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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a guerra interna à volta de André Ventura.
O que é que nos pode travar de conseguirmos este objetivo? A imprensa, o governo, o Tribunal Constitucional, os poderes externos da Comissão Europeia, os poderes de Bruxelas? Não, nós só nos travaremos por nós próprios.
Esta declaração de André Ventura foi registrada no dia 9 de outubro, no Conselho Nacional do Chega. Uma frase motivadora que, na verdade, esconde um receio do próprio líder do partido, que sejam as guerras internas no Chega a boicotar a possibilidade, cada vez mais real, de Ventura chegar a primeiro-ministro. É sobre isso que eu vou falar hoje com a jornalista de política do Observador, a Inês André Figueiredo. A Inês cobre habitualmente o Chega e é ela quem nos vai falar das duas fações que se medem dentro do partido. Vai explicar como é que estas guerras ganharam força nas eleições internas do Chega e de que forma é que haver dois lados em confronto, que querem proteger o líder, pode fazer com que o líder saia humilhado na próxima convenção do partido. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 2 de novembro. Olá, Inês, bem-vinda.
Olá, Pedro. Obrigada.
Olha, não tens que agradecer, eu é que agradeço, porque tu vens nos contar aqui uma história que tem uma novidade, porque nós estamos habituados a olhar para o Chega como o partido de um homem só. É aquele clichê que se tem propagado ao longo dos anos. E a verdade é que André Ventura continua a ser um líder incontestado e não é sobre isso o episódio de hoje. Mas o poder à volta de André Ventura, é aí que está a verdadeira guerra.
É isso, como dizes. André Ventura é um homem incontestado, é uma figura consensual dentro do partido. Aliás, as eleições internas vão nos dizendo isso cada vez mais, mas há um segundo nível entre as pessoas que costumam estar atrás de André Ventura, que acaba por haver algumas lutas internas que vão tendo reflexo cá para fora e que, obviamente, afetam não só o presidente do partido, como todo o partido e a tal união que André Ventura vai pedindo e que não parece ser assim tão clara. O que nós vimos nos últimos tempos foi que, um bocadinho à boleia das eleições distritais, das eleições internas, André Ventura acabou por ser contrariado na decisão de que grandes figuras não fizessem parte dessas eleições, porque, no fundo, não são candidatos, mas acabam por ser pessoas que influenciam, cantarem vitória quando os seus candidatos vencem e, do lado oposto, acontece o mesmo, que é pessoas que acabavam por ter muito poder dentro do partido e que em determinado momento viram esse poder afetado porque perderam a distrital Y ou a distrital X.
Então, neste clima, para quem acompanha política, isto é mais ou menos comum nos partidos mais consolidados. As guerras dentro do PS, as guerras dentro do PSD, são coisas históricas, são coisas que são reportadas há muitos anos. O Chega é um partido novo e precisamente por ter feito este percurso, onde olhávamos apenas para o líder, não se deu por isso. O partido foi crescendo e à medida que foi crescendo, e tendo poder, e tendo capacidade, e tendo estruturas, é normal que apareçam esse tipo de guerras e guerrinhas pelo poder. Se nós quiséssemos identificar aqui dois lados desta guerra, nós conseguimos identificar os rostos para cada um desses lados?
Sim, o que vai sendo contado dentro do partido é que neste momento há pelo menos duas correntes, por assim dizer, dentro do Chega, uma que tem o rosto de Pedro Pinto e outra que tem o rosto de Bruno Nunes. São duas figuras que se destacam, não só por causa daquilo que dizia há pouco, por se meterem, por assim dizer, nas guerras internas, mas também porque são figuras que acabam por ter uma grande visibilidade pública, porque ao contrário de muitos elementos do Chega, sabemos que, por exemplo, o Chega tem 60 deputados e grande parte do país se calhar não conhece, eu arriscaria a dizer, se calhar, 50. Porque há ali uma base muito grande à volta do partido, que são pessoas que começaram a ir às televisões, que têm um lado mais midiático, e isso não é extensível ao resto do partido.
Muito bem. Então, temos Pedro Pinto e temos Bruno Nunes. Pedro Pinto tem aqui características particulares, porque tem um cargo de relevo dentro da direção do partido, é líder parlamentar, tem uma visibilidade grande e faz parte do círculo interno, o inner circle, como se costuma dizer, do próprio Ventura.
Sim, Pedro Pinto é, se analisarmos de fora, o número dois do partido, porque além de ser secretário-geral, é também líder parlamentar e num partido com representação parlamentar, o líder parlamentar tem muito destaque, e Pedro Pinto é esse rosto. Podemos também recordar um momento em que, numa campanha presidencial, André Ventura se sentiu mal e Pedro Pinto foi convidado ou indicado, muito provavelmente por André Ventura, para estar a representá-lo e para falar aos jornalistas durante ações de campanha, quando o líder do Chega estava no hospital. Portanto, se formos ver Todos estes momentos Pedro Pinto será esse número dois de André Ventura.
E quando se torna número dois de André Ventura e faz declarações onde explica que o partido não é só André Ventura, que o partido tem outros rostos, essas declarações foram interpretadas como uma espécie de explicação, porque é que era ele a falar e não André Ventura, no partido de um homem só, mas também foram interpretadas como podendo querer dizer ou sinalizar alguma coisa de diferente.
Sim, o que aconteceu foi que naquela altura, foi um momento muito difícil para o partido, porque tinham o rosto do partido muito fragilizado numa cama de hospital. Nós vimos todos isso porque André Ventura fez questão de mostrar, não escondeu a ninguém. E no fundo, o que Pedro Pinto vem dizer é: "Estamos em campanha e estamos a provar que o partido é mais do que André Ventura". E na verdade, se formos sinceros, esta mensagem era aquela que o partido tinha tentado passar ao longo dos últimos anos, que André Ventura não é o único dentro do seu partido, que o partido não é de um rosto só, de um homem só, como nós costumamos dizer. Mas a verdade é que há uma imagem muito específica quando o carro de André Ventura parte e Pedro Pinto fica para trás. E essa imagem circulou em muitos grupos internos do partido e criou ali um mal-estar por Pedro Pinto não ter tido um discurso diferente numa altura em que André Ventura estava mal. Foi mais isto do que propriamente Pedro Pinto dizer: "Eu estou aqui e se amanhã for a votos, vou vencer André Ventura." Não foi nada disto. Até porque, recuando ao início da nossa conversa, há de facto uma crença de que sem André Ventura, neste momento, pelo menos, não existe Chega.
Então, estes dois grupos, um encabeçado por Pedro Pinto, outro por Bruno Nunes, não põem em causa a liderança de André Ventura. Como é que entram em guerra, sendo que naturalmente, se não pões em causa a liderança, queres colaborar e proteger o líder? Como é que eles entram?
Essa é uma das grandes questões, porque na verdade, tu falavas em guerras internas noutros grandes partidos que conhecemos e normalmente são sempre guerras que têm um rosto e que põem em causa o líder. Aqui não. Agora, se isto são projetos a apontar para o longo prazo, depois da saída de André Ventura, estamos a atirar muito para frente e é muito difícil prever isso. Por isso, eu acho que as coisas acabam por ficar um bocadinho nessa segunda linha, nessa ideia de que André Ventura é o líder, mas se nós tivermos poder interno, conseguimos não só ter algum poder perante o líder, de influência, mas também controlar o partido. E é isso que estão a tentar fazer. E em que é que isso se vê? Na questão da convenção, por exemplo, que vai acontecer em novembro, na distribuição de delegados, porque aqueles que venceram mais distritais, têm mais poder para colocar delegados dentro do Congresso, neste caso da convenção, e por isso pode ver-se em termos de votos, naquilo que se vai votar lá, como é que eles se posicionam.
E o que estas duas fações têm contra a outra? Já agora, para percebermos a lógica desta guerra.
Acho que não é fácil definir, porque, na verdade, a mim o que me parece ou o que transparece desta guerra interna é que são coisas muito pessoais. Vão envolvendo pessoas, vai havendo aqui muita teoria da conspiração, muitas mensagens de WhatsApp trocadas, que hoje sabemos que os partidos também vivem muito disso, mas há aqui um ponto relevante e que deve ser sublinhado. Ao contrário da fação de Pedro Pinto, sempre houve uma ideia de que Bruno Nunes poderia de facto querer o lugar de André Ventura. Apesar de isto nunca ter sido confirmado de nenhuma forma, até porque ele, e também recordamos isso no texto, acabou por aceitar algumas decisões difíceis de aceitar. Por exemplo, tinha sido cabeça de lista por Setúbal em 2022 e acabou completamente despromovido num sétimo lugar de uma lista a Lisboa que nem se sabia se ia ser eleito nas eleições seguintes.
Acabou por ser.
E acabou por ser eleito. Mas isto para dizer que, no fundo, se Bruno Nunes quisesse ter virado as costas ao partido ou ao próprio André Ventura nesta situação, teria sido o cenário ideal. Alguém que foi despromovido desta forma, o único deputado despromovido, porque eram 12, todos foram promovidos ou pelo menos mantiveram os seus lugares, e acaba por ser aqui uma situação constrangedora para o próprio deputado. Mais do que isto é difícil de explicar.
O que sabemos é que existem duas alas, existem guerras internas, existem, se quisermos, duas fações, uma mais próxima de André Ventura, a outra reconhecendo e respeitando a legitimidade do líder, tem outras ideias e tem outra gente. O que isto pesa para André Ventura? Quando ele vai para uma convenção, à beira de uma convenção, qual é o principal receio que ele tem havendo esta guerra e porque ele tem feito apelos repetidos à unidade do partido?
André Ventura e as pessoas próximas de André Ventura têm consciência de que esta pode ser uma convenção difícil para o partido. Por duas razões. Primeiro, por estas questões internas, depois porque provavelmente o partido que vai sair daqui será aquele que se vai Confrontar a si próprio num momento de responsabilidade governativa, se ela vier a existir, porque o Chega está bem posicionado nas sondagens e o que se acredita dentro do partido é que esta equipa, que vai ser decidida por André Ventura, será aquela que provavelmente vai às próximas eleições legislativas e, se tudo correr bem, terá um bom resultado. Isto é o pensamento de quem está dentro desta bolha. Agora, por que isto é preocupante para André Ventura? Ao longo das últimas semanas falámos com muitos dirigentes do Chega e quando digo dirigentes, tivemos o cuidado de não ir só a altos dirigentes, ouvir desde o militante base até aos deputados, porque isto dá-nos uma visão um bocado diferente do que é o partido. E o que nós ouvimos foi que há distritais com poder que estão tentadas a pressionar André Ventura para retirar algumas pessoas, personas non gratas, por assim dizer, da direção do partido.
Sendo que a direção é o núcleo de confiança do André Ventura. Portanto, isso criaria uma questão, que era André Ventura tinha de ou aceitar ficar sem algumas pessoas da sua confiança ou o que aconteceria?
Há um ponto muito relevante que é, como sabemos, o Chega tem tido dificuldades em aprovar novos estatutos e então voltou aos iniciais e nesses estatutos iniciais diz que André Ventura para eleger uma direção precisa de dois terços dos delegados ao Congresso, o que é muita gente. O que se está a tentar fazer ou o que se está a ponderar? Esta é a palavra certa, porque há aqui muitas dúvidas sobre o que será feito. Uma reedição do que foi Évora. Évora foi a convenção em que o partido ainda era muito pequeno, mas André Ventura precisou de três tentativas para eleger a direção. Não sei se te recordas daquele momento em que André Ventura chorou.
Sim, perfeitamente.
Ameaçou demitir-se, depois acabou ajoelhado no chão quando a direção foi aprovada. E o que se acredita ser possível é que com o número de delegados que neste momento estão, vamos colocar isto entre aspas, ao lado da corrente que não é de Pedro Pinto, que é a corrente que está na direção, é possível fazer mossa a André Ventura. E lá está, é muito difícil jogar este jogo, porque a mossa não é para ser a André Ventura. A mossa é para ser de quem essas pessoas não gostam, por assim dizer.
No entanto, a pressão e a chantagem pode ficar sobre André Ventura, que poderá publicamente, e numa altura em que quer ganhar eleições, mostrar publicamente um sinal de desunião do seu próprio partido.
É isso mesmo. No fundo, só o facto de estarmos a usar a palavra chantagem para um líder que, como dissemos, é incontestável, acaba por ter aqui um peso muito grande, mas isso não só prejudicaria esses nomes, que à partida sairiam da direção, como também prejudicaria a imagem do partido. É inevitável, neste momento o Chega tem uma atenção mediática em que se uma direção estivesse a ser chumbada, todas as televisões, rádios e jornais estariam em cima desse momento e a imagem que ia passar não ia ser positiva. E atenção, há esta noção dos dois lados. Há a noção de que pode-se fazer esta chantagem até um determinado ponto, mas que tem de ser com atenção, porque André Ventura não pode sair como um fragilizado, um derrotado da sua própria convenção. E daí eu ter usado a palavra ponderar, porque eu acredito que com tantas teorias e conspirações que existem neste momento dentro do partido, possa haver alguém com poder que acabe por travar um bocadinho esta situação e que amenize a situação de André Ventura. Só para dizer aqui outra coisa, que é: André Ventura é muito avesso à mudança e fez poucas mudanças na direção ao longo dos últimos anos. Mais do que isso, mexer na direção agora, e principalmente mexer com nomes que sempre estiveram ao lado dele ao longo dos últimos anos, seria, como eu explicava há bocado, mexer num ponto fulcral do Chega, porque no fundo é esta direção que vai preparar o partido para as próximas eleições legislativas. E portanto, há aqui até um receio de como é que isso seria aceito pelo próprio partido e pelas pessoas que estão à volta e que consequências é que isso poderia ter, se poderia abanar o partido de tal forma que um Chega saído desta convenção no day after pudesse não estar pronto ou ter dificuldades para enfrentar uma próxima fase.
Muito bem, vamos ver. Estou cheio de curiosidade para ver o que vai acontecer nas próximas semanas. A convenção é em novembro, vamos ver como é que as coisas correm. Obrigado, Inês.
Obrigada, Pedro.
Eu conversei hoje com a jornalista de política do Observador, a Inês André Figueiredo, sobre a forma como a próxima convenção do Chega, marcada para o final deste mês, pode ser um momento de grande tensão para André Ventura. Fala-se de guerra aberta, chantagem ao próprio líder, tentativas de pressão, risco de Ventura sair humilhado e tudo isto por quem garante ser-lhe fiel. Parece estranho? Bom, no Chega já vimos coisas mais estranhas. E depois esta convenção acontece no Entroncamento, terra conhecida por ser palco de coisas fora do normal. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Lourdes Oswald e do Rafael Pego. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.