensivelmente, preocupa muito, desde logo os aliados norte-americanos na zona do Golfo, e até teria impactos negativos à partida expectáveis na economia global também. Já estamos a ver preços recordes novamente do petróleo. Agora a grande questão é perceber exatamente as condições. Aquilo que o Irão tem geralmente associado a estas propostas é sempre esta ideia de o Irão controlar o estreito, de o Irão taxar os navios que atravessam o Estreito de Ormuz. Isso realmente seria criar um precedente altamente preocupante e perigoso pro resto do mundo. Ou seja, se de repente começarmos a ter os principais pontos de estrangulamento da navegação global sujeitos aos humores dos Estados ribeirinhos e ainda por cima também sujeitos a taxas adicionais, vamos ter aqui um efeito muito negativo na segurança do comércio global, na segurança dos abastecimentos, das cadeias logísticas e também obviamente entrando em vigor esse regime, por exemplo, de taxação generalizada, isso obviamente vai ter um impacto também em termos de inflação dos preços. Alguém vai ter que pagar esses custos e à partida não serão os transportadores a querer assumir esses custos. Vão ter que passar esses custos aos clientes, em última análise, aos consumidores.

Seremos todos nós a pagar. Porventura associada a esta questão, a informação avançada pela revista "The Atlantic" dá conta que um ataque ao Irão pode ocorrer logo após as eleições intercalares. Dá conta também que Trump procura culpados pelo arrastar da guerra e há dois nomeados, o secretário de defesa Pete Hegseth e o chefe do Estado-Maior, o general Dan Cain.

Há toda essa especulação sobre um condicionamento pelo calendário eleitoral. A guerra é impopular, foi impopular desde o início, é mesmo histórica nesse sentido, que é um conflito armado em relação ao qual nunca a maioria dos americanos foi favorável. Tem havido oscilações, mas se mantém sempre muito impopular, até porque é associada a esta questão dos custos da inflação, dos custos dos combustíveis, por razões compreensíveis, uma vez que, como ouvimos muitas vezes, à volta de 20%, 25%, mais ou menos entre um quarto e um quinto do mercado dos produtos petrolíferos está dependente das exportações da produção e das exportações que vêm do Golfo e que em grande parte passavam pelo Estreito de Ormuz e criar alternativas também demora tempo. Se as coisas continuarem sem se resolver, e aqui o meu ponto é que eu de fato não vejo uma saída fácil em termos diplomáticos, porque as posições dos dois lados são muito diferentes. O regime iraniano parece convencido que está a ganhar este conflito e os Estados Unidos também. Portanto, a nível diplomático não se vê soluções fáceis. Já vários mediadores tentaram, já chegou a haver um memorando de entendimento, como sabemos, que rapidamente também não funcionou. Aí temos esse problema. E depois em termos militares também não se vê uma solução fácil, ou seja, o regime claramente está apostado em resistir e sem tropas no terreno não se vê muito bem, tendo em conta o padrão histórico, como é que só com ataques aéreos os Estados Unidos conseguirão mudar o regime ou até sequer mudar os cálculos de custo-benefício do regime. Por muito que utilizem ataques mais intensos, isso não é garantido que dê resultado. É bem possível que realmente o Donald Trump esteja a pensar em termos de encontrar bodes expiatórios. Já tentou com a Ucrânia em relação aos custos dos combustíveis, isso não teve grande sucesso, não convenceu muito os americanos. Agora uma possibilidade é de fato essa, é que ele utilize outras figuras na sua administração para tentar desviar a culpa. A questão, no entanto, com o Pete Hegseth, é que ele tem aqui um papel muito importante. É muito leal a Donald Trump. Ele sabe que só tem uma carreira com Donald Trump, não tem qualificações para qualquer outro presidente normal, mesmo republicano. E de fato, as Forças Armadas podem ter um papel muito importante em termos de alguma jogada de Donald Trump mesmo internos. Portanto, passar a mensagem que tem a força do seu lado neste período de dois anos em que tipicamente os presidentes começam a perder algum poder. Isso pode levar Donald Trump a hesitar em afastar Pete Hegseth, que realmente é uma figura que lhe é claramente extremamente leal.

É isso que revela a revista "The Atlantic", Donald Trump responsabiliza Pete Hegseth e também Dan Cain pelo fato de a intervenção no Irão não ter sido tão curta quanto foi dito que seria. Bruno Cardoso Reis, historiador, na segunda edição do dia de "Gabinete de Guerra", centrado nos conflitos da Ucrânia e no Oriente Médio. Um abraço, Bruno. Até breve.

Obrigado.