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Gabinete de Guerra, na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre os dois conflitos em curso, um na Ucrânia e outro no Médio Oriente. Eu sou o João Gama. O ponto de situação destas duas guerras vai ser feito com a ajuda do major-general João Vieira Borges, a quem desejo desde já uma muito boa tarde. Bem-vindo à Rádio Observador, major-general. Proponho começarmos no Médio Oriente. Israel vai acelerar as operações ofensivas contra o Hezbollah hoje. O número de mortos em ataques israelitas no Líbano subiu, de acordo com as últimas contagens do Ministério da Saúde libanês, para 558, incluindo 50 crianças. O primeiro-ministro do Líbano vai viajar hoje para Nova York, vai ser um dos chefes de Estado, chefes de governo, que participa na Assembleia Geral da ONU. O que podem fazer as Nações Unidas para mediar este conflito, major-general, uma vez que a ONU até já expressou extrema preocupação pela atual situação de guerra no Líbano?

Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Infelizmente, temos que mudar o Gabinete de Guerra pra Gabinete de Guerras. Não só estas duas, temos 49 guerras no mundo, mais do que nunca, exatamente porque a situação da Ucrânia influenciou certamente outras guerras. Esta é uma guerra diferente, quando estamos a falar de uma guerra que já vem de 48, com algumas interrupções, mas infelizmente é uma guerra que pode ser atenuada. Já tivemos vários acordos, já tivemos vários processos de paz, como Camp David e Oslo, e é essa a esperança sempre das Nações Unidas, que visa a paz e visa a mediação. Estes encontros da Assembleia Geral, neste caso a 79ª, são encontros bilaterais e multilaterais, mas fundamentalmente os bilaterais contribuem certamente para o encontro da paz. Neste caso, e concretamente indo à sua questão, relativamente ao primeiro-ministro do Líbano, vai pedir apoio da comunidade internacional, porque obviamente tem havido, em termos gerais, uma condenação da posição de Israel relativamente ao Líbano e relativamente ao Hezbollah, em particular. E nesse sentido, quer a França, que tem obviamente ali um papel importante, foi potência colonizadora, quer já vimos também os países europeus em geral, são certamente aliados no sentido do encontro da paz, no sentido de negociação para a paz. Mas não se negocia só com uma parte. Infelizmente, terá que haver também uma pressão muito grande, designadamente dos Estados Unidos, sobre Netanyahu, porque Netanyahu também vai estar na cimeira. E, portanto, espero que seja um momento em que se encontre uma solução. E também não é só esperar, eu tenho a sensação que há um esforço muito grande da parte de Israel nestes últimos dias, exatamente no sentido de garantir a tal segurança da zona tampão, como dizia o seu embaixador no Conselho de Segurança das Nações Unidas, na última reunião. Dá a impressão que estão a tentar criar melhores condições de segurança, ou seja, destruindo tudo o que está muito próximo da fronteira, designadamente da fronteira norte, para que, na sequência de um acordo de paz, já tenham efetuado algum trabalho que não foram fazendo desde 2006. Desde 2006, há um crescendo de apoio do Irão ao Hezbollah, que chegou a ter 50 mil homens e mais de 150 mil rockets. E nós vemos que apesar destes ataques com esta mortandade, porque obviamente a maior parte destes mísseis e rockets são colocados nas casas, fazem das pessoas escudos, nas casas dos habitantes libaneses, obviamente que esse crescendo com o apoio do Irão tornou um Estado dentro do Estado. Isto é uma situação muito complicada também internamente pro próprio Líbano e isso certamente vai ser discutido a vários níveis, não só a componente militar, mas também a componente de governança do próprio Estado libanês, que é um caso único no mundo, tem umas características muito especiais na sua própria Constituição.

O presidente iraniano, major-general, falou também hoje sobre o escalar de tensões entre o Líbano e Israel. Prometeu que o Irão não iria abandonar o seu aliado, o Hezbollah, na luta contra Israel. Disse que o Hezbollah não pode ficar sozinho numa luta contra um país que é defendido, apoiado e abastecido por países ocidentais. Quão perto está o Irão de entrar de forma mais clara neste conflito?

E o Hezbollah é apoiado, abastecido e financiado pelo Irão. É a resposta à sua crítica. Obviamente que se Israel não fosse apoiado pelo Ocidente, estava completamente destruído neste momento. As pessoas não têm noção disso, mas a maior antiaérea, a melhor antiaérea, a mais eficaz do mundo, é a israelita. Qualquer país europeu, inclusivamente uma França, ou um Reino Unido, ou uma Alemanha, não tem a capacidade de proteção antiaérea a muito baixa altitude que tem Israel. Já teria certamente o seu território, parte dele, até que são só 22 mil km quadrados, destruído. De qualquer maneira, agora voltando à questão que me colocou, o Irão, obviamente que apoia deliberadamente o Hezbollah e cria problemas internos ao próprio Líbano. O Irão, mesmo assim, se me permite esta visão pessoal, mesmo assim, na pessoa do novo presidente, tem tido um discurso muito mais pacífico, direi. Ou seja, tem buscado a paz É um discurso muito diferente do anterior presidente, independentemente da pressão do líder supremo e pressões internas, mas é um discurso mais cuidado no sentido da busca da paz e, sobretudo, um discurso explícito no sentido em que não quer escalar a guerra, tal como também os próprios Estados Unidos o têm feito. Nem sempre da melhor maneira, porque para fazer é preciso também haver ações concretas, designadamente de criar pressões sobre este governo israelita, não é sobre Israel, nem sobre os israelitas, é sobre este governo em determinadas situações, designadamente pressões em termos de apoio militar perante determinadas situações, a partir de determinada altura, como dizia, Kamala tem direito à defesa, mas relativamente às ações consequentes, obviamente que não concorda e obviamente que qualquer pessoa que veja a evolução da situação, designadamente em Gaza, que é uma situação diferente. Obviamente que tem um posicionamento, sobretudo na busca imediata da paz, de negociações e de crítica relativamente a determinado tipo de comportamentos das forças de defesa de Israel, independentemente de ter direito à sua defesa. E portanto, aqui, em resposta à sua questão, eu julgo que há no discurso um sentido de desescalada, no discurso ganhar autoridade e alguma legitimidade para, agora também na Assembleia Geral das Nações Unidas, fazer um discurso de maior crítica relativamente a Israel e de pedir apoio da comunidade internacional para a busca de um acordo de paz, porque o acordo de paz sobre Gaza, sobre a governança de Gaza e da Cisjordânia, tem consequências imediatas relativamente à questão do Irão.

Deixe-me também perguntar-lhe sobre outra das várias guerras em curso neste momento, a guerra na Ucrânia. O convite de adesão à NATO será um dos pontos que pertence ao plano de vitória delineado por Volodymyr Zelensky. Foi uma informação confirmada hoje pelo chefe do gabinete do presidente ucraniano, Andriy Yermak. O que eu lhe pergunto, major-general, é se a Rússia, que já disse que iria avaliar e ponderar este plano de vitória que Zelensky vai apresentar ainda ao presidente norte-americano e aos dois candidatos à Casa Branca, mas eu pergunto se a Rússia pode aceitar um plano que se baseie neste ponto, no convite da adesão da Ucrânia à NATO.

Não, não vai aceitar, certamente. Já vimos que nem é preciso Putin pronunciar-se, bastou falar Peskov e a Maria, se não me engano, Zakharova, os dois já responderam às questões. No caso do Peskov, se não me engano, disse que não ia haver paz, a não ser que Vladimir Putin atinja os seus objetivos, mas pronto, isso faz parte do processo do invasor. E a Zakharova inclusivamente falou que não participariam na cimeira de paz da Ucrânia no final deste ano. Portanto para a Rússia, este é um dos pontos que não vai aceitar nunca, que é a situação da Ucrânia se juntar à OTAN. Isto vai servir, certamente, como ponto negocial. É muito importante, a paz há de chegar, e julgo que nesse acordo que vai haver com a intermediação certamente dos Estados Unidos, da China e de outros países, este vai ser um momento. Portanto, no caso da Ucrânia, o pressionar no sentido de haver esta junção à OTAN pode trazer dividendos em termos territoriais, ou seja, pode abdicar da entrada na OTAN em troca de cedências territoriais ocupadas pela Rússia neste momento. Depois, a questão da União Europeia será uma questão diferente. Não é tão complicada para o Kremlin em termos de negociações, mas vai fazer parte do processo. Nós já tínhamos informação da Bloomberg há três ou quatro dias, foi confirmado agora se não me engano pelo chefe de gabinete do Zelensky, que isto já ia incluir o processo. E o processo do tal plano de vitória, obviamente continua a ter um compromisso dos Estados Unidos para fornecer armas e que tipo de armas que permitam bater a Rússia na área da retaguarda. E portanto, não sabemos o plano todo, mas isto certamente fará parte. Agora, o processo de paz, obviamente, envolve cedências das duas partes. E se este plano tiver algumas situações que depois possam ser negociáveis em troca de território, porque isso é mais importante para a Ucrânia, a integridade territorial, certamente que abdicará no futuro uma situação destas a bem da paz regional e mundial, certamente.

Para Moscovo, a guerra na Ucrânia só irá terminar assim que os objetivos forem cumpridos. Foi o que garantiu hoje Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin. O que eu pergunto é se os objetivos estarão a mudar. Por exemplo, também hoje o presidente da Chéquia disse prever uma ocupação temporária russa de alguns territórios ucranianos, cerca de 27% do território de toda a Ucrânia, que poderá permanecer russo, não para sempre, mas durante alguns anos. Qual é que é, neste momento, já alguns anos depois do início desta guerra, o cenário mais realista para o final? Moscovo vai abdicar de alguns objetivos?

É uma questão muito interessante. Eu no livro que escrevi com o professor António Tello, chamei a atenção exatamente daquilo que o João Gama dizia agora, dos sucessivos objetivos que vão sendo reajustados em conformidade com a situação. E Putin usa isso como arma. Inicialmente, obviamente, os objetivos era proteger as populações, como nós sabemos, do Donbass, garantir a Crimeia, que nem era discutível, mas fundamentalmente era isso. Só que depois ocupou quatro oblasts, que não estavam nos objetivos. E se a Ucrânia permitisse, ocupava toda a Ucrânia. Portanto, os objetivos da parte de Putin vão sendo alterados em função da situação E não abdica depois deles. E obviamente que ele também está a ganhar poder negocial no teatro de operações, na guerra, até porque há uma discrepância enorme entre as Forças Armadas da Rússia e as Forças Armadas ucranianas, que têm o apoio do Ocidente, mas também um apoio condicionado. Temos aqui uma guerra em que uma das partes não pode usar determinado tipo de armas e é logo uma guerra complicada para a Ucrânia. Nesse sentido, julgo que a questão territorial vai ser fundamental, mas há de haver da parte de Putin, na minha perspectiva, quando estamos a falar em cedências, não vai ceder na Crimeia nem vai ceder no Donbass. Pode ceder depois nos outros dois oblasts, Kherson e Zaporizhia, mas aqueles dois não vai ceder, certamente. Que no fundo são três. Vamos ver. Agora, concordo consigo, os objetivos vão sendo reajustados em função da situação no terreno, mas também em função da situação internacional. Vai depender do dia 5 de novembro, as eleições norte-americanas vão mudar também os objetivos, certamente. Se for o presidente Trump o eleito, certamente que os objetivos serão outros. Se for Kamala, serão necessariamente mais ou menos aqueles que têm este momento.

E como é que estas duas guerras, Major-General, uma na Ucrânia e outra no Médio Oriente, podem contaminar ou influenciar o registo da reunião da ONU que está a acontecer em Nova Iorque. Vão ser dois temas incontornáveis? O que é que se pode esperar dos discursos dos vários chefes de Estado e chefes de governo, a propósito destas duas guerras durante o dia de hoje e até ao final da semana, enquanto esta reunião da Assembleia Geral da ONU vai acontecer?

Esta assembleia tem uma característica: trabalhou estes dois últimos dias aquilo que são a Cimeira do Futuro. Trabalhou determinado tipo de objetivos que são importantes para o futuro, não só os objetivos do desenvolvimento sustentável, não só os compromissos do Acordo de Paris, que têm a ver com as mudanças climáticas, mas abordou também questões relacionadas com a raiz dos conflitos, em particular com estes dois, mas em termos teóricos, e com aquilo que era o acelerar dos compromissos sobre direitos humanos. Aqui foi, sobretudo, o direito das mulheres. Incluiu dois anexos, o Impacto Digital Global e aquilo que tem a ver com a regulamentação da inteligência artificial e aquilo que foi a declaração sobre gerações futuras. Curiosamente, e como disse António Guterres, e muito bem, e ficou muito satisfeito com os resultados, porque teve a aprovação de todos os 193, com exceção de sete países altamente democráticos: Rússia, Irão, Coreia do Norte, Bielorrússia, Síria e Nicarágua. Ou seja, isto é mais um indicador de que estes países, liderados pela Rússia, obviamente não querem o multilateralismo, não querem certamente respeitar aquilo que está na Carta das Nações Unidas. E isso foi uma boa clivagem para aquilo que vem agora nas discussões na Assembleia Geral, nas discussões que obviamente não são resoluções, são discursos, como dizia o João Gama e muito bem, mas são discursos que depois da Cimeira do Futuro, colocam a Rússia numa situação muito mais frágil do que estava antes. A Rússia podia ter se afastado claramente de uma posição inicial relativamente a determinadas questões, que tinha a ver com a posse dos territórios e obviamente trabalhou como potência ocupante e não como uma potência que deveria respeitar a Carta das Nações Unidas. Os outros países afastaram-se e ficou isolada com estes países altamente democráticos, como eu disse há pouco. E isso vai ser penalizador. Vai ser penalizador nos discursos, mas também não resolve nada, porque a Rússia é uma potência nuclear, é uma potência que tem uma grande capacidade a vários níveis, é uma espécie de superpotência, não na sua atualidade hoje em dia, mas caminhando nesse sentido e vai continuar a ter o seu discurso, a sua narrativa, independentemente de não ter apoio na Assembleia Geral. De qualquer maneira, é uma oportunidade única da comunidade internacional de pressionar mais uma vez a Rússia, independentemente de Putin não estar presente. Vai estar o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, bem conhecido da casa, já foi embaixador das Nações Unidas, mas sinceramente acho que fica mais frágil depois desta Cimeira do Futuro.

Agradeço ao Major-General João Vieira Borges, esteve conosco a antecipar a reunião da Assembleia Geral da ONU, mas também a analisar o que se passa no terreno, quer na Ucrânia, quer no Médio Oriente. Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco na "Rádio Observador". O "Gabinete de Guerra" volta já amanhã.