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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. João Diego Barbosa, depois das críticas à União Europeia, que Moscovo apelidou do idiota útil de Washington, a Rússia virou-se agora contra a NATO, ou de novo contra a NATO, e diz que é inaceitável a adesão da Ucrânia à aliança militar liderada pelos Estados Unidos.

Sim, as críticas à União Europeia têm um contexto importante que é o décimo segundo pacote de sanções europeu.

Exatamente.

Que vai tentar abranger os diamantes russos, que era uma importação importante para a Europa, vai tentar também evitar que se contorne, por exemplo, o limiar de preços que foi definido para o petróleo e que tem sido uma forma de a Rússia escapar às sanções. É natural que isso crie algum nervosismo, porque do ponto de vista europeu e do ponto de vista das sanções, o que importaria agora era tornar o quadro até normativo mais perfeito, ou seja, impedir que todos aqueles esquemas de contornar sanções que nós temos visto e que têm permitido à economia russa sobreviver e mostrar alguma resiliência, acabem por ser fechados ou parcialmente fechados para que o dano económico seja mais sentido. Mas também me parece que é um esforço europeu para que o assunto da Ucrânia continue a estar vivo, se não tanto nas notícias, pelo menos nas discussões políticas em Bruxelas, mas, ao mesmo tempo que se tem essa discussão política das sanções, o ponto da NATO parece-me muito importante do ponto de vista diplomático. Também o assunto surge porque um ex-secretário-geral sugeriu que a Ucrânia viesse a aderir à NATO, mas sem os territórios que estão neste momento controlados pela Rússia. Uma proposta que imagino, hoje em dia, não será muito popular até na Ucrânia. Mas isso suscitou um debate. E suscitou um debate, desde logo nos países da aliança e nos países europeus, que me parece mostrar que, de facto, há alguma abertura para começar a procurar a paz. Do lado da Rússia, evidentemente, essa adesão é inaceitável porque a invasão foi justificada precisamente pela aproximação da Ucrânia, quer à NATO, quer à União Europeia, mas que já se comece a discutir uma adesão limitada, que eventualmente significasse o reconhecimento de perda de parte do território, mostra disponibilidade para negociar. Nós sabemos que 2024 vai ser um ano fundamental, com as eleições americanas, com a Rússia e o presidente Putin à espera de uma vitória de Trump, para que o assunto na Ucrânia possa ficar resolvido de forma favorável. E do lado europeu, a ver estas vozes relevantes de um ex-secretário-geral da NATO, por exemplo, a sugerir que se reconheça a perda de algum território da Ucrânia, mostra que há cada vez mais vontade de caminhar para a paz, mesmo que isso implique uma paz que não seja confortável para a Ucrânia e um reconhecimento da perda de território.

Entretanto, e por falar em território, das últimas horas, sabemos que as tropas ucranianas reforçaram posições em três aldeias no lado do rio Dnipro, controlado pela Rússia. E no sentido contrário, tivemos os ataques russos na região de Donetsk e Zaporizhzhia, que causaram várias mortes e feridos, incluindo entre as equipas de resgate. João Diego Barbosa, que ponto de situação podemos fazer do que se passa actualmente no terreno?

Acho que estamos de volta a Kherson e ao rio Dnipro, que é importante. E foi durante muito tempo um ponto fundamental, uma zona estratégica para os dois lados, ali no sul, porque permite o contacto com diversas regiões e permitiria até cortar as linhas russas. Acho que a primeira conclusão que podemos retirar das notícias de ontem é que, de facto, a guerra na Ucrânia continua e continua todos os dias com grandes combates. Combates com grande dificuldade técnica e que custam muitos recursos e até muitas vidas. Mesmo que o assunto desapareça das notícias, a guerra não parou, não está suspensa, não está à espera de ver o que é que acontece em Israel e na Faixa de Gaza. E eu acho que do lado da Ucrânia, esta pequena vitória, que foi essencialmente atravessar um rio, era uma pequena vitória procurada há muito tempo e pode ser um tónico importante numa altura que é muito difícil. É muito difícil para a Ucrânia do ponto de vista militar, do ponto de vista político e até do ponto de vista social. Tem havido cada vez mais discussões sobre a mortandade da guerra. É, de facto, uma guerra que é muito custosa em recursos e em vidas e também por isso é difícil que se consiga sustentá-la durante muito tempo. Mas este pequeno avanço, numa altura até em que já nem se discutia se a contraofensiva ucraniana tinha sido um sucesso ou não, em que a motivação estava muito em baixo, pode ser importante e do ponto de vista estratégico, pode ser também uma derrota moral para a Rússia, mesmo antes do inverno, onde não se esperam grandes combates, porque as condições do terreno, como se imagina, na Ucrânia, não são fáceis nesta altura do ano. Portanto, para os ucranianos, boas notícias, mas ainda assim, com grande custo, com muitas perdas e vai ser cada vez mais difícil suportar essas perdas.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 09:30 e tem uma nova edição depois da síntese das 16:30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.