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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Já sabe, por aqui todos os dias analisamos as principais novidades no terreno dos dois grandes conflitos a nível mundial, não só a guerra na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Hoje, para fazer a análise, junta-se a nós Vítor Gabriel Oliveira, é secretário-geral da Sedes Europa, a quem agradeço desde já a disponibilidade para estar aqui conosco. Bem-vindo, Vítor Gabriel Oliveira. Gostava de começar pela guerra na Ucrânia, até porque é a notícia forte do dia de hoje e que certamente vai marcar também os próximos dias. Continuamos a olhar para as várias demissões no governo de Volodymyr Zelensky, sendo que a demissão principal é mesmo a de Dmytro Kuleba. Falamos do ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, era talvez o governante mais midiático deste executivo ucraniano. Gostava de lhe perguntar, Vítor Gabriel Oliveira, qual é o impacto que pode ter esta demissão, até porque o Parlamento ucraniano decidiu adiar urgentemente a discussão da demissão de Kuleba. Qual é que pode ser, em termos da guerra, em termos do terreno, o impacto que pode ter esta demissão?
Antes de mais, obrigado à Rádio Observador, mais uma vez pelo convite. Só fazer aqui o enquadramento. Volodymyr Zelensky já indicava na semana passada que estava iminente uma remodelação do governo. Aliás, o chefe do seu partido, do Volodymyr Zelensky no Parlamento ucraniano, dizia na terça-feira que provavelmente seriam substituídos metade dos atuais ministros. Na minha opinião, estas remodelações fazem parte da estratégia que Zelensky utiliza pra manter com quem ele trabalha focado e sem distrações. Isso é uma estratégia política para a liderança do país que ele adotou. E esta gestão também faz parte do seu plano interno pra que não haja divisões e fragilidades. Nós não nos podemos esquecer que Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo, dizia há cerca de duas semanas que os Estados Unidos tinham um plano pra substituir Zelensky. E todas estas informações e contrainformações têm que ser geridas e tratadas por um líder de um país em guerra, de um chefe de Estado de um país em guerra. Portanto, o presidente ucraniano disse, e citando, que as mudanças são necessárias para reforçar o governo. Aliás, utilizou uma expressão que é: "O outono será extremamente importante para a Ucrânia, e as instituições estatais têm que ser criadas para que a Ucrânia alcance todos os resultados de que necessitamos". Isto é uma citação dele, e que tinham que reforçar algumas áreas do governo relativas ao pessoal que já tinha sido preparado. Isto quer dizer que Zelensky tem este plano de substituições desde que começou a guerra, regular, pra que não haja viciações internas e para que esta pressão externa também da Rússia, pra conseguir quebrar a união interna, e a guerra também se situa aí, também se situa nessa divisão interna, e a Rússia tentou fazê-lo por diversas vezes, ainda antes da guerra começar, em eleições, apoiar candidatos contra Zelensky. Portanto, não o deixará de fazer agora também, e isso também faz parte da estratégia que o próprio Zelensky delineou para a gestão interna política do país.
Vítor Gabriel Oliveira, olhando ainda para a guerra na Ucrânia, Vladimir Putin anunciou hoje que está à espera do homólogo chinês, Xi Jinping, na Cimeira do Bloco dos Países Emergentes, ou seja, do BRICS. Qual é que é também a importância desta relação, ou seja, deste destaque de Vladimir Putin para Xi Jinping? Qual é a importância da relação atual entre a China e a Rússia para o decorrer da guerra?
É muito grande. Só pra recordar os países que fazem parte aqui dos BRICS. Brasil, Rússia, China e África do Sul, e depois também com o Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e o Irão, por exemplo. E tudo isto são países muito próximos em política geoestratégica da Rússia, e isso tem se visto não só nesta guerra da Ucrânia, como também aqui na guerra do Médio Oriente. O Brasil é um país um bocadinho diferente, porque tem relações também no bloco ocidental, mas Lula tem mantido uma proximidade e uma não condenação da guerra. Portanto, Vladimir Putin sabe que neste grupo de países joga uma parte importante do seu reconhecimento internacional e da sua manutenção de aliados e de relações. A China, pese embora não oficialmente, também tem sido um forte aliado indireto da Rússia. Ao não alinhar com o bloco ocidental, como já se esperava, a China garante que a independência que lhe permite gerir objetivamente os seus interesses econômicos está garantida. O encontro do mês que vem pode ser uma oportunidade do líder do Kremlin, Vladimir Putin, mostrar que não está isolado na comunidade internacional por conta da invasão à Ucrânia. Isso também faz parte dos seus objetivos, faz parte de uma estratégia de Putin pra fazer ver ao mundo que também ele tem e continua a ter aliados econômicos. Por exemplo, relembro só esta visita última agora à Mongólia, onde o Tribunal da Haia pedia uma detenção de Vladimir Putin e isso não foi respeitado. São pequenas vitórias diplomáticas para o Vladimir Putin. Isso é muito importante, citando aqui também o Vladimir Putin: "Como concordado, esperamos a presença do presidente chinês Xi Jinping na cúpula dos BRICS". Isto foi uma declaração de Putin durante uma reunião com um alto cargo chinês, He Gaoming, à margem de um fórum econômico que se está a realizar, só pra percebermos que a Rússia mantém relações econômicas regulares com Com Pequim e que as relações até têm aumentado desde que começou a guerra na Ucrânia. Portanto, faz parte dessa estratégia de reforço de Putin na área econômica e na área da geoestratégia internacional.
Vitor Gabriel Oliveira, vamos virar agulhas para o Médio Oriente e aqui chega uma mensagem de maior pressão, talvez a maior até agora, por parte dos Estados Unidos da América. Os Estados Unidos dizem que chegou a altura de finalizar o acordo de paz e admite mesmo que Washington vai pressionar no sentido de um acordo final. É o que diz o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Matthew Miller, citado pelo jornal "The Guardian". Esta pressão mais ativa pode ajudar finalmente a encontrar um acordo entre as duas partes ou independentemente da pressão dos Estados Unidos, a situação está longe de chegar ao fim?
Nós sabemos que de há três, quatro meses a esta parte, os Estados Unidos têm intensificado a pressão para que haja um princípio de acordo, ainda mais quando Joe Biden abdicou de ser candidato e que soube que a nomeação cairia sobre Kamala Harris. A partir desse momento, estrategicamente, Kamala Harris passa a ser acompanhada, e também para fazer o enquadramento de como é que os Estados Unidos estão a fazer esta pressão, Kamala Harris passa a ser acompanhada por muito mais assessores que trabalharam com Barack Obama. E passa a haver uma incidência e um cunho desses assessores e provavelmente também do próprio Barack Obama nesta pressão para que haja um princípio de acordo e que isso possa ser utilizado. Aliás, Kamala Harris falou nisso no dia da convenção, no seu último discurso, que queria um acordo de paz e que tudo faria para que isso acontecesse. Portanto, era uma vitória e também para consumo interno seria muito bom para Kamala Harris que isso acontecesse. O que vamos perceber é que estamos a 70 dias das eleições e o que vamos começando a perceber é que a pressão dos Estados Unidos será cada vez maior quanto mais vamos chegando às eleições. Portanto, o acordo será sempre um acordo estendido por várias semanas, mas sabemos que começará no mínimo com seis semanas e poderá ir até nove semanas a primeira parte do acordo. E aqui estamos a falar já de dois meses. Estando a 70 dias das eleições, o que podemos esperar é que nas próximas duas semanas haja uma pressão ainda mais densa dos Estados Unidos para que Israel recue e chegue a um princípio de acordo.
Vitor Gabriel Oliveira, vamos terminar ainda com o Médio Oriente. Os Estados Unidos acusam criminalmente os líderes do Hamas pelo ataque de 07 de outubro. É uma acusação, agora sim, criminal para que avançam os Estados Unidos da América, é o que escreve a Agência Reuters no dia de hoje. São acusações contra Yahya Sinwar, o chefe do Hamas, e outros cinco membros do grupo. O que é que pode significar isto também? Que impacto é que pode ter esta acusação criminal avançada agora pelos Estados Unidos?
O impacto desta declaração criminal, na minha opinião, tem a ver com o decorrer das negociações que continuam a decorrer no Catar. Os Estados Unidos lideram estas negociações. As duas partes, tanto o Hamas como Israel, mantêm quadros seus secundários, os dois, o Estado de Israel e o Hamas, nestas negociações, e essas negociações continuaram a decorrer desde a última reunião. E esta declaração dos Estados Unidos surge no momento em que não há avanço nessas negociações. Ou seja, é uma pressão para que os líderes do Hamas saibam que estão acusados criminalmente, que vão passar a ser procurados internacionalmente. Ou seja, é uma maneira de colocar pressão na mesa das negociações para que, tanto do lado de Israel, como falamos há pouco, Matthew Miller foi citado pelo The Guardian nas suas declarações e que é altura de finalizar o acordo. Joe Biden também há dois dias voltou a dizer que Israel não estava a fazer o suficiente, mas do outro lado também é preciso pressionar o Hamas. É preciso pressionar o Hamas no terreno, mas também é preciso pressionar o Hamas e os seus líderes. Isto é uma forma de os Estados Unidos conseguirem pressionar quem está à mesa das negociações e utilizar todos os meios diplomáticos para que consigam. E vamos continuar, e só para terminar, vamos continuar a assistir a este tipo de força diplomática dos Estados Unidos para conseguir um princípio de acordo, penso eu, ainda até final de setembro, meio de outubro, para que se consiga realizar e ter essa noção que os Estados Unidos vão para eleições já tendo a administração de Joe Biden, da qual faz parte Kamala Harris também, tendo e podendo vender isso publicamente na bolha midiática americana.
Vitor Gabriel Oliveira, agradeço a disponibilidade para ter estado conosco em mais uma edição de Gabinete de Guerra, ele que é secretário-geral da SEDES Europa. Obrigado mais uma vez, Vitor Gabriel Oliveira, até uma próxima. O Gabinete de Guerra regressa amanhã à mesma hora, depois das 16h30 da tarde. Obrigado.